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2 O primeiro dos últimos dias
– “Senhorita Rineth?” — Dizia uma voz grave, do velho homem que estava sentado na mesa do professor, o que, provavelmente, lhe faz o professor da sala. — “Senhorita Rineth?”
A jovem garota estava completamente desligada do mundo. Sua mente aparentemente viajava desde os mais altos picos do mundo até as profundezas dos oceanos. Mas não era essa a realidade. A garota ainda tremia, desde a noite passada, quando finalmente havia chegado ali, na grandiosa Calterna Polide, onde o pesadelo de sua vida, a solidão, havia se tornado algo que parecia incrivelmente afável.
Após o ataque dos três membros da gangue 777, Rineth, que se escondia junto de Earl, fora encontrada por uma mulher que talvez estivesse associada ao garoto de alguma forma, por conta de seu traje. Entretanto, a esperança de ouvir palavras de conforto da mulher logo se perderam pela intimidação que a mesma fez. Rineth acreditou estar em perigo, mas, felizmente, pode se sentir confortável novamente.
– “A Deusa precisa pagar.” — Dizia a mulher, irritada. — “E você é a única que sabe onde ela está.”
– “Eu... Sei?” — Dizia Rineth, assustada.
– “Sim, você é Pyxis, a bússola que aponta em direção ao futuro!” — Proclamava a mulher, como numa apresentação de teatro. — “Oh, querido presente dos céus, mostre-me o caminho para salvar minha humilde vida!”
A mulher caminhou até Rineth e estendeu sua mão para que a garota pudesse segurar.
– “Tsc, que piada. Aqueles estúpidos da 777 saem atacando qualquer um.” — Dizia, agora num tom normal de voz. — “Não se preocupe, ninguém sabe ainda se você realmente é a coordenada que todos buscam.”
– “Eu... Não estou entendendo.” — Dizia Rineth.
– “Então o Earl não te disse nada? Não tem problema, eu posso te explicar algumas coisas. Mas vamos sair daqui primeiro.” — Dizia a mulher, levantando Rineth e ajudando-a a levantar também Earl. — “A propósito, estudo na mesma classe que Earl. Me chamo Allys.”
Allys, como Earl em suas costas, demonstrando uma enorme força, caminhou tranquilamente com Rineth para fora da estação e, dali, para sua casa. Foi neste momento que Rineth pode, pela primeira vez, ver Calterna Polide fora de cartões postais. A cidade que outrora parecia tão bonita e viva mostrava-se nada além de um monte de borrões da cor cinza formando prédios, casas e estações de trem. A bela cidade que deveria ser o futuro da humanidade não era nada além de um centro urbano comum, ou talvez até mais feio do que a maioria. Isso entristeceu a pobre alma de Rineth.
O local onde Allys morava era um imenso prédio que o topo não podia ser visto sem algum tipo de binóculo. Mesmo que também pintado de cinza, algumas pequenas decorações chamavam a atenção de Rineth, como o belo jardim que ficava no quintal do prédio, ou os grafites provavelmente feitos por gangues como a 777 que coloriam, um pouco, as paredes do local. Após subirem alguns lances de escada, finalmente chegaram no apartamento 404, do quarto andar, onde Allys morava. Rineth se sentiu um pouco relutante para entrar ali, afinal, não sabia exatamente ainda se a mulher era uma amiga ou inimiga, mas por ela estar carregando Earl, que havia, desde o começo, se mostrado tão gentil com a garota, ela decidiu entrar.
– “Se você realmente for Pyxis.” — Dizia Allys, fechando a porta de sua casa. — “Então a única que pode decifrar seu enigma e guiar os filhos da lua à Deusa sou eu, Cassiopeia.”
Allys então caminhou até a janela, que estava aberta, olhou para fora por alguns minutos, fechou-a, assim como a cortina que passou a cobri-la, voltou à Rineth e, com um suspiro, sentou-se perto da garota.
– “Nós somos filhos da lua. Seres que nascem a cada 329 anos para, junto dos nossos superiores, os lunáticos, limparmos a humanidade.”
– “...Que?”
Rineth estava confusa com aquilo. “Limpar a humanidade, como assim?” era o que, provavelmente, passava por sua cabeça. Mas a única coisa que saíra de sua boca foi um singelo “que?”, que preencheu o rosto de Allys com um sorriso de preocupação.
–”Bem, eu ainda não entendo direito o porque desses 329, mas aparentemente é isso que devemos fazer. Na verdade eu não compreendo nada disso direito...” — Dizia Allys, fazendo uma pausa para ver se Rineth queria dizer algo, mas diferente do que havia pensado inicialmente, a garota permaneceu calada, olhando para a outra atentamente. — “...Continuando, nós, filhos da lua, temos poderes especiais baseados nas constelações, aparentemente, e podemos também usar nossas armaduras se desejarmos da maneira certa. Sei que pode ser um pouco difícil para você ainda, mas eu te ensinarei tudo o que precisa para batalhar.”
– “Eu... Não quero batalhar com ninguém.” — Dizia Rineth, preocupada.
– “Então morra de uma vez, e nasça num mundo melhor.”
Num salto de fúria, Allys se levanta e encara Rineth, que havia se assustado com a brusca reviravolta na personalidade da mulher. Após alguns instantes, Allys voltou a ter aquele olhar quase aconchegante.
– “Me desculpe por isso, eu só estou um pouco irritada com tudo que vem acontecendo...”
– “Tudo?”
– “Bem... Tenho perdido muitos amigos ultimamente por conta dessas guerras de gangues, e aparentemente quanto mais filhos da lua você mata, mais forte você se torna.”
Allys então se ajoelhou perto de Rineth e abraçou-a forte, assim como Earl havia feito mais cedo. Aquilo, para Rineth, era aconchegante, era algo que ela havia sentido poucas vezes em sua vida vazia. Isso fez com que ela pudesse sorrir novamente enquanto secavas as lágrimas que caiam do rosto da outra garota.
– “Rineth, por favor, se você realmente for a Pyxis, faça tudo que puder para parar essa guerra!”
– “T-Tudo bem...” — Dizia Rineth, tentando acalmar a garota.
Naquele momento, então, Earl, como se estivesse sido assustado, levanta quase que pulando, chamando pelo nome de Dye. Entretanto, ao perceber que já não estava mais na estação de trem, e que sequer o homem estava ali, sentou-se no chão, envergonhado.
– “Olha só, então ainda está vivo!” — Dizia Allys, secando o resto das lágrimas que ainda caiam, sorrindo, talvez contente.
– “Allys! Onde estão os 777?” — Dizia Earl, ainda irritado. — “Eles estavam tentando levar a Rineth!”
– “Acalme-se, estou bem...” — Dizia a garota, sorrindo.
Os três então sentaram-se e ficaram calados, somente observando o local. Momentos de paz eram poucos para os filhos da lua em Calterna Polide, e, por isso, apreciá-los deveria ser algo gratificante para qualquer um. Mesmo que para Rineth tais momentos fossem comuns uma vez que sua vida tinha sido nada além de solidão até aquele momento, os outros dois pareciam tão felizes que ela sequer ousou falar qualquer coisa. E foi assim pelo restante da noite. Uma noite pacífica, onde os recém-formado grupo de amigos podia descansar sem qualquer preocupação, mas sem também qualquer ambição. Rineth talvez tenha pensado que, caso Dye e os outros membros da 777 não atacassem mais, a sua vida perfeita dos sonhos poderia se tornar real. Entretanto, a realidade e o sonho são realidades opostas, mesmo que formem uma única e suprema relação, a própria realidade.
Naquela pacífica noite, Rineth, que ainda não tinha um lugar para ficar na cidade, dormiu no apartamento de Allys. Earl também ficara por lá, já que não estava totalmente recuperado.
Na noite seguinte, logo após o primeiro dia de aula de Rineth, ambos esperavam pelo ônibus que viria buscá-los. Rineth iria novamente dormir na casa de Allys, porém Earl não iria, estava ali somente para certificar-se de que as duas garotas estariam bem.
– “Earl, você não quer vir conosco mesmo?” — Perguntava Allys.
– “Não, tudo bem, eles não vão vir atrás de mim.”
– “Você não deveria ser tão otimista assim.”
Muito tempo já havia se passado desde que eles haviam chegado no ponto, e nenhum ônibus havia passado por lá ainda. Confusos, esperaram mais um pouco, mas ainda sem sucesso.
– “Será que a linha não está parada?” — Perguntava Rineth.
– “Impossível. Calterna Polide foi feita de maneira que isso nunca deveria ocorrer. Algo deve ter acontecido com os ônibus...” — Respondia Allys, preocupada. — “Não duvidaria que alguns filhos da lua estivessem sabotando os ônibus para capturar você, Rineth.”
– “...”
– “Não fique assim, garota!” — Dizia Earl, tentando deixá-la mais animada. — “Vamos pensar em algo para evitar confronto...”
Allys então caminhou de um lado para outro, pensativa.
– “Em primeiro lugar, eles devem ter recebido a informação de alguém de que estamos com Pyxis e de que estudamos aqui. Em segundo, de alguma forma eles devem ter ouvido nossas conversas, uma vez que pararam nossa linha de ônibus.” — Dizia Allys, ainda pensativa. — “Talvez se, de alguma forma, pudéssemos surpreender eles, evitaríamos uma luta...”
– “Simples.” — Dizia Earl, confiante. — “Rineth vem comigo, a pé, para a casa de minha família do outro lado da cidade.”
A garota de cabelos longos encarou Earl por algum tempo, fazendo com que o olhar confiante que inundava seu rosto desaparecesse pouco a pouco.
– “...Não sei se isso iria funcionar.” — Dizia Allys. — “Mas não consigo pensar em nada melhor no momento.”
E naquele instante, o rosto de Earl se preencheu de alegria. Pela primeira vez Allys havia concordado com algo que havia dito.
– “Então vá com ele, Rineth.” — Dizia Rineth, que mesmo possuindo um sorriso em seu rosto, passava um tom de preocupação por sua voz trêmula, afinal, deixar os dois sozinhos talvez não fosse uma boa opção. — “Assim que chegarem lá, me avisem, tudo bem?”
E então, os dois responderam com um sinal positivo com suas cabeças, e saíram correndo na direção oposta a qual deveriam pegar. Allys então, sozinha, foi tomada por um brilho incrivelmente forte que, num piscar de olhos, materializou-se numa armadura verde-acinzentada robusta, que mais parecia tomar a forma de um golem. Seu capacete tomava toda sua cabeça, tapando até mesmo seu rosto com um tipo de máscara. O cabelo escondido dentro do capacete dava lugar à longos pedaços de pano brancos que saltavam para trás do capacete, tomando a forma de um cabelo um pouco mais curto que os cabelos verdadeiros da garota. Em uma de suas mãos carregava um canhão pequeno com adereços dourados flutuando à sua volta. Ela então levantou sua cabeça ao alto, olhando para cima, e após alguns instantes observando o céu estrelado daquela obscura noite, falou consigo mesma:
– “Eu não posso deixar eles sozinhos!” — E passou a correr na mesma direção que seus dois amigos haviam corrido.
A noite em Calterna Polide era estranha. Era escura, diferente dos outros centros urbanos que povoavam a Terra. Também era mais cinza do que deveria ser, as cores pareciam fugir daquele local. E por conta deste cinza, na noite escura, é que Earl acabou perdendo seu caminho e parando numa parte não tão conhecida por ele da cidade. Um pouco desesperado, o garoto tentou acalmar sua companheira.
– “Rineth, acho que estamos perdidos...” — Dizia Earl. — “Mas não se preocupe, só precisamos achar algum tipo de delegacia ou algo assim, que logo, logo estaremos em casa.”
Rineth, entretanto, não parecia tão preocupada. Tudo o que era novo para ela parecia bom. Só pelo fato de não estar sozinha naquela noite confortava-a.
Passo após passo no breu daquela noite, cada vez mais Earl via-se perdido. Ele não podia entender o que estava acontecendo. A cidade estava morta, as luzes já não existiam. Não havia ninguém na rua, e as pessoas haviam desaparecido até mesmo de suas casas. O que confundia Earl foi logo iluminado por Rineth.
– “Não estamos mais em Calterna Polide, Earl.”
– “O que?”
– “Essa não é nossa realidade.” — Dizia, com um tom melancólico e com um olhar completamente vazio, Rineth.
Neste momento, passos pesados puderam ser ouvidos por dois jovens. Eram passos rápidos que pareciam vir de todas as direções. Rineth então empurrou Earl, derrubando-o, ao mesmo tempo que protegia-o de um tipo de dardo gigantesco.
– “Meus parabéns, Pyxis, você conseguiu resolver nosso pequeno truque!” — Dizia uma voz adulta aguda, mas masculina, que após poucos instantes revelou a forma de um homem vestido com uma armadura completamente marrom. Com aproximadamente três metros, sua armadura possuía adereços que lembravam a forma de um navio, assim como a quilha que ficava em seu capacete ou as pequenas velas que partiam de seu braços.
Um brilho tomou o corpo de Earl, revelando uma armadura da mesma cor que a armadura de Dye. Sendo extremamente esguia em seu tronco, mas robusta em suas pernas e braços. Possui um capacete extremamente longo com um tipo de formação mandibular. Dentes afiados rasgavam a gengiva metálica da mesma. Suas mãos haviam sido tomados por gigantescas manoplas que pareciam rígidas como uma carapaça.
– “Para trás, Rineth.” — Dizia Earl, ficando na frente da garota. — “E você, o que quer!?”
– “O que quero? Sou Argo Navis, o navio que cruza as dimensões.” — Dizia o homem, com um tom vitorioso em sua voz. — “E vim aqui trilhar meu caminho até a Deusa.”
Ele então caminhou lentamente na direção do garoto, parou por um instante e falou.
– “Equuleus, você não estava também em busca de Pyxis?” — Perguntava o homem. — “Agora que achou-a, vai usar ela só para seu bem?”
– “Não sei do que está falando, seu monstro.” — Dizia Earl, raivoso.
Rineth não entendia muito bem o que estava acontecendo ali. As palavras de Argo Navis haviam plantado uma dúvida em sua cabeça, por qual motivo realmente estaria Earl protegendo ela, afinal, isso não fazia sentido algum, eles sequer se conheciam. Rineth, então, começou a, pouco a pouco, tomar certa distância do garoto, receosa.
– “Acho que você quer começar a guerra aqui mesmo, não é?” — Dizia Argo, com um tom bastante melancólico em sua voz. — “Nunca soube esperar por nada, mesmo.”
Earl então, numa explosão de fúria, partiu correndo para cima do gigante, que simplesmente por estender seu braço para frente, estourou a armadura que protegia o peito de Earl com a força do impacto. A mesma força empurrou Earl para trás, que caiu no chão que, pouco depois, foi manchado por uma pequena poça de sangue que escorria de seu peito ferido.
– “...O que?” — Pensava. — “Ele destruiu parte da minha armadura sem o menor esforço...”
Argo, então, voltou a se aproximar de Equuleus.
– “Levante-se logo.” — Dizia. — “Ou já desistiu de lutar?”
– “Jamais.”
Earl, então, levantou ainda cambaleando. Tomou certa distância e partiu correndo para cima do gigante novamente. Da mesma forma que antes, Argo levantou seu braço, desta vez no mesmo nível do rosto de Earl. Mas, surpreendentemente, o garoto se abaixou e agarrou o tronco do gigante. Com um pouco de esforço, o gigantesco monstro foi derrubado no chão.
– “Como!?” — Dizia Argo Navis, surpreso.
– “Eu não vou deixar você vencer, Balchion!!” — Gritava Earl, que tentava esconder os gritos de dor por conta do machucado em seu peito.
Neste momento, as manoplas de Earl tornaram-se afiadas garras que ajudaram-no a evitar os posteriores golpes de Balchion. Após pouco tempo, Earl havia conseguido evitar todos os ataques do gigante, prendendo-o de forma que já não podia se mover. Entretanto, Earl ainda podia mover seu pescoço e sua cabeça livremente.
– “Eu venci, Balchion!” — Gritava. — “Eu me tornei mais forte que você!”
Assustada, Rineth observava a cena. A longa mandíbula formada no capacete de Earl lentamente se abria, deixando livre seus afiados dentes para que pudessem rasgar a armadura de Argo. Com bastante esforço, em pouco tempo, a armadura do gigante completamente destroçada pelos afiados dentes da armadura de Equuleus. Pedaços de sua armadura marrom coloriam o chão cinza do local junto do sangue dos dois combatentes e os pedaços de pele arrancados do gigante.
Entretanto, num único momento de hesitação, Earl parou de atacar o gigante.
– “Vá embora, Balchion.”
– “Não.”
“Não” foi a resposta que o homem lhe dera antes de que um outro ser, completamente deformado, mas com uma estrutura humanoide saísse da ferida aberta pelos dentes da armadura de Earl. Essa figura estava segurando, em sua mão esquerda, uma pequena, mas grossa, espada aparentemente feito de algo além de metal, já que sua forma parecia não ser exatamente fixa.
– “O que é isso!?” — Perguntava Earl, desesperado.
– “Este?” — Dizia Balchion, num tom que parecia estar prestes a rir da cara de seu desafiante. — “Puppis.”
E então, rapidamente, o homem cravou a espada no capacete de Earl, destruindo completamente a cabeça de sua armadura, junto com seu crânio, dividindo-o em dois. Os gritos de dor de Earl logo foram abafados pela vida que lhe fora tirada. O chão preenchia-se do sangue que escorria da abertura feita em seu, uma vez belo, rosto. Junto do sangue, pedaços de carne e ossos pintavam o chão cinza de Calterna Polide, junto das diversas cores de que se formava o vômito que Rineth soltara vendo o crânio aberto de seu amigo.
A figura humanoide de Puppis já havia desaparecido, voltando para dentro do corpo de Argo, que parecia bastante machucado também. Num piscar de olhos, então, o gigantesco homem havia desaparecido, dando lugar à todas as outras pessoas da cidade, que observavam o jovem recentemente morto estirado no chão ao lado da garota que era sua amiga. Sem saber o que fazer, Rineth fugiu da multidão, ainda assustada. Entretanto, sua corrida logo fora interrompida por Allys, que já sem armadura, segurava e apertava o pulso da garota com força.
– “Eu odeio você.” — Dizia a moça de cabelos longos e negros, com rancor transbordando de seus olhos em forma de lágrimas.
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