Laura
1 Capítulo Único: Laura
Notas iniciais
Laura era cega.
Era cega fazia muito tempo. Era cega antes de realmente saber o que significava ser cega — Não era cega desde o nascimento. Sua visão tinha sobrevivido apenas o suficiente para ela lembrar das cores. Teve tempo de conhecer o vermelho, o verde, o azul. Mas, agora, era apenas o preto. Tudo preto. O rosto da mãe: preto. A camisa que a amiga disse que era fofa: preto. O pelo da sua cão guia: preto.
Câncer não é um bom colega de quarto. Não se importa se você tem cinco ou cinquenta anos. Apenas leva o que quiser, quando quiser, e como quiser. E, caso tente expulsá-lo, ele vai quebrar os móveis da casa e fazer um escândalo no meio da noite.
Infelizmente, o câncer de Laura queria os olhos dela. Queria as cores, queria os rostos, queria os sonhos. E ele os levou. Aos cinco anos, o tumor tinha se espalhado tanto pelas córneas, que operá-lo sem danificar a visão era impossível, quimioterapia era insuficiente, e deixar os globos oculares no lugar era praticamente antiético.
Foi tudo muito rápido. Laura não lembrava, mas a sua mãe contava a história como se tivesse acontecido apenas semana passada:
1 – Laura reclama de uma dor nos olhos.
2 – Laura está casualmente visitando o médico.
3 – O médico parece preocupado demais.
4 – O médico está pedindo exames bem mais desenvolvidos do que um palito na língua para ver se a garganta estava bem.
5 – Laura está sendo examinada por outra pessoa, em um outro hospital, e com máquinas estranhas que faziam barulho. Agora ela tem que tomar remédios para a dor nos olhos.
6 – A sua mãe estava chorando, Laura estava chorando, e as duas adentravam o hospital outra vez, para se preparar para a cirurgia que salvaria a sua vida.
Então seus olhos haviam sido removidos. A visão perdida permanentemente, as cores sendo lentamente esquecidas, os rostos desaparecendo na imensidão escura. Tudo aconteceu em apenas dois meses. A dor nos seus olhos tinha sumido, bem como os seus olhos.
Demorou anos para Laura se acostumar. Felizmente, se é que se pode usar essa figura de linguagem, ocorreu quando ela era pequena. Crianças se adaptam rápido. Não foi exatamente fácil, mas Laura aprendeu a viver com isso. Aprendeu braille, aprendeu a se localizar em ambientes pelo som, aprendeu a como andar na rua sem dar de cara em um poste.
Cega aos cinco, e, agora, cega aos dezoito, prestes a se formar. Pressionou uma última tecla, a máquina de escrever fez um último relevo no papel, então a última redação estava pronta. Sentiu os músculos no rosto se esticando em um sorriso, puxou o papel, juntou em uma pasta, e a colocou na mochila.
Último dia de aula. Depois de anos, o ensino médio acabaria. Uma sensação de frio e calor ao mesmo tempo remexia o estômago de Laura, a felicidade de mais um caminho em direção ao que podia mascarar de independência, porém, ao mesmo tempo, mais um passo para um nível diferente e ainda mais difícil na vida.
Faculdade. Bem, faculdade de música, mas não deixava de ser faculdade. Perdeu dois olhos, mas pareceu ganhar um ouvido. Era cruel, mas a música nunca pareceu tão linda quanto no primeiro dia após acordar da cirurgia, e ter sua mãe levando um rádio portátil até o quarto, para que pudesse ouvir as canções.
Laura não tinha certeza, mas pensava se foi aquele momento que a fez querer fazer música. Descobriu sobre Stevie Wonder, o cego que não só era um ótimo cantor, como tocava piano perfeitamente bem – enquanto era cego. Ou Bethoven, que compôs sua Nona Sinfonia enquanto estava surdo. Laura gostava de pensar em superar os desafios, de pular sobre as barreiras que a vida a tinha emposto.
Foi uma das coisas que fez Laura perceber que tinha pedido a visão, e não a vida. Não podia ver as cordas do violão. E daí? Não precisava vê-las. Precisava senti-las, e ouvi-las – coisas que Laura já conseguia fazer melhor do que qualquer um com visão.
Laura pegou o celular, colocou no bolso. Alcançou o seu violão, posicionou dentro do case, e pendurou nos ombros. Colocou a tira da bolsa por cima do pescoço.
–Onde você tá, garota? — Chamou. — Clara!
Ouviu as unhas arranhando a cerâmica, então a cão-guia estava aos seus pés, fungando e latindo. Ela já tinha o colete em volta do tronco. Laura tateou até achar a guia – alça – da coleira adaptada, então estava andando para fora do quarto.
–Mãe! Tô pronta! E acho que um pouco atrasada!
Andou pela sala, e se colocou ao lado da porta. Não hesitou um único segundo. Conhecia cada canto daquela casa, ela praticamente era uma parte de Laura. Sentiu a brisa no cabelo cacheado.
Sua mãe apareceu na sala, sacudindo a chave do carro nas mãos. Clara latiu, sentada ao lado de Laura, o pelo encostando na perna da garota.
–Podemos ir?
–A senhora me diz. Tá esquecendo de algo, dona Taís?
–Você tá esquecendo alguma coisa, dona Laura?
–Estou ofendida pelas suas acusações. — Brincou, então tateou os bolsos. A mãe fez o mesmo.
Laura tinha esquecido a carteira. A mãe tinha esquecido o celular. As duas tinham esquecido algo.
–Ai, ótimo, — a mãe murmurou, olhando ao redor. — onde que eu coloquei essa coisa, agora?
Laura riu e se abaixou. Sentiu o pelo da cachorra, e levou as mãos até a cabeça dela.
–Clara, garota, — falou, em direção à cão-guia. — a carteira. Vai.
Sentiu-a deixando as suas mãos, e se afastando pela casa. Podia ouvir a mãe andando pela sala, levantando almofadas e depois as jogando de volta no sofá, à procura do celular. Clara voltou, a pequena bolsa de couro entre seus dentes.
–Boa garota. — Sussurrou, afagando o pelo. — Mãe, achou?
–Quas-- Achei! Achei. Vamos.
Então saíram. A mãe primeiro, ainda sacudindo as chaves do carro. Clara à frente, Laura segurando a guia da coleira. Sentiu o cheiro das flores que a mãe cultivava na frente da casa, o sol batendo na pele que sabia ser morena. Pegou o óculos escuro do bolso, e o colocou sobre os olhos – apenas por hábito, logicamente não precisava deles. Entraram no carro, prenderam os cintos, então as três estavam viajando pelas ruas da cidade. No rádio, a mesma banda que a acompanhou no quarto de hospital agora tocava, cada nota musical causando uma reação dentro de Laura. Sua mãe estava comentando que iria dar carona a uma colega de trabalho.
Cinco minutos. Dez. Sua mãe parou em um sinal. Laura pôde sentir o cheiro da rua pelo vidro aberto. Um cheiro nem tão bom, nem tão ruim. Apenas um cheiro. O som de carros passando e buzinando do lado de fora. Cachorros latindo ao longe. Uma risada abafada um pouco escandalosa na calçada. A maciez do pelo recém-lavado de Clara, que tinha a cabeça apoiada no seu colo. O calor da respiração e a umidade do focinho da cachorra na pele da garota.
Eram as pequenas coisas que Laura sabia que não conseguiria reparar caso ainda possuísse sua visão. As pequenas coisas que a diziam: a visão é apenas um de cinco sentidos. As pequenas coisas que diziam: você vai sobreviver com os outros quatro.
Laura lutou contra o câncer, e, embora ele tenha lhe mordido uma ou duas vezes, ela tinha ganhado. Tinha montado no touro, e ficado os oito segundos.
O sinal abriu, sua mãe acelerou o carro. Mais três minutos, e sentiu o cheiro que sempre exalava da barraca que vendia churros na esquina da escola. Pôde sentir o gosto doce do recheio e do açúcar na boca. Ouviu a mãe ligar a seta, e parar na beira da calçada. As portas foram destravadas.
–Valeu, mãe. — Se enfiou entre os espaços dos bancos dianteiros, e deu um beijo na bochecha da mulher. Então abriu a porta, e se jogou para fora. Clara veio logo depois, sendo segurada pela guia. A bolsa com livros pendurada em um ombro, o violão no outro.
–Cuidado, hein! — Ouviu a voz da mãe pela janela. — Não vá correndo por aí.
–Eu nunca faria isso!
Ela riu. As duas trocaram despedidas, como faziam todos os dias, e a mãe lentamente se afastou.
–Você tá atrasada. — A velha voz rouca gentil disse, brincalhona. — Venha, o sinal logo vai fechar.
–Desculpe, Seu Valentin. — Ela pegou no braço do homem, Clara no lado oposto. O cheiro doce do perfume dele fez Laura sorrir. — Eu calculei mal o tempo em que terminaria a redação.
O homem riu. Uma risada que vinha de um pulmão barulhento e subia por uma garganta enfraquecida, mas uma risada. E, acima de tudo, uma risada simpática, gentil e agradável.
–O sinal fechou, venha.
Ele deu o primeiro passo. Laura sentiu seu movimento, e o seguiu. Clara foi à frente. Os três atravessaram as duas rodovias, indo para os portões da escola.
Seu Valentin era uma das razões pelas quais Laura ainda tinha esperança no mundo. Não eram relacionados de maneira alguma, exceto que ele trabalhava na escola dela, como o chefe de algum setor (ele nunca disse qual, brincava que era para manter o mistério). Ele não era obrigado a fazer o que fazia, mas isso nunca o impediu de fazer.
Na primeira vez que se encontraram, a mãe de Laura tinha que levar Clara ao veterinário, e a garota não podia perder a prova no dia. Chegou atrasada, e não havia mais ninguém na entrada da escola. Praticamente implorou para a mãe ir embora quando desceu na rua, porque ela também estava atrasada, e o trânsito já estava caótico o suficiente. Ela tinha atravessado aquelas duas rodovias dezenas de vezes. Sabia o caminho perfeitamente. Podia contar os segundos que o sinal ficava vermelho, podia ouvir os carros pararem, e podia pôr um pé na frente do outro, até atravessar sem problemas. Seus amigos se ofereciam para ajudar na travessia, claro, mas ela sempre conseguia fazer sozinha quando estava rodeada de pessoas, por que não conseguiria sozinha?
A mãe só foi embora quando os carros começaram a buzinar, e Laura se afastou, vasculhando a bolsa pela sua bengala. Vasculhou a bolsa durante vários minutos. O sinal fechou, abriu, então repetiu o processo. Carros passavam e paravam e passavam outra vez, em uma repetição interminável. Ela não achou o cano de metal, e, embora soubesse ser independente, não era estúpida. Não sabia como ia atravessar a rua ou sequer andar direito sem a bengala, mas ela não podia ficar parada ali. E não iria ligar para a sua mãe voltar e atravessá-la.
Quando estava na beira da calçada, o Seu Valentin tocou-lhe o ombro, e se apresentou, perguntando se ela precisava de ajuda. Laura podia chorar de alívio no momento em que ele chegou.
A única coisa em comum entre Seu Valentin e Laura eram os seus destinos: a escola. E o fato de que, naquele dia em particular, ambos estavam levemente atrasados. Os dois foram juntados completamente por sorte. Uma sucessão improvável de prováveis acasos que ocasionaram o encontro.
Caso aquela mulher de cadeira de rodas não tivesse decidido pegar o ônibus em que o Seu Valentin estava, ele não teria perdido o segundo ônibus no terminal, e não teria que esperar mais dez minutos para vir o outro. Caso aquele cachorro não tivesse decidido atravessar a rua na frente da mãe de Laura, o sinal não teria se tornado vermelho antes que elas pudessem atravessá-lo, e então elas não pegariam mais três sinais fechados no caminho, as atrasando ainda mais. Caso Seu Valentin não tivesse parado para dar informação à mulher perdida e então decidido comprar um churro, talvez ele apenas tivesse visto Laura aparentemente procurando algo na bolsa e atravessasse a rua, a deixando para trás. E, caso os dois não tivessem se encontrado naquele dia, com o Seu Valentin dando o braço para ajudar Laura, talvez os dois não tivessem construído a amizade que possuíam agora, onde todos os dias ele esperaria por Laura, e ambos atravessariam a rua juntos. Dia após dia, Seu Valentin esperaria a garota na calçada. E, nas raras ocasiões que Laura chegava mais cedo, ela o esperaria.
Nenhum dos dois pôde prever na época, mas, durante os próximos anos, seria assim. E, enquanto andavam juntos no que poderia ser a 400º travessia, Laura pensava em como aquela poderia muito bem ser a última vez que estava fazendo aquilo com o Seu Valentin, no ensolarado e quente último dia de aula.
Atravessaram lentamente. Não tinham pressa. De um lado e de outro, mais estudantes apertavam o passo para correr até a aula. Laura conseguia ouvir o som dos motores vibrando e pulsando, o rosnar característico de qualquer carro. O sinal abriu quando eles subiram na calçada, então a fileira atual de carros se afastou, logo dando espaço a mais e mais fileiras intermináveis de automóveis.
Laura e Seu Valentin passaram pela cerca azul, e andaram na trilha de asfalto entre a grama cuidada. Laura soube onde estava pelo barulho dos pássaros cantando nas árvores, e o cheiro da grama subindo no ar. Andaram até prédio. Laura sentiu a luz do sol sendo interrompida pela sombra da construção, e ouviu o tumulto enquanto os alunos e professores entravam nas salas de portas abertas. Trocaram um longo abraço desajeitado – Laura ainda tinha o violão em um ombro, e uma bolsa no outro –, disseram suas despedidas, então Laura entrou na sala com Clara.
Na primeira vez que entrou por aquela porta, o tempo pareceu parar, foi recebida por um silêncio tão sólido que poderia cortar com uma faca. É quase engraçado pensar sobre isso agora. Laura era diferente de cada uma das pessoas que estavam ali. Não precisava ver seus rostos para saber disso. Pensou que o motivo pelo silêncio eram as diferenças. Mas então a professora a apresentou, e uma garota gritou “ela é tão foooofaaaaa, posso fazer carinho nela?”.
Não muito tempo depois, Maria, a futura-melhor-amiga que gritou sobre como Clara era fofa, explicou a Laura que não foi exatamente ela que tirou o fôlego da sala, mas sim a cão-guia. Na verdade, só foi perceber com certeza que Laura era cega quando a professora falou que ela era. Ninguém estava acostumado a ter cães entrando na sala de aula, mas adolescentes iam e voltavam todos os momentos.
E, agora, quase três anos depois, Laura e Clara adentravam a mesma sala de aula que frequentaram o ano todo, com os mesmos alunos que viam todos os dias. Mas não foram recebidas pelo silêncio. Dessa vez, Maria gritou “Laura!”, e a sala implodiu em aplausos e gritos. Clara latiu, pulando na confusão. No último dia, passando pela porta aberta, Laura sentiu o mesmo frio na barriga que sentiu no primeiro. O mesmo frio, por milhares de razões diferentes. No primeiro dia, o frio quase a fez chorar. No último, um sorriso se abriu no seu rosto, e levou a mão sobre a boca, um bolo de emoções se formando na garganta.
A sala se reuniu em um abraço em grupo, Clara praticamente enlouquecendo no meio de tanta gente. Laura enxugou uma lágrima caindo da prótese ocular. Sentiu as mãos de Maria envolvendo seu rosto, e os lábios dela tocando sua testa. Laura ouviu a voz em meio à confusão humana de barulhos, cheiros e toques:
–Você tá pronta?
–Nunca estive mais pronta na minha vida. — Laura respondeu, tirando o violão do ombro.
A multidão se dispersou, cada um sentado em uma carteira, arrastando os assentos para o mais perto possível. Laura e Maria se colocaram na frente da sala, acompanhadas por Carlos, um dos amigos.
Laura tirou o violão do case, o colocou no seu colo, sentido a madeira lisa na pele. Maria pigarreou, Carlos tomou um gole de água. Tinha uma razão especial para agradecer cada uma daquelas pessoas. Cada um tinha a ajudado de uma maneira, e ela teria que se despedir de todos, agradecer todos, sentir o rosto de todos uma última vez.
Laura colocou a ponta dos dedos sobre as cordas ásperas. E tocou a primeira das suas últimas notas musicais naquela sala em especial, daquele especial colégio, daquela especial cidade.
Tocou a primeira última nota do seu obrigado. Tocou a primeira última nota do seu adeus.
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