Laura e Edgar- Um romance desde o Início
98 Estamos Sós
Notas iniciais
Naquela tarde abafada, de sol escondido por algumas nuvens escuras, Edgar, parado na varanda da casa, olha incrédulo para Laura, como que tentando decifrar um enigma...
Laura: O que foi? Vai ficar parado aí?
Edgar: Laura... eu entendi isso mesmo?
Laura: Amor... você mesmo sempre disse para eu voltar para nossa casa...
Edgar: Repete isso...
Laura (sorrindo): Voltar... para nossa casa...
Edgar (sorrindo): Laura... nem acredito... não sabe o quanto eu esperei... o quanto eu desejei isso...
Laura: Bem... então... vai me ajudar... ou tenho que trazer as malas sozinha?
Edgar: De forma alguma! Você fica aqui... eu e o rapaz ali vamos trazer...
Laura: Ah... mas eu quero trazer alguma coisa......
Edgar: Amor... eu faço questão... eu levo as tuas coisas e do nosso filho para dentro da nossa casa...
Enquanto Edgar vai até o automóvel do sogro e juntamente com o motorista começa a levar os pertences de Laura e Daniel para o interior da residência, no outro lado da cidade, Fernando entra na casa de Catarina e encontra a cantora radiante...
Fernando: Olá meu rouxinol!
Catarina (cantarolando): Olá!
Fernando: Nossa... o que te fez ficar assim... de tão bom humor?
Catarina: Eu não acredito que você não saiba... não saíste às ruas hoje, meu caro?
Fernando: Sim claro... como não pensei nisto... imagino que esteja falando da Laura... ou melhor... dos cometários a respeito dela e do Dr.Freitas... e do escândalo na Confeitaria...
Catarina: Só de pensar que o nome dela e daquela família emproada está indo à sarjeta já é um bom motivo para me regozijar... Imagino a cara do seu irmão ao ouvir que a esposinha querida é amante de um homem que tem idade para ser pai dele....fora o que aconteceu na Confeitaria... pelo que me disseram ele ouviu tudo.... com isto tenho certeza que aqueles dois nunca mais voltarão a ficar juntos... mas isso ainda é pouco... Aquela mosca morta não perde por esperar... ela e aquela mulata que se diz dançarina...
Fernando: Será que Laura já não teve o suficiente? O que pretende fazer?
Catarina: Suficiente? Não diga besteiras Fernando! Laura tem que sofrer... sofrer muito! Ainda não sei o que farei... mas hei de saborear minha vingança...você verá....
Fernando: Verei... eu sei... mas... no momento... que tal se deixássemos um pouco a mosca morta e o idiota do meu irmão de lado... temos coisas bem mais interessantes para fazer...
Catarina: Falando em seu irmão... precisamos entregar o convite do nosso noivado...
Fernando: Claro... quando quiser... minha querida futura noiva...(rindo e dando um beijo em Catarina)
Enquanto Fernando e Catarina resolvem ter momentos mais amenos, na casa do Cosme Velho, uma visita inesperada bate à porta da casa de Laura..
Gertrudes: Boa Tarde
Constância: Boa Tarde Gertrudes... onde está Laura? Quero falar com ela..
Gertrudes: Desculpe Baronesa... mas D. Laura não está...
Constância: Eu a espero...
Gertrudes: Sinto informar-lhe... mas acho que a senhora perderá tempo a esperando aqui...
Constância: Mas que atrevimento é este Gertrudes? Está me mandando embora?
Gertrudes: Não senhora... mas creio que D. Laura vai demorar... ela foi a casa do Dr. Vieira...
Constância: Ela foi procurar o Edgar... mas isso é uma ótima notícia!.. Pelo que vejo minha filha está recobrando o juízo!... Só espero que não se humilhe... criei meus filhos para mesmo diante das piores provações enfrentarem a tudo de cabeça erguida... (ficando calada uns momentos enquanto a empregada a observa) E meu neto... o Daniel está?
Gertrudes: Não... foi com a mãe...
Constância: Bem... neste caso vou para casa... espero sinceramente que Laura consiga entender-se com meu genro e deixem de uma vez essa bobagem de divórcio para trás...e logo tudo o que aconteceu desde o momento em que essa menina resolveu cometer esse absurdo será esquecido...Boa Tarde Gertrudes....
Enquanto isso, na residência do advogado, Edgar terminara de depositar todos os pertences da esposa e do filho na sala... Laura, acomodada em uma cadeira de vime na varanda observara todo o esforço do marido e do motorista de seu pai em carregar aquelas malas pesadas... vendo que Edgar transportara a última valise para dentro da casa, levanta-se com a intenção de entrar em seu antigo e tão novo lar...
Edgar: Onde vai?
Laura: Entrar na nossa casa... me acompanha Dr. Vieira?
Edgar: Espera... tem algo que preciso fazer... (segurando levemente o braço de Laura)
Laura: O que?
Num gesto rápido, o rapaz toma a esposa nos braços... Laura, sem entender olha para Edgar e apoia-se melhor no colo do advogado...
Laura: Edgar...
Edgar: Meu amor... quando casamos não te carreguei no colo ao entrarmos pela primeira vez juntos nesta casa... como um noivo apaixonado faria...Hoje... com seu regresso .. quero realizar o gesto que deveria ter feito há seis anos atrás... como uma promessa de que vamos ser muito felizes... e que nunca mais nada vai fazer você cruzar essa porta para não voltar...
Edgar dá alguns passos com Laura em seu colo... a moça sorri enternecida com a atitude do esposo... uma lágrima furtiva lhe corre pela face.... estava em casa...
Edgar (pondo Laura no chão do vestíbulo e a abraçando por trás): Bem-vinda a sua casa Sra. Laura Vieira...
Laura solta-se do abraço do marido... anda um pouco até a sala... observa cada detalhe daquela casa... emociona-se.... lembra-se de cada objeto que decora aquele local e que abriga um pouco da história dos dois...
Laura: Obrigada meu amor.... sabe... eu olho para cada cantinho dessa casa.. e lembro de tanta... mas tanta coisa... não sabe a saudade que eu senti daqui...
Edgar: Essa casa também sentiu tanto a tua falta...todos os cômodos... todos os móveis... tudo por aqui estava triste... mas agora... dos talheres ao lustre... tudo aqui está feliz pela sua volta... (aproximando-se dela e acariciando-lhe o rosto) principalmente eu...
Edgar aproxima-se mais de Laura... seus lábios vão de encontro aos dela, beijando-a levemente a aprofundando aos poucos, sendo correspondido em igual medida... tornando os movimentos e sensações cada vez mais intensos... Edgar acomoda o corpo de sua esposa mais junto ao seu... naquele momento nada e ninguém parece importar ao casal... até que Laura por um instante volta a sua consciência...
Laura: Amor... (tentando se soltar de Edgar) aqui não... as crianças...
Edgar (voltando a si): Tem razão... vamos para o nosso quarto...
Laura: Edgar... é melhor a gente esperar... a gente tem a noite inteira... (dando um beijinho no rapaz) a vida inteira...
Edgar: Laura... eu não vou aguentar esperar até à noite... eu quero você...
Laura: Eu também quero... mas a gente não pode agora... aguenta só mais um pouquinho vai...
Edgar (fingindo desapontamento): E eu tenho outra opção?...
Laura (sorrindo e acenando a cabeça negativamente): Não... e na verdade... acho que neste instante a gente tem que falar para eles...
Edgar: Temos... e depois que a gente falar... (sedutor)
Laura: Depois que eles dormirem...
Edgar: Laura..
Laura: Edgar.. para que toda essa pressa?
Edgar: Saudade é um bom motivo para você?
Laura (fazendo manha, apoiando os braços no pescoço de Edgar, enquanto ele a envolve num abraço): Mas a gente nem ficou tanto tempo longe...
Edgar: Ah é?
Laura: É... só tempo suficiente para eu morrer de saudade e perceber que eu não consigo mais ficar longe de você.... te amo...(beijando novamente o marido e se soltando)
Edgar: Você me provoca e depois me deixa... isso não se faz Sra. Vieira...
Laura: Não faz essa cara.... vem... vamos conversar com a Melissa e o Daniel...
Edgar: Está bem... vamos...
O casal, de mãos dadas sobe para o segundo pavimento da casa em direção ao quarto onde as crianças estão brincando...Neste ínterim, na casa dos pais do advogado, Heloisa e D. Margarida conversam animadamente enquanto tomam seu chá...
Margarida: E então, minha querida? Como está o trabalho?
Heloisa: Agora está bem... no início foi um pouco complicado até entender direito o que fazer.... mas o Dr. Vieira foi muito paciente... me explicou tudo... é muito bom trabalhar para ele... e não estou dizendo isso por ser seu filho...
Margarida: Eu sei Heloisa.... e meu filho... como está? Há dias não o vejo...
Heloisa: Normalmente está bastante disposto... ele trabalha muito... quando não está no escritório está às voltas com os processos...mas hoje.. não sei se devia dizer-lhe... mas...ele estava bastante taciturno... eu diria até mesmo deprimido...
Margarida: Eu imagino o por que... apesar de não ter ido às ruas... fiquei sabendo por Bonifácio o que aconteceu ontem ... e conhecendo Edgar como conheço... imagino que deve ter se desentendido com Laura... sabe Heloisa, minha nora é uma boa moça...mas tem um temperamento bastante forte... assim como Edgar... meu filho deve estar muito triste...
Heloisa: Imagino que neste momento eles devem estar tentando entender-se... quando saí, D. Laura e o menino estavam chegando à casa...
Margarida: Espero que consigam chegar a algum entendimento... pelo bem deles e do meu neto... estou cansada de ver meu filho sofrendo... Amanhã vou fazer uma visita a ele.. pena não ser por um motivo mais agradável...
Heloisa: A senhora vai ver... tudo há de se resolver entre eles...
Margarida: Não digo por isso... digo por saber que vou pedir algo a meu filho que provavelmente irá aborrece-lo muito... (fazendo uma pausa) Meu outro filho, Fernando, irá noivar... preciso que Edgar me acompanhe...
Heloisa: E no que isto irá aborrece-lo?
Margarida: Fernando irá noivar com a mãe de minha neta Melissa...que é filha do Edgar... e a recepção será oferecida na Confeitaria Colonial...
Heloisa: Será realmente uma situação muito constrangedora para ele... eu diria até uma situação limite.... não há outra pessoa que possa lhe acompanhar? Seu esposo?
Margarida: Bonifácio cortou relações com Fernando... e de forma alguma aprova a decisão dele se casar com aquela mulher... não irá de forma alguma... já tentei convence-lo de todas as formas...Mas eu preciso estar presente... meu filho está dando um passo muito importante... seja ele certo ou errado... e só posso contar com Edgar neste momento...espero que me perdoe pelo que vou lhe pedir para fazer... pois sei que não irá se negar...
Enquanto a conversa entre as amigas segue, a alguns quilômetros dali, na rua do Ouvidor, Filipa e Manuela andam apressadas... vão em direção ao Hotel Glória, indicado pelo zelador do teatro com sendo o local onde Catarina havia hospedado-se durante sua temporada no país em 1903...ao dobrar um quarteirão, encontram-se com Joaquim...
Joaquim: Boa Tarde... que grata surpresa encontra-las...
Filipa e Manoela: Boa Tarde...
Joaquim olha para a ex-noiva com um sorriso encantador... Filipa, no entanto, tenta demonstrar-lhe nada mais do que indiferença...
Filipa: Vamos Manoela... temos coisas a fazer...
Joaquim: É sobre o caso da menina?
Manoela: Sim... vamos fazer mais algumas investigações...
Joaquim: Neste caso... como já resolvi as pendências que tinha no escritório.. gostaria de acompanha-las....
Filipa: Dispenso sua companhia...
Joaquim: Filipa... por favor..... eu me ofereci de bom grado para ajudar no que fosse necessário neste caso...onde vão?
Manoela: Ao Hotel Glória... nos informaram que Catarina estava hospedada naquele local...
Joaquim: Não é um local dos mais bem frequentados... pode ser perigoso... faço questão... vou com vocês...
Filipa: Não temos medo...
Manoela: Filipa... ele pode ser útil... talvez consigamos mais informações se o Dr. Castro for conosco... a figura de um homem sempre acaba por intimidar mais...
A contragosto Filipa aceita que Joaquim as acompanhe até o destino... Enquanto isso, na casa do Dr. Vieira, o casal encontra-se no quarto dos filhos, que param com a brincadeira ao perceber a presença de Laura e Edgar...
Melissa (correndo em direção ao casal): Tia Laura... que bom que está aqui!
Laura (abraçando a menina): Oi Princesa! Como está? Como foi seu dia?
Melissa: Bem... meu dia foi bom... mas agora está bem melhor... estava querendo muito brincar com o Daniel...
Daniel: E eu queria muito vir para cá...gosto de ficar aqui na casa do papai...
Edgar: Meu filho... essa casa é sua... da Melissa... da sua mãe... e minha...
Laura (sentando-se na cama e reunindo as crianças junto dela): Sim... essa casa é de todos nós... e agora o papai e eu queremos conversar um pouquinho com vocês...
Daniel: A gente fez muita bagunça?
Laura: Não... nós queremos contar algo... Daniel... seu pai e eu conversamos... e a partir de agora nós vão morar aqui... junto a Melissa e ele...
Melissa: Verdade papai?
Edgar: Sim meu anjo... nós todos vamos viver aqui nesta casa... como o que nós somos... uma família...
Melissa: Papai... por que se você e a Tia Laura são casados... não moravam na mesma casa?
Edgar: Filha... nós dois tivemos muitos problemas... coisas de gente grande...isso fez ficarmos longe um do outro por muito tempo... a Laura e o Daniel foram morar longe daqui... agora eles voltaram... nos reencontramos... resolvemos grande parte dos nossos problemas... e vamos voltar a viver juntos...
Daniel: Quer dizer que a gente não vai mais morar lá na outra casa?
Laura: Não meu amor...
Daniel: E as minhas coisas?
Edgar: Estão todas lá na sala... amanhã a Matilde organiza tudo aqui no quarto ao lado... aquele vai ser seu quarto agora...
Daniel: Oba! Vai ser supimpa morar aqui!
Laura: Claro que vai.. a gente vai ser muito feliz aqui... todos nós...
Daniel: Mamãe... e a Gertrudes? Ela também vai vir para cá?
Laura: Eu não sei... isso depende do seu pai...
Laura olha para Edgar como que inquirindo o marido a cerca da pergunta do filho... O rapaz sorri... subitamente um ideia lhe passa pela cabeça...
Edgar: Daniel... no que depender de mim, a Gertrudes vem morar amanhã mesmo... ela cuidou de você e da mamãe por todo esse tempo... mas a gente precisa saber se ela quer vir morar aqui...
Daniel: Pede para ela? A Tude tem que vir para cá!!!!
Melissa: É papai... ela tem que vir... o Daniel fala tanto dela que eu também quero que ela venha...
Edgar: Que tal se vocês pedissem? Duvido que a Gertrudes não venha para cá se vocês forem lá falar com ela.... olha...o motorista do vovô Assunção ainda está lá embaixo... a Matilde pode...(olhando para Laura, que está espantada com as palavras do marido) acompanhar vocês...
Laura: Ai eu esqueci de dispensar o rapaz... o meu pai deve estar precisando do carro...
Edgar: Então... ele leva as crianças até o Cosme Velho e vai para a Boa Vista...
Laura: Mas...
Daniel: Ah mamãe... deixa...
Melissa: É tia Laura... deixa a gente convencer a Gertrudes...
Laura: Está bem... depois então o papai e eu vamos buscar vocês...
Edgar: Infelizmente não vamos poder busca-los... tenho um assunto importantíssimo para resolver... mas a Matilde e a Gertrudes vão estar com eles... eles podem dormir lá...e amanhã elas trazem vocês de volta...
Daniel: Isso! Vai ser supimpa... vamos brincar até a hora de dormir...
Laura: Olha lá... eu vou pedir para Gertrudes contar o que vocês fizeram.... comportem-se...
Enquanto Edgar combina com o motorista do sogro para levar os filhos até a antiga residência de Laura, a moça informa Matilde sobre a visita repentina a Gertrudes e arruma as crianças. Neste meio tempo,Filipa, Joaquim e Manoela chegam a seu destino...um hotel antigo, com mobiliário simples e já marcado pelo uso....encaminham-se até um grande balcão de madeira maciça, sendo recebidos com desconfiança por um funcionário do local
Joaquim: Boa Tarde...
Funcionário: Boa tarde... posso ajuda-los?
Filipa: Boa Tarde... espero que sim... precisamos falar com um funcionário deste estabelecimento que tenha trabalhado aqui em 1903...
Funcionário: Bem... eu trabalho aqui há mais de 15 anos...
Joaquim: Permita que nos apresente... estas são Dra. Borges e Dra. Medeiros... meu nome é Joaquim Castro... somos advogados e estamos investigando um caso... precisamos de algumas informações sobre uma senhora que hospedou-se neste hotel... gostaríamos de contar com sua colaboração..
Funcionário: Desculpe mas as informações sobre os hospedes são mantidas sob sigilo...
Manoela: Senhor... nós manteremos essas informações como confidenciais... caso não queira colaborar voluntariamente podemos encaminhar um documento ao fórum por obstrução de justiça e solicitar seu depoimento junto ao delegado local...
Funcionário: Tudo bem... vejamos... o que querem saber?
Filipa: Nos foi informado que os cantores e produtores da Companhia Lisboeta de Canto Lírico estavam hospedados aqui durante a temporada que passaram no pais em 1903... o senhor confirma?
Funcionário: Sim... confirmo...
Joaquim: Dentre estes cantores... Catarina Ribeiro... encontrava-se hospedada neste hotel? Gostaríamos de saber um pouco sobre sua rotina...
Funcionário: Sim... D. Catarina era uma das hospedes...mas ela muito pouco ficava nas instalações do hotel...
Manoela: Como assim?
Funcionário: Ela sempre saia bastante cedo... junto a Companhia... mas nem sempre voltava com os outros cantores... na verdade... geralmente voltava algum tempo depois e sozinha...
Filipa: Sozinha?
Funcionário: Sim... um coche a trazia... ou melhor... lembro-me agora que algumas vezes esse mesmo coche vinha busca-la...antes do resto da Companhia ir para o Teatro...
Joaquim: Era sempre um mesmo coche?
Funcionário: Sim...
Filipa: Como era esse coche? O senhor sabe a quem pertence?
Funcionário: Era um coche fechado.. um Clarence...pelo modelo deve ter sido importado da Inglaterra... não há muitos iguais por aqui... mas infelizmente não sei dizer de quem era...
Joaquim: Realmente... um Clarence inglês... poucas pessoas conseguiriam comprar um... e os cavalos?
Funcionário: Um par de Mangas-largas mouros...
Manoela: Vai ser quase como procurar uma agulha em um palheiro...
Joaquim: Talvez não... esse tipo de carruagem não é tão comum assim...e confesso que conheço algumas poucas pessoas que possuem esse tipo de veículo...
Filipa: Ela recebia alguma visita masculina aqui?
Funcionário (zangado com a pergunta): Não senhora... este é um hotel de respeito... D. Catarina tinha muitos fãs que a procuravam.. traziam presentes... mas nunca recebeu visitas neste sentido...
Manoela: Ela abandonou o espetáculo antes de terminar a temporada... as diárias do hotel foram pagas por ela mesma?
Funcionário: Não... um rapaz a mando de alguém veio e quitou tudo...
Filipa: Como era esse rapaz?
Funcionário: Um tipo comum... um estafeta que poderia trabalhar em qualquer lugar aqui no Rio de Janeiro...
Joaquim: O senhor tem o recibo do pagamento? Gostaria de vê-lo...
Funcionário: Está arquivado... se aguardarem um instante... posso procurar.. (indo até o arquivo e procurando a ficha de Catarina) aqui está...
Filipa: A assinatura do pagador está ilegível... mas...podemos ficar com uma cópia?
Funcionário: Sim claro...
Manoela: Bem... por hora era o que precisávamos saber... agradecemos as informações...
Os advogados saem daquele estabelecimento com a certeza de que ainda teriam muito trabalho pela frente... enquanto Joaquim acompanha as moças até o local onde estão hospedadas, na casa de Edgar as crianças acabam de embarcar no carro em direção ao Cosme Velho...
Laura (fingindo desagrado enquanto Edgar fecha a porta principal da casa): Que coisa feia o que você fez... você expulsou nosso filho e Melissa de casa...
Edgar: Amor... eu só dei uma sugestão para eles passearem e se divertirem.... e eles ficarão bem... estarão com a Matilde e a Gertrudes... tenho certeza que vão gostar dessa noite que vão passar lá...(envolvendo Laura em um abraço) e eu vou adorar a noite que vou passar aqui contigo...
Laura :Não tenho tanta certeza ... acho que vou te castigar por isso...
Edgar: Ah é? E de que forma pretende me castigar?
Laura: Vamos ver... acho que vou começar assim.. (beijando o pescoço de Edgar, subindo por seu queixo e beijando seus lábios levemente)
Edgar: Hum.. acho que vou lhe aplicar algum castigo também... você tem se comportado muito mal... (beijando Laura enquanto percorre suas costas à procura dos botões de sua blusa que começa a abrir)
Laura (sussurrando): Eu? O que eu fiz para o Dr. advogado (mordendo a orelha dele, enquanto tira o paletó)
Edgar(beijando o ombro dela): Fez algo gravíssimo... não se provoca assim um marido que está morrendo de saudade...
Laura: Acho que esse castigo vai ser melhor aplicado em outro lugar...(beijando ardentemente o marido)
Edgar: Tens razão... acho que podemos continuar lá em cima...
Laura: Concordo... ótima ideia... (subindo as escadas correndo seguida por ele)
Laura para em frente a poltrona do quarto... Edgar entra e tranca a porta
Edgar (indo em direção a ela): Pronto... agora a senhora não vai sair daqui nunca mais...
Laura (fugindo dele): Então esse é meu castigo... ficar presa aqui? Duvido que consiga.... eu fujo!
Edgar: Eu não vou deixar você fugir... vai ficar presa.. aqui comigo...para sempre(tentando pega-la)
Laura: Para sempre com você?(dando um beijinho no marido) Neste caso... eu não fujo... (abraçando e beijando Edgar de início com calma e logo com voracidade)
Edgar: Tão bom ter você aqui... poder ficar com você sem pressa... sem ter que pensar que amanhã você não... (enquanto ela deita)
Laura (puxando Edgar para cama): Não fala... não sei como a gente conseguiu ficar nessas idas e vindas esse tempo todo...
Edgar: Também não (beijando Laura) Mas agora isso acabou...
Laura: Amor... esse castigo de prisão perpétua é um pouco exagerado, não?
Edgar (enquanto desabotoa a camisa): Para mim não... ficar preso com você é tudo o que quero na vida...
Laura: Eu também meu amor... mas é tempo demais aqui... que tal até amanhã de manhã... sem interrupções?
Edgar: Por isso mesmo as crianças foram para o Cosme Velho... e eu vou saber muito bem o que fazer contigo sem elas por aqui...
Laura (acomodando-se nos travesseiros e chamando Edgar com a mão): Ah é? Então me mostra o que pretende fazer...
Edgar (aninhando-se entre as pernas dela e rindo): Eu vou te mostrar... (beijando Laura com paixão)
Aos poucos os beijos vão ganhando mais profundidade e os carinhos ficam mais intensos...as roupas vão sendo retiradas em meio às carícias... os olhares ficam mais invasivos... extraindo da alma aquilo que a boca não consegue pronunciar... amam-se sem pressa... com a calma de quem tem a esperança de um futuro feliz junto a quem ama...
Após amarem-se e saciarem os desejos um do outro, no descanso dos corpos cansados ainda resta vigor para leves caricias, beijinhos inocentes, declarações de que nunca foi tão bom assim e o encontro de ambos num abraço exausto... Conversam mais algum tempo, trocam juras de amor e olhares cúmplices até acabarem por adormecer aconchegados... já é madrugada.... ... naquele momento nada mais importa... estão juntos... acalmados pela presença um do outro, com a certeza de que serão felizes e de que nada mais vai os separar apesar dos problemas, e sentindo-se mais fortes para enfrentar tudo o que está por vir...
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