Lauren Page e o Mundo Subterrâneo
8 Capítulo 07: Não sei o que diabos aconteceu aqui, mas deu certo
Notas iniciais
Não sei como explicar o que eu senti. De verdade. É como se tudo tivesse explodido à minha volta e só eu pudesse sentir o impacto.
Ouvi o grito de Blanche, o som que a minha pele fazia enquanto queimava e derretia, minha roupa rasgando e sumindo, meu cabelo voando e uma dor insuportável. Eu me senti saindo do meu próprio corpo, e não importa o quanto eu tente explicar essa sensação, acho que nunca vou chegar a exatamente o que é isso.
Acontece que a minha alma não saiu e foi para o além. Não, muito pelo contrário. Ela saiu e eu vi o tempo voltar.
Eu estava refazendo os meus passos de trás para frente (ou seria de frente para trás? Isso me deixa confusa). Me vi batendo no terian, vi Blanche chegando para acertá-lo por trás, nos vi conversando mais afastados, o vi me puxando... eu era uma expectadora. Será que nem morrendo ou com a alma sumida eu consigo um flashback decente da minha vida? De toda a minha vida?
Me senti de novo no meu corpo enquanto ele estava falando comigo algo que não prestei atenção. Ele fala e dava instruções, acho, mas eu ainda estava assustada pelo que tinha acontecido logo antes (antes? Sei lá, linhas do tempo me confundem), então, obviamente, Blanche não entendeu quando eu tirei meu casaco, joguei no chão e comecei a olhar meus braços e mãos como se minha vida dependesse disso. Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido, e, talvez, até tivesse, mas estava mais preocupada em sentir meu rosto perfeitamente conservado nas minhas mãos perfeitamente conservadas. Eu estava viva, continuava linda e tinha acabado de voltar no tempo. Estou começando a ter dúvidas sobre o meu não envolvimento com drogas nesses últimos anos. Só que eu estava feliz demais por estar inteira para poder ligar pelo sentido ou gravidade da situação, então inconscientemente comecei a fazer a minha gloriosa dancinha da vitória.
— Lauren, o que deu em você?
A voz dele me chamou a atenção e eu parei a minha gloriosa dancinha da vitória. Olhei para ele sem conseguir tirar o sorriso do rosto.
— Blanche, você não viu o que aconteceu?
— Não —ele me olhou estranho, como se achasse que sou um pouco louca.
— Oh — eu não sabia se deveria contar a ele, mas decidi pensar nisso depois.
— Entendeu o que eu falei?
— Sim. Distrair, você me dá cobertura, você some, e quando você aparecer, eu tenho que sumir. Certo?
— Certo, mas como você sabe?
— Você me disse.
— Eu não tinha dito ainda.
— Oh— eu me estava numa saia justa. Não uma daquelas saias justas sexy, quem destacam as curvas do seu corpo e faz as pessoas imaginarem o que acontece se elas levantarem a saia, não. Era aquelas saias justas apertadíssimas, que não deixa a gente andar, respirar ou chutar alguém. Por isso tenho a impressão que não sou uma garota de gostar de saias ou de vestidos. Calças me deixam correr e chutar pessoas, então, obviamente, são melhores. — Bem, o importante é que sabemos o plano. Agora a gente vai e...
Eu fiquei tão entretida na bagaceira de ser uma máquina do tempo ambulante que nem notei que o terian já estava na minha frente. Nem Blanche notou. O monstro levantou sua mãozona e acertou Blanche, jogando-o longe. Eu fiquei assustada, mas não tanto quanto seria saudável, e decidi que ia segurar o bicho até Blanche voltar, o que eu espero sinceramente que ele faça. Eu chutei o monstro, ele me chutou, eu defendi, soquei ele, ele se esquivou e me deu um soco fortíssimo no abdômen. Eu nem senti nada até perceber que estava voando.
Eu devo ser um tipo de Mulher Maravilha que volta no tempo!
Mas percebi, para minha imensa tristeza, que eu não estava voando. Eu tinha sido jogada. Sou uma Mulher Maravilha do Paraguai. Eu senti minhas costas baterem num prédio atrás de mim e ouvi o ar escapar dos meus pulmões num arquejo. Eu caí no chão, me ajoelhei e vi o terian andando com sua perna manca. Eu estava ofegante e minhas costas doíam muito, mas eu ainda tinha meus movimentos, o que definitivamente era uma notícia boa. Procurei algo no chão que pudesse me ajudar a combater o terian, mas achei vários nadas. Eu consegui ver Blanche correndo em nossa direção com seu bastão e o terno completamente sujo. Minha missão era distrair, então eu resolvi distrair.
Joguei uns tijolos que encontrei, mas nada que pudesse pará-lo de verdade. Blanche estava quase chegando, então eu avancei no terian e chutei seu peito que força. Ele abriu a bocarra para morder minha cabeça, mas eu coloquei o braço na frente. Dor irradiou do meu braço quando seus dentes perfuraram minha carne. Blanche já estava atrás dele e eu fiz o que devia ter feito antes: me afastei. Claro que, para isso, tive que puxar meu braço, e fiquei com vários cortes fundos e grossos na carne. Assim que meu braço se soltou, eu me joguei no chão e me arrastei para trás o mais rápido que pude. O terian se distraiu com a minha vulnerabilidade e não percebeu quando Blanche enfiou o bastão em sua cabeça. O bicho lá explodiu, mas eu não fui atingida. Só o meu braço que estava cheio do cuspe verde com sangue verde e os cortes. Ardia horrivelmente. Eu tinha literalmente deixado jogarem ácido na minha ferida.
Blanche se aproximou e eu senti sua aura de preocupação, frustração e culpa. Ele apanhou meu casaco do chão enquanto me assistia ficar mais e mais pálida e arfando mais e mais.
— Não... foi sua culpa — eu falei entre as respirações ofegantes e os gemidos por causa da dor. — Antes estava muito pior. Eu que fiz assim. Eu que não... ah... tomei cuidado. A culpa não é sua...
O rosto dele continuava impassível. Eu senti a mão dele no meu ombro enquanto ele guiava para onde os cinco soldados haviam se reunido, perto da nova nave que tinham acabado de enviar. A aura dos soldados era de vergonha e até um pouco de culpa, mas notei que Blanche não sentia raiva deles. Ele só estava preocupado.
— Vocês cinco estão bem?
Todos concordaram, apesar de um ter quebrado um braço e outro ter torcido o pé. Fora isso, só ferimentos superficiais.
— Ótimo.
Com isso, entramos na nave. Eu ganhei uma cadeira nessa viagem (uhu), onde assim que sentei, algum soldado colocou cuidadosamente os cintos em mim tomando cuidado para não machucar meu braço. Eu ainda gemia de dor. Estava doendo menos, mas ainda doía pra caralho e isso não era nem um pouco divertido. Marco apareceu sem falar muita coisa, apenas ligou a nave e deu a partida. O silêncio reinava ali, exceto pelas minhas arfadas e gemidos.
— Alguém aqui tem conhecimentos médicos? Primeiros socorros? Alguém pode ajudar? — Blanche perguntou, parecendo impaciente.
— Eu tenho — Hiro apareceu com uma caixa de esparadrapo, curativos, uns remédios e até coisas para costurar cortes. — Achei isso daqui, acho que posso dar uma ajuda. Mas é bom preparar uma equipe médica assim que chegarmos. A tendência desse tipo de ferimento é ficar pior.
— Espera! James, assume aqui e liga para os doutores — Marco se levantou e James assumiu sua cadeira de piloto. Marco tirou o celular do bolso e, em vez de mandar alguma mensagem pedindo ajuda ou qualquer coisa parecida, ele começou a tirar fotos do meu braço. Eu estava me acabando de dor ali, com um ferimento causado pelo monstrinho demoníaco lá e ele querendo tirar foto. — Eu sei o que estão pensando, mas a doutora gosta de ver todo tipo de ferimento com relação direta aos terians. E esse daqui está...
— Se ela quisesse ver, ela teria vindo. Não teríamos que passar a viagem com a garota morrendo de dor sem sequer uma anestesia. Hiro, faça o que conseguir. Quero a equipe médica a postos para estarem com tudo pronto assim que pousarmos. — Blanche tirou seu paletó sujo e ficou perto do soldado com o braço quebrado. — Eu sei que não é muito higiênico, mas é o que temos. Vai pelo menos te ajudar até chegarmos na base — ele colocou o braço do soldado no paletó, amarrando as mangas atrás de seu pescoço. Uma perfeita tipoia improvisada com tecido caro e sujo.
Depois de ter arrumado uma caixa para que o cara com o pé torcido pudesse apoiar o pé, ele voltou a mim e a Hiro. O japinha era bom. Ele tacou um monte de coisas no meu braço, limpou, jogou mais um monte de coisas, costurou, borrifou mais alguma coisa e enfaixou. Eu mal sentia dor agora. Ele era um médico, enfermeiro ou sei lá o quê muito bom para quem trabalhava tomando banho de graxa.
— Prontinho. É o melhor que posso fazer nessas condições.
— Tudo bem. O seu melhor deve ser suficiente — Blanche respondeu antes de voltar para sua cadeira. Marco já estava pilotando a nave mais uma vez, parecendo um pouco tenso (ou talvez estivesse pressentindo o clima de tensão?). Hiro sentou na sua cadeira que ficava ao lado de James.
Notei que todo mundo ali estava meio puto por alguma coisa. Blanche por ter soldados feridos sob seu comando. Marco porque, provavelmente, a nave foi para o brejo porque ele não prestou atenção o suficiente para desviar do poste (sim, descobrimos que foi um poste!) que o maldito terian jogou. Hiro também estava puto, porém confuso demais para eu entender, e James estava puto porque Hiro estava perto. Percebi que ele não tinha raiva do japa. Quero dizer, até tinha, mas o tamanho do seu medo, desconforto e sentimento de humilhação superava, e muito a sua raiva. Já os soldados estavam putos porque fizeram merda e dois se foderam. Eu estou puta também, esse troço dói pra caralho e parece que fica indo e voltando. Eu não sinto nada, e depois parece que trituraram meu braço. Aí eu não sinto nada de novo e o ciclo se repete infinitamente por toda a eternidade sem fim. Que bela merda.
Depois de toda essa loucura enfrentando o terian e toda essa bagaceira de quase morrer, voltar no tempo e foder o braço, eu não lembrava nem que tinha escapulido do laboratório. Isso só me voltou à cabeça quando a nave pousou e eu vi a doutora de braços cruzados olhando para mim e para o Blanche com uma imensa aura de preocupação, frustração e decepção. Por Olorum, todo mundo nesse lugar é triste desse jeito? Que deprimente.
Eu desci a rampa assim que ela abriu. Os médicos chegaram e passaram direto por mim, indo atender o cara do braço quebrado e a menina (ela tirou a máscara e era uma menina. Ou eu sou muito lesada ou ela é muito reta, porque eu não percebi) que tinha torcido o tornozelo. Blanche abriu a boca para gritar ou reclamar ou fazer qualquer Blanchezice quando a doutora interviu.
— Eu pedi para eles atenderem aqueles dois. Eu cuido da Lauren. Não acredito que você a deixou ser mordida por um terian!
Ok, isso era injusto. Blanche colocou toda a equipe na frente dele o tempo todo, ele se preocupou até com os babacas que fizeram merda. A culpa não é dele, não tinha condições de ser, mas senti sua aura se doer um pouco mesmo assim.
— Não é como se eu tivesse oferecido o braço dela ao terian. Agora, eu preciso de apoio médico agora, ou você prefere continuar reclamando?
A doutora bufou e olhou meu braço. A ouvi suspirar.
— Foi o Hiro quem fez?
— Sim — Blanche respondeu.
— Então está bom. Passe no meu laboratório que eu faço alguns exames e...
— Desculpe, dona — Blanche estava parecendo irritado. — Você realmente vai confiar no curativo de um mecânico? Isso é mordida de terian. Você não entendeu isso ainda?
— Primeiro, eu não fiz quatro doutorados para ser chamada de dona aqui. Segundo, se o mecânico for o Hiro, sim. Terceiro, escuto muitíssimo bem, caso queira saber. E outra: tudo isso não teria acontecido se você não tivesse levado a menina nessa sua aventura maluca. Ela é a nossa chance de consertar o mundo, não podemos jogá-la num ninho de monstros e ficar assistindo!
— Então é isso que você acha que eu fiz? A joguei num ninho de monstros? Olha, eu posso ter até deixado ela se ferir, o que definitivamente não foi minha intenção, mas eu nunca arriscaria a vida de um dos meus de graça. Eu tenho honra e cumpro com as minhas responsabilidades, em vez de jogar as minhas para um garoto de vinte anos que nem é da área de medicina!
— Ora, faça-me o favor! Hiro já me cobriu outras vezes. Além do mais, você está vendo o curativo aqui. Não tem nada que se possa fazer contra veneno de terian. Não deixa resíduos para avaliar, não tem contaminação para remover, ele só queima e dói. Só podemos esperar agora.
— Você vai realmente deixá-la nesse estado sem sequer fazer um curativo melhor?
— Ela é a chance de salvarmos o mundo. Você acha que eu a deixaria desse jeito caso realmente não confiasse que o curativo está bom?
—Ela é uma garota, caramba! Ela é uma pessoa, ela é jovem, ela tem opiniões e tem vontades. Ela não é e nunca será uma arma ou um estúpido experimento de uma doutora a qual ninguém nunca ouviu falar e bateu na porta com uma carta de recomendação. Ela se apresentou como Lauren, então ela é Lauren. Ela pode ser a cura do planeta, ela pode ser até o Papai Noel, mas antes de tudo, ela é Lauren e ela pode escolher. Se ela quiser se arriscar lá fora e ajudar pessoas, eu não vou impedir. Se ela quiser ser um rato de laboratório, não vou impedir também. E se ela mudar de escolha mais tarde, eu vou aceitar. Você é uma cientista maluca se não concorda comigo.
— Escuta aqui, soldado. Eu...
— CHEGA, CACETE!
Os dois olharam para mim meio assustados. Notei, pela aura deles, que ambos se sentiam incomodados com palavrões. Bem, que pena. Mas tô vendo que vou ser obrigada a diminuir o ritmo.
— Blanche não me levou, eu fugi. Ele me protegeu, e ele protegeu todo mundo. E a doutora me ajudou quando eu cheguei aqui e me fez sentir uma pessoa mais normal, até um pouco querida. Em compensação... — suspirei. — Não posso ser uma cobaia para sempre. Eu posso ter me machucado, mas eu gostei do que eu fiz, e eu descobri novas habilidades. Eu posso... — eu deveria contar? Demorei um tempo para voltar a falar enquanto pensava — cair de costas num prédio com uma força incrível e ser capaz de lutar. Eu tenho essa força e essa velocidade e eu posso salvar pessoas com isso. Não sei se sou a cura, nenhum de nós tem como saber, mas eu sei... eu sinto que eu tenho mais a oferecer lá fora. Lutando. Com Blanche.
A aura de solidão, decepção e raiva foi imensa. Foi como um tsunami de tristeza me invadisse, levando vários destroços de uma cidade de raiva que a onda arrastou. Incrivelmente, o rosto dela não demonstrava nada disso.
— Tudo bem. Não pense que você é um rato de laboratório para mim, Lauren, porque você não é. Você sabe que não — ela olhou para Blanche. — Se ela se machucar, se ela morrer — A fúria no olhar foi tanta que até eu me assustei. — Eu acabo com você.
Eu não podia saber se ela estava com raiva do Blanche por me levar, se estava com raiva de perder a chance de me examinar ou se ela queria uma desculpa para bater na cara dele. A aura dela parecia uma mistura dos três, mas nenhum ao mesmo tempo. Era a aura de quem tinha muito a esconder sobre si mesma e sobre como se sentia aos outros. Miranda Fernandez é uma mulher muito mais sombria do que aparenta.
— Antes de ela morrer — Blanche falou firmemente. — Não vai ter "eu" para você acabar.
A doutora o olhou por mais alguns segundos e girou nos calcanhares, andando pesadamente de volta para o laboratório. Blanche suspirou. Eu podia sentir o seu cansaço e sua vontade de se jogar na cama, mas ele ainda chamou um enfermeiro para mim.
— Ei, amigo, você pode dar uma olhada no curativo dessa moça para mim? Estávamos sem médico, um mecânico que fez e a gente queria, sabe, por via das dúvidas...
O enfermeiro assentiu e correu até nós com a sua malinha de coisas de enfermeiro. Eu nem lembrava que meu braço estava lascado até Blanche falar. Eu só conseguia lembrar dele e da doutora se ameaçando enquanto eu me sentia a garota mais disputada do baile e a mais enganada ao mesmo tempo. O enfermeiro começou a tirar as faixas, o esparadrapo e toda a camada de sei quê lás que Hiro colocou no meu braço até sobrar apenas algodão. E então, ele o retirou devagar.
O algodão estava cheio de linha. Meu braço estava curado, sem pontos e com cicatrizes bem leves da mordida.
— Uou — eu suspirei. — Eu não lembrava de conseguir fazer isso.
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