Lauren Page e o Mundo Subterrâneo
2 Capítulo 01: Acordar no lixo não é uma experiência agradável
Notas iniciais
Eu não faço ideia de como costumava acordar, mas tenho quase certeza de que não acordava numa lixeira imunda com uma casca de banana na cabeça.
Meu nome é... Bem, eu não faço ideia do meu nome. Nem da minha idade, muito menos de onde estou ou o que faço aqui, mas eu estou aqui e isso é tudo o que importa. Eu levantei sentindo uma dor na coluna digna de um senhor de cem anos de idade e uma dor de cabeça horrível. Parecia que tinham colocado uma furadeira na minha testa e perfurado meu crânio até achar meu cérebro, mas depois de algumas tentativas, desistiram. Toquei a minha testa. Nada de furos. Ou seja: ou não tinham usado uma furadeira, ou eles tinham ótimos cirurgiões plásticos. Por causa da dor, fiquei com a segunda opção.
Depois de me preparar psicologicamente, levantei e avaliei o local. Eu estava num beco esquisito e malcheiroso, e havia alguns ratinhos que não pareciam nem um pouco o Mickey Mouse me dando um alô. Suspirei e comecei a andar. Estava com um péssimo pressentimento de que estava esquecendo algo.
Que ótimo, estou esquecendo algo! Será que é apenas a minha vida inteira? Merda!
Vasculhei minha memória como deu. Minha última lembrança era de que eu estava com uns dez anos, falando com o diretor da minha escola. Ele era um homem alto com a expressão de quem dormia com limões na cara para parecer o mais azedo possível. Ele mandou eu entrar em algum quarto esquisito, que parecia mais um corredor. Tinha alguém lá, acho que acorrentado, que começou a gritar e eu desmaiei.
Bom, eu provavelmente desmaiei no quarto e acordei agora? Não, pensei, não me sinto infantil. Não passei anos hibernando, mas os esqueci. Não sei como cheguei a essa conclusão, mas eu cheguei e é isso aí. Resolvi olhar para o meu corpo: Eu era uma garota (eu tinha peitos! Ok, não eram os maiores do mundo, talvez não chegassem a ser médios, mas davam para o gasto), parecia ser meio alta e magra. Achei um caco de espelho jogado num canto. Espantei um projeto de Mickey e peguei o espelhinho para mim.
Eu era muito gata. Não gata tipo a Gal Gadot ou a Anne Hathaway, mas eu era definitivamente gata. Mais pela expressão do rosto do que pelo rosto em si. Pensando bem, não faço ideia de como lembrava da Gal Gadot, da Anne Hathaway, do Mickey e não do meu nome, mas tudo bem, coisas da vida. Enfim, vamos fazer um resuminho da minha aparência:
Era negra, mas não tão escura. Tinha olhos cor de mel, um cabelo muito preto bem curto, espetado e virado todo para um lado só, cobrindo grande parte do meu olho direito. Eu tinha lábios médios e um nariz não tão fino, não tão grosso e não tão grande. Mas eu ainda estava me achando linda. O quê, vocês esperavam modéstia? Oi, meu nome é Não Me Recordo, eu trabalho de modelo há dez anos, ganhei de Miss Universo cinco vezes, mas eu sou feia e nenhum menino olha para mim. Não, porra, eu sou gata pra caralho! Se fosse possível, eu provavelmente iria tentar me beijar qualquer dia desses. Em compensação, eu estava fedendo horrores. Cruzes.
Joguei o espelhinho fora (talvez tenha acertado o Remi, de Ratatouille, mas eu sobrevivo. Ele, eu não sei) e continuei andando. Estava reclamando comigo mesma de ter escolhido a porcaria de uma lixeira para dormir com tantas pontes para se deitar embaixo, até que escutei um barulho. Haviam vultos em cima dos prédios perto de mim (prédios?), e eles eram muito rápidos. Comecei a sentir um pequeno pânico dentro de mim. Aqueles caras não eram legais em eu não gosto de pessoas que vêm bancar de assombração, então fiz o que meus instintos mandaram: CORRA!
Saí em disparada por uma cidade a qual eu não fazia ideia de qual era. Acho que estava numa espécie de favela. Como as casas eram muito juntas, eles não tinham dificuldade de pular de uma para a outra, enquanto eu tinha que desviar de transeuntes, cinquentinhas, alguns carros e uns meninos jogando futebol. Os caras usavam umas roupas brancas estranhas com uns detalhes vermelhos, e um deles particularmente rápido tinha uma roupa um pouco diferente, com a máscara toda branca e a calça vermelha. Um dos pirralhos que estavam jogando futebol chutou a bola quase na minha cara, mas eu incorporei algum jogador de futebol maluco e dei uma bicicleta l-i-n-d-a! A bola voou e bateu na cara de um dos meus perseguidores ninjas, e ele levou uma queda. Benditos pirralhos jogadores de futebol! Espero que alguém tenha gravado e que eu fique famosa depois. Infelizmente, o chute não pegou no mais rápido, mas tudo bem. Um a menos já é bom.
Eles estavam em cerca de quinze agora. Derrubei um, mas cinco apareceram do quinto dos infernos para ajudar seus companheiros babacas. Não gostava deles. Ok, eu sei que é feio julgar antes de conhecer, mas pense bem: eles começaram a me perseguir do nada. Eles não chegaram, ofereceram um suco e um milk-shake e disseram "oi, Sem Nome, vamos bater um papo? ". Muito pelo contrário, eles ficaram correndo em cima das casas alheias como se não tivessem nada melhor para fazer e como se não passassem novelas ou filmes suficientemente legais essa tarde. Parece justo? Pois é, nem ferrando. Então, nesse caso, eu recebo licença para tomar decisões e conclusões precipitadas sim senhor, obrigada.
Em algum momento da correria, eu me vi presa. Eles estavam chegando cada vez mais perto (eu corri tanto e tão rápido que tive certeza que não fiquei hibernando; eu tinha aprendido coisas legais, tipo dar bicicletas em bolas de futebol assassinas). Nessa hora, devo ser sincera, o único pensamento que me veio na cabeça foi: Fodeu. Mas tudo bem, acontece. Quem nunca, né? Enfim, eu estava lá, linda, lascada e fedorenta, quando o cara rápido de calça vermelha andou para perto de mim. Ele não falou nada, mas ficou na minha frente com os braços cruzados, como se estivesse esperando uma explicação. Eu nem sabia o que falar, mas como eu nunca fui de ter juízo (eu não lembrava se tinha, mas era provável que não), resolvi arriscar.
— Olá. Quem é você?
O cara não pareceu muito alegre. Na verdade, ele inclinou a cabeça, cruzou os braços com mais força e começou a bater o pé, como se eu fosse um cachorrinho que tivesse feito cocô no sofá. Mas eu nem sabia quem era aquela criatura, e definitivamente não gostei de ser tratada como um cachorrinho cagão.
— Olha, dá para falar quem é você? Ou quem sou eu? Ou onde estamos? Sabe, não é muito legal acordar numa lixeira com uns ninjas te perseguindo sem razão aparente.
Ele descruzou os braços e pareceu um pouco assustado. Eu não podia ver seu rosto, mas a linguagem corporal dele era familiar, e eu conseguia lê-la com facilidade. Me perguntei quem seria o cara, mas para variar, eu não lembrava. Uhu, tudo dando certo.
Foi aí que aconteceu o que eu menos esperava.
Se você achou que caiu um unicórnio vestido de palhaço dançando hula e jogando tapioca para cima, não. Talvez eu esperasse isso um pouco. Mas eu juro que não uso drogas. Não que eu me lembre. Qual é, eu devo ter feito Proerd. Enfim, um cara de terno branco apareceu do nada e deu uma voadora na cara do cara de calça vermelha. O projeto de Papai Noel não parecia muito feliz com isso. Ele apertou algo num bracelete vermelho, e uma lâmina vermelha reluzente de 50cm saiu dele. O homem de terno tirou um cilindro pequeno do terno, girou-o entre os dedos e ele se transformou num bastão. Como eu não tinha muito o que fazer mesmo, continuei olhando os dois começarem a lutar imaginando se eu conseguiria escapar de fininho, mas os ninjas de branco restantes ainda eram um problema. Foi aí que vários ninjas de cinza e preto chegaram descendo o cacete em todo mundo, e de repente estava todo mundo lutando e metendo porrada com as mais variadas armas. Do meu ponto de vista, parecia uma daquelas rodinhas em show de metal onde todo mundo sai se espancando por diversão, só que um pouco mais organizado. Aproveitei a distração e localizei umas caixas ali perto. Eram vários engradados de cerveja, que coloquei uns em cima dos outros para fazer uma escada deformada que pudesse me levar para fora de lá. Assim que minha obra-prima estava pronta e concluída, ouvi o cara de terno gritar "A garota! Peguem a garota! ", e todo mundo, todo mundo parou de lutar e simplesmente começou a correr atrás de mim.
Valeu mesmo, cara de terno.
Eu andei sobre o muro que antes impedia minha passagem e pulei para o teto de uma casa. O pulo foi maior que eu imaginava, e eu estava um pouco assustada por ser tão rápida e por ter pulos tão grandes, mas ninguém reclama de vantagem, então recomecei a correr. Realmente era fácil pular de uma casa para outra e eu estava conseguindo abrir uma vantagem razoável da maior parte dos ninjas, exceto o de calça vermelha e o de terno. Eles continuavam lutando como podiam enquanto me perseguiam, batendo um bastão para lá, cortando o ar com uma lâmina para lá, enquanto eu só pensava em correr e em como estaria completamente fodida se qualquer um dos dois me pegassem. Foi aí que me vi sem saída de novo. Uhu, tudo dando certo novamente.
A casa onde eu estava ficava no topo de um barranco enorme, e eu sabia que, apesar das minhas recém-descobertas capacidades, a probabilidade de sobreviver àquela queda não era muito alta. Então eu fui obrigada a me virar e olhar aqueles dois malucos com a minha melhor cara de pastel. O cara de terno deu um passo para perto de mim, a burra aqui deu um passo para trás e caiu em direção à morte.
Mentira, mas quase caí. Cheguei pertinho, mas me equilibrei e fiquei viva. Sem Nome 1 x Barranco 0. Lide com essa!
De qualquer maneira, o cara das calças vermelhas não gostou dessa atitude do cara de terno e tentou atacá-lo desprevenido, mas ele não estava tão desprevenido assim. Para falar a verdade, ele parecia estar esperando essa reação quase que desesperada, então foi fácil para ele chutar o cara da calça vermelha e jogá-lo no meio da rua. Não foi como cair do barranco, mas foi uma queda e tanto, e eu não fui olhar se ele tinha sobrevivido. É, senti ele como se fosse familiar, mas eu não poderia confiar na minha intuição nessa situação. Então o cara de terno resolveu falar comigo.
—Você precisa vir conosco.
— Hm, acho que não, cara — eu respondi na melhor voz de eu-não-estou-me-cagando-de-medo que pude arrumar- sabe, eu tenho umas coisas para fazer hoje e não vai dar — os caras que foram deixados para trás chegaram, os brancos correndo com os pretos em seu encalço. O cara de terno olhou para trás e xingou. Eu decidi que se fosse para acabar, que acabasse de uma vez. Então eu dei a louca e corri na direção de tudo que queria me matar (eu achava que queria, pelo menos), rezando para que minhas habilidades incríveis do Circo Du Soleil dessem conta do recado. Tenho a sensação que derrubei três caras de branco e cinco de preto, mas o cara de terno me segurou e gritou no meu ouvido.
— ESTAMOS DO SEU LADO!
Eu olhei para a cara dela puta da vida. Ele estava falando no meu ouvido, caralho. Precisava gritar? Ficou um zumbido irritante no meu ouvido, mas eu respirei fundo e decidi resolver tudo com diplomacia.
— VOCÊ É DOENTE, PORRA? VAI GRITAR NO OUVIDO DA TUA MÃE!
Mas minha diplomacia não funcionou, eu senti uma picada no braço e apaguei. E quando apaguei, os imbecis ainda nem tinham terminado de lutar. Eu não sabia nem quem tinha ganhado e quem iria me levar quando tudo ficou escuro e eu caí.
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