Lastimador
1 Nós dois contra o mundo
Notas iniciais
Enfim, espero que gostem!
Adrien tinha as notificações do Ladyblog ativadas desde que a Alya tinha começado o site.
Se alguém perguntasse o motivo, ele diria que queria apoiar sua amiga. Apesar de não ser uma mentira, também não era toda a verdade, mas não como se ele pudesse dizer que estava apaixonado pela Ladybug, e por isso, fazia questão de saber tudo que falavam sobre ela. O Ladyblog era uma das fontes mais confiáveis e frequentes, além de é claro, ter um alerta de akumatizações, que á tinha o ajudado mais de uma vez, e por isso era um de seus sites preferidos.
Ver o que estavam falando sobre ele, ou ao menos, a versão mais charmosa dele, era apenas um bônus. Ele evitava os fóruns e comentários, que muitas vezes tinham haters que escapavam da moderação da Alya, mas sempre lia todos os posts.
Gostava de ver o que sua amiga achava de sua outra persona, e Alya nunca falhava em entregar.
Nesse dia isso não foi diferente: a repórter postara um vídeo com as melhores acrobacias do Chat, e o modelo adolescente se divertiu vendo o vídeo e os comentários elogiosos que ela fez sobre ele. Apesar de estar acostumado com elogios de fãs a suas duas identidades, ele sempre se orgulhava mais dos elogios ao super-herói, pois se sentia mais merecedor deles, e ouvir uma amiga falando bem de si, sem sequer saber que era ele, sempre levantava seu espirito.
O que ele não esperava era a ligação de Nino que viria pouco depois, e muito menos o assunto que ele queria tratar
— Ela está apaixonada por outra pessoa! — Seu amigo exclama com convicção. Adrien, por outro lado, duvidava muito da afirmação, afinal, Alya sempre foi muito apaixonada por Nino, e aproveitava qualquer chance para passar tempo com ele, e não hesita em dizer isso para o mesmo:
— Vocês dois passam o tempo inteiro juntos, você deve estar imaginando coisas! De quem mais ela iria gostar, Nino?
— Do Chat Noir! — Responde o garoto furioso.
Adrien leva um segundo para processar o que acabara de ouvir e não pode evitar a gargalhada súbita. A ideia de Alya apaixonada por ele era simplesmente ridícula! Ela nunca mostrou interesse em ninguém, muito menos na versão mascarada de Adrien.
— Tá legal! E que tal do crocodilo do Jagged Stone pra pirar de vez? — O garoto mantém para si que acha a possibilidade de o réptil ser o interesse amoroso da repórter muito mais provável do que a alternativa.
— Mas você viu o vídeo? — Retruca Nino com veemência. Ao confirmar que essa foi a fonte de preocupação do colega de classe Adrien quase cai na gargalhada novamente. Se elogios dados aos heróis é a fonte de todo esse ciúme, Nino deveria se preocupar mais com Ladybug, o Carapace ou até mesmo a Rena Rouge: eles foram muito mais elogiados. Alguns posts sobre Carapace, em especial, quase pareciam uma declaração de amor! Em comparação, as palavras sobre Chat soam inofensivas.
— Qual é, é só um vídeo do Ladyblog. Isso não prova nada! — Adrien tenta argumentar, mas percebe que seu amigo não parece convencido, apenas ainda mais irritado.
— Eu vou achar provas e você vai ver que eu tô certo! — Exclama Nino enquanto desliga a chamada, deixando Adrien sozinho abruptamente.
— Não tem como — o modelo afirma imediatamente. Ele perceberia se uma de suas amigas mostrasse interesse em si, certo?
— Ah, tem sim. Tem mesmo. Meu carisma natural certamente contaminou você! — Diz Plagg, flutuando para perto em uma pose convencida. Normalmente, o loiro ignoraria seu Kwami, mas agora se lembrava de uma situação semelhante que ocorreu a não muito tempo atrás, onde Marinette havia se declarado para sua persona mascarada.
Ele não tinha percebido nenhum interesse de sua grande amiga na época, e fora pego completamente de surpresa pela declaração. Adrien havia crescido sem muito contato com outras pessoas, especialmente da sua própria idade, e por isso, era terrivelmente atrapalhado com interações e nuances sociais de todo o tipo. Ele tinha melhorado bastante no decorrer do ano, mas surpresas como esse ocorrido com a Marinette deixavam claro que ele ainda não podia se sentir muito confiante.
E Alya era provavelmente a civil que ele mais encontrou, talvez até mais do que a Marinette. Ela sempre seguia os heróis em batalha e até em uma patrulha ou outra, e fora salva várias vezes. Eles não interagiram muito, e com certeza tiveram menos conversas emocionais que o felino tivera com a amiga azulada, mas quanto mais pensava sobre o assunto, menos impossível o interesse parecia.
Plagg, apesar de sua estranha obsessão por queijo, passara mais de cinco mil anos ao redor de humanos. Com certeza, suas percepções eram mais precisas do que as de um adolescente que nem teve um ano de contato social.
— Você acha que eu exagerei no charme do gatinho e sem querer fiz ela se apaixonar por mim? — Ele pergunta ao Kwami ficando rapidamente mais preocupado, e não espera a resposta — Tenho que ter certeza! Plagg, mostrar as garras!
Rapidamente ele sente a magia da transformação perpassar seu corpo e em poucos segundos, ele deixa seu quarto pela janela, como fizera centenas de vezes nos últimos meses. Dessa vez, ele segue em direção a casa de sua amiga repórter. Ele está nervoso e um pouco ansioso. Quebrar o coração de Marinette fora difícil o suficiente. Ter que fazer algo parecido com a namorada do melhor amigo o deixava extremamente desconfortável por vários motivos.
É claro que ainda achava toda essa situação bem improvável, mas não poderia deixar de se preocupar com a possibilidade agora que o melhor amigo a botara em sua cabeça.
Rapidamente, ele chega a seu destino e bate de leve na porta de vidro da sacada de Alya. A menina chega na porta com rapidez, e sua expressão mostra claramente sua surpresa com a visita do herói felino.
— Chat Noir? — Ela estranha já abrindo as portas — O que houve, aconteceu alguma coisa? — Pergunta a garota em seguida, franzindo as sobrancelhas.
— Não, não, tá tudo bem! — Tranquiliza o loiro imediatamente — É que eu vi que você postou um vídeo novo sobre mim e fiquei super feliz, sério, mas eu fiquei pensando... você fica me seguindo e a Ladybug também desde o início. Você tira fotos, faz vídeos, e a gente até te salvou algumas vezes. O que eu quero dizer é que a gente agora se conhece bem melhor, e eu comecei a reparar numas coisinhas, que eu espero que seja só uma ilusão minha, mas...
O herói fala rápido e gesticulando bastante, se aproximando de Alya no final. Ela fica claramente nervosa, e o interrompe:
— Ilusão? Que ilusão? Que coisinhas?
— É meio difícil de explicar, mas eu queria ter certeza de que nesse tempo todo que você passou me admirando, que você não começou a sentir... — ele hesita um pouco em falar. Mesmo sendo bem mais solto e confiante como Chat, não podia deixar de ficar um pouco desconfortável em perguntar algo assim, especialmente para Alya — alguma coisa por mim. Eu até entendo, até por quê olha pra mim né!
Antes que ele comece a divagar sobre o quão incrível o Chat era, a garota o interrompe novamente, parecendo levemente irritada.
— Hã? Sentir o que por você?
— Bom, sabe né... — sem conseguir terminar em palavras, se sentindo levemente acanhado, Chat faz um coração com as mãos para demonstrar o que queria dizer, fazendo Alya rir com vontade.
— Ficou maluco, é? Eu já tenho namorado! E só pra você saber, com ele não é só... — ela gestua o coração com as mãos — é mais!
Ela abre os passos e os balança com vontade, enfatizando o tamanho do sentimento que nutre pelo namorado, e fazendo o coração de Chat se aquecer e um sorriso grande e brilhante aparecer no seu rosto, junto com uma risada bem-humorada. Ouvir Alya falar assim de Nino o enchia de emoção. Admirava muito o relacionamento do casal, e Nino foi um de seus primeiros amigos. Vera garota falar assim dele o deixava extremamente feliz. Saber que as desconfianças de Nino e seus próprios temores eram complemente infundados também o encheu de tranquilidade. Pode, finamente, relaxar, e não conteve sua reação.
Abraçou Alya com carinho e ternura, e a garota responde igualmente.
— Desculpa, foi confusão minha! — Ele fala para a amiga com leveza.
— Desculpa, Chat Noir, mas o meu Nino é mil vezes mais irresistível do que você! — Diz ela animadamente, fazendo carinho no queixo do herói como faria com um gatinho e arrancando mais uma risadinha dele — E também, eu não sei sua identidade real, eu nunca me apaixonaria por alguém que eu não conheço!
Chat sabia que se apaixonar por alguém que não conhece era uma possibilidade, afinal, ele mesmo passou por isso. Entretanto, também sabia que ao contrário de si, Alya era obcecada por saber a verdade e descobrir segredos. Para ela, se ver com alguém que nem sabia o nome deveria ser realmente impossível.
— Certo, desculpa de novo por perguntar — Diz o loiro já se aproximando do batente da varanda — Eu já tenho que ir, mas espero te ver logo, Alya. Não se esqueça te fazer mais posts sobre mim!
A garota revira os olhos de bom humor e acena para ele. Chat Noir pula utilizando sua força sobrenatural, caindo no telhado do prédio da frente, e corre de volta para casa, bem mais tranquilo do que saíra.
Agora só tinha que convencer Nino de que ele estava errado. Seria fácil, não tinha chance dele ter encontrado provas de algo que nunca foi real.
—‘-
No dia seguinte, Adrien chega na escola animado. Ao entrar no prédio, bolhas de sabão flutuam na sua frente. Ao buscar a origem, vê Nino com um bigode falso e um estranho casaco de detetive, mas ignora ansioso para compartilhar a boa notícia.
— Oi Nino, eu quero te contar uma coisa!
— Não, eu tenho que te contar uma coisa! — Vocifera seu melhor amigo imediatamente. O loiro se surpreende, pego desprevenido pela raiva que esperava que já tivesse passado.
Os dois descem para o porão da escola e Nino puxa uma cadeira, mandando que o amigo se sentasse. Adrien observa seus arredores com curiosidade e surpresa, admirando também as bolhas de sabão que o amigo continua a soltar.
— Hã, quando você arrumou tudo isso?
Nino bate com o punho na mesa em diz em um tom sério:
— Eu faço as perguntas — Adrien pisca, surpreso e um pouco preocupado, e Nino continua falando — Lembra do que eu te contei ontem? Agora eu tenho provas. O que você acha disso?
O moreno pontua a pergunta empurrando seu celular em direção a Adrien. Nele, tem um vídeo, onde o abraço entre Chat e Alya está estampado. O loiro deixa uma exclamação surpresa escapar, não tinha percebido que o amigo estava lá na noite anterior. Sente seu coração apertar. Não era isso que aquele abraço significava, não havia nenhuma intenção romântica em nenhuma das partes, Adrien sabia disso. E ele não podia deixar seu melhor amigo acreditar em algo absurdo sobre a própria namorada.
— Qual é, isso não faz sentido nenhum! Você está enganado, não foi isso que aconteceu!
— Como você sabe, você tava lá? Tá envolvido nisso? — Retruca Nino imediatamente, com um tom de suspeita.
— Não, não, não é claro que não, mas isso é impossível! — Responde Adrien automaticamente, amaldiçoando seu azar. Como poderia convencer Nino sem revelar seu segredo? Um sentimento de culpa começa a crescer dentro do modelo, ele não devia ter ido à casa de Alya, nem ter a abraçado, devia ter previsto que seu azar agiria de alguma maneira. — Eu tenho certeza que é só um mal-entendido. A Alya e o Chat Noir não tem nada em comum, eles mal se conhecem! A Ala é só uma fã de heróis, ela filma a Ladybug e o Chat Noir, é só isso!
O loiro tenta desesperadamente convencer o amigo, procurando todos os argumentos que pode usa sem se revelar. Busca fatos incontestáveis, mas que não impliquem em sua identidade secreta, com afinco.
— Eles se conhecem muito bem!
Adrien não sabe por que o amigo acredita nisso, mas sabe que precisa convencer ele a enxergar a verdade. Subitamente, se lembra do que a própria Alya havia dito para ele na noite anterior:
— Mas ninguém sabe a identidade secreta da Ladybug e do Chat Noir. Dá pra imaginar a Alya se apaixonando por alguém que ela mal conhece? A garota que quer ser repórter, que sempre quer saber a verdade a qualquer custo, que conta tudo pro garoto que ela ama?
Pela primeira vez, Nino hesita. Por um momento, se sente culpado do que está fazendo com namorada. Mas ele se lembra que Adrien não sabe de um detalhe crucial.
— Mas eles se conhecem muito mais do que você imagina! — Afirma categoricamente.
— Não pode supor isso só por esse vídeo! — Rebate o loiro logicamente. Nino se levanta e anda até o amigo, se ajoelhando na sua frente,
— Olha só, tem uma coisa que você não sabe. Eu não tô falando do vídeo, irmão. Tô falando de uma coisa que eu não devia te contar. Um segredo incrível. A Alya é uma super- heroína, cara. Ela é a Rena Rouge!
— O quê? — Adrien exclama sem conseguir se conter. Seus olhos estão arregalados e choque perpassa todo seu corpo. Nunca imaginou que outra pessoa próxima a ele teria um Miraculous, especialmente não um de seus amigos.
— Shhh. Eu sei o que você vai dizer, que é bobagem, e que como eu, o Nino, ia saber disso? — O garoto se levanta — Eu sei por que eu sou um super-herói também! Eu sou o Carapace!
— O que? Você é o Carapace? — Um turbilhão de emoções cresce em Adrien. Primeiro vem uma confusão profunda misturado com um choque terrível. Como ele não percebeu isso? Dois de seus melhores amigos eram colegas de time e ele nunca notara? Não fazia absolutamente nenhum sentido! Mas quanto mais pensava, mais via semelhanças entre os amigos e os alteregos. Se lembra das gírias que Carapace usava, do jeito da Rena de lidar com o Chat, e aos poucos aceita e concilia a imagem de ambos em sua mente.
Apesar da surpresa, fica feliz que mesmo sem saber que Adrien é Chat, Nino confia em si o suficiente para contar não só a própria identidade, mas também a da namorada. Adrien nunca tivera amigos, e esse tipo de demonstração de confiança absoluta nunca falhava em alegrá-lo.
Toda sua linha de raciocínio é interrompida quando ele percebe um detalhe crucial, que faz com que uma fúria surja em seu âmago.
— Hã? Mas vocês dois sabem? Sabem a identidade secreta um do outro?
Ladybug ficaria furiosa. Ela sempre foi muito rígida com isso, nunca deixando que ele desse nem a menor das dicas sobre quem poderia ser. Adrien não podia dizer que entendia completamente seus motivos, mas ele respeitava sua Lady demais para tentar burlar essa regra de qualquer forma e se sentiu repentinamente incomodado com os amigos por fazerem isso após a heroína confiar neles.
— É claro! — Responde Nino com um tom de obviedade — Eu e a Alya não escondemos nada um outro. Até agora com essa historinha de Chat Noir.
O loiro não presta muita atenção no que o amigo fala, ainda chocado com essa revelação não só de dois portadores, que são seus amigos próximos, mas também de toda essa confusão de identidades. Nenhum dos heróis revelaria a própria identidade, muito menos a de um dos parceiros. Não é possível que Nino, que Carapace, tenha desrespeitado as regras da Ladybug a esse nível, ou Alya. Adrien compreende bem a necessidade de contar para o parceiro a própria identidade, e deixa a raiva que estava sentindo ir um pouco. Até porque Adrien Agreste definitivamente não deveria ter emoções tão fortes sobre o assunto.
— Espera, eu não tô entendendo. Achei que as identidades secretas tinham que ser protegidas sempre! Se fosse verdade, você nunca me contaria isso, a Ladybug não concordaria!
E então Nino fala, com um grande tom de desdém, as palavras que mudariam a percepção de Adrien sobre tudo o que concerne sua vida de super-herói.
— Você ta zoando? Foi a Ladybug que entregou nossos Miraculous ao mesmo tempo
Com essas palavras o mundo de Adrien cai.
— Não! Isso é impossível! — Seu tom de voz trai sua decepção. Ele não podia conceber como sua parceira que sempre tratou esse segredo em particular como de maior importância poderia ter revelado as identidades de Nino e Carapace sem a menor preocupação. Se eles podiam-
— O que tá querendo dizer? Que eu tô mentindo por acaso? — Nino questiona interrompendo seus pensamentos.
— Não, não! O que eu quis dizer foi... — Adrien respira e enterra todas as suas emoções sobre o assunto. Ele não podia dar dicas de sua identidade ao deixar seu choque descomunal transparecer, e estava ali para ajudar seu melhor amigo. Tinha que manter o foco no problema atual, pensaria nas consequências dessa descoberta depois — Tá legal. Você é o Carapace, ela é a Rena Rouge e a Ladybug concorda com isso mas ainda não acho que a Alya e o Chat Noir é... você sabe!
— Você não sabe como o Chat Noir é de verdade, mas eu sei, eu sou da equipe! Eu sei como ele age na vida real. Claro, assim que a Ladybug aparece ele se joga aos pés dela, com rosas e declarações de amor — Nino fala com um tom debochado e completando com sons de beijinhos — Mas é sempre rejeitado porque a Ladybug acha ele um chato e com toda razão! E aí, a Rena Rouge aparece e ele fica “e aí moça bonita, você ta elegante, e perfumada! ”
Um frio recai sobre Adrien, acompanhado com uma pequena pontada de dor. Sabia que o melhor amigo estava falando isso devido à raiva e ao ciúme, e que ele não sabia que ele era o próprio Chat Noir, mas mesmo assim não conseguia se impedir de se sentir mal.
Era verdade que Ladybug sempre o rejeitava, mas não é como se ela odiasse ele, certo? Eles eram parceiros. É claro ela sempre mencionava como ele era irritante e chato, mas isso era apenas um jeito de falar. Ela não pensava isso dele de verdade, ou ao menos, Adrien torcia para que não.
Isso não mudava, é claro, que era isso que Nino pensava. Seu melhor amigo que sempre o defendeu, que chegou a ser akumatizado tentando ajudá-lo... pensava que Chat Noir era um chato, insuportável, que flertava com qualquer menina, inclusive sua namorada. Ele pensava que ele estava tendo um caso com sua namorada!
Ao colocar a máscara de Chat Noir, Adrien deixava de ser um Agreste, um modelo famoso. Ele não tinha que viver com as regras e expectativas que esse nome e que sua fama exigiam. Ele podia agir como queria, sem ter que pensar muito ou se importar com as consequências. É claro que sabia que exagerava um pouco no flerte e no drama, mas ele tinha o direito de extravasar a rigidez e a repetição monótona do seu dia-a-dia de alguma forma, certo?
Adrien sempre considerou Chat Noir como seu verdadeiro eu, que não tinha que lidar com as expectativas do seu pai, dos seus colegas de trabalho ou dos seus fãs. Chat Noir não era limitado, não tinha que manter uma imagem perfeita. Por isso, ele fazia os trocadilhos bobos que não podia fazer, e não se preocupava muito em conter todas as suas emoções. É claro, ele flertava um pouco, mas qual era o problema? Adrien nunca tivera a chance de flertar antes, com ninguém, ser educado em casa não o deu muitas chances de ter uma vida social, mas ele não fazia isso para tentar roubar a namorada de ninguém! Ele era apaixonado por Ladybug, afinal, não queria nenhuma outra menina. Honestamente, ele nem estava tentando realmente flertar com Rena Rouge, apenas gostava de elogiá-la! Não tivera em nenhum momento nenhuma pretensão romântica com a colega de time.
— Então é! Dá a entender que na primeira missão que eu perdi, quer dizer que o Carapace perdeu, ele entrou de sola e bam! Foi isso que aconteceu. E agora, eu tô sozinho. Perdi o amor da minha vida! Ora, se eu pudesse, eu ia fazer ele ficar de bico calado para sempre! — Uma lágrima escorre pelo rosto do amigo.
Adrien imediatamente ignora a dor visceral que o desprezo de Nino causou nele. Isso não é sobre você, Agreste, Chat, ele ralha consigo mesmo. É sobre seu melhor amigo, que sempre esteve ali para ele, e o mínimo que ele pode fazer é o mesmo.
— Tem que ter uma explicação, Nino! A gente vai descobrir isso! — Adrien tenta acalmar o amigo, principalmente ao perceber que suas lágrimas aumentaram. Se ele continuar assim...
A maldita borboleta entra, quase como se ouvisse o que Adrien está pensando. Ele não tempo de reagir antes que ela pouse nos óculos de Nino, e uma familiar máscara roxa aparece.
— Eu sei o que você quer Shadow Moth, não se preocupe. A única coisa que vai sobrar dos dois são os Miraculous!
Adrien corre em direção ao amigo e segura seu braço, tentando impedir sua saída.
— Nino você tem que lutar contra-
O akuma o empurra com fúria, o jogando para longe e se libertando. Adrien cai de costas e resmunga de dor.
— Você não é meu inimigo Adrien, o Chat Noir que é!
O akuma salta para longe, e Adrien se levanta. Ele falhara com seu amigo mais uma vez. Não só não conseguiu protegê-lo das garras do vilão, mas falhara antes disso ao ser o motivo da akumatização em primeiro lugar – não que ele saiba disso.
Mais uma vez, ele foi inútil.
— Eu sei o que você tá querendo, mas eu aconselho a parar agora. Sabendo o que seu amigo está disposto a fazer com o Chat Noir... — Plagg diz tentando auxiliar o dono.
— Não posso deixar o Nino desse jeito! — O modelo corta. Adrien Agreste falhara como sempre mas talvez Chat Noir tivesse mais sorte — Plagg, mostrar as garras!
A emoção da transformação, que sempre é acompanhada de uma sensação de vitalidade e poder, falha em trazer o sorriso costumeiro para seu rosto. Tudo que ele sente é remorso, e um desejo ardente de consertar as coisas.
Ele corre atrás do amigo akumatizado, e o encontra na rua em frente à escola. Antes que possa pensar em chama-lo, o akuma o vê se aproximando empurra um carro em direção ao herói. Ao mesmo tempo, ele berra com fúria:
— Chat Noir! Você roubou a Alya de mim! Eu vou roubar a sua vida de você!
Nino lança mais duas lágrimas com extrema rapidez, fazendo com que Chat tenha que cair no chão para trás afim de desviar. Ele imediatamente contorce o corpo e usa o impulso para se levantar, e começa a correr transversalmente a rua, evitando outros tiros. Usa seu bastão para dar um mortal e evitar mais um tiro perigoso, e continua a fazer acrobacias cada vez mais complexas para desviar do poder do akumatizado. As lágrimas atingem os carros e os prédios ao redor, e quando uma passa raspando, Chat se lança a uma haste, agachando e se mantendo no alto, pronto para saltar.
— Eu não roubei ninguém! A Alya ainda ama você! — O herói felino tenta debater.
— Mentira! Eu tenho provas! — Ruge o akuma enquanto lança mais lágrimas em direção ao loiro, que salta de volta para a calçada.
O ódio por Shadow Moth também cresce. Ele sempre força Chat a lutar com as pessoas que ele se importa, a troco de quê? Mais poder? Chat resmunga frustrado, e continua a desviar do ataque furioso do melhor amigo. Ele odeia ter que lutar contra seu melhor amigo, que sempre o ajudou e apoiou, odeia o fato de que essa situação ridícula aconteceu em primeiro lugar e, acima de tudo, se odeia por não ter conseguido impedir a maldita akumatização acontecer, por não ter conseguido convencer o melhor amigo da própria inocência. Ele tentar argumentar mais algumas vezes, buscando qualquer argumento que faça com que o Akuma ao menos hesite, mas nada surte efeito, Nino continua a tacar implacavelmente.
— Eu não quero lutar com você, Nino — Chat Noir fala com angústia. A culpa e a percepção da própria fraqueza e inutilidade correm o coração do herói sem nenhuma trégua, e ele praticamente implora — Deixa eu explicar!
O dois começam uma luta corpo a corpo. O akuma tenta atingir o oiro com um soco, mas ele rapidamente desvia, saltando para trás.
— Eu não quero ouvir suas mentiras! — Nino avança novamente, mas Chat usa seu bastão para jogá-lo para longe. Por que o amigo se recusa ouvir a razão? Ele está falando a verdade!
— Você quer provas? Então tá! — Questiona o herói guardando o bastão e o arremessando para longe.
— Isso não prova nada! — Grita o akumatizado, já preparando outro ataque de lágrimas e lançando com extrema velocidade. Chat sabe que não vai conseguir desviar então simplesmente recebe o golpe, sendo lançado ao ar a atingindo o carro ao fundo com força, amassando a lataria. A dor irradia por suas costas subindo até a cabeça, e é excruciante. Quando ele começa a cair para frente, em direção à rua, Nino o atinge novamente com fúria, e a dor triplica.
O intenso impacto nas costas faz com que Chat gema de dor e perca um pouco do ar. O traje felizmente absorveu uma parte do impacto, garantindo que nenhum osso seja quebrado.
— Tá vendo? Eu não quero te machucar. Será que a gente pode conversar por favor? — Ele pede com um sorriso esperançoso. O akuma tinha hesitado, talvez ele finalmente tenha alcançado Nino!
Uma máscara roxa aparece e em poucos segundos, a fúria se estabelece completamente no olhar do amigo, e toda a esperança de Adrien se esvai.
— Acabou pra você, Chat Noir — Ele junta as lágrimas e se prepara para lança-las.
— Por favor, não faz isso... — Ele implora em uma voz baixa.
Antes que o akuma possa reagir, um ioiô familiar se enrola em seu braço, desviando o ataque para um prédio ao redor.
— Nino! Para! — A familiar voz de Ladybug faz com que Chat imediatamente se acalme. Ao contrário dele, Ladybug não falha — O meu talismã me deu esse projetor supermoderno e vai fazer você ouvir o som do vídeo que você fez! Também não sei o que o Chat Noir disse para sua namorada, mas eu confio nela!
A parte mais insegura e frágil de Chat não deixa de perceber os pronomes usados. Ladybug confia nela. Não nele, ou sequer em ambos, nela. Uma frustração e uma vontade de chorar crescem nele, mas o loiro se recusa a contemplar esse sentimento. Ainda não era a hora, a luta ainda não tinha acabado.
— Agora veja e preste atenção! — Ordena a super-heroína, ligando o projetor.
A cena da noite anterior se repete exatamente como ele se lembrava, e em poucos segundos acaba. Logo em seguida, Alya vem correndo em direção ao namorado.
— Nino! — Ela se joga em seus braços com ternura.
— Eu não acredito que eu duvidei de você — Nino diz deixando transparecer a decepção que sente consigo mesmo.
— Não acredito que preferi fazer qualquer outra coisa do que ficar com você — Responde a repórter
— Me desculpa Alya — Diz o moreno enquanto uma lágrima real escorre pelo seu rosto. A garota sobe seus óculos e a seca, dizendo:
— Fiquei apavorada por você! — Ela o abraça novamente e ele corresponde ainda chorando.
— Shadow Moth! Pode ficar com esses poderes sem graça! — Ele grita, se libertando das garras da borboleta.
De cima do prédio Ladybug purifica o akuma, usando o Miraculous Ladybug logo em seguida. Ela desce do prédio, e usa de seu ioiô para criar o talismã, que entrega para Nino o aconselhando a usar sempre.
— Não vou precisar dele Ladybug! Nunca mais eu vou deixar o Shadow Moth usar o meu amor pra me manipular — ele diz encostando sua testa na da Alya. Depois de alguns segundos, Nino se afasta da namorada e se vira em direção ao Chat Noir — Eu me enganei sobre você, cara. Me desculpa.
Adrien sorri para o amigo, aproveitando o pequeno alívio de que tudo deu certo — e que com sorte, nunca mais terá que enfrenta-lo como akuma de novo. Ao mesmo tempo, todas as emoções que suprimiu começam a crescer dentro dele.
— Todo mundo tem dúvidas de vez em quando... Até eu.
— Está tudo bem, Chat Noir? — A voz preocupada de sua- de Ladybug o tira um pouco de seu estupor. Sem energia para as teatralidades costumeiras do Chat, Adrien conjura um de seus sorrisos de modelo, que ele usa constantemente em seu dia a dia, e deixa sua voz um pouco mais animada.
Ele não podia confrontar Ladybug sobre o acontecido sem revelar a própria identidade não que essa regra se aplique a qualquer um que não seja ele, aparentemente então força uma tranquilidade que não existe e tenta tranquilizar a parceira. Ele sequer sabe como se sente com todas as revelações do dia, e não quer agir sem pensar e falar bobagens ou arrumar brigas desnecessárias.
— Tá, tá sim. Zerou! — Ele estende a mão para seu cumprimento usual, e a heroína não hesita em corresponder.
— Zerou! — Responde a joaninha com um sorriso no rosto. Os dois pulam em direções opostas.
—‘-
No fim da aula, Adrien finalmente tem tempo para pensar em tudo que aconteceu no dia. Ele se senta em frente a seu computador, e abre uma das fotos do Chat com a Ladybug, a Rena e o Carapace, a encarando fixamente. Ou seria de Alya e Nino? O modelo ainda não processou realmente que os colegas super-heróis eram seu amigos.
Ou o resto das revelações do dia — como a que eles sabem a identidade um do outro.
— Eu ainda não acredito que a Ladybug deu aqueles Miraculous pra Alya e pro Nino — Adrien fala para Plagg sem conseguir conter a raiva fria da voz.
— Claro que deu, ela é a guardiã! — Responde o Kwami com tranquilidade, nem um pouco surpreso com isso depois de anos de experiências com guardiões.
— Mas eles são um casal e sabem suas identidades secretas! — O loiro rebate imediatamente. Ladybug passou meses repetindo sobre a importância de manter esse segredo entre eles, por que não era o mesmo com os outros dois?
— Então por que tem essa regra de saber a identidade secreta se eles podem? — Ele explode. O Kwami se aproxima do dono flutuando, e explica:
— Ela é a guardiã. Grã-mestre fermentadora do queijo. Eu e você somos só queijos na tábua da vida. Ela decide qual é o cardápio.
Antes, o mestre Fu estava ali para garanti que as mentiras continuassem. Mas agora... agora a decisão era completamente da Ladybug. E apesar dela continuar insistindo que eles saberem são um risco, o mesmo não parece se aplicar aos outros heróis.
Ou talvez só se aplique a ele. Afinal, por que a Ladybug confiaria no chato e irritante do Chat Noir para qualquer coisa, agora que ela pode ter o apoio de quem ela quiser, quando ela quiser?
Quem confiaria nele? Barulhento, dramático, e com flertes irritantemente persistentes. Nem seu melhor amigo conseguia suportar sua persona de herói. Ladybug já deixou clara a sua irritação com eles centenas de vezes. Sem contar com dos os erros que comete impulsivamente, sem pensar.
Quem é Chat Noir, se não a irritação barata cuja a única utilidade é servir de distração na luta? Ela até falar isso uma vez, não era? Ele era o que usava a roupa de palhaço.
Adrien sabe que isso são suas próprias inseguranças falando. Ela se importava com ele. Ela também gostava de suas piadas ruins! Falou isso quando enfrentaram o akuma Verdade, não falou? É claro que ela não era apaixonada por ele e o rejeitava sempre, mas ela não o odiava.
Eles sempre confiavam um no outro, apesar do segredo. Isso sempre foi uma verdade absoluta e incontestável. Eles eram uma dupla, parceiros, um completava o outro. Eles se balanceiam e se equilibram. Era os dois, Ladybug e Chat Noir, juntos contra o mundo. Ele não podia começar a duvidar dela agora.
Mas ele se lembrou, não muito tempo atrás, da luta contra o Sentibolha, onde o “plano de duas pessoas” sequer o envolvia. Se lembrou de todas as palestras sobre a importância das identidades secretas, se lembrou de todas as vezes em que ela o chamava de irritante e irresponsável, se lembrou do seu melhor amigo afirmando categoricamente que ela o achava um chato e que ele pensava o mesmo, e se lembrou que Rena e Carapace sabiam as identidades um do outro por que Ladybug confiou que eles eram capazes de se manter em segredo.
Adrien, Chat Noir, se lembrou de cada vez que sentiu que foi inútil, ou foi deixado de lado, ou chamado de irritante e irresponsável. Ele se lembrou que agora quem tomava todas as decisões era ela, e que se ela quisesse, se ela confiasse nele, ele poderia saber quem ela era.
Yin e Yang, criação e destruição, sorte e azar, sempre e equilíbrio, sempre caminhando juntos. Os dois, parceiros, iguais, lutando juntos.
“Somos nós dois contra o mundo, m’lady!” Sua própria voz ecoou na sua cabeça.
Naquele dia, a certeza inabalável, que Hawk Moth nunca tinha sido capaz de abalar, falhou. Chat Noir, Adrien Agreste, amava Ladybug, e sabia que uma parte de si sempre sentiria o mesmo.
Mas ele não sabia se podia confiar nela.
E, pior ainda, não acreditava que ela confiava nele.
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