Last night
1 Capítulo Único: Last night
Só tenho uma noção exata de que estou já desperta quando sinto um toque desconhecido em minhas costas. Não posso dizer que foi um toque longo, sequer durou mais do que dois segundos. Porém aquilo foi o bastante para fazer com que minha primeira reação fosse levantar-me.
Pisquei algumas vezes, de início senti como se não reconhecesse meu próprio quarto, mas essa sensação foi deixando-me assim que me vi completamente acordada. Vi roupas jogadas no chão, as que eu usei na última noite e também roupas masculinas. Uma camisa social de um azul muito bonito, uma calça jeans escura e claro, o par de sapato masculino.
Ao dar-me conta de que estava nua levei o lençol até meu corpo, cobrindo-me como se aquilo fosse tirar a culpa do que houve na noite anterior e também naquele quarto.
Tem um estranho em minha cama
Olho para o lado esquerdo e então vejo o desconhecido ali, adormecido demais para qualquer coisa. Ele está deitado de barriga para baixo, parte de seu rosto está sendo escondido pelo travesseiro, porém não posso dizer o mesmo de seu corpo.
Observo ainda em silêncio toda aquela exposição de nudez e músculos com lentidão. Arregalo meus olhos ao perceber algumas marcas avermelhadas de arranhões em suas costas e engulo seco por saber que fui capaz de fazer algo como aquilo. Principalmente por dormir com um completo desconhecido que sequer sabia o nome. Ou pelo menos não me recordava.
Está tudo embaçado
Tento lembrar-me do que houve na noite passada e falho logo na primeira tentativa. Minha mente mostra apenas imagens confusas, dificultando aquela tarefa. Faço um esforço maior e de forma inesperada consigo ter uma leve noção de algumas coisas que fiz noite anterior.
A dor quase insuportável de cabeça já deixa claro que bebi bem mais do que deveria e do que eu me permitia. Num terceiro esforço maior, tenho minhas mãos sobre meu rosto, os olhos estão fechados para que eu tenha um pouco mais de sucesso.
Respiro fundo, o cheiro agridoce do perfume masculino se faz presente e aquilo de alguma maneira faz com que a lembrança fique levemente mais clara. Lembro-me de apenas estar com o desconhecido, tenho a vaga impressão de que em algum momento acabamos juntos na pista de dança.
Parece loucura, mas ainda era possível sentir o toque de suas mãos sobre minha cintura, pelo menos era onde elas estavam enquanto dançávamos.
Acho que nos beijamos, mas eu esqueci
A lembrança não me parece assim tão clara, porém eu tenho quase certeza queria não ter de que em certo ponto eu simplesmente me agarrei a ele e disso eu me recordava muito bem; principalmente de ver seus lábios se esticarem muito lentamente ao mostrar um sorriso largo.
— Vamos sair daqui — O homem sem rosto e sem nome me diz, seus lábios próximos demais de minha orelha. Por que raios eu só consigo me lembrar dessa parte?
Minha cabeça está latejando
De fato eu deveria estar bêbada demais para me controlar, claro que não usaria a embriaguez como uma desculpa. Só como culpa. Acho que nunca bebi tanto ao ponto de precisar reconstituir meus passos para entender o que fiz e o que houve.
Como cheguei ao meu quarto com um homem que nem conhecia.
Tentando ligar os pontos
Ainda pensativa, tentando de qualquer forma e jeito fazer com que a noite anterior seja mais clara, consigo mais uma informação sobre ela. Era uma sexta-feira. Não é bem uma informação que me ajudou tanto assim, mas já posso ter uma pequena — muito pequena mesmo — de que talvez eu possa ter simplesmente tirado a noite para beber.
Mas eu não beberia sem motivo. Não beberia tanto assim sem que houvesse um bom motivo para tal. Talvez uma comemoração da qual tenha me esquecido?
Um celular toca. Não é o meu, pois o toque que escuto é mais como um tipo de alerta; talvez o sem nome tenha colocado um alarme para poder acordar. E é isso o que acontece.
Aos poucos ele começa a se mover na cama, não se dando conta de que está completamente nu bem ao meu lado e deixando tudo, exatamente tudo à mostra. O sem nome desliga o celular e tira o rosto de debaixo de seu travesseiro, observo seu cabelo negro bagunçado, ainda com seu rosto escondido.
— O quê?… — Sua voz sai amolecida por causa do sono, baixa demais.
Ele parece quase tão perdido quanto eu estava quando acordei. Inesperadamente ele apenas se vira na minha direção e, no segundo em que nossos olhares se cruzam minha primeira reação é simplesmente arregalar meus olhos. Surpresa demais para ter outra reação além daquela.
— Daniela? — Ele diz meu nome quase tão surpreso quando eu estava ali. O palavrão que se formou em minha mente por muito pouco não fugiu de meus lábios.
— Aaron? — Minha voz sai falha, mesmo que não fosse seu nome a primeira palavra que queria sair de meus lábios.
O palavrão no qual pensei continuava firme em minha mente, precisava me controlar ao máximo para não soltá-lo ali mesmo.
Eu já fiz muitas burradas em minha vida, uma lista extensa de coisas das quais tenho até vergonha de mencionar. Eu poderia ter feito de tudo, mas não poderia ter dormido com meu chefe.
Dentre centenas de homens nessa cidade, a pessoa com quem passo a noite e vou para a cama é justo o homem que pode me demitir ou me promover. Isso era tão errado em todos os sentidos.
Não sei o que dizer ao meu chefe
Nos encarávamos naquele mesmo silêncio de antes, a surpresa estampada em nossos rostos serviam como palavras para uma conversa da qual não queríamos ter no momento.
— O que fizemos?… — Seu tom sai com certo receio, como se ele temesse que a bagunça daquele quarto e nossa nudez fosse a resposta correta para ela. Mesmo que fosse uma pergunta retórica.
— Acho tudo isso já deixa bem explícito o que foi que aconteceu — Respondo abaixando meu tom de voz, envergonhada por estar em uma situação como aquela.
— Então levamos mesmo muito a sério aquele jogo… Verdade ou consequência — Ele diz como se estivesse rindo, porém era possível perceber certo constrangimento em seu tom de voz ao mencionar aquilo.
E foi assim que consegui enfim lembrar-me do que de fato aconteceu na sexta. Foi como se houvesse um botão em minha mente que, acabou de ser apertado e fez com que as lembranças viessem de uma só vez.
— Não me diga que realmente fizemos isso — Peço. Meus olhos ainda fixos nele, lutando internamente para que não olhasse para o restante descoberto.
— Até onde me recordo você me desafiou a dançar, te chamei para vir junto… Estávamos os dois embriagados demais e obviamente uma coisa levou a outra. — Ele respondeu de forma simples, já não parecia mais tão constrangido assim como antes.
É claro. Penso comigo mesma, sentindo-me ainda mais envergonhada que antes. Como uma mulher de vinte e quatro anos concorda em participar de um jogo bobo como aquele?
***
Já estávamos devidamente vestidos quando terminamos de esclarecer tudo o que ficou pendente ou confuso.
Unimos as lembranças que cada um tinha sobre a noite anterior e de fato, tudo fez muito mais sentido depois. Antes que ele pudesse ir embora tentei ser educada — e tentar quebrar aquele clima estranho entre nós — e lhe ofereci um café o qual ele aceitou mostrando um sorriso leve e gentil.
Mesmo que fosse em situações diferentes, fora o mesmo sorriso da noite passada. Aquele maldito sorriso. Apesar dele ter aceitado o café, isso não fez com que o clima entre nós ficasse mais leve, sequer estávamos nos encarando por mais de cinco segundos.
— Onde foi que aprendeu a dançar daquele jeito? — Ele perguntou quebrando o silêncio que se estendeu por minha cozinha sem me olhar, levando a caneca até seus lábios assim que me fez aquela pergunta.
Parecia mesmo interessado.
— Meus pais tinham uma escola de dança e bem, era participar das aulas ou fazer o dever de casa — Dei com os ombros ao lhe responder, rindo muito brevemente daquela lembrança. — Acho que ficou claro qual das opções eu acabei escolhendo.
Ele assentiu, dando mais um gole em sua bebida. Não trocamos mais nenhuma outra palavra depois disso, apenas bebemos nosso café no mais perfeito silêncio sem nos olhar direito.
Não sei o que dizer ao meu chefe
Quando terminamos o levei até a porta, apesar de já não estarmos como antes,o clima entre nós era estranho. Acho que essa era a sensação que todos sentiam depois de dormir com o próprio chefe.
— Acho que podemos fazer de conta de que a noite passada e o que veio em seguida nunca aconteceu. — Aaron sugeriu, parando bem na minha frente antes de sair.
— Isso seria muito bom. — Respondo em concordância. — Manteremos o mesmo profissionalismo sempre.
Ele também concorda e então sai, fecho a porta segundos mais tarde. O sinal de sua presença ainda era existente na minha casa, como se de alguma forma todo aquele lugar tivesse se tornado menor.
Isso foi uma falha épica
Volto para meu quarto e encaro a bagunça ali feita, a cena do crime cometido durante a noite servindo como um aviso do que fizemos. Como uma lembrança da qual eu sabia que não me livraria assim tão facilmente como queria.
Ouço o toque do meu celular, o sinal me alertando que recebi uma mensagem nova. O retiro de cima do criado mudo, encarando a mensagem recebida com um misto de sentimentos que não conseguiria descrever assim de imediato.
Só consigo esticar o canto de meus lábios, o sorriso fraco e breve logo sendo escondido pela mão livre. Talvez aquela noite não tenha sido assim tão errada como eu pensava e como achei que Aaron também pensaria.
“Na próxima sexta-feira podemos fazer tudo de novo"
Fale com o autor