Lava que traz...
1 Não dá em nada.
Sabe que eu acho engraçado? Quando você vem e me diz que água é molhada, fogo queima, o sol clareia e a noite é escura? Porque eu vivo como se nenhuma dessas coisas fosse verdade e isso te enfurece tanto, sua vida é repetir essas obviedades pra cima e pra baixo. E eu sei que eu decepciono mais do que o normal, que você tinha todas essas expectativas sobre mim que eu engoli sem mastigar, excretei pra fora de mim sem pensar duas vezes...eu sei. Pode acreditar, eu também me decepciono.
Constantemente, ervas daninhas brotam, incômodas, no jardim verde e alvo da minha consciência escapista. Me sinto com raiva, quero viver em paz, e quero escapar de todas essas suas verdades mais do que nunca na vida, mas me perseguem bem demais...eu não consigo fugir. É impossível. Então, sim, eu me decepciono quando vejo que decepciono você. Quando vejo como funciono. Mas isso não muda o calor que molda meu corpo, a brasa que incendeia meu coração, a lava que inunda meu cérebro, queimando todo o verde do jardim de uma vez. Eu também não posso escapar de nada disso, entende? E você, e o mundo, e tudo que eu quero fazer e tudo que eu não quero ser voltam e fertilizam o chão numa velocidade impressionante, todas minhas flores crescendo junto das suas ervas ao mesmo tempo só para o tempo passar mais um pouco e, bem antes que alguma coisa na porra desse solo mature o suficiente para uma decisão ser tomada e um ponto final pingado nessas páginas, de novo vem a lava.
E ela me mata, implacável como sempre, para começar tudo de novo.
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