Laços Inquebráveis
9 Capítulo 09 — Apenas Outro Dia
Rosalie trabalhava na criação de um vaso de flores-do-campo, afastada do balcão de atendimento, tendo uma mesa redonda como apoio. Uma cor roxa marcava o seu pulso esquerdo agora. A sineta anunciou a saída de um cliente e, logo, outro entrou.
Kate, a irmã mais velha, acabou de chegar à loja. Ela cumprimentou Roxie, no balcão de atendimento. A moça, de mechas azuis nos cabelos escuros, sinalizou com a mão o local onde a patroa iria encontrar-se. Kate agradeceu, ao se dirigir ao lugar indicado.
— Está tudo bem? — tentou, detrás das costas da irmã.
Rosalie teve um sobressalto à sua aproximação.
Kate tocou o braço dela gentilmente.
— Me desculpe. Não era minha intenção te assustar.
— Não se preocupe. — Permaneceu mexendo nas flores. — Estou bem.
— Um pouco distraída — avaliou Kate. — Me conte, o que aconteceu? Como foi quando Emmett chegou? Como estão as meninas? E, o mais importante, como vocês estão agora com todas essas mudanças acontecendo?
Rosalie deixou as flores de lado, olhando no rosto da irmã por um instante.
— Tumultuado — disse, por fim. A expressão de desânimo preocupou a irmã.
— Sinto muito. — Kate a acolheu em um abraço. — É um momento difícil. Mas você é forte, venceu coisa pior. — Segurou o rosto da irmã entre as mãos. Ela parecia a ponto de chorar. — Ei, não faça isso — disse. — Não vai chorar. Rose? Olhe para mim.
Rosalie soltou um muxoxo em resposta.
— As crianças me odeiam — lamentou.
— Como assim, as crianças te odeiam? Elas acabaram de chegar.
— Pelo menos a mais velha, sei que me odeia.
— Impossível.
Rosalie a olhou com expressão séria.
— A menina gritou na minha cara. Não é como se fosse um segredo. Ela escancarou.
— Me conte mais.
— Makena, é como uma explosão. Ela tem manifestações súbitas de raiva, atingindo quem está ao seu redor, sem se importar. Luna… — Os olhos demostraram doçura ao se referir à criança mais nova. — Ela é como um rio silencioso, está sempre quietinha, não dá para saber o que se passa na cabeça dela. Se esconde quando menos se espera, é como desejasse se tornar invisível. Não fala desde que soube das mortes da mãe e do avô. Makena, ela quer culpar a todos. Além do fato de terem enchido a cabeça dela com histórias inverídicas.
Kate balançou a cabeça, considerando.
— Entendo.
— Ela decidiu que não gosta de mim. E é isso.
— É muito cedo para se dar por vencida.
— Diz isso porque não a viu. Ela chegou decidida a tornar as coisas difíceis. Posso estar exagerando, mas tenho quase certeza de que enfiou na cabeça de Luna algo ruim a meu respeito.
— O que te faz pensar assim?
— Luna não teve medo de mim no primeiro momento. Foi depois de algumas horas, coincidentemente, após as duas ficarem sozinhas no quarto, que começou a me evitar.
— Se Makena fez isso, realmente é uma menina difícil. — Voltou a tocar o rosto de Rosalie. — Não desista. Vencerá essa pequena fera, e não será com armas ou gritos. Conheço a irmã que tenho. Mais cedo ou mais tarde, Makena vai se render.
— Queria um pouco de seu otimismo agora.
— Oh, meu amor. — Segurou nas mãos da irmã. — Me diga, como estão as coisas entre você e Emmett?
— Bem, eu acho. Não tivemos muito tempo para sentar e conversar, só nós dois. — Ela olhou para o lado, um sorriso alcançou o canto dos lábios, e as bochechas adquiriram um leve tom rosado. — Só um momento fugaz, no escritório, enquanto as meninas dormiam, ainda no início da manhã.
Kate balançou a cabeça, sorrindo.
— Disso, eu entendo. — Olhando a irmã, completou: — Tenho uma criança em casa, então, quando dorme, o pai dela e eu temos nosso momento.
Rosalie anuiu e continuou falando:
— Emmett passou a noite cuidando das meninas. A mais nova levou muito tempo para pegar no sono, chorou quase toda a noite. Durante o café da manhã, estava preocupado de que as meninas se alimentassem. No jantar da noite anterior, Makena criou caso. O motivo? Minha presença. Para falar a verdade, nem sei se ela jantou.
Kate afagou o rosto da irmã.
— Onde elas estão agora?
— Com Emmett.
— Estão em casa?
Rosalie negou ao mover a cabeça.
— Ele precisou ir à imobiliária mais cedo. Iria à escola depois disso, resolver a questão da transferência de Makena. Acredito que devem estar por lá nesse momento.
— Ele não pensou em deixar as meninas com você?
— Nem mesmo tentou. É claro que Makena não aceitaria. E, bem, ela teria de ir visitar a escola, de toda maneira. Eu teria ficado com Luna, se tivesse me pedido. Seria mais fácil resolver tudo, levando uma criança apenas.
Kate concordou com um leve movimentar de cabeça.
— Diante tudo isso, talvez devêssemos esperar um pouco para conhecê-las. Alyson está empolgada para conhecer as meninas. Sempre que possível, pergunta o momento.
Rosalie ponderou.
— Pode ser bom para as meninas conhecer outras crianças agora. Tirará o foco da tragédia por alguns instantes.
— Você decide — avaliou Kate. — Não vamos chegar tumultuando ainda mais as coisas. No melhor momento, nos avise.
— Pode deixar.
Kate avaliou, com o olhar, a marca roxa no pulso da irmã. Na sequência, voltou a segurar na mão dela.
— O que aconteceu aqui?
Rosalie olhou a marca. — É a terceira pessoa a me fazer essa pergunta hoje. A primeira foi Emmett, depois a Roxie. Devo ter batido enquanto mudava algumas coisas de lugar em casa. Não percebi quando aconteceu.
Kate soltou a mão dela, sem deixar de olhá-la.
— Tenha mais cuidado.
— Eu terei.
— Preciso voltar para a confeitaria. Me ligue, se precisar. Você sabe que pode contar comigo, não importa o que seja.
— Obrigada.
— Sabe se as meninas são alérgicas a algum tipo de alimento? Quero levar alguns doces quando for conhecê-las.
— Canela. A mais nova tem alergia à canela. Fiz a mesma pergunta, mesmo antes de elas chegarem.
— Certo. Não irei me esquecer.
Ao passar novamente por Roxie, na entrada da loja, fez um pedido:
— Fique de olho nela para mim, por favor. Me ligue se acontecer algo. Estou preocupada.
— Pode deixar.
[…]
Emmett acabou de sair da escola onde a filha mais velha iria estudar. Luna estava dormindo em seus braços, cansada demais da noite mal dormida. Makena caminhava ao lado dele, fazendo uma série de reclamações.
— É uma boa escola — dizia ele. — Você vai gostar.
— Não quero ir a uma escola nova. Já frequento uma.
— É impossível.
— Não é.
— Como não? Estamos muito longe.
— É só nos levar de volta à fazenda.
— Isso não é uma opção. — Ele parou ao lado do carro, abriu a porta traseira e acomodou Luna na cadeirinha. Fechou a porta, prestando atenção na mais velha. — O irmão mais novo de Rose, também a sobrinha, estuda nessa escola.
— Eu não ligo.
— Vamos! — pediu. — Entre no carro. — O irmão dela, Jonah, tem um ano a mais que você.
— Já disse que não ligo.
Emmett se aproximou. Ao tentar fazer carinho no rosto dela, Makena se apressou em entrar no carro.
— Pode, por favor, não…
A porta bateu, exatamente o que queria evitar. Luna acordou assustada. Ele entrou no carro e, antes de ligar o motor, se virou no assento para falar com a criança.
— Está tudo bem, docinho. — Tocou o tornozelo dela. — Papai está bem aqui. Pode voltar a dormir.
Luna voltou a ficar tranquila na cadeirinha. Ela puxou o coelho de pelúcia para o colo e o abraçou.
Para Makena, ele disse:
— Coloque o cinto de segurança.
— Para onde vamos agora?
— Onde você quer ir?
— Para a fazenda.
Ele soltou um suspiro cansado.
— Certo. Não deveria ter perguntado isso. — Voltou-se para frente, com as mãos ao volante. — Acho que sei aonde ir.
Instantes depois, estacionou ao lado de um parquinho. Retirou Luna do carro. Makena permaneceu de braços encruzados.
— Vamos! — pediu. — Faça isso por sua irmã.
— Não quero.
— Não vai levar mais que alguns minutos.
— Papai.
— Sim?
— Estamos de um lado para outro desde cedo. Estou cansada.
— Desculpe, querida.
Makena finalmente saiu do carro. Ela caminhou ao lado dele, enquanto ele carregava Luna nos braços. Diante dos brinquedos, colocou a pequena no chão.
— Vá brincar, docinho. — Ele mostrou com a mão. — Tem um escorrega logo ali. Estarei olhando você o tempo todo.
Luna olhou em volta, em seguida, chegou mais perto das pernas do pai.
— Ela não quer — Makena falou, desmotivada.
Emmett não se deu por vencido. Pegou Luna outra vez no colo e a levou para o balanço. Balançou uma vez, bem devagar, mesmo assim, ela chorou.
— Avisei — Makena voltou a dizer.
Ele pegou a menininha de volta.
Mesmo confortando a mais nova, viu quando Makena sentou no balanço, devagarinho, deu impulso com os pés e o balanço se movimentou. Ele se colocou atrás do balanço, com uma só mão, deu impulso para ir mais alto. Sorriu ao vê-la jogar a cabeça para trás, como fazia quando era menor.
— Mais alto, papai. Mais alto.
Emmett sorriu. Por um instante, sentiu como tivesse voltado no tempo, quando Makena ainda era doce e o amava com todo o coração. Beijou no rosto de Luna, sem deixar de balançar a mais velha.
O balanço foi parando de se movimentar pouco a pouco. Makena olhou para trás, por um momento, os olhos escuros transmitiam felicidade e amor. Emmett sorriu para ela. A menina voltou a olhar para frente, logo depois levantou-se. Ele ficou olhando-a ir para o escorrega.
— Você quer ir lá? — perguntou então a Luna. Ela deitou a cabeça no ombro dele, silenciosamente, negando. — Tudo bem — murmurou, afagando as costas dela.
Makena escalou o brinquedo até estar no alto. À sua direita, a entrada do tobogã. À esquerda, um caminho levava ao outro lado do brinquedo.
Emmett não a perdeu de vista.
Ela olhou o pai lá embaixo. Sentou-se na entrada do tobogã, estendendo as pernas. Num instante, estava descendo em voltas.
A expressão no rosto de Emmett suavizou ao vê-la chegar com os pés no chão, ficar de pé e correr para repetir tudo outra vez. Luna sinalizou com a mão pequenina e se remexeu no colo. Ele a deixou ir. Ficou olhando a pequena escalar o brinquedo com dificuldade, arrastando o coelho de pelúcia por uma das orelhas, indo atrás da irmã. Ele se preparou para receber Luna quando ela chegasse ao final do tobogã. Mas, as meninas pareciam não estar com pressa. Desviou a atenção um único momento, porém suficiente para perdê-las de vista.
No alto do brinquedo, Makena avistou uma jovem mulher acompanhando duas crianças, uma menina e um menino, ambos de cabelos castanhos e rostos sorridentes. Parou, pensando na própria mãe. Em todas às vezes que foi com ela e Luna ao parque. O vazio estranho e doloroso estava de volta ao seu coração, fazendo-a recuar e se esconder no túnel, abraçando aos próprios joelhos. Luna ficou olhando-a chorar, abraçando forte o coelho de pelúcia. À medida que o choro da irmã ficou intenso, a pequena foi se afastando.
Emmett andou em torno do brinquedo, chamando pelo nome das filhas. As risadinhas das outras duas crianças não o deixavam ouvir com clareza.
— Makena. Luna. — Ouviu o choro da mais velha. — Makena. Filha. — Ele olhou para cima, onde ela estava. — Você se machucou? Onde está sua irmã? Fale comigo, por favor. — Ele ignorou o fato de não ter idade ou peso para escalar o brinquedo. Encontrou Makena lá em cima, com a cabeça apoiada aos joelhos. Estendeu os braços para ela. Bateu no brinquedo com a mão, chamando a atenção para si. — Olhe para o papai, filha. O que aconteceu? Você se machucou? — Teve a sensação de alívio ao vê-la levantar a cabeça. O rosto molhado de lágrimas.
— Quero a mamãe de volta — implorou.
Ele voltou a estender o braço.
— Segure na minha mão.
Ela pareceu relutar.
— Segure na mão do papai, Makena. Por favor, meu bem.
Ela rastejou um pouco mais para frente, estendeu o braço até a mão estar na dele. Devagar, foi se aproximando, até que ele a tinha em seus braços. Emmett voltou a pisar os pés no chão.
— O que aconteceu lá em cima? Onde está Luna? — Beijou no alto da cabeça dela, ao colocá-la no chão. Manteve ambas as mãos nos braços da menina, voltando a fazer a pergunta: — Onde está sua irmã?
— Eu não sei.
— Por favor, querida, para onde Luna foi? Ela estava perto de você, eu vi.
— Eu não sei, papai. Não percebi quando se afastou.
Emmett olhou sobre a cabeça de Makena.
— Tudo bem. Vamos encontrá-la.
— Perdeu ela de novo.
— Não a perdi. Ela está aqui, em algum lugar. Não perdi sua irmã. — Segurou firme na mão de Makena e começou a se movimentar. — Luna.
— Papai, Luna não vai responder.
— Luna, amorzinho, se estiver ouvindo o papai, faz barulho como conseguir. Saberei que é você, filha.
— Está procurando a menininha de cabelos escuros e olhos azuis? — a voz feminina se dirigiu a ele. Emmett olhou na direção de onde vinha a voz.
— Onde você a viu?
— Ela desceu do outro lado, no escorrega menor.
— Obrigado. — Ele levou Makena pela mão, ambos caminhando apressados.
— Está tudo bem? — tentou a mulher.
— São minhas filhas. Só perdi a menor de vista. Estamos passando por um momento complicado em família.
— Sinto muito.
Ele anuiu, sem parar para conversar.
— Luna, faça barulho para o papai te encontrar.
Makena puxou o braço dele.
— Escute, papai.
Ele parou, escutando. Um pequeno ruído chamou a atenção para a casinha embaixo de um dos brinquedos.
O alívio fez seus lábios ameaçarem um sorriso. Eles foram encontrá-la.
Luna tinha uma pedra na mão, que usou para bater na casinha.
O pai e a irmã sorriram ao vê-la. A pequena deixou a pedrinha cair no chão.
Emmett ofereceu a mão para ela.
— Muito bem, você ajudou o papai a te encontrar. Venha, meu amor.
Ela caminhou devagarinho até a porta da casinha. Emmett a pegou no colo. Beijou seu rosto mais de uma vez, aliviado.
Momentos depois, parou o carro no estacionamento, na praia. Olhou as meninas no banco de trás.
— O que me dizem?
Makena deu de ombros.
— Apenas uma caminhada. Luna conhece o mar?
— Sim.
Ele reparou na menininha, olhando pela janela.
— Você quer ir lá?
Luna encostou a mão pequenina no vidro.
Ele voltou a olhar a mais velha.
— Pode fazer isso, por sua irmã? — Estendeu o braço, entre os bancos, para tocar o joelho de Makena. Como não disse nada, voltou-se para frente. — Vamos embora.
— Não. Vamos descer, papai — Makena avisou.
Emmett sorriu para ela, olhando no espelho retrovisor interno. Começou a sair do carro tranquilamente, em seguida, retirou Luna da cadeirinha. Aguardou Makena estar fora do carro para colocar Luna no chão. Segurando na mão pequenina da filha mais nova, os três caminharam até a faixa de areia. Sentaram-se olhando o horizonte. O sol estava entre nuvens e soprava uma brisa leve.
Luna quis retirar os calçados. Emmett sorriu ao ver o esforço dela. Ela o olhou, deixando os calçados na areia. A mão pequena se moveu na direção do mar.
— Pode ir, mas não muito longe.
— Vai perder ela de novo — Makena, lembrou. — Está ficando especialista nisso, papai.
— Claro que não. Ela só quer brincar um pouco na areia.
A menina deu de ombros.
Luna caminhou um pouco, sentou e, com as mãos pequeninas, começou a escavar a areia.
Emmett relanceou o olhar a filha mais velha por um instante.
— Quer me contar o que aconteceu no parque?
Makena respondeu, sem olhar para ele:
— Não.
— Tudo bem. — Ele olhou o horizonte; uma garça-branca pousou à beira-mar. Luna também a avistou. Ele falou com Makena: — É bom ter você por perto outra vez. Apesar de não querer que fosse dessa maneira. Que você e sua irmã não tivessem de passar tudo que estão passando. Jamais desejaria vê-las sofrer.
Makena olhou no rosto do pai, com olhos marejados.
— Quero ir para casa.
— Nós já vamos. — Ele olhou Luna. — Venha, filha, vamos voltar.
— Não para sua casa, com aquela mulher — observou Makena. — Estou falando de minha casa, na fazenda. De voltar para minha vida de antes.
Ele passou o braço em volta dos ombros dela.
— A casa também é sua agora.
— Não gosto daqui.
— Como pode saber, acabou de chegar.
Ela se esquivou do contato físico. Emmett se levantou.
— Vamos, Luna.
A pequena voltou para perto dele. Ele a pegou no colo. Tentou limpar os pezinhos na palma da mão, tirando o excesso de areia antes de pôr os calçados de volta. Percebeu Luna olhando o mar, enquanto se afastavam.
— Vi uma barraca de tacos perto daqui — comentou Makena. — Podemos ir até lá.
Ele pôs a mão na cabeça dela ao responder:
— Claro que sim. Podemos tomar sorvete também.
— Pode ser.
Olhou a pequena no colo.
— Quer sorvete, Luna?
Ela concordou, movendo a cabeça. E, com os dedos indicadores, cutucou as bochechas do pai. Emmett sorriu para ela.
[…]
Rosalie terminou de atender a um cliente. Percebeu o carro de Emmett chegando ao estacionamento da floricultura. Roxie se preparava para encerrar o expediente.
Rosalie viu o momento em que o marido saiu do carro, então foi para perto da porta para recebê-los.
Através do vidro da porta, percebeu Makena relutante em entrar na loja. Já Luna, essa, parecia não se importar com o destino a que o pai a levaria.
Aguardou com ansiedade o momento em que eles passariam pela porta. A sineta tocou. Emmett foi o primeiro a aparecer, com Luna no colo. Ele parou um instante, segurando a porta aberta para Makena passar.
Rosalie ficou mais tranquila ao vê-lo sorrir quando seus olhares se encontraram. Emmett se aproximou para beijar no canto de seus lábios. A pequena os olhou de perto.
— Oi, Luna! — Fez um afago na bochecha rosada da criança. Ela se encolheu ao seu gesto de carinho. Rosalie olhou, sem saber o que esperar, Makena logo atrás do pai. — Oi, Makena — a cumprimentou.
A expressão no rosto da menina foi de tédio. Ela começou a se movimentar pela loja, ignorando-a.
Emmett moveu a mão, mostrando a embalagem de comida que carregava.
Rosalie o olhou, se esforçando em parecer confortável.
— São tacos — disse ele. — Prefere comer aqui ou em casa?
— Em casa.
De onde estava, Makena os observou. O vaso de flores-do-campo tornou-se alvo de seu aborrecimento. Flores foram atiradas no chão.
Roxie se aproximou por detrás de suas costas.
— O que pensa que está fazendo, garotinha?
Makena mantinha um punhado de pétalas nas mãos ao olhar para ela.
— Não enche o saco — disparou.
— Alguém já lhe disse ser muito abusada?
A menina inclinou o queixo ao chamar pelo pai.
— Papai.
— Quem é seu pai?
— Emmett McCarty.
— Oh, não. Não é possível. Coitada da minha chefe — murmurou. Com um falso sorriso, teve de dizer: — Fique à vontade, garotinha.
Como a desafiasse, Makena esmagou um punhado de flores na palma da mão.
Roxie falou com os lábios cerrados:
— Peste.
Makena atirou as pétalas esmagadas no chão e se afastou.
Roxie olhou Emmett e Rosalie ainda perto da porta. A menininha no colo do pai recebeu, das mãos dela, uma margarida. A criança segurou a flor com delicadeza ao admirá-la. Então, Rosalie se dirigiu a Makena, que acabou se aproximando outra vez.
— Qual sua flor favorita?
— Não gosto de flores.
— Por que não? Elas são tão bonitas.
Um suspiro impaciente antecedeu a resposta:
— Flores cheiram à morte. — Olhou no rosto do pai. — Quero ir embora daqui.
Emmett murmurou um pedido de desculpas à Rosalie.
Irritada, Makena elevou o tom de voz ao repetir:
— Quero ir embora daqui.
— Vamos esperar Rose fechar a loja. Não vai demorar.
— Não quero esperar — gritou.
— Não precisa gritar.
Luna encobriu os ouvidos com ambas as mãos. A margarida acabou caindo aos pés do pai.
— Está assustando sua irmã.
— Não quero ter de esperar — tornou a levantar a voz. — Esse cheiro, eu detesto.
Luna se remexeu no colo do pai, mostrando que queria descer. Emmett a colocou no chão. Ela correu para se esconder.
— Muito bem — disse Emmett. — Esperaremos lá fora, só preciso encontrar sua irmã antes.
Rosalie tocou sutilmente o braço dele.
— Pode deixar, eu a encontro.
Makena soltou o ar com irritabilidade.
— Não chegue perto de minha irmã.
— Pare com isso, Makena. Rose não vai machucar sua irmã.
— Mamãe não iria querer.
Emmett a segurou pela mão, mesmo ela não aceitando, e a levou para fora da loja imediatamente.
Makena gritou sobre os ombros:
— Não toque nela. Não se atreva.
Roxie voltou a se aproximar.
— Meu Deus! — espantou-se. — Que garotinha terrível.
Rosalie tinha o olhar de desânimo ao olhar ao redor, buscando a criança que correu para se esconder.
— A pequenininha — disse Roxie —, ela foi para lá. — Mostrou o balcão de atendimento.
Apressada, Rosalie foi até o outro lado. Luna estava encolhida num canto, bem ao lado do gaveteiro.
— Oi, Luna.
A menininha se encolheu ainda mais ao perceber que havia sido encontrada.
— Você não precisa ter medo de mim. — Chegou mais perto. — Não vou te machucar. Jamais faria isso.
Luna a olhou de canto de olho.
Rosalie se abaixou até estar com os joelhos no chão.
— Gostaria de ser sua amiga. Quero ajudar o seu papai a cuidar de vocês. — Fez uma pausa. E, antes de voltar a falar, estendeu a mão: — Não quer vir comigo?
Luna negou ao balançar a cabeça devagar.
Rosalie sentou-se no chão, diante dela. Num tom de voz brando, começou a cantar a música infantil “Dona Aranha”.
— A dona aranha subiu pela parede. Veio a chuva forte e a derrubou. Já passou a chuva e o sol já vai surgindo e a dona aranha continua a subir…
Luna voltou olhá-la de esguelha.
Roxie sorriu ao ver Luna chegar mais perto, sem mesmo se levantar.
Rosalie insistiu em oferecer a mão. Luna pareceu hesitante. Continuou cantando e, pouco a pouco, a criança foi chegando perto. Rosalie sorriu no momento em que a mão pequenina descansou na sua. Fechou ambas as mãos em volta da mão pequena, em seguida, beijou os dedinhos. Os olhos de Luna capturaram a marca roxa no pulso dela.
Finalmente, Luna ficou de pé. Rosalie se levantou e a pegou no colo. Com a menina ainda desconfiada, caminhou para o outro lado do balcão. Recuperou a margarida no chão e devolveu à Luna, que segurou a flor delicadamente e deu beijinho nas pétalas.
— Roxie, você fecha a loja para mim?
— Não se preocupe. — Roxie moveu a cabeça com compreensão. — Vá tranquila. — E, para Luna, falou: — Tchau, pequena. Até outro dia.
Rosalie se encaminhou, com Luna nos braços, rumo à porta. A pequena olhou em seu rosto, a mão pequenina tocou a marca roxa no braço dela.
— Não foi nada — tentou tranquilizá-la.
Em frente à loja, Emmett se esforçou em controlar a filha mais velha, que não se conformou em deixar a irmã lá dentro aos cuidados de alguém a quem ela não confiava.
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