Lavandula Angustifólia
1 Capítulo Único - Jardim
Notas iniciais
As vezes, existem pesos que só a escrita alivia. E aqui está meu alivio.
Solitária.
Thalia, de algum modo, sempre se sentiu sozinha. Nasceu assim. Ser filha de um três grandes carregou para si essa maldição. Mesmo em meio de semideuses iguais a si, ela sempre seria diferente. Sozinha. Não deveria ter nascido. Sua mera existência era a prova de promessas quebradas.
Um erro.
Um erro de pai. Piada. O deus dos deuses, ou, patife dos patifes, como Thalia preferia chamar seu doce pai. Que beleza existia em ser filha do deus dos raios? O deus dos céus violentos não seria capaz de apaziguar a terrível tempestade do seu coração. Seu peito retumbava em trovões tão poderosos que nem Zeus seria capaz de conjurar.
Lá dentro, em sua própria tormenta de raios, sabia que nunca esteve, de fato, de sozinha. Se fechasse os olhos, sua mente seria inundada por boas memórias, daquelas que sobrepõem as ruins. Lembrava da forma exata dos cabelos loiros e dos olhos acinzentados e curiosos de Annabeth, tão disposta a desbravar o mundo com sua astucia. Lembrava de a abraçar até dormir e sabia que naqueles instantes que segurava o corpo daquela pequena criança estava viva. Vivendo por alguém.
Em sua mente também vinha aquele cheio almiscarado. Uma floresta de ciprestes inteira que enchia seu coração e o fazia bater muito rápido. O sorriso de lado de Luke a fazia corar, mesmo que ela negasse o fato até o fim. A voz dele, sussurrando promessas de dias melhores a embalava até que o sono a dominasse, tranquila de estar segura com aquele filho de Hermes que amava.
Sua pequena família escolhida. Aqueles que lhe lembrava que sua solidão não era real fora de si. Os dias difíceis, fugindo e tentando sobreviver não eram nada comparados a alegria de ouvir o riso daqueles dois, fazendo planos impossíveis.
Mas... Mesmo naqueles momentos, onde a alegria que sentia seria capaz de derrubar a mais poderosa Harpia, ainda se sentia sozinha. Sentia que algo estava fora do lugar.
Talvez o seu próprio coração estive.
A solidão a acompanhou. Quando era árvore, que ironia, ela não sentia de fato, mas sabia, que ali, em algum lugar de madeira onde um dia foi seu peito, havia solidão. Mesmo que recebesse visitas, ouvisse histórias contadas por Annabeth sentada em suas raízes, mesmo que sentisse todos os corações dos semideuses do acampamento gratos por sua proteção.... Ainda estava lá. Aquele sentimento incomodo, doloroso.
Quando voltou a vida, ainda tinha amor ao seu redor. Luke não estava mais lá. Seu perfume não poderia a alcançar. Aquilo doía e tornava seus sentimentos ainda mais difíceis de sentir. Mas tinha Annabeth e agora tinha novas pessoas... Percy, Grover, Quíron... E tantos outros, dispostos a ama-la. Mesmo sendo ela filha de Zeus e podendo ser a criança da maldição.
Não se sentia digna desse amor. E não poderia carregar mais culpas. Sentir-se culpada por ser apenas Thalia Grace já era suficiente. Um raio não era nada comparado a força que seus sentimentos a dominavam. Não carregaria mais dores. Não seria ela o cumprimento de uma maldição.
Sua existência já representava uma promessa quebrada. Os três grandes não deveriam ter filhos. Mas ali estava ela, sendo tudo aquilo que o Olimpo desprezava. Não seria ainda mais. Não seria a causa da ruína de outros.
Foi por isso que se juntou as caçadoras. Ou... era isso que gostava de acreditar. Uma daquelas mentiras doces que contamos a nós mesmos com a intenção de afagar nosso próprio peito. O tipo de mentira que queremos acreditar.
Mas a verdade é que lá no fundo, sua vontade não era tão nobre. De fato, queria salvar seus amigos. Não queria causar dor a ninguém. Mas havia algo além que a moveu em direção a Ártemis. Uma promessa.
Nunca mais estar sozinha. Nunca. Uma eternidade ao lado de outras mulheres.
Mas ali estava ela, sozinha.
Thalia podia ouvir os risos altos de suas companheiras. Sentadas ao redor da fogueira, compartilhando eternas lembranças de caça, rindo de antigos momentos e sonhando com novas aventuras. Sentia o cheiro da caça assando. E podia até mesmo ver a própria Ártemis conversando ao fundo com suas caçadoras.
Mas Thalia não estava ali junto com elas. Sentada afastada, em um campo de lavandas, deixando que apenas o perfume das plantas em plena floração a acompanhassem. Se fechasse os olhos com força poderia ouvir o retumbar de trovões de um tempestade que iniciava-se.
Zeus estava irritado. Quase riu de seu pensamento. Que direito ele tinha de estar irritado? Nenhum.
Mas não havia nada o que fazer. Sejam os deuses, sejam semideuses ou sejam as caçadoras, ninguém poderia cura-la. Nada colocaria fim em sua solidão. Thalia já havia aceitado esse fato.
Sempre haveria em si esse sentimento.
Mas talvez fosse isso que a tornasse quem ela era. Não a Thalia, filha de Zeus. Não Thalia, a árvore da barreira. Não Thalia, a caçadora. Apenas Thalia, Grace. Apenas Thalia, a menina solitária.
Sua solidão poderia ser sua própria companhia. Tal qual as lavandas acompanham umas as outras. O perfume de uma, acalmava a outra. Talvez assim pudesse fazer. Acalmar a si mesma com sua própria solidão. Ser ela mesma sua lavanda.
Amaria sua própria solidão. Assim como amava Annabeth, Jason, Percy e todos os outros. Como amou Luke. Amaria sua dor, como ela era. Não procuraria mais a cura. Não existia, afinal.
Sentiu um pingo em seu nariz. A tempestade começou. E a em seu peito... terminou.
Notas finais
Estava há muito tempo sem escrever.
Um dia eu volto.
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