Lauren Page e o Mundo Subterrâneo
6 Capítulo 05: Minha aventura como espiã e esses dois caras me dão nojo
Notas iniciais
Saímos andando pelos corredores. Quando eu digo saímos, quero dizer que eles saíram e eu fui atrás. Eles andavam rápido, e eu tentava ficar perto para ouvir a conversa. Pode não parecer muito educado, e, de fato, não é, mas eu estou no quinto dos infernos com um povo que veio da boba da peste e com dois estranhos indo aonde Judas perdeu seus All-Star cano alto de edição limitada. Tenho todo o direito de ouvir a conversa sim.
Para falar a verdade, não tenho o direito não, apenas não me importo.
A aura deles se tornou mais clara. A de Blanche era um redemoinho no meio de uma tempestade no meio de uma beyblade no meio da maior tempestade de Júpiter. Sério. Tinha de tudo ali: ódio, raiva, desconfiança, tristeza, mágoa, raiva, fúria, cansaço, raiva, dúvida e um pouco mais de raiva. Ele devia ter um temperamento difícil. Já Marco tinha a aura resumida em três palavras: Tô nem aí. Ele parecia levemente incomodado com a relação maluca e psicótica entre Blanche e a doutora, levemente com preguiça por causa da missão e 97% de simplesmente não ligar para todo o resto. Mas senti um tequinho de curiosidade também. Se ele decidisse que ia começar a sessão de interrogatório, eu teria que me aproximar para ouvir. Então fui andando alguns metros atrás deles e, sempre que algum soldado passava, eu continuava olhando para a frente como se fosse algum tipo de convidada que anda devagar demais. Acho que o exército desse povo é uma bosta, porque nem para se certificar de que eu tinha permissão eles serviam. Decepcionada com a Chave Tosca.
— E aí, Blanche... vai me dizer qual foi aquela com a doutora gostosa ou prefere me deixar curioso.
Blanche suspirou. Eu ia suspirar também, mas não queria chamar a atenção. Eu concordava com a parte da doutora ser gostosa (ela era alta, tipo um metro e setenta e alguma coisa, tinha seios fartos, cintura fina e tudo o mais), mas é como se isso fosse a doutora inteira. Tipo, deixa eu tentar explicar: a doutora vive cansada, aparentemente sempre está pensando no trabalho, tem algum problema com quase todo o resto desse povo aqui e tem um laboratório maluco cheio de anotações malucas organizadas malucamente. Parece impossível que ela ganhe qualquer outro adjetivo que não seja relacionado à beleza. Nem para dizer que ela é a doutora desorganizada, a doutora cansada, a doutora que não dorme ou coisa parecida. Nããão, ela é a doutora gostosa, porque o tamanho do seu sutiã ou a rigidez da sua bunda é muitíssimo mais importante que todas as suas conquistas, atitudes ou sentimentos. Também não quero dizer que você não pode chamar alguém de gostoso ou usar como adjetivo, claro que pode (mas não invente de gritar isso na rua, pelo amor de Olorum e Iemanjá), mas esse é o único adjetivo usado por todo mundo aqui. Exceto, é claro, pelos elogios carinhosos e afetuosos que Blanche disparou. Enfim, vou deixar minha guerra social sobre adjetivos e pessoas babacas para mais tarde.
— Aquilo que ela falou era mentira, Marco — ele passou a mão nos cabelos cacheados e bagunçados, tentando tirá-los dos óculos. Nem adiantou, foram para o meio da cara dele novamente. — Eu conheço a filha do doutor Fernandez. Ela se chama Melissa, é loira dos olhos verdes, é bem mais baixa e nós somos amigos há muitos anos. Acho que desde que éramos crianças, talvez? Enfim, ela não tem nada a ver com o doutor, entende? O jeito de arrumar o laboratório, o jeito de agir, as palavras que ela escolhe, nem mesmo o jeito que ela se veste ou se arruma. Jaime era muito, muito rígido com a vestimenta e com a aparência. Ele nunca na vida iria deixar uma pessoa como aquela trabalhar aqui, muito menos por indicação.
— Certo, ela anda desarrumada, isso é um problema? Eu acho sexy. Tipo, a camisa amassada e abotoada errado, o cabelo bagunçado, o jaleco troncho. Parece que ela acabou de...
— Marco, entenda a questão — Blanche o interrompeu e eu agradeci mentalmente por isso. — Ela mentiu sobre seu nome, mentiu sobre sua relação com o doutor e sobre ser indicada por ele. Já perdi um esquadrão inteiro por isso uma vez. Um soldado que não sabíamos exatamente de onda havia vindo apareceu e simplesmente o deixamos ficar. Ele sabia nossos nomes, sabia nossas histórias, conhecia nossos superiores, usava nosso uniforme e tudo o mais. Quando acordei no meio da noite, tudo... tudo estava...
Eita porra, eu não esperava por essa. Sério. Então é por isso que ele não confia na doutora. Bem, eu não encontrei traços de algo que possa apontar para uma traição na aura dela, mas ela era tão triste, solitária e cansada... talvez seja uma possibilidade real. Cacete, a única pessoa que eu confiava nessa merda pode ser uma traidora assassina. Ah, eu estou muito fodida.
— Sinto muito, Blanche. Conhecendo você, aposto que se culpa até hoje. Mas não é culpa sua. Isso acontece e você tem que superar — ele parou de andar. — Você é um soldado e comandante incrível. Você é bom estrategista e bom lutador. Você vai dar conta de qualquer traidor, sexy ou não.
Ah, meu cu. Ele é bom lutador e a outra é traidora sexy. Sinceramente, eu não sei se algo aconteceu nesses nove ou dezenove anos perdidos, só sei que eu fico puta da vida quando escuto algo assim. É quase incontrolável. É como se eles estivessem me ofendendo junto. Ok, possivelmente aconteceu alguma coisa mesmo, mas ainda acho o Marco um babaca e vocês não podem me impedir, lá lá lá lá lá.
Eles entraram (e com "eles" quero dizer nós) num corredor esquisito e pegaram um elevador. Ô merda. Fiquei olhando de longe, escondida atrás da parede e vi que a luzinha acima do elevador tinha um T vermelho e uma setinha para cima. Eu estava ansiosa, dando pulinhos e expirando pela boca para controlar o nervosismo. Assim que outro elevador abriu (tinham vários, uns quatro ou cinco. Imagino que o prédio seja realmente grande), entrei e apertei o T também. O elevador era incrivelmente rápido. Pelos botões, suspeitei que tivesse cerca de sete ou dez andares. É porque tinham uns botões estranhos que eu não sabia se significava um andar ou um comando especial, tipo pedir canjica. A porta abriu alguns andares na frente e uns cinco soldados entraram. Todos eles com máscaras pretas, camisas justas de mangas longas, calças, botas, luvas e várias armas presas em diversos lugares. No quadril, coxa, costas, botas, canelas e tinha um com a faca presa no braço. Todos eles usavam armas diferentes e as colocavam em lugares diferentes, apesar de usarem o mesmo uniforme preto. Acho que a Organização Chave Zero à Esquerda era meio pirigótica dark trevosa das noites sombrias e nebulosas de agosto. Aposto que as reuniões dos chefes eram feitas em cemitérios com todo mundo tomando sangue como se fosse vinho e ouvindo Evanescence.
Chegamos a um puta galpão gigante. O teto era aberto, e eu podia ver o céu azul sem nuvens. Ali era incrivelmente quente e tinha gente indo e vindo o tempo todo. Tinha um monte, um monte de naves e carros e motos e todo o tipo de coisa. Mecânicos por toda parte, sujos de graxa, com óculos parecidos com os de James e um monte de ferramentas esquisitas. Falando em James, ele apareceu segurando uma caixa com Hiro segurando duas logo atrás. Eles não me viram e foram andando em direção a uma nave. Os soldados começaram a ir naquela direção, então dei uma de Maria-vai-com-as-outras e segui o bonde. Quando estavam entrando na nave, eu fui junto. Uns dois se viraram para mim e eu coloquei minha melhor cara de pastel novamente:
— Dia bonito para pegar uns caras maus, né?
Eles concordaram. Valeu, Olorum! Quando entraram na nave, eu peguei a deixa e me escondi atrás de umas cargas que tinham lá. Algo como caixas esquisitas e resistentes. Eu empurrei um pouco e fiquei entre elas e a parede, sentada no chão e abraçando as pernas, mas deixei um espacinho entre duas para que eu pudesse esticar a cabeça e ver como estavam as outras pessoas naquela joça.
Blanche apareceu lá na frente. Os soldados se sentavam e colocavam os cintos. Algo sobre eles checarem os cintos várias vezes me preocupou.
— Temos um terian em Paris. Esse é perigoso, muito violento e está dando muitos, muitos problemas — ele passou a mão no cabeço. — Não preciso repetir os procedimentos a vocês. Tomem cuidado. Temos poucos de vocês agora e eu quero o terian derrotado e todos vocês de volta à nave em segurança. Nenhuma baixa. Caso não consigam dar conta, corram e deixem para mim. Se me virem em perigo e tiverem que escolher entre se salvar ou voltar por mim, se salvem. Não é nada heroico e não quero parecer bonzinho, mas vocês são mais importantes do que eu nessa organização e eu estou ordenando que as coisas funcionem desse jeito. Vocês entenderam?
— Sim, senhor! — Todos eles bradaram em coro.
— Ótimo. James e Hiro estão aqui como apoio mecânico e bélico. Marco vai guiar a nave e ajudar no que for possível. Tivemos alguns problemas e não conseguimos apoio médico — ele disse a última parte com o rosto rígido e os dentes trincados. Senti sua raiva e frustração de longe. — Não se coloquem em um perigo desnecessário. Lembrem que terians possuem substâncias corrosivas e poderosas, e que podem lançá-las ao pressentir perigo. São incrivelmente fortes e rápidos. Sei que vocês são bons, mas não os subestimem. Vocês entenderam?
— Sim, senhor! — Todos eles bradaram novamente.
— Ótimo.
Continuei escondida, absorvendo as informações. Não sabia como esperar esses monstros, e não sabia se me arrependeria de ter ido ali escondida, mas tive que tentar. Ouvi a conversa dos soldados: eles diziam que Blanche passava instruções desnecessárias e que claramente os achava patéticos, mas também combinaram de mostrar a ele o quanto ele estava errado. Marco deu a partida na nave, eu senti o metal estremecer levemente enquanto ela levantava do chão lentamente, passando pela abertura no teto e, depois de estar a uma distância segura do chão, voando em alta velocidade. Consegui ver um pouco de areia, areia e mais areia pelo para-brisa antes de ganharmos altitude e eu só enxergar o céu.
— Hiro — ouvi a voz de Marco. — Você e a doutora são amiguinhos, né? Porque ela não aceitou vir conosco? Ela geralmente vinha...
— Não faço ideia, de verdade. Posso falar com ela depois, se você quiser.
— Tem certeza?
— Claro.
— Valeu, cara.
Silêncio dos dois na nave. Eu não sabia que a doutora vinha geralmente. Será que ela resolveu não ir àquela missão por causa de Blanche? Ela tinha medo dele? Ela iria desistir de ajudar num possível ferimento grave porque tem medo que Blanche descubra algo? Eu só conseguia ficar mais e mais confusa. Levantei minha cabeça, olhando para o teto da nave, como se esperasse que a resposta caísse do céu na minha testa. Que estressante.
— Ei, Hiro, mais uma coisa — Marco novamente. — Você já traçou a doutora, certo? Vocês vivem saindo escondidos juntos à noite.
A expressão na cara de Blanche foi algo parecida com a minha: choque diante da notícia, choque diante do assunto e choque diante da hora que eles escolheram falar sobre isso. Senti nervosismo vindo de Hiro por uma fração de segundo e a aura dele ficou toda confusa. Não sei como ele faz isso, como fica ilegível para mim, mas ele é muito bom.
— Claro que já — ele riu. — O trabalho é estressante. Lutar com esses bichos, pesquisar e tudo o mais. Às vezes ela quer relaxar, eu deixo ela implorar um pouquinho e depois pimba!
— Caramba, mano, você tem que me ensinar como você faz. Estou de olho naquela gata desde que ela chegou e ela... bem, ela me trata bem, é simpática e tudo o mais, mas nem um pingo de chance.
— Você tem que ser bom, cara. Não dá para ensinar, você nasce com isso. Ela fareja macho alpha, como se fosse uma cadelinha. Tá cheio de viadinho por todo canto, elas ficam desesperadas por um homem de verdade.
Blanche passou a mão no cabelo parecendo irritado. Ele estava irritado, eu podia sentir. Estava muitíssimo incomodado com o assunto, mas não mais que James. James parecia que ia explodir de nervosismo.
— Mas quer que eu te conte um negócio? Vem cá —Marco ainda estava na cadeira de piloto olhando para o para-brisa e para o radar quando Hiro tirou seu cinto, levantou de sua cadeira e foi até ele. Colocando a mão ao lado do rosto, ele cochicha algo para Marco. Ele pareceu estupefato (estupefato é pouco), clicou ou fez alguma coisa errada e a nave deu uma guinada para o lado errado.
— Merda, merda, merda — Marco dizia enquanto estabilizava a nave de novo. As caixas caíram numa linda montanha em cima da poderosa aqui. Nem vi o bicho ainda e já fui soterrada por caixas esquisitas.
— Desculpa, pessoal, foi sem querer — Marco disse enquanto normalizava a respiração e dava um sorriso safado. Hiro tinha caído e rolado com a guinada na nave, então pelo menos uma pequena parte valeu. Blanche deu um tapa na própria testa e suspirou alto. Marco ainda estava com os pensamentos em outro lugar. — Sério, cara? Engole? Uau.
Hiro deu um sorriso amarelo, voltou mancando para sua cadeira, colocou o cinto e olhou o teto. A linda montanha de caixas tinha deixado uma fresta no meu rosto, mas era escuro o suficiente para que eles não pudessem me ver, mas eu conseguia vê-los até melhor do que antes.
A viagem continuou por mais uns cinco minutos. Nada de conversas, nada de barulhos, nada de guinadas malucas na nave. A aura de Marco estava transmitindo algum tipo de emoção pervertida maluca e eu senti vontade de vomitar de repente. Esses dois me dão nojo.
— Atenção, equipe, chegamos. O terian deve estar... — Marco falou antes de sentirmos um impacto na lateral da nave. A montanha de caixas caiu para o outro lado e eu fui junto, mas parei mais em cima dela. Eu estava totalmente visível dessa vez, mas nenhum deles sequer olhou para mim: todos olhavam para Marco.
— Eu juro que não fui eu dessa vez! Algo nos atingiu e...
Mais um impacto, dessa vez mais forte. Senti o cheiro de fumaça. Isso não podia ser bom.
— Estamos perdendo altitude! — Ele gritou. Puta merda.
Eu senti uma incrível aura de decepção vindo de Blanche. Ele suspirou e passou a mão no cabelo de novo. Hiro estava apavorado, James tirou o cinto e saiu correndo sabe-se lá para onde.
— Perdendo altitude, Marco? — Blanche falou, calmo, porém firme. — Desenvolva.
— Se nada for feito, vamos... Vamos cair e nos espatifar no chão.
Ótimo. Era tudo que eu precisava ouvir.
Fale com o autor