Laços
5 Capítulo 5
– Não. Eu vi eles dois juntos. Não foi ninguém que me contou... Estou preocupada.
Molly encostava-se na parede que separava a cozinha da sala e ouvia seus pais conversando sentados à mesa. Eles falavam sobre ela.
– Ela já tem 11 anos, Louise. Dê algum crédito.
– Você sabe de quem estou falando, Bill? Ela se tornou amiga daquele garoto que tem uma história duvidosa. Conversei com Alice e faz quase um ano que as duas não se falam! Onde você acha que Molly esteve quando dizia ir para a casa de Alice?
Há um silêncio quando sua mãe diz isso. Molly desliza pela parede e senta-se no chão. Eles não sabem que ela já voltou do colégio, não estão esperando por ela. Lágrimas começam a se formar em seus olhos e ela sabe que está muito, muito encrencada.
– Sim, você tem razão. Nós precisaremos conversar com ela, principalmente por causa das mentiras. Mas... Você acha que é uma boa ideia tentar afastá-la do rapaz? Acho que quanto mais nós falarmos, mais ela vai fazer tudo escondido e piorar a situação. Você sabe como Molly é teimosa. Talvez, se deixarmos manter a amizade, as coisas esfriem e ela acabe se afastando sozinha.
A Sra. Hooper olha em dúvida para o marido, refletindo que ele pode ter certa razão no que diz.
– Tudo bem. Falarei com Molly quando ela chegar.
– Faça isso, se precisar de mim também posso falar com ela. Mas acho que ela se sentirá melhor falando com você. Chame o rapaz para vir até aqui.
– O que?!
– Louise, quanto mais próximos ficarmos desse garoto, menos interesse Molly terá nele. Você se esqueceu de como é ser adolescente e sentir prazer nas coisas proibidas?
– Molly é só uma criança.
– Não, ela não é mais uma criança.
Achando que já tinha ouvido o suficiente, Molly levantou-se e foi para o seu quarto em silêncio. Lavou o rosto para que a mãe não visse que ela estivera chorando quando fosse conversar com ela. Seu pai dera alguma esperança de que ela pudesse manter a amizade com Jim, mas ele estava enganado quanto a isso levar ao afastamento dos dois.
Não demorou muito para que a Sra. Hooper entrasse no quarto de Molly, surpresa por ela já estar em casa. Molly recebeu a maior bronca da sua vida até então por ter mentido e tentou contar sua versão da melhor forma que pode, omitindo apenas algumas partes. Tudo piorou quando sua mãe descobriu que ela se encontrava com James na casa de Summer, mas foi amenizado quando Molly a lembrou de como o senhor o salvara aquele dia e como estava cuidando dele da melhor forma que podia desde então. Inclusive, ele era bondoso com Molly e não a deixava andar sozinha pelas ruas. Ela escondeu a parte que pulava a janela e saia pela noite até a casa deles.
À contra gosto sua mãe por fim seguiu o conselho do seu pai e pediu que Molly trouxesse James até sua casa, desde que fosse após a uma semana de castigo que ela pagaria por mentir.
Semana essa em que Molly pulou muitas vezes a janela.
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Foi assim que Jim fora apresentado à família Hooper e passou a frequentar a casa deles, ainda que tímido no início. Aos poucos a Sra. Hooper relaxou com a presença dele, tendo que assumir que o garoto tinha um charme peculiar.
– Não, não, não. O último chocolate é meu! Tire a mão, Jim! — Molly dá um leve tapa na mão dele enquanto senta-se no sofá novamente.
– Molls, eu acabei de fazer aniversário e mereço o último chocolate.
– 15 anos não te dá direito a nada, Jim, largue o chocolate.
– Ok, sem chocolate, mas nós veremos um filme de terror. Não adianta revirar os olhos.
Já era tarde e os dois estavam na sala da casa de Molly preparando-se para ver um filme. Jim sabia que ela tinha medo de filmes de terror, mas de uns tempos para cá o agradava o fato de que quando assistiam a esses filmes ela sentava-se mais próxima dele, e foi só por isso que ele abriu mão do chocolate. Às vezes, quase sem querer, as mãos dele se encostavam e o rosto de Molly ficava vermelho como um tomate.
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– Ei, nerd. Onde está o esquisito do seu namorado? — Era Carl Perkins, que tinha um ano a mais que Jim e desde o ano anterior pegava no pé de Molly quase todos os dias quando Jim não estava com ela. Só porque estava no time de natação ele se achava superior a todos e pensava que podia fazer qualquer coisa, inclusive ter todas as garotas que quisesse. — Não vai falar comigo?
Um puxão fez com que Molly se virasse para ele sem equilíbrio.
– O que você está fazendo?
– Venha aqui, Molly, não se faça de difícil. Se você consegue ficar com aquele retardado do James, não vai ter dificuldades em ficar comigo.
Carl a puxou pelo braço e tentou beijá-la, ao que ela reagiu e tentou escapar. Ele era muito mais forte do que ela, não deixando espaço para que conseguisse lutar contra seus braços. Então, sem alternativas, Molly o mordeu. O revide veio tão rápido que ela mal viu quando a mão dele acertou seu rosto, fazendo-a cair no chão.
– Idiota. Você não passa de uma putinha escrota. Vá! Corra atrás do seu namorado! Vocês dois se merecem...
Molly queria ficar encolhida no chão para sempre. Toda a humilhação e medo que sentiu bloqueava seus músculos de uma forma que ela nunca poderia imaginar.
Foi só o pensamento de que tudo poderia ser pior caso alguém aparecesse que fez com que ela se levantasse com dificuldades e começasse a caminhar sem rumo.
Como estavam na mesma turma, eram raros os momentos em que Molly não estava com Jim. Nesse dia ele estava cumprindo uma detenção por responder grosseiramente a um professor, então ela estava indo até a biblioteca para esperá-lo. Mas agora ela andava sem saber para onde ir e foi com estranheza que Jim não a encontrou no local onde tinham combinado, procurando-a por todo o colégio. Sorriu aliviado quando a viu sentada embaixo de uma grande árvore.
– Até que enfim encontrei vo... O que aconteceu com seu rosto, Molly?
Ela não chorava mais, mas as marcas das lágrimas que escorreram recentemente ainda eram visíveis, principalmente em seus olhos vermelhos e inchados. Juntando isso com a mancha vermelha que começava a arroxear embaixo de um dos olhos da garota foi mais que suficiente para que o corpo de Jim começasse a tremer, ainda que ele se controlasse para não demonstrar. Ela podia ter só batido em algum lugar, não poderia? Soube que não assim que ela o encarou e lágrimas inundaram seus olhos novamente.
Jim ouviu com atenção quando ela contou o que aconteceu. Absorveu cada palavra, deixando que elas se assentassem em meio ao ódio que sentia crescer dentro de si.
– Espero que você tenha arrancado sangue dele. — O sorriso de Jim ao final da história confortou Molly, mas havia um brilho frio em seus olhos negros. — Vamos, Summer consegue dar um jeito no ferimento e podemos dizer para sua mãe que você caiu.
Alguns dias depois Carl Perkins seria encontrado morto por afogamento na piscina do colégio após um exaustivo treino para uma competição do colégio.
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