Last Thank You - Serakai X fem!Oc

1 Is having the best day of my life


Existe um velho ditado no mundo que expressa que a única certeza que o ser humano possui, é de que a morte vem para todos. Bom, eu sabia que a morte viria me buscar um dia, pois sendo uma mera mortal, essa mortalidade um dia viria a culminar na minha partida deste mundo. Sim, eu já sabia, porém... É estranho como mesmo as certezas mais absolutas podem ser angustiantes, principalmente por serem irreversíveis. Não nos preocupamos com a nossa partida, mesmo sabendo que ela irremediavelmente ocorrerá em algum momento de nossa breve existência na Terra. Não nos preocupamos em morrer, porque queremos sempre viver. E viver pensando em morrer não é um modo saudável de aproveitar a dádiva que é a vida.

Aprendi esse lema rápido. O “só se vive uma vez” também é outra verdade absoluta que sempre carregamos conosco. Nós, os pequenos seres humanos, estamos fadados a existir por somente um período, e esse período é definido de acordo com diversos fatores. Saúde, condição financeira, ambiente, política, tudo. Existem inúmeras coisinhas que, a princípio, soam insignificantes, mas que têm um papel fundamental na decisão de quando partiremos ou não. Tornamos eles insignificantes porque não queremos pensar na morte.

Só que nem todos podem se esquecer disso. Dessa única certeza que possuímos ao nascer: a que vamos morrer um dia.

Sempre pensei que foi injusto me dar conta de que essa verdade absoluta existe praticamente desde o meu nascimento. A minha data limite foi imposta graças ao que nomeamos como ELA, ou Esclerose Lateral Amiotrófica. E desde então, esse também foi meu nome, meu rótulo, minha doença. No hospital que se tornou praticamente minha casa, eu fiquei conhecida como “a garota do ELA”. Então, se nem nome eu tenho direito, peguei-me pensando sobre as razões de ter nascido. A minha sentença de morte foi anunciada quando eu era uma criança, eu nunca via sentido em lutar para sobreviver a uma doença sem cura, os médicos mal tinham expectativa sobre por quanto tempo eu ainda resistiria, o progresso da ELA estava estranhamente lento e por um tempo eu acreditei que ela nem existia, ou que eu poderia receber um milagre em forma de cura.

Só que os sintomas começaram a se agravar na adolescência e desde então minha vida nunca mais foi a mesma. Eu agi como qualquer ser humano, que sabe que a morte existe, agiria: esqueci a tal verdade absoluta, esqueci que sou mortal – aliás, mais mortal que os demais –, alimentei sonhos, crenças e ganâncias. Em resumo: criei expectativas irreais. Não é isso o que todo mundo faz? Estamos sempre vivendo sem saber o que está acontecendo e o que há de vir a acontecer mais pra frente, mas isso não nos impede de continuar. Uma criança não sabe se seus pais vão continuar casados e se ela vai saber lidar com uma possível separação deles. Um adolescente não sabe se vai conseguir seu primeiro emprego tão rápido. Um adulto não sabe se está pronto para ser genitor de uma nova vida. Um idoso não sabe se criou seus filhos com amor o suficiente para não ser despejado em um asilo qualquer, fadado a viver sob medicação e sem uma visita de algum parente que se importe. Nunca sabemos de nada sobre nossas vidas, só conhecemos nossas próprias essências.

E ainda assim, eu posso dizer que me conheci a tempo. Eu soube sonhar, aprendi a amar e entendi que o futuro poderia ser belo. Coisas como essa você não compreende só porque recebeu a triste notícia prematura de que um dia seu cérebro desajustado irá parar de enviar os comandos para controlar seu corpo e que uma hora ou outra você não vai mais conseguir respirar sozinho. Não. Esse tipo de lição aprendemos uns com os outros. Acho que esse diferencial é o que torna as pessoas tão essencialmente… Humanas.

Aprender sobre humanidade quando não me sentia como uma igual foi uma tarefa particularmente desafiadora. Devo dar todos os créditos a tal façanha para Kai’sa e Seraphine, minhas duas pessoas favoritas no mundo. Eu não me interessava pelo mundo ou por pessoas desde que fiquei confinada no hospital fazendo vários exames pra constatar se a ELA progrediu ou não. Se não fosse pela minha condição, talvez eu não as tivesse conhecido, afinal, elas dedicam parte do seu tempo livre como voluntárias na minha casa.

Eu defini erroneamente o sentimento que me acometia como simples alegria quando elas surgiam pela porta da ala onde eu e outros internos ficávamos vendo os dias passando. Elas eram gentis com todos, faziam o seu melhor para nos manter entretidos o suficiente para nos esquecermos da razão de estarmos ali. Mas, como é de se esperar de alguém que nunca teve contato humano verdadeiro com alguém além dos meus pais, eu mal sabia me comunicar direito e ficava muito tímida em suas presenças. Seraphine foi a primeira a me olhar com mais do que mera cortesia e empatia. Ela dedicou a mim uma canção – ela era ótima tocando violão, por sinal – e sempre me arrancava sorrisos sinceros nos dias mais deprimentes. Kai’sa foi mais difícil de me aproximar, pois a sua principal função nesta ala era meio que incentivar as pessoas a fazer algum exercício – supostamente isso ajuda a nos fortalecer, todavia sempre pensei que ocorria o contrário, afinal de contas, depois de tanto esforço físico e psicológico, eu mais me sentia desgastada do que fortalecida –. Elas também não eram tão próximas assim, no início. Mesmo sendo um raio de sol iluminando cada canto daquela ala, Seraphine tinha sua própria maneira entusiasmada de fazer seu trabalho, e Kai sempre foi a mais reservada e contida, profissional. Contudo, até mesmo alguém desprovida de experiências românticas como eu sabia o significado sigiloso de cada olhar que elas trocavam.

Eu aprendi a sentir inveja por conta disso. Veja bem, como eu sabia que minha vida se extinguiria muito mais cedo – ou como diz a protagonista de A culpa é das estrelas, “terei menos números do que a maioria terá”, algo assim –, era inexistente o sentimento de invejar os demais. Acreditei que seria mais inteligente da minha parte encontrar alguma vantagem em saber que não viverei muito. Eu não fazia muitas das coisas que os demais faziam, como sair para uma balada, fumar um bagulho, transar com desconhecidos ou o que quer que sejam os tais “prazeres mundanos profanos”. Eu me focava nas partes relativamente boas. Ser quem eu era me impedia de sofrer como pessoas normais sofrem. Ficar ansioso por uma nota no vestibular? Chorar pela derrota do meu time numa competição? Levar um pé-na-bunda de um ficante pelo qual acabei nutrindo sentimentos que não deveria? Eu nunca passaria por essas experiências traumáticas. Naturalmente, por saber que isso não se concretizaria na minha enfadonha realidade de “bomba-relógio”, comecei a pensar nesses “problemas” como algo muito, mas muito inferior ao meu problema. Qual o sentido de chorar por esse tipo de situação, estando na minha condição?

Então eu não invejava ninguém por ser simplesmente humano e viver experiências banais de desilusão. Isso até perceber que estava errada desde o início. Minha condição de saúde nunca foi impedimento para nada. Eu passei a invejar aquelas duas porque elas teriam uma coisa que eu acreditei que jamais teria. Uma coisa que eu passei a desejar ter, mesmo que só uma vez. Um romance. Querer ser amada me fez mais doente do que a ELA, para ser sincera. Testemunhar cada dia de progresso no relacionamento de Kai e Sera foi deleitante e torturante de uma maneira que jamais serei capaz de descrever em palavras. Me falta vocabulário para explicitar o quanto desejava estar no meio disso, sem me sentir uma intrometida.

Elas entraram em minha vida e eu não queria entrar na delas. Não queria acabar com a sintonia delas. Não queria que a ELA destruísse nosso elo momentâneo. Mas… Tudo na vida é momentâneo. A vida é momentânea, então do que eu tinha medo? De causar dor mais cedo que o normal? Porque eu sabia que a minha morte as destruiria.

Bem, isso não importa mais. No dia que brinquei com o fato de nunca ter beijado ninguém na minha vida, Seraphine aproveitou que estávamos sozinhas na ala – todos foram para uma das atividades de Kai'sa – e agiu por impulso, segurando meu rosto e selando os lábios nos meus. Um toque simples, rápido, mas não menos romântico por isso. Lembro que esbugalhei os olhos quando percebi o que tinha acabado de acontecer. Seraphine riu da minha expressão de surpresa e prometeu fazer aquilo mais vezes, se eu pedisse com jeitinho. Eu questionei suas razões pra atender meus desejos e pedi rudemente para que não me iludisse ainda mais, pois eu não queria sofrer e fazê-la sentir o mesmo.

Eu acabei magoando Seraphine no mesmo dia em que ela me proporcionou um dos momentos mais felizes da minha vida. Minha aspereza foi suficiente para fazê-la se sentir culpada por me beijar, porém, como consequência do meu falso repúdio, ela procurou consolo na única que a entenderia: Kai'sa. Não posso negar que senti ciúmes ao vê-las mais próximas do que nunca depois deste incidente, ainda mais por ver que Sera ficava desconfortável comigo. Ela tinha toda a razão, entretanto, ser humana era muito complicado e uma novidade pra mim, eu não compreendia que deveria me desculpar ao mesmo tempo em que queria desesperadamente pedir desculpas. Uma casca vazia sem esperanças e sentimentos foi aos poucos se tornando uma pessoa graças ao incidente, quem não sentia nada agora possuía raiva, angústia, medo, um coração partido e muitos anseios. Seraphine me transformou com apenas um beijo, mas o trabalho ainda não estava completo. Kai'sa teria um grande papel nisso.

A ELA começou a progredir outra vez e eu já não podia caminhar com minhas próprias pernas, pois meu estúpido cérebro confuso não enviava mais os comandos que deveria. Eu passei a ficar no quarto o tempo todo, aprisionada. Eu sentia mais inveja ainda e agora os alvos eram os outros pacientes que ainda podiam se locomover por conta própria. Eu sentia inveja de quem podia se levantar e participar normalmente das atividades físicas promovidas pela Kai'sa. Seraphine não me visitava mais desde o beijo e eu não podia ir até ela. O meu elo com ela estava fraco, desmanchando como açúcar na água. Então, nessa situação, minha vontade de viver foi se tornando praticamente inexistente.

Até que chegou a vez de Kai'sa me surpreender. Ela foi a mediadora do meu desentendimento com a Seraphine incentivando-a a esclarecer o mal-entendido por causa do beijo. Eu tive minha chance de pedir desculpas e fazer com que ambas entendessem o meu lado nessa história. A verdade é que eu tinha muito medo de causar dor a alguém, por ser alguém que sofre desde que se conhece por gente. Seraphine se apaixonar por mim não era uma coisa boa, pois eu morreria cedo. Ambas sabíamos disso e, ainda assim, o sentimento acabou germinando e criando raízes fortes demais em nossos corações.

"Entenda que nada nessa vida é previsível. E se um dia eu sofrer um acidente e morrer antes de você? Não tem como saber quem vai primeiro, porém, isso nunca impediu ninguém de se apaixonar", foi o argumento usado pela jovem voluntária com os cabelos tingidos de azul ciano, num tom tão emotivo que me deixou envergonhada por ser tão estúpida. Nesse dia, ficou mais do que explícito que Seraphine tinha se apaixonado de verdade por mim e que eu também estava apaixonada por ela, então nem mesmo a ELA seria capaz de destruir esse amor, ainda que condenado.

Kai'sa ficou feliz por nós duas, mas ao mesmo tempo, triste. Ela sentiu a mesma insegurança que eu e não quis se intrometer entre nós. Essa confusão se estendeu por mais um tempo, Kai foi se afastando e sempre nos deixava sozinhas. Tanto Seraphine quanto eu fomos percebendo a mudança de comportamento dela e sentimos a sua falta, então precisávamos bolar um plano pra recuperar o outro elo perdido dessa relação. Desta vez, a culpa não era da ELA, mas nossa, então era nossa responsabilidade trazer Kai'sa de volta.

Seraphine foi a mente genial por trás do melhor dia da minha vida. Comentei com ela sobre meu desejo de ver uma praia pelo menos uma vez, e foi com essa justificativa que conseguimos convencer Kai'sa a participar desse grande evento. Ela era a única entre nós três com habilitação e também a única que poderia me ajudar a sentir a água – já que alguém teria que me carregar até lá, pois eu não podia mover minhas pernas sozinha –. Bondosa como de costume, ela não recusou mesmo achando que seria uma grande vela entre nós. Após conseguirmos a autorização para minha saída momentânea do hospital, nos organizamos e realmente fomos à praia da cidade no meio da semana, quando quase ninguém estava por lá. Kai'sa foi gentil e responsável, cuidadosa o bastante para me carregar no colo estilo noiva enquanto me levava para mais perto da água. Eu fiquei empolgada e maravilhada com a paisagem, observando Seraphine molhar os pés e brincar por ali. Kai'sa me sustentou nos seus braços por um período bem longo, sem reclamar do meu peso ou coisa parecida, transparecendo sua afeição por mim em cada mínimo gesto. Eu fiquei mais tímida ainda com os olhares e sorrisos que ela me lançava, tomando coragem pra revelar que tudo aquilo era um plano para mostrar o quanto ela era essencial na minha vida e na de Sera.

Depois de nos acomodarmos na orla da praia vazia, com Kai'sa insistindo para que eu continuasse no seu colo mesmo que não fosse mais necessário, Seraphine perdeu um pouco da paciência pela minha falta de postura e, num rompante, simplesmente beijou Kai. Senti-me como numa espécie de dèja vú, pois foi exatamente assim comigo – Sera é bem impulsiva –. Kai'sa se assustou com a impetuosidade da azulada e ficou ainda mais envergonhada com o fato de eu estar testemunhando uma suposta "traição descarada" da parte de Seraphine.

"Francamente, você é muito lerda, Bokkie", eu disse alguma coisa assim antes de virar o seu rosto pra mim e também beijá-la. Foi diferente de beijar a Seraphine, só que a sensação era tão boa quanto. Eu me senti sortuda por dividir aquele momento com duas grandes paixões e, após esclarecermos como iria funcionar aquele arranjo de relacionamento entre nós três, observamos o sol se pôr de modo majestoso no horizonte, ouvindo as pequenas ondas do mar. Eu me senti bem, então pela primeira vez, eu quis cantar uma das minhas músicas favoritas: "Thank You", da cantora Dido. Apesar da melodia ser meio melancólica, eu ainda sentia que, de algum modo, a letra conversava comigo e simboliza bem o que Kai'sa e Seraphine são pra mim.

Aquele foi o melhor dia da minha vida, não apenas porque eu realizei meu sonho de ver o mar, mas porque eu tive a companhia delas. Cantar que queria agradecê-las por estarem comigo e me darem o melhor dia da minha vida foi importante pra mim.

Eu queria que nesse momento eu pudesse cantar de novo pra elas. Queria poder lhes dizer que elas são a melhor parte da minha vida. Queria poder explicar que aquele só foi o melhor dia da minha vida porque estar com elas era o que fazia esse dia ter um significado. Todavia, aqui estou eu, com a ELA avançada, presa numa maca, com o meu cérebro inútil me impedindo de falar. Eu estou sozinha com esses meus pensamentos, contudo, elas não me deixaram sozinha mesmo agora.

Os olhos amorosos de Seraphine foram manchados com o medo de me perder. E o par ametista de Kai'sa se encontrava de modo semelhante. Elas estão preocupadas comigo, com a ELA avançando para o estágio mais fatal. Eu nunca fui uma pessoa otimista, porque sempre soube que ELA era uma doença sem cura. Ainda que diante da morte, eu não deixei de me sentir frustrada por saber que essa seria minha última oportunidade de agradecer a existência de Kai'sa e Seraphine em minha rotina chata e desesperançosa. Mas… O "último obrigada" desde sempre foi a única certeza que eu tinha conhecimento, só que nenhuma das três estava verdadeiramente preparada para o momento da minha partida.

Desta forma, antes que meu cérebro me traísse e o nada me consumisse, foi possível pedir que Seraphine cantasse no meu lugar. Minha audição ainda funcionava, então eu consegui ouvir o timbre suave e levemente choroso repetindo a letra da minha canção favorita. Eu fechei meus olhos e me concentrei na voz de Seraphine, que ganhou o auxílio tímido de Kai'sa para "encorpar" aquela pequena apresentação particular. O dueto soava lindo pra mim e eu sorri.

Não é tão ruim encarar a morte quando não me sinto sozinha.

Meu nome já não importava, minha vida já não importava, nem quem eu fui e quem sou. Não é tão ruim, porque eu sei que o elo que construí com elas seria impossível de se destruir. Eu amava Kai'sa e Seraphine na mesma proporção que elas me amavam. Eu podia sentir tudo isso através das suas vozes cantando em conjunto, pelos poucos soluços que atrapalhavam Seraphine – a mais emocional de nós três – a cantar como sempre.

Eu não sentia força pra abrir os olhos de novo. Não teria coragem de partir se as visse de novo. Essa seria a última vez.

Eu senti a brisa fresca.

Eu senti o cheirinho do mar.

Eu senti a areia da orla.

Eu senti seus lábios sobre os meus.

Eu senti os braços de Kai'sa e os de Seraphine me envolvendo.

Eu senti o mar me envolvendo.

Eu senti amor.

Eu senti o som.

Eu senti elas.

Não é tão ruim.

.

.

.

O dia estava dando seu lugar à noite, com o manto negro consumindo a luz do sol aos poucos. A praia estava deserta assim como da última vez que as três foram para lá, com a lamentável diferença que, agora, estavam somente Kai'sa e Seraphine na beira do mar, as águas calmas indo e voltando, atingindo seus pés de vez em quando. Parecia meio sem sentido ir até lá sem ela, ao mesmo tempo em que era o único lugar onde conseguiam sentir sua essência e sua presença.

Ela partiu, mas ainda estava viva nos seus corações.

Seraphine ficou em silêncio durante o trajeto e Kai'sa não quis interferir em seu luto. Ela mesma estava de luto por ela. De frente para o espetáculo visual do pôr-do-sol tingindo os céus de vários tons coloridos, o casal pensou nela com todo o amor e carinho que ainda nutriam, e continuarão a nutrir. Foi um relacionamento curto que desde o princípio tinham ciência de que não se estenderia pelo tempo que almejavam.

A ELA pode não ter concedido esse tempo, mas o elo delas sim. Porque aquele amor seria eternizado a partir daquele instante.

— Isso é mais difícil do que eu pensava. — Seraphine se pronunciou primeiro, soltando um suspiro.

Foram do céu ao inferno em questão de dias. Em um momento estavam desfrutando de um amor puro numa tarde pacífica na beira do mar. Um pouco depois, descobriram que nunca mais poderiam repetir tal experiência única. Kai'sa se sentiu extremamente fraca e impotente quando ela parou de respirar e, como consequência, seu coração foi parando de bater. Sentiu-se a mais tola e frágil das criaturas quando testemunhou o desespero de Seraphine, que implorou para que ela lutasse um pouco mais, que vivesse um pouco mais, aos prantos e gritando. As enfermeiras foram obrigadas a tirá-las de lá e Kai percebeu que aquela era a hora do último adeus. Incapaz de chorar, teve de consolar a mais nova, que estava descontrolada demais e chorava sem parar nos seus braços.

Enquanto assimilavam sua morte e se lamentavam, Kai teve os mais diversos pensamentos. Ainda sem derramar uma lágrima, mas com o coração despedaçado, se perguntou se ela só não chorou ainda porque foi a última a ser inserida naquele relacionamento e por ter menos momentos românticos privados do que Seraphine teve. Se ela a amou menos e por isso demonstrava com menos força o quanto estava arrasada com sua partida. Só que isso não era verdade. Ela também a amou com a mesma intensidade que Seraphine.

My tea's gone cold, I'm wondering why. I got out of bed at all. — Kai'sa começou a cantar, quase num sussurro de tão baixo e íntimo, mergulhando nas lembranças preciosas que tinha com Seraphine e ela naquela praia — The morning rain clouds up my window, and I can't see at all…

Seraphine observou a companheira, reparando nas finas lágrimas que começaram a escorrer do rosto cansado. Com o coração palpitando, soltou outro suspiro, abriu a urna e começou a espalhar as cinzas na água.

And even if I could, it'd all be gray, but your picture on my wall. It reminds me that it's not so bad. It's not so bad…

As cinzas se mesclam com a água, sendo carregadas para longe. A voz de Kai começou a falhar um pouco, pois se desestabilizou com a saudade gritante e com a dor em seu peito. Assim sendo, Seraphine lhe devolveu a cortesia de acompanhá-la na cantoria:

And I want to thank you…

Suas mãos se unem, os dedos se entrelaçam.

For giving me the best day of my life.

O som das ondas do mar se tornam o instrumental perfeito para o último agradecimento do casal para ela.

Oh… Just to be with you.

As duas se entreolham e, em meio às lágrimas, ainda foram capazes de sorrir ao pensar nela.

Is having the best day of my life.

Notas finais
Fanfic inspirada na letra da música "Thank You", da cantora Dido: https://youtu.be/sYayn9T40lY

Sinto-me mal por escrever algo muito triste com o tema do Poliamor, mas espero que ela fique no coração de vocês da mesma forma que ficou no coração de Kai'sa e Seraphine.

Ela não tem nome, mas amou, logo, existiu.

Eu quis escrever desta forma, com a narração da protagonista e logo depois com um narrador de fora porque eu queria colocar os sentimentos da Sera e da Kai em pé de igualdade, e isso seria impossível caso após a morte da prota, uma delas narrasse o final.

Deixo aberto à interpretações o fato de que ela partiu ouvindo a canção, sendo que a Seraphine estava chorando na ocasião e a Kai'sa não conseguiu ter reação.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!