Laços
10 A culpa que devora
Notas iniciais
Alguns dias atrás, na Rota dos Perdidos
Sakura caminhava devagar, a cabeça confusa por tudo que tinha acontecido. Seguia, enfim, para a Vila da Areia com o fim de cumprir sua missão. Mas não conseguiria mais correr até lá. A dor provocada pela ausência de Sasuke ainda a matava. Mas havia esperança, afinal. Um dia, ele voltaria.
“Ele prometeu. Preciso confiar nas palavras dele. Se não... não vou conseguir.”, pensava.
Os olhos de Sakura pesavam com o cansaço emocional. Os pensamentos desnorteados dificultavam seu raciocínio. Mas agora sabia que aquilo doía nele também. Ela sabia que nas noites em que sofresse por causa dele, ele estaria sofrendo também.
Ele voltaria.
Continuou a andar sob a sombra das árvores, e até mesmo chegou a esboçar um sorriso. Ela agora tinha um motivo para sorrir de verdade, uma esperança, uma razão para continuar aguentando os dias e noites de saudade.
“Ele prometeu...”
***
Suigetsu olhava ao seu redor, mais desconfiado do que nunca. De onde estava, podia ver várias árvores despedaçadas. Analisando com mais atenção, percebia a grama amassada de forma estranha.
“Mas o que é que está acontecendo?”
Quando Sasuke chegou ao acampamento quebrando tudo, descontrolado, e evidentemente beirando à insanidade, ele desconfiou de que havia algo de muito errado. Primeiro, Karin havia dito que Sasuke tinha ido atrás de uma garota de Konoha com a intenção de mata-la. O Uchiha poderia ter mandado Juugo ou até mesmo o próprio Suigetsu para cuidar daquilo. Por que tinha ido pessoalmente? Por que havia demorado tanto? E, o mais curioso... o que aconteceu para que ele ficasse transtornado daquela maneira?
Foi com aqueles pensamentos na cabeça que decidiu seguir os rastros da tal garota. Não desconfiava de Sasuke. Era apenas para ter certeza de que tudo havia corrido bem, e ele finalizara o trabalho.
Aproximou-se um pouco mais do local, vendo fios de cabelos rosa e pretos. Logo depois, viu pegadas indo na direção oposta a do acampamento. Se Sasuke estava no acampamento, aquilo significava que a pessoa que estava com ele naquele lugar havia ido embora. A garota estava viva. Seus olhos se estreitaram.
“Tudo bem, agora eu estou desconfiando de você, Sasuke.”, pensou.
Começou a correr, seguindo aqueles rastros. Será que ela era forte, e Sasuke não havia conseguido derrota-la? Impossivel. Mas não importava. Ele daria um fim na garota, e tinha certeza de que Sasuke ficaria contente. Afinal, o Uchiha detestava todos de Konoha. Aquela garota deveria ser um incômodo para ele. Sasuke aprovaria a sua decisão.
Com essa certeza, ele apressou-se no rumo da garota de cabelo rosa.
***
–O Sasuke o que?! – gritou Naruto.
–Mantenha a calma, está bem? Se descontrolar agora não vai adiantar em nada. – disse Shikamaru.
Hinata ouvia aquela conversa com uma expressão preocupada. Há dias pensava no por quê de Sakura estar demorando tanto a voltar para a vila. Será que ela estava bem? Sasuke não teria feito nada com ela... teria?
–Você me diz que estava escondendo que a Sakura-chan está desaparecida há dias e quer que eu mantenha a calma?! – berrava o loiro. Sentia todo o seu corpo tremer, o sangue circulando com rapidez nas veias, fervendo de raiva e preocupação. –Por que estavam escondendo isso de mim?!
–Por que nós sabíamos que você ficaria assim. Kakashi-sensei preferiu cuidar da situação sozinho, já que a ida de Sakura até a Vila da Areia em missão era responsabilidade dele. Além do mais, você tende a agir de forma precipitada quando se trata do Sasuke.
–Não quero saber! Vocês não tinham esse direito!
–Já disse pra você tentar ficar calmo! – estressou-se Shikamaru. – Se não conseguir se controlar, eu não vou poder confiar em você nessa missão, Naruto. Não posso correr o risco de sair da Vila com você se não conseguir manter a sua amiga Kyuubi quieta aí dentro, e esse nervosismo não vai ajudar em nada, entendeu?
Ao ouvir aquilo, Naruto percebeu que Shikamaru estava certo. Não podia perder a razão. Achar Sakura e kakashi era sua prioridade agora. Precisava manter a calma.
Enquanto ouvia os berros de inconformismo e nervosismo de Naruto, Temari sequer olhava para os dois rapazes. Mantinha seus olhos fixos na morena de olhos perolados a sua frente. A Hyuuga tinha uma expressão tensa e preocupada. Mas Temari era, acima de tudo, uma mulher. E só uma mulher reconhece a angústia e o medo no olhar de outra. Conhecendo as armadilhas que um sentimento complicado pode trazer, Temari via na expressão de Hinata algo além da preocupação por Sakura; Ela enxergava a mágoa e o receio. E o medo.
Percebendo que a loira tinha os olhos fixos na sua direção, Hinata olhou para a ela de forma involuntária. O olhar de Temari era, como sempre, feroz e enigmático. Era impossível saber o que ela estaria pensando. Mas pôde perceber que a ninja da Vila da Areia tinha um olhar mais perspicaz que os outros. Temari enxergava em Hinata além do que qualquer outro pudesse ver.
Envergonhada, ela desviou o olhar e encarou o chão.
–Alguma pista? Por onde devemos começar a procurar? – perguntou Naruto. Ele respirava fundo, tentando manter o controle de si. Saber que Sakura estava em perigo o deixara transtornado.
–Ela foi vista pela última vez na Rota dos Perdidos. Foi quando Temari a viu sendo levada pelo Sasuke.
–Mas que diabos! Por que ela foi logo por esse caminho?!
–Eu já disse a você. Ela precisava chegar até a Vila da Areia o mais rápido possível para cumprir a missão que lhe havia sido confiada.
Pela primeira vez desde que aquela conversa havia começado, Hinata falou:
–Será que... eu... devo ir junto? Meu byakugan pode... pode ser útil. – sugeriu, tímida. – Sakura-san é minha amiga... quero fazer tudo o que puder para ajudar.
–Não! – falou Naruto, a voz tomada por uma autoridade que Hinata nunca havia ouvido antes.
–Por que não? – ela perguntou.
–Porque é perigoso demais!
–Mas eu...
–Não! –falou novamente. Vendo o olhar magoado de Hinata, ele respirou fundo novamente para tentar se acalmar. Olhou para a Hyuuga, tentando fazer com que ela entendesse — Não posso lidar com a ideia de que você possa se machucar, entendeu? Essa rota é perigosa. Não posso correr o risco de... perder você.
–Rá! – gargalhou Temari. Estava apenas observando até aquele momento, mas achava que estava na hora de se intrometer um pouquinho. – Por que está subestimando a garota? Ela é uma ninja, esqueceu? Você não tem autoridade sobre ela!
–Ela não vai se ferir na minha frente de novo! Não vou deixar isso acontecer novamente, entendeu?! – gritou Naruto.
Temari não entendeu o que ele queria dizer com aquilo, mas não tinha interesse em deixa-lo explicar:
–Deixe ela ir na droga da missão!
–Já disse que não! Kakashi-sensei e Sakura-chan são do meu time, são minha responsabilidade! Não vou deixa-la se arriscar dessa maneira por minha causa!
Hinata não tinha interesse naquela discussão. Sugeriu acompanha-los por estar preocupada com o que pudesse ter acontecido com Sakura, mas sabia que, caso fosse com eles, talvez apenas os atrapalhasse. Naruto tentaria protege-la de tudo a todo custo, e talvez tê-la por perto em um momento de batalha o distraísse. Não iria insistir. Mas, no íntimo, a fúria e nervosismo de Naruto doíam nela. Sakura sempre teria um lugar privilegiado na vida e no coração do loiro. Mais uma vez ela se deixara levar pela esperança de que ele finalmente pudesse olhar para ela com, pelo menos, um terço do carinho e amor que ele dedicava à amiga.
“Não posso pensar dessa maneira. Sakura-san é minha amiga e é um laço importante para o Naruto-kun. Tomara que ela esteja a salvo.”, pensava. Realmente estava preocupada com a rosada. Tinha um mau pressentimento sobre aquilo.
Temari já estava pronta para rebater os berros de Naruto quando ouviu a voz de Shikamaru:
–Já chega! Não podemos perder tempo com isso! Sakura e Kakashi-sensei podem estar correndo perigo! – Voltou-se para Hinata –Desculpa, Hinata, mas acho que o Naruto tem razão. Você deve ficar, dessa vez. – falou. Shikamaru suspirou ao ver Hinata assentir. Pelo visto, Naruto estava numa bela enrascada sentimental, e, obviamente, estava tendo problemas para lidar com aquilo.
Mas logo se lembrou de que, em se tratando de enrascadas sentimentais, não poderia falar de ninguém. Seus olhos pairaram sobre Temari por alguns segundos antes de voltarem-se para Naruto.
–Temos que ir. –olhou para Hinata. O olhar da garota estava carregado de uma tristeza que ela tentava a todo custo esconder. – Vou lhe dar um minuto antes de partirmos. –falou para Naruto, enquanto andava em direção à floresta, acompanhado de Temari.
***
Naruto olhou para Hinata. Ela sorriu para ele, tentando se mostrar confiante.
–Espero que Sakura-san esteja bem... – falou.
O loiro não conseguia esconder sua frustração. Logo quando pensou que começava a entender o que sentia por Hinata, a notícia envolvendo Sakura o deixava novamente desnorteado. Não conseguia encará-la.
–Naruto-kun... você... não se preocupe com nada, está bem? Salvar Sakura-san e Kakashi-sensei é o mais importante.
Ele enfim encarou a Hyuuga nos olhos. A tristeza e mágoa na expressão dela apenas o fizeram afundar ainda mais em culpa.
Naruto pensou em abraça-la e lhe dizer que esperasse por ele. Pensou em dizer que precisava dela como precisava de oxigênio para sobreviver. Pensou em pedir que ela não ficasse magoada.
Mas não conseguiu, porque não era justo com ela. Não podia dar à Hinata aquelas certezas. Sakura deixava tudo confuso na cabeça de Naruto.
Ele virou as costas para Hinata, andando em direção à floresta. Não conseguia encará-la nos olhos.
–Me desculpe, Hinata... – foi tudo o que conseguiu dizer, antes de sumir em meio às árvores.
***
Hinata deixou-se fraquejar, sentando na grama, a visão embaçada pelas lágrimas que se acumulavam em seus olhos.
Não sabia o que sentir. Seria um monstro por sentir-se magoada pela partida de Naruto? Mas também estava muito preocupada com a segurança de Sakura. O que sentia, afinal? O que poderia sentir? Não sabia.
Tudo o que sabia era que teria de passar por tudo aquilo de novo.
A solidão. A dor. Ah, a dor...
Novamente ele estava longe dela, e novamente a dor lhe serviria de companheira nos dias que viriam.
Encolheu-se, abraçando as pernas e enterrando o rosto nos joelhos. Tudo de novo.
Esperava, pacientemente, pela dor amiga que a levaria de volta aos dias de desespero.
***
–Por que está me seguindo? – perguntou Shikamaru, parando de andar para encarar Temari.
A loira respondeu de cara amarrada:
–Não estou te seguindo. Vou voltar para minha Vila. Gaara espera por um... relatório. – respondeu, lembrando-se da história ridícula que o ruivo havia inventado.
–Você não está pensando que vai por esse caminho, está? – questionou Shikamaru, incrédulo.
–Por que não iria?
–Você vai dar a volta na floresta agora, Temari. – falou ele, com a voz de quem encerra uma discussão. Ela avançou na direção dele, fazendo-o suspirar. Claro que, com Temari, nenhuma discussão nunca estava realmente encerrada.
–Por que eu iria dar a volta na floresta?
Ele respirou profundamente para não se deixar levar pela raiva que sentia subir-lhe a cabeça naquele momento:
–Temari, já falei para você que essa rota é perigosa. Não vou deixar você passar por ela duas vezes.
–Com quem você pensa que está falando? Seu machista ridículo! Idiota, estrupício! –berrou Temari. – Está me achando com cara de Hyuuga? Você não decide por onde eu devo seguir meu caminho!
–Mas que droga, Temari! Será que a gente não pode resolver nada sem querer pular no pescoço um do outro?
–A culpa é sua, imbecil! Você não me dá ordens! Eu vou por onde eu quiser!
–Que saco! Por que você tem que ser tão problemática?! Você não vai pela Rota dos Perdidos!
–Me dê um bom motivo para eu dar a volta nessa floresta toda, ou eu vou partir sua cabeça ao meio, Nara – avisou a ninja, lançando um olhar estreito para Shikamaru.
–Raios! Não tem motivo! Você não vai!
–Eu vou arrancar essa sua língua machista, Nara! – gritou Temari, preparando um murro na direção do rosto de Shikamaru. Ele segurou o punho cerrado da ninja.
–Eu me preocupo com você, tá legal?! Era isso que você queria ouvir?!
A loira sentiu seu punho relaxar de súbito, a surpresa pelas palavras de Shikamaru drenando sua força.
–Shi... Vo... Você o que?
Ele soltou sua mão, afastando-se dela.
–Até parece que você não sabia disso – falou, olhando para o lado, um leve rubor em seu rosto. Praguejava mentalmente sobre aquela situação.
–Achei que... você... não me visse dessa forma. – disse ela, cada palavra carregada de incerteza.
–Não gosto do rumo dessa conversa. É melhor você ir, Temari.
–Não posso ir pela Rota dos Perdidos, então? – perguntou, fazendo piada.
Ele riu.
–Não. Você não pode. E se tentar, vou te impedir.
–Eu vou arriscar, mesmo assim. – brincou ela.
–Vou amarrar você aqui, Temari. – ele disse, sério. Estava mesmo pensando que a loira teimaria em ir por aquela rota.
Temari soltou uma risada. Não era fácil tirar Shikamaru do sério. Ele parecia nunca se importar com nada... nem com ela. E ela nunca foi do tipo de garota muito romântica e sentimental. Mas ele mexia com ela de um jeito diferente. E Temari sabia que também mexia com ele. E jogava com isso. Mas estava farta de joguinhos.
Aproximou-se do Nara, colando seus lábios nos dele.
Surpreso, ele não reagiu de imediato. Mas logo Temari sentiu as mãos de Shikamaru envolvendo sua cintura, arrastando-a com força para junto de si.
A loira afastou os lábios dos dele, e o abraçou.
–Cuidado com o sentimentalismo, Temari. – falou, irônico. – Isso é apenas algo casual – disse, repetindo as mesmas palavras que a loira havia lhe dito.
Ela deu um beliscão na cintura do Nara, fazendo-o se encolher, e depois colou seus lábios nos dele novamente. Dessa vez, foi ele quem se afastou, para encará-la com uma expressão divertida:
–Mesmo assim, não vou deixar você passar por essa rota.
–Eu sei. – ela disse, sorrindo também.
Se não estivesse na frente dela, ele teria deixado seu queixo cair no chão. Não acreditava que tinha vencido uma discussão com Temari. Mas ela logo percebeu a expressão surpresa de Shikamaru e se afastou, dizendo:
–Não vai se acostumando, não, hein? Essa é a primeira e última vez que você vence uma briga comigo.
–Já te derrotei uma vez.
–Quer apanhar de novo, Nara? Você teve sorte daquela vez!
–Você sabe que não foi sorte.
–Idiota... –disse, preparando-se novamente para esmurra-lo. Mas ele foi mais rápido, beijando-a novamente.
Sempre que a beijava, Shikamaru sentia seu raciocínio indo pelo ralo. Aproximar-se de Temari daquela forma era tudo o que seu cérebro lhe dizia para NÃO fazer. Mas quando ela estava tão próxima daquela maneira, não podia se conter. Tudo o que conseguia fazer era puxá-la para si e colar seu corpo no dela com toda a força de que era capaz. Seus dedos se cravavam com ferocidade na pele da loira. Era impossível resistir a ela.
Problemática. Temari era, sem dúvida, a pessoa mais problemática de sua vida.
E talvez a mais importante.
Afastou seus lábios, tentando ordenar seus pensamentos.
–Vai demorar a vir de novo? – ele sussurrou, o rosto ainda muito próximo ao dela.
–É sua vez de visitar a minha vila – respondeu ela, sorrindo. – Por favor, não quebre outra maldita perna, está bem? Se você se ferir de novo, vou arrancar esses seus cabelos, um por um, entendeu?
–Sim, senhora.
Ele fitou novamente o sorriso de Temari. Era tão raro vê-la sorrir para ele daquela maneira!
Sem dizer mais nada, ela partiu. Shikamaru suspirou, caminhando devagar por entre as árvores, esperando que Naruto o alcançasse.
Enquanto andava, pensava em que desculpa usar para voltar à Vila da Areia mais uma vez.
***
Alguns dias atrás, na Rota dos Perdidos
Suigetsu quase sorriu quando viu a garota caminhando lentamente, distraída.
“Ela estava viva mesmo. O que foi que deu em você pra deixar o inimigo fugir ileso, Sasuke?”
Estava na hora de acabar com aquilo. Deu um passo a frente.
–Yo, rosada!
Sakura olhou para trás, procurando o dono daquela voz. Viu o garoto parado, sorrindo com ironia para ela. Ele tinha cabelos prateados, olhar feroz, mas cômico ao mesmo tempo, a expressão tranquila e divertida. Nunca o tinha visto na vida, mas a postura com a qual ele segurava a espada gigante lhe dizia que se tratava de um inimigo. Tentando tirar Sasuke da cabeça, ela também se posicionou.
–Quem é você?
–Que é isso, bonitinha? Já tá se preparando pra atacar? Quanta agressividade!
–Fiz uma pergunta. É amigo ou inimigo? Se não responder, irei atacar mesmo sem distinção.
–Uuuuhhh, ela é brava. – ele disse, divertido. –Mas ainda não entendo porque o Sasuke te deixou viva.
–Sasuke-kun? Você é companheiro do Sasuke-kun?
–“Sasuke-kun”? Que intimidade, hein? – respondeu, rindo mais abertamente. Mesmo com aquele sorriso, seus pensamentos estavam ainda mais confusos. Sasuke era amigo dela?
–Você é amigo do Sasuke-kun? – insistiu Sakura. Se ele era companheiro de Sasuke, poderia confiar nele, não poderia? Ou deveria manter tudo somente entre eles?
–Ah, eu não diria amigos... quer dizer, ele não é meu chefe, nem nada, mas eu estou ao lado dele para o que for preciso. Quem é você? Uma pedra no sapato? – questionou, erguendo uma sobrancelha. Quem era aquela garota, afinal? Aquilo estava cada vez mais estranho.
–Eu sou... – começou, mas não sabia direito o que dizer.
–Você é amiga dele? É namorada?
–Quê?! Não! Eu... eu sou...
–É, não pode ser isso, Sasuke não costuma sair com garotas com uma testa tão grande.
–O que foi... que você disse?! – gritou a Haruno, preparando-se para atacar. E tinha certeza de que iria acertá-lo em cheio, pois quando a viu correndo em sua direção, ele sequer se moveu.
O braço de Sakura atravessou o tórax de Suigetsu, fazendo a rosada arregalar os olhos de surpresa. Puxou de volta, sentindo sua mão molhada. Olhou para ele.
O lugar onde havia “acertado” agora se recompunha numa forma líquida, o tórax do garoto voltando ao normal como se Sakura nunca o tivesse tocado.
–Poxa... se você tivesse me acertado mesmo, teria doído, viu? Mas sinto muito, gatinha, você não vai me derrotar com esse tipo de golpe. – falou, para em seguida atingir Sakura com sua espada. Ela tentou se afastar, mas ainda assim a lâmina arrastou-se por sua cintura, provocando um ferimento grave. O sangue tingiu de vermelho boa parte da grama.
–Não sei quem você é, nem qual a sua relação com o Sasuke... mas tenho certeza de que se eu te matar... ele vai me perdoar. – falou, sorrindo abertamente.
Sakura começou a pensar. Aquele corte estava profundo, ela estava perdendo muito sangue. A dor não a deixava sequer ficar de pé. Segurava a ferida tentando estancar o sangue que escorria, ajoelhada, ofegante. O que faria? Por que aquele garoto queria mata-la? Ele era amigo de Sasuke mesmo, ou estava mentindo?
–Raikiri!
Sakura ouviu a voz conhecida e quase sorriu de alivio. O brilho do raikiri não lhe deixava enxergar direito, mas sabia que ele estava lá.
Era Kakashi, atravessando Suigetsu num golpe certeiro. Mas o garoto apenas sorriu, segurando com mais firmeza sua espada.
–Kakashi-sensei! Isso não funciona com ele! Ele é... – mas Sakura não sabia direito o que dizer. O que era aquele garoto? – Ele é feito de água! – falou, com a certeza de que estava soando como uma idiota.
Suigetsu perdeu o sorriso.
–Por que não se desviou? – Kakashi perguntou ao garoto, numa voz baixa. –Não sabe que água conduz eletricidade? – concluiu, quase sorrindo.
Suigetsu deu um grito alto de dor, tentando a todo custo libertar-se do ataque de kakashi. Sentia todo o seu corpo estremecer com a corrente do raikiri.
Quando enfim conseguiu se afastar, ele deu alguns passos para trás. Pela primeira vez desde que o tinha visto, Sakura viu o garoto de cabelos prateados com a expressão séria.
–Ninja copiador, hãn? – disse, e depois cuspiu no chão, num sinal de desrespeito e repúdio. –Vou me entender com você depois. – falou, fugindo dalí. Não tinha condições de enfrentar kakashi naquele momento. Mas o dia em que teria a revanche chegaria.
Kakashi pensou em ir atrás de Suigetsu, mas quando viu a quantidade de sangue que se espalhava pelo chão, olhou para Sakura com mais atenção.
–Sakura! Está sangrando!
–Não... não é nada. – arfou – Vou tentar reverter isso. Fique... tranquilo... Ai!
–Sakura!
Sakura tentou a todo custo concentrar seu chakra na palma de suas mãos, mas curar os próprios ferimentos não era tarefa fácil nem para sua mestra. Nas condições em que estava, seria simplesmente impossível.
–Ka... Kakashi-sensei... vá até a Vila da Areia... já estamos... perto de lá.
–Esqueça a missão, Sakura. Preciso cuidar de você primeiro. –falou, tentando pegar a rosada no colo e levá-la de volta a konoha. Ou seria melhor levá-la a Vila da Areia? Afinal, estavam mais próximos de lá do que da Vila da Folha, e pelo estado de Sakura, não poderiam perder tempo.
Sakura gritou de dor quando Kakashi tentou segurá-la.
–Não... não posso sair daqui... Não posso...
–Me diga o que fazer e eu farei, Sakura. Qualquer coisa, farei qualquer coisa que ajude você.
–Vá... até a Vila da Areia... e me traga... Traga as ervas para tratar desse ferimento.
–Não vou deixar você sozinha novamente, Sakura. Você é minha responsabilidade.
–Não posso sair daqui. Vou ficar bem. Preciso dessas ervas. Elas vão ajudar.
Kakashi não sabia o que decidir. Sabia que o inimigo não voltaria mais naquele local, pois pensaria que, àquela altura, eles já estariam longe. Deveria arriscar?
–O que devo trazer?
Sakura lhe deu o nome das ervas de que precisava. Ainda concentrava chakra nas palmas, o que dava às suas mãos um tom levemente esverdeado.
–Sinto muito, Sakura. – falou Kakashi, a culpa caindo sobre seus ombros. – Me desculpe, me desculpe mesmo...
–Não sou mais... sua aluna, Kakashi-sensei... sou sua companheira. Vá logo. Não se... preocupe comigo.
Kakashi assentiu.
–Volto o mais rápido que puder. – prometeu, desaparecendo dalí.
Sakura fechou os olhos, concentrando-se em sua própria energia vital.
A dor física ainda não era forte o suficiente para fazê-la esquecer da dor emocional.
***
Kiba andava fitando o chão, chutando, de leve, as pedras no caminho. Shikamaru havia lhe procurado, explicando toda aquela situação, pedindo que ele cuidasse de Hinata para que ela não fizesse nenhuma bobagem quando Naruto fosse feito louco atrás da Sakura. Mas, quando ele a procurou, a Hyuuga disse que precisava de um tempo sozinha e que depois eles conversariam melhor.
Não sabia o que ela queria dizer com aquilo, mas sabia que ela não estava nada bem.
Olhou para cima, suspirando pesadamente, tentando encontrar alguma inspiração para poder ajudar a amiga.
“Naruto idiota”, reclamou.
Mas algo o fez parar de repente.
Kiba viu Hinata, equilibrando-se em cima de um poste, fitando o vazio.
Lembrou das palavras de Shikamaru:
“Cuide da Hinata, está bem? Ela já está muito abatida, tenho certeza de que sofrerá mais ainda quando souber que o Naruto vai atrás da Sakura. Você sabe como ele é maluco. E não me agrada a ideia de deixa-la sozinha. Hinata é muito sensível... cuide para que ela não acabe fazendo nenhuma besteira.”
Kiba correu na direção de Hinata, sua vontade de matar Naruto cada vez mais forte.
***
Hinata estava agora no ponto mais alto de Konoha. Dalí, conseguia enxergar toda a vila.
Não queria pensar na dor. Não queria pensar no fato de que Naruto havia partido atrás de Sakura, deixando-a sozinha novamente. Não queria pensar no amor que crescia dentro dela, cada vez mais forte, tomando todo o espaço de seu coração.
Queria pensar apenas que Sakura retornaria sã e salva ao lado de Naruto. Mesmo que aquilo significasse perde-lo. Os dois eram seus amigos. Era nisso que deveria pensar.
Balançou a cabeça, na tentativa de afastar aqueles pensamentos. Precisava decidir o que fazer. Esperaria por ele? O receberia de braços abertos? O que faria? O que diria?
Suspirou, certa de que não tinha resposta para aquelas perguntas. Então se concentrou no que havia ido fazer ali.
–Byakugan!
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