Laços

1 Encontro



Para um pequeno garoto de cinco anos, caminhar ao lado do Senhor das Terras do Oeste exigia um esforço constante. Sesshoumaru precisava dar três passos rápidos para acompanhar cada uma das passadas largas de seu pai, mas mantinha a cabeça erguida, recusando-se a parecer cansado.


O ar do jardim imperial trazia o cheiro de grama molhada e o som distante das cachoeiras do palácio.


Quando o grande Inu-Yokai finalmente parou e se ajoelhou na relva, Sesshoumaru imitou o gesto, tentando manter a postura nobre que lhe ensinavam todos os dias. Foi então que viu o pequeno volume escondido nos braços do pai.


O filhote mal podia ser chamado de dragão.


Cabia confortavelmente nas mãos de um adulto. Seu corpo ainda era desajeitado, as patas pareciam grandes demais para sustentá-lo e as duas cabeças se cutucavam de tempos em tempos, curiosas e confusas com tudo ao redor.


Inu no Taisho colocou a criatura sobre a grama. As patas vacilaram por um instante, mas o dragãozinho logo encontrou o equilíbrio, erguendo os dois pescoços para encarar o pequeno inu-yokai diante dele.


— Este é Ah-Un. A partir de hoje, ele será seu companheiro. Você cuidará dele... e, quando chegar o momento, ele cuidará de você.


Sesshoumaru permaneceu em silêncio. Entusiasmado com a ideia de ter algo sob seu comando, deu um passo à frente e estendeu a mão sem nenhuma delicadeza infantil. O gesto, rápido e bruto demais, assustou Ah-Un que, por instinto, abocanhou o dedo do menino.


Mal tinha dentes. A mordida não machucou de verdade, mas foi suficiente para fazer Sesshoumaru arregalar os olhos. O susto veio antes da dor.


Os pequenos lábios tremeram e os olhos dourados se encheram de água antes que ele começasse a chorar — mais ressentido com a afronta do que propriamente ferido.


O pai o pegou no colo com naturalidade, segurando o riso.


— Não foi por mal.


Um pouco mais afastada, observando a cena sob a sombra de uma cerejeira, a mãe de Sesshoumaru abriu discretamente o leque de seda.


— Que começo promissor — a voz dela soou com um divertimento gélido. — Seu herdeiro foi derrotado por um filhote indefeso antes do pôr do sol.


Sesshoumaru franziu a testa entre uma fungada e outra, ajeitando o quimono e encarando a mãe com o orgulho ferido.


O pai apenas sorriu para a esposa antes de voltar a atenção ao filho.


— Ah-Un também ficou assustado. Veja.


O menino olhou.


As duas cabeças do dragão haviam se abaixado. Uma delas se escondia parcialmente atrás da outra enquanto ambas observavam Sesshoumaru com a mesma cautela de antes.


O grande general estendeu a própria mão, mas não tentou tocá-lo de imediato. Esperou. Depois de alguns instantes, Ah-Un aproximou uma das cabeças para farejar seus dedos. Só então recebeu um afago no alto da cabeça.


— Um verdadeiro líder não exige respeito pela força bruta, Sesshoumaru. Faça devagar.


Ainda enxugando os olhos com a manga do quimono, o pequeno príncipe tornou a estender a mão. Dessa vez, moveu-se lentamente.


Ah-Un permaneceu imóvel.


Os dedos do menino tocaram as escamas brilhantes da cabeça com cuidado. O filhote inclinou levemente o pescoço, aceitando o afago.


Um brilho de empolgação passou pelos olhos do príncipe.


—


Naquela tarde, o pequeno dragão não se afastou muito de Sesshoumaru.


Ainda mantinha certa distância, aproximando-se apenas o suficiente para observá-lo. Às vezes o menino dava alguns passos, e Ah-Un o seguia. Em outras, era o filhote quem se distraía farejando alguma flor, apenas para correr logo depois até alcançá-lo novamente.


O sol já havia desaparecido quando uma criada levou Ah-Un até um pequeno espaço preparado para ele nos jardins internos do palácio. Havia uma manta espessa sobre o chão de madeira, uma tigela com água fresca e outra com carne cortada em pequenos pedaços.


— Aqui será sua cama.


O filhote apenas a observou. Esperou até que ela fosse embora. As duas cabeças cheiraram a manta, depois a água e, por fim, a carne. Comeu um pouco, mas sem entusiasmo.


O lugar era silencioso demais. Não havia o cheiro da mãe. Nem dos irmãos. Nem do pequeno inu-yokai que passara a tarde ao seu lado.


As duas cabeças se encostaram uma na outra enquanto o pequeno dragão permanecia atento a cada ruído desconhecido.


Do outro lado do palácio, Sesshoumaru permanecia sentado sobre o futon enquanto uma criada organizava o quarto.


— O jovem senhor deveria descansar.


Ele não respondeu.


Quando a mulher se retirou, seus olhos percorreram o cômodo. Tudo estava exatamente como sempre estivera. Ainda assim, parecia faltar alguma coisa.


Levantou-se e caminhou pelos corredores até os jardins internos. Encontrou Ah-Un exatamente onde havia sido deixado. O filhote ergueu as duas cabeças ao reconhecê-lo e se colocou de pé imediatamente.


Sesshoumaru ficou alguns instantes olhando para ele.


Então virou-se.


— Venha.


Ah-Un inclinou as cabeças sem entender. O pequeno inu-yokai já havia dado alguns passos quando percebeu que o dragão permanecia parado. Voltou apenas o rosto.


— Venha.


Dessa vez Ah-Un o seguiu.


Os criados observaram, surpresos, o pequeno dragão atravessar os corredores do palácio atrás do jovem herdeiro.


— Jovem senhor... talvez fosse melhor que ele dormisse nos jardins...


Sesshoumaru continuou caminhando.


— Ah-Un vai dormir comigo.


Ninguém insistiu.


Ao entrar no quarto, o filhote passou um bom tempo explorando o ambiente. Farejou o futon, as cortinas, a mesa baixa junto à janela e os tapetes. Só depois voltou sua atenção para Sesshoumaru.


Aproximou uma das cabeças lentamente e inspirou o cheiro do menino. A outra repetiu o gesto logo em seguida. Sesshoumaru permaneceu imóvel, permitindo que fosse examinado. Apenas quando terminou de reconhecê-lo pelo cheiro, Ah-Un pareceu relaxar.


Deitou-se perto da porta.


Sesshoumaru apagou a lamparina e se acomodou no futon, dormindo logo em seguida.


O filhote, porém, demorou a pegar no sono. Qualquer rangido da madeira fazia as duas cabeças se erguerem. O vento balançando as árvores do jardim. Um galho raspando no telhado. Passos distantes de algum guarda durante a troca de vigia.


Tudo era novo.


Em determinado momento, voltou a olhar para o menino adormecido.


Levantou-se devagar, aproximou-se do futon e tornou a sentir seu cheiro. Era o mesmo aroma tranquilo que conhecera durante o dia.


Familiar.


Sem fazer barulho, deitou-se ao lado da cama.


Quando o sol nasceu, uma criada abriu a porta para despertar o jovem senhor. Esperava encontrar o dragão onde havia deitado na noite anterior.


Em vez disso, Ah-Un dormia encolhido ao lado do futon. Uma das cabeças descansava apoiada na beirada da cama, enquanto a mão de Sesshoumaru permanecia sobre seu pescoço, como se tivesse parado ali durante a madrugada.


A criada sorriu discretamente antes de fechar a porta outra vez.


Não havia motivo para acordá-los.


---


Os dias transformaram a desconfiança em costume.


Ah-Un continuava mordiscando os dedos de Sesshoumaru de vez em quando, mas agora aquilo fazia parte de um jogo silencioso entre os dois. O pequeno inu-yokai já aprendera a afastar a mão no segundo exato antes que o filhote fechasse a boca, arrancando um resmungo irritado da cabeça da esquerda e um olhar quase divertido da direita.


Logo já não era preciso chamá-lo. Bastava o pequeno inu-yokai deixar seus aposentos para que duas cabeças curiosas surgissem logo atrás, acompanhando-o pelos corredores do palácio.


Nos jardins, Sesshoumaru costumava praticar a agilidade que seus tutores lhe exigiam. Ele corria entre os bambus e saltava sobre as pedras ornamentais do lago, e Ah-Un disparava atrás dele com todo o entusiasmo que suas patas ainda desajeitadas permitiam.


O menino carregava com ele uma pequena bola de couro e a lançava para longe entre a vegetação.


A disputa entre as duas cabeças era inevitável. Quase sempre a cabeça da esquerda avançava primeiro, abocanhando o brinquedo com ferocidade, apenas para descobrir que a da direita queria tomar a posse para entregar ao jovem senhor. As duas rosnavam baixinho uma para a outra, puxando em direções opostas enquanto o corpo pequeno do dragão se contorcia na relva.


Sesshoumaru nunca interferia. Observava de cima de uma rocha, os braços cruzados nas mangas do quimono, mantendo a postura ereta que o pai lhe ensinara. Esperava pacientemente até que uma das cabeças cedesse. Quando finalmente o filhote trazia a bolsa e o depositava aos seus pés, Sesshoumaru tocava o topo de ambos os pescoços antes de lançar o objeto mais uma vez.


O tempo passou quase sem que percebessem.


As patas de Ah-Un tornaram-se mais firmes. Seu corpo alongou-se um pouco e os tropeços de filhote começaram a desaparecer. Foi durante uma dessas sessões de caça no jardim que aconteceu.


Sesshoumaru lançou a bola um pouco mais longe do que pretendia, fazendo-o passar por cima da balaustrada de pedra que delimitava o jardim superior e despencar em direção à encosta da colina.


Ah-Un não hesitou. Correu com toda a velocidade que suas patas já firmes permitiam e saltou para vencer o desnível do jardim.


Mas, em vez de voltar ao chão…


O impacto da queda simplesmente não veio.


O corpo do pequeno dragão permaneceu suspenso no ar por um segundo. Depois por outro.


Como se o vento da montanha o tivesse acolhido nas palmas das mãos.


Ah-Un arregalou os olhos. As duas cabeças viraram-se para baixo ao mesmo tempo, encarando a copa das árvores e as pedras do lago que ficavam cada vez mais distantes. Tomado pela confusão, o filhote tentou "correr" no vazio, movendo as quatro patas de forma afobada e desajeitada no meio do nada. A falta de firmeza fez o seu corpo virar de lado, e ele acabou despencando de barriga para cima sobre o canteiro de camélias do jardim inferior.


Levantou-se num pulo, chacoalhando a terra do peito.


Olhou para o chão.


Olhou para as próprias patas.


Depois ergueu os dois pescoços para encarar Sesshoumaru, lá no alto do jardim, como se perguntasse se aquele feitiço estranho realmente havia acontecido.


Do alto da colina, Sesshoumaru permaneceu imóvel. Os olhos dourados estavam arregalados, refletindo um espanto genuíno que raramente aparecia em seu rosto.


O pequeno príncipe desceu os degraus de pedra sem pressa, mantendo a postura ereta, embora seus passos ligeiramente mais rápidos do que o normal demonstrassem sua empolgação.


Ajoelhou-se na grama ao lado do filhote e estendeu a mão, afagando a cabeça da direita que ainda parecia tonta.


— Faça de novo — pediu o menino, a voz baixa carregada de uma curiosidade compenetrada.


Ah-Un sacudiu as orelhas. O incentivo do pequeno senhor foi o suficiente para acender a coragem no peito da criatura. O filhote deu meia-volta, correu alguns metros pela grama e saltou outra vez.


Desta vez, ele não tentou "correr" no ar. Instintivamente, o dragãozinho esticou o corpo e deixou que a aura mágica que fluía em seu sangue encontrasse o ritmo do vento. Ele subiu. Uma curva desajeitada para a esquerda, um rasante rápido perto do tronco da grande cerejeira, e então o voo estabilizou-se a dois metros do chão.


No alto, a cabeça da esquerda alcançou finalmente a bola que havia sido quase esquecida.


Quando as patas de Ah-Un tocaram a relva novamente, ele correu até Sesshoumaru e soltou o brinquedo aos pés do menino. As duas cabeças se ergueram juntas, soltando um pequeno sopro morno de ar, os olhos brilhando à espera de aprovação.


Sesshoumaru recolheu o objeto.


Olhou para o dragão.


E então, sem que percebesse, um sorriso pequeno e sincero despontou nos lábios do jovem príncipe.