Lauren Page e o Mundo Subterrâneo
7 Capítulo 06: Eu simplesmente me ferrei toda, uhu
Notas iniciais
Sabem, estou nessa nova vida há uns dois dias, mas me acho a pessoa mais azarada do planeta. Puta que pariu.
A nave continuava tremendo e girando e indo para baixo enquanto Blanche encarava o teto, Hiro dava gritinhos (eu não esperava por isso), os soldados tinham dado as mãos e pareciam estar se despedindo. E eu estava deitadas em cima das caixas, com a cabeça esticada e as pernas abertas como se estivesse posando para a Playboy, mas eu só queria não sair voando mesmo.
Marco pegou o celular e ligou a câmera. Começou a gravar um vídeo, e eu não faço ideia do que ele estava dizendo, só sei que ele estava soluçando e chorando terrivelmente enquanto gravava. Do nada, a nave se estabiliza mais e todo mundo se olha. Marco derruba o celular, Blanche olha para os soldados para checar se eles estão bem enquanto eles se abraçavam nas cadeiras. Eu continuava em cima das caixas posando sensualmente e convidando uma incrível parede de metal para me conhecer melhor. Que lindo.
— Consegui ajeitar mais ou menos. Dá para o gasto. Não vamos nos espatifar. — James chegou sujo, cheio de fuligem e com alguns cortes nas mãos. Hiro tirou o cinto, se levantou como um raio e abraçou nosso salvador. Todo mundo parou para olhar a cena, até Marco, que estava com a cara toda inchada e devia estar preocupado em pousar a nave. Hiro se soltou dele e sua aura se encheu de vergonha, alívio e uma alegria contida.
— Valeu por ter nos salvado, cara. De verdade.
— É, até que fiz um bom trabalho, para um viadinho.
James andou até sua cadeira, colocou os cintos e olhou para o outro lado. Hiro estava chocado, mas logo substituiu seu rosto de choque para um sacana usual.
—Tem razão. Para um viadinho, dá para o gasto.
Silêncio. Tensão. Marco pousou a nave do melhor jeito que pôde, o que quer dizer que balançou bastante, todo mundo se assustou, Blanche estava impaciente e eu (com minhas lindas amigas caixas) estávamos rolando e fazendo várias posições lindas dignas de um kama sutra nos fundos da nave. Estou surpresa como alguém não percebeu que estou aqui sensualizando com a minha bela bunda.
Sendo sincera, minha bunda não era lá essas coisas também não, eu sou bem reta, mas a bunda é minha e é a bunda mais bonita do mundo, se quer saber. E não, eu não vou mostrar.
Finalmente essa joça voadora encostou no chão. O cheiro de queimado voltou, para a nossa alegria, e os painéis estavam dando erro.
— Saiam todos, eu vou pedir para que tragam outra nave — Marco falou, enquanto pegava o celular do chão.
Os cinco soldados saíram correndo em uma fila, perfeitamente organizados. James e Hiro foram checar as caixas, ou seja, vieram me checar, e eu notei a surpresa deles ao me ver com a bunda para a lua naquela bagunça.
— Lauren? — James perguntou. — What the hell... O que danado você está fazendo aqui?
— Saindo — dei um sorriso besta, levantei meu belo popô e saí andando rapidinho como se estivesse apressada para ir ao banheiro. Os dois estavam tentando levar as caixas para a fora, e senti na aura deles que eles não ligavam para a minha presença simplesmente porque estavam preocupados com outras coisas. Ótimo para mim.
Saí da nave e parei. Paris tinha mudado muito. Nuvens espessas cobriam o céu, as ruas estavam desertas, casas destruídas e um prédio em chamas na esquina. Lixo jogado por aí, pichações xingando a família de alguém até a décima sétima geração ou mandando enfiar toda a sua décima sétima geração no seu aparelho excretor. Criativo. O vento era gelado e estranho. O ar não parecia com o daquela base estranha: ele era mais pesado, quase como se fosse tóxico. O mundo tinha virado preto e branco.
Ouvi um barulho e o terian caiu a uns bons dez metros de mim. Ele era, na melhor das hipóteses, terrível, horrível e nojento. Sua cara era roxa toda retorcida, não tinha olhos ou nariz ou boca visíveis, seu corpo todo estava cheio de marcas horrorosas, como se alguém tivesse pegado seu corpo e torcido como um pano de chão. Suas mãos, que pareciam garras, eram cinzas com partes roxas. Ele era esguio e alto, parecia a selvageria ambulante, a toxicidade com pernas. Me vi com uma vontade imensa de vomitar.
Os cinco o cercaram, armas em punho, prontos para atacar. Blanche estava fazendo parte do círculo também. Notei que ele queria começar atacando, mas algum outro solado partiu para cima do terian. Blanche não esperava isso e parou de correr na hora, fazendo com que o terian pudesse pegar o soldado e jogar longe. Fodeu.
— Esperem! Pessoal, esperem!
Os quatro soldados atacaram de uma vez. Nem precisei sentir suas auras para entender o que estava acontecendo: estavam tão focados em impressionar Blanche que se esqueceram de todas as medidas preventivas e tudo o mais. Pelo que o branquelo falou, aquilo era um terian fora do normal, muito forte e violento. Não é do tipo que você pode correr para cima do nada.
Mas uma coisa eu notei: o terian não chutou nenhum deles. Ele simplesmente os jogava para longe. Levou alguns tiros, mas mal sentia dor. Os soldados avançaram de novo. Um tentou socar o bicho, mas o terian se esquivou, o agarrou pelo braço e o jogou longe. Longe dele e perto de mim, na verdade. Tipo, há uns dois metros. Então eu dei uma corridinha marota e peguei uma arma grandona e bonita que estava com ele.
— O que... menina, devolve a minha arma! Você tá maluca?
— Isso não é mais uma arma. Ela se chama Geise agora. E como eu a batizei, possuo o direito de porte dela.
— Isso não faz sentido algum.
— Foda-se.
Eu saí com a arma dele e o deixei reclamando lá atrás. Todo mundo ainda estava levando um cacete, e Blanche aparentemente tinha decidido assistir a tudo aquilo de braços cruzados. Sua aura dizia que ele estava irritado, frustrado e muitíssimo decepcionado. O terian bateu os quatro, jogou todo mundo na puta que pariu e eu fiquei na frente dele. Senti de Blanche a aura de ansiedade e expectativa. O terian veio correndo para mim e eu simplesmente atirei nas suas pernas feito uma louca. Ele abriu uma boca (eu não sei de onde aquela porra surgiu, mas ela surgiu e era horrorosa) cheia de dentes super afiados na minha direção enquanto gritava de dor e raiva, mas eu não me mexi. Continuei atirando. Eu sabia o que Blanche queria fazer.
O albino surgiu do lado do terian, acertando um chute certeiro em sua cabeça. O terian caiu para o lado e rosnou de raiva. A aura do terian (se é que se pode chamar aquilo de aura) era confusa demais para ler, pior até que a de Hiro. Era um buraco negro, e eu estava com medo de chegar perto demais e ser sugada para aquele redemoinho de insanidade. O terian se levantou e estava furioso. Blanche olhou para mim e sorriu. Ele. Sorriu. Blanche sorriu. Eu nem sabia que os músculos da face dele conseguiam fazer essa incrível e complexa ação. Uau. Estou me sentindo importante agora.
O terian correu até nós e eu percebi o que devia fazer. Blanche era o experiente: ele sabia onde acertar e como acertar. Eu tinha capacidades de luta que vieram de algum lugar que eu esqueci. Se eu distraísse o terian o suficiente, Blanche teria uma boa abertura para acabar com isso de vez.
Então, quando o terian veio com sua bocarra aberta como se fosse engolir minha cabeça, eu chutei seu abdômen com toda a força e atirei no meio das suas pernas. Ele gritou e me pegou pelo casaco, mas Blanche apareceu e cortou sua mão fora com a parte cortante do bastão (que eu nem sabia que tinha). Ele me afastou do terian que gritava e urrava de dor.
— Lauren, o sangue deles é ácido. E observe — a mão do terian começou a virar fumaça até simplesmente sumir. — Eles sempre se dissolvem. O sangue é ácido o suficiente para fazer um ótimo estrago antes de sumir, portanto tome cuidado. Você distraiu ele muito bem até agora. Continue fazendo isso, eu te dou cobertura. Quando eu aparecer, se afaste, entendeu? Você está melhor que meus soldados novatos aí.
Eu não consegui não sorrir. O cara chato da organização não era tão chato, só era... temperamental? Irritadiço? Não sei, mas eu sentia bondade e gentileza genuína na aura dele, então não tinha por que não sorrir.
Ele acenou para mim e eu acenei de volta. Atirei contra o terian, mirando onde eu percebi que ele sentia mais dor: no joelho esquerdo. Mas atirar correndo é difícil, então eu não acertei nenhum tiro lá e, por isso, ele conseguiu seguir correndo com alguns grunhidos e machucados. Blanche já havia sumido do meu campo de visão. O terian chegou mais perto e eu atirei em sua cabeça e, para minha agradável e imensa surpresa, a munição tinha acabado. O terian estava na minha frente agora, e eu vi Blanche atrás dele com o bastão. Seria fácil: ele acertaria o bicho seja lá onde ele tenha que ser acertado e isso acaba. Mas não foi isso que aconteceu. Quando Blanche vinha se aproximando, o terian virou para ele. Gelei na hora.
Tudo se passou como em câmera lenta: O terian se virando para ele, levantando a mão para acertá-lo na cabeça e feri-lo gravemente. De algum modo, o ritmo ragatanga desceu em mim. Eu não sei dizer o que houve, apenas que peguei a arma sem munição que estava nas minhas mãos e bati com toda a força no terian. Ele se virou para mim rapidamente, a bocarra aberta a centímetros da minha cabeça quando o bastão de Blanche atravessou a sua testa, fazendo a criatura praticamente explodir.
— NÃO! — Eu ouvi Blanche gritar. Levou um segundo para eu perceber o que tinha acontecido: Eu devia ter me afastado. Eu realmente devia. O sangue inteiro do terian estava no meu corpo e eu escutei minha voz dando um urro lancinante. Parecia que eu estava gritando em outra dimensão. Senti meus joelhos cederem, senti a aura de desespero e surpresa das pessoas presentes. Olhei para as minhas mãos derretendo na minha frente, os ossos fumegando enquanto eu ouvia minha voz urrar e quebrar, enquanto sentia o meu cabelo cair, enquanto sentia minha alma se esvaindo devagar...
Até não sobrar nada.
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