Layer

1 Renascer


“A solidão sempre me incomodou, e mesmo que por todo este tempo eu estivesse sozinha, eu simplesmente não podia me acostumar. Quando só, o tempo parecia-me passar lentamente, como numa edição de filme para prolongar uma cena. Também, minhas vazias memórias passavam em frente aos meus olhos, do mesmo jeito que ocorre na edição de um filme. Entretanto, a edição de um filme não passa da edição de um filme, sendo assim, nada além de uma fantasia, um romance feito para ser perfeito, para funcionar da maneira como seu autor sempre quis. A vida não é assim. E, portanto, minha vida não pôde ser editada como um filme.

Por 17 anos eu estive tão sozinha, mas acredito que agora, talvez, enfim, provavelmente, isto irá mudar. E isso me conforta, me deixa realmente feliz! Mas enfim, se por ventura do destino uma vez mais eu sozinha fique, não é como se eu pudesse novamente escapar” era o que uma jovem garota, sentada num vagão vazio de um trem, escrevia em seu pequeno diário, o qual possuía um espelho em sua capa frontal. Com seus dedos, penteava seus curtos cabelos negros que caiam sobre seus olhos enquanto encarava-se em tal espelho. Sorria, então, contente e cheia de esperanças. A vida que até ali não havia sido de teu agrado poderia enfim mudar, poderia enfim ser prazerosa.

Pouco tempo após terminar de escrever mais uma pequena página de seu diário, o trem em que ela estava chegou à sua estação final, — Estação Calterna Polide -, onde todos os seus passageiros, ou seja, a jovem garota apenas, deveriam desembarcar. Ansiosa e um pouco confusa, a garota ainda, por alguns segundos, hesita em desembarcar. Num suspiro de coragem, porém, desce com um único passo. Estava ali, finalmente, na cidade que havia em pouquíssimo tempo se tornado o maior centro do mundo em todas as áreas, Calterna Polide.

– “Eu não posso acreditar!” — Dizia a garota, excepcionalmente feliz enquanto passeava pela estação devagarinho, como se estivesse apreciando aquela paisagem cinza e morta do local.

Parecia também curiosa, como se estivesse procurando algo ou alguém. Olhou em todos os cantos daquela andar da estação, mas sem sucesso em sua busca, um leve ar de tristeza tomou seu rosto, afinal, estava sozinha naquela estação, também. Caminhou, então, lentamente até as escadas que a levariam para fora da estação. Ao pisar no primeiro degrau, foi interrompida por alguém que descia as escadas, como em busca de alguém. Um rapaz que parecia um pouco mais velho que a garota, usando uma roupa social de aparência extremamente cara, como cabelos curtos, negros e penteados e olhos azuis como o céu num dia claro de verão, então, lhe direciona uma pergunta:

– “Por acaso seria você Rineth?” — Dizia o rapaz, enquanto olhava surpreso para a garota.

– “Sim...” — Respondia, tentando esconder a ansiedade que ainda aflorava por seu corpo.

– “Finalmente te encontrei!”

O garoto sorria pacificamente, como se uma ótima noticia tivesse acabado de chegar aos seus ouvidos. Caminhou até a jovem e a abraçou forte, como se a mesma fosse um parente que a muito ele não via, ou algo assim. Após algum tempo abraçando-a, soltou-a, sorriu novamente e olhou para trás, para o topo das escadas, com um olhar desconfiado. Olhou novamente para a garota, o sorriso que a pouco preenchia seu rosto havia desaparecido.

– “Acho que não estamos sozinhos aqui.” — Dizia.

– “O que quer dizer?” — Perguntava Rineth, que parecia bastante confusa com a situação, além de ainda estar relativamente envergonhada pelo abraço que havia acabado de receber do desconhecido garoto.

– “Vamos sentar ali” — Dizia, apontando para um banco próximo ao local onde o trem, que já havia partido de novo, havia deixado Rineth. — “E poderei te explicar tudo, ou quase tudo.”

Caminharam, então, até tal banco, sentaram-se. O garoto tomou fôlego, parecia estar realmente preocupado com tudo aquilo, enquanto a garota permanecia confusa, e até um pouco assustada. Ele, então, segurou suas pequenas e pálidas mãos com força. Parecia estar prestes a confessar algo.

– “Bem, Rineth, antes de mais nada...” — Dizia o garoto. — “Meu nome é Earl, e assim como você fará parte daqui alguns dias, estudo no Colégio Calterniam”

– “B-Bem...” — Dizia Rineth, assustada. — “É sempre bom conhecer meus colegas novos, né?”

– “Rineth!” — Dizia Earl, olhando fundo em seus olhos. — “Aqui não é seguro!”

No mesmo momento em que o garoto terminava de alertar a jovem, o teto de vidro espelhado da estação quebrara, e uma figura veloz entrara pelo buraco formado. Era impossível ver seu rosto, mas por sua alta estatura e seu corpo robusto, provavelmente era um homem. Usava roupas largas que cobriam todo o seu corpo, não deixando sequer um milimetro de sua pele visível. As luvas que usava em suas mãos mais pareciam garras, e debaixo de seu capuz pareciam haver pequenos chifres.

– “O que é isso!?” — Dizia Rineth, assustada, agarrando Earl com força.

– “Acalme-se, o que há de errado para ter se assustado tanto assim?” — Dizia o homem encapuzado, com uma voz suave que, em pouco tempo, já havia acalmado a moça.

– “Dye!” — Gritava Earl, empurrando Rineth ao banco e levantando rapidamente. — “Vá embora!”

– “Ora, pois. Algum motivo especial para isso, pônei?” — Dizia o homem, com um tom extremamente sarcástico em sua voz.

– “Eu não vou perder minha cabeça com você, Dye.” — Respondia Earl, pacificamente. — “Mas quando o momento chegar, arrancarei cada pedaço do seu corpo com minhas próprias mãos.”

– “Está querendo me amedrontar, é?” — Dizia Dye, tirando seu capuz e revelando um rosto jovem, ainda assim mais velho que o de Earl, protegido por uma capacete azul-acinzentado com dois pequenos chifres, como se fossem orelhas. — “Pois bem, o lince rasgará sua carne como se fosse um brinquedo para crianças.”

Assustada com aquilo, Rineth pouco a pouco se distanciava dali. Já preparada para correr, fora impedida por Dye, que segurava seu ombro com força. Ele olhava para ela com um olhar preocupado, parecia tão assustado quando ela. Seus amedrontados olhos castanhos claros pareciam observar não apenas a garota por fora, mas pareciam penetrar seus olhos, observando os lugares mais profundos de sua alma.

– “Não vá embora, Rineth...” — Dizia ele, soltando, pouco a pouco, seu ombro. — “Por favor, me escute, não faça com que tudo aquilo se repita...”

– “Aquilo?” — Dizia Rineth, ainda extremamente confusa com toda a situação.

– “Dye!!” — Gritava, aproximando-se rapidamente, Earl. — “Solte ela. Agora!!”

Neste momento, uma outra pessoa cai pelo buraco formado mais cedo por Dye. Era uma mulher adulta que usava uma armadura da mesma cor que o capacete do homem. Sua armadura parecia extremamente rígida e possui garras em cada um de seus extremos, o que parecia bastante desconfortável. Seus longos cabelos vermelhos escapavam de seu capacete que, diferentemente do capacete de Dye, era aberto em sua superfície. Caia em cima de Earl, derrubando-o, pondo-o numa posição de total submissão, de modo que não poderia de maneira alguma revidar qualquer ação da mulher. Entretanto, mesmo que à Earl passasse uma aura de hostilidade, seus olhos verdes estavam banhados de pavor.

– “Não deveriam tem vindo aqui.” — Dizia Dye, que, enquanto olhava para a mulher, pouco a pouco apertava mais ainda o ombro de Rineth, que havia se assustado com a situação.

– “E deixar Pyxis fugir? Você é idiota?” — Dizia a mulher.

Outra pessoa, desta vez uma jovem mulher, que muito lembrava a que havia entrado pelo buraco no teto à pouco, descia as escadas. Sua armadura era basicamente a mesma que a armadura da outra mulher, mas ao invés de ser pintada de azul-acinzentado, o rubro cobria seu corpo.

– “Irmã!” — Dizia a mulher que descia as escadas, sorrindo.

– “Ursa Minor, não deveria ter vindo aqui!” — Dizia a mulher, brigando com a mais nova.

– “Mas...”

– “Já chega!!” — Gritava Rineth. — “O que está acontecendo aqui!?”

– “Rineth, nós queremos te proteger...” — Dizia Dye, tremendo.

– “Não minta para ela.” — Dizia a mulher.

Ela, então, soltou-se do corpo de Earl, que mal podia se mover, e caminhou lentamente, mas bruscamente, até Rineth, empurrou Dye e agarrou em seus dois ombros.

– “Você é Pyxis, a única maneira de chegarmos até o Altar Divino” — Dizia a mulher. — “Uma vez lá, você será a oferenda para que possamos enfim ressuscitar a Deusa do nosso mundo.”

– “O... Que?” — Dizia Rineth, assustada.

– “Me desculpe, Pyxis, mas eu, Ursa Major, preciso uma vez mais estar em contato com nossa Deusa.” — Continuava. — “E sua vida será o preço que teremos que pagar.”

– “Chlous!” — Dizia Dye, irritado.

Um raio de luz, então, cruzou toda a estação de trem, acertando o lado esquerdo do rosto da mulher, que explodiu numa única bolha de sangue. Os gritos de dor da mulher preencheram toda a solidão que Rineth anteriormente sentia de estar naquela estação, mas não de uma forma boa como ela esperava, mas sim de modo desesperador. A mulher, então, caiu aos braços de Dye, que após ficar olhando por alguns instantes para o jovem rosto de Rineth, falou:

– “Eu realmente preciso de você.” — E então, com Chlous em seus braços, junto da mulher mais jovem, despareceu pelo menos buraco por onde havia entrado mais cedo.

Rineth então correu até Earl, que havia desmaiado. Caiu de joelhos no chão e começou a chorar. Estava assustada, muito assustada, e talvez um pouco decepcionada como a situação. A vida perfeita que deveria começar ali já havia sido amaldiçoada, mas dessa vez não pela solidão, e sim talvez pela falta dela.

Rineth, ao ouvir passos vindo da direção da onde o raio de luz havia partido, arrasta o corpo de Earl até atrás do banco, e lá se esconde com ele. Observando por uma pequena abertura no banco, ela vê uma mulher alta, de cabelos longos e negros, olhos castanhos escuros e com um tipo de canhão em punhos. Usava roupas que lembravam muito aquelas que Earl estava utilizando, o que acalmou um pouco Rineth. Talvez fosse somente uma amiga de Earl.

– “Pyxis, onde você está?” — Dizia a mulher, irritada. — “Não vou permitir que ratos como os 777 te levem ao encontro da Deusa.”

Ela então caminhou até o banco onde Rineth se escondia com Earl, arrancou-o dali com apenas um soco, e encarou os olhos amedrontados da jovem garota.

– “Eu mesmo te levarei até lá.”