“Está frio aqui em cima, é difícil de respirar.” Essas foram minhas primeiras palavras ao chegar ao topo desta torre. Eu estava preocupado com minha vida, com as coisas que eu faria no dia seguinte, com minha escola e tudo mais. Até então, eu estava preocupado com isso e com o que eu acabava de descobrir. Mas todas essas preocupações desapareceram em um instante. Não... Elas tiveram que desaparecer em um instante.

- Então é assim, não tem outro jeito?

- Não tem outro jeito.

- Eu já acreditava que o mundo não é um lugar tão triste.

- Desculpa, isso também é uma mentira. O mundo agora é um lugar muito triste sim.

- Ouvir isso logo de você, eu não sei se consigo suportar.

- Vai ser rápido... Eu acho. Me desculpe Black, mas essa é a única maneira. Blake Water tem que morrer.

- Acho que não há outra forma então. Adeus, Alonzo.

- Te vejo no inferno.

E atirou. Seu tiro não foi certeiro, mas a dor foi intensa. Sem gritar ou reclamar, eu cambaleei para trás até tropeçar na borda do terraço.

- Eu... – Apontei meu braço para Alonzo, como se tentasse alcançá-lo. – Eu não...

... Queria que fosse assim. Foi o que eu tentei dizer antes de cair para a morte certa. Acho que está tudo bem. Agora mesmo escamas negras dançam em torno de mim como uma mensagem de morte. Em cada uma delas consigo ver lembranças de um passado simples, onde Blake Water era só um garoto confuso tentando encontrar razão na vida.

- Mas no fim das contas, não há razão alguma.

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Era um dia de aula como qualquer outro, Lisa estava na sala falando algo sobre uma tal de Peste Negra. Eu olhava pela janela para o sol nublado como sempre, tentando ver alguma coisa.

- Isso é estranho, eu achei ter visto umas luzes vindo de lá naquele dia.

- Luzes? Que diabos você está falando, Black?

- Gh...!

Alonzo sentava na cadeira atrás da minha. Havia sorteios para decidir o local de cada um, mas juntos nós burlávamos o sorteio facilmente. Ele sentava na última cadeira da fileira da ponta, ao lado das janelas. Eu sentava logo a sua frente. As fileiras tinham em torno de dez alunos, então vamos dizer que nós ficávamos bem no fundo da sala.

- Não é nada, não é nada. – Respondi sem muito ânimo. – Mais importante, você deveria prestar atenção, suas notas estão uma vergonha ultimamente.

- Ahaha! Não se preocupe, não se preocupe. Eu tenho um plano! Gênios como eu precisam da situação certa para mostrar sua verdadeira genialidade!

- Com “situação certa” você quer dizer 30 minutos antes da prova de recuperação, completamente desesperado e com uma tonelada de matéria pra aprender?

- Ptchin! Não poderia estar mais certo!

Sem responder nada, virei as costas para ele ignorando-o. É claro que ele não desistiu, mas antes que pudesse me encher mais, um borrão branco passou ao meu lado. Eu virei para trás, já esperando o inevitável:

- Ai... Uma bela dama não deveria ser tão violenta, Lisa. – Alonzo tinha uma marca no meio da testa, era uma marca branca de giz. Mais importante: ele possuía naquele momento um giz inteiro grudado na sua testa. A professora havia atirado o giz com tamanha força que um pedaço ficou preso na cabeça dele.

- Cale a boca! – Gritava ela com sua voz infantil, com os olhos já vermelhos. Ela usava um vestido longo que chegava a ser engraçado para alguém na sua posição, principalmente considerando a sua altura anormalmente pequena. Some isso a uma voz hilariamente fina e você terá a fórmula para uma professora que jamais seria levada a sério – Vocês dois não fazem nada além de conversar minha aula inteira, até os outros alunos estão me levando menos a sério!

- Bem, você não pode nos culpar. Deveria culpar esse seu vesti...

Antes que ele pudesse terminar, outro giz o acertou no meio da testa com uma velocidade alarmante.

- Não é por nada não, mas você deveria parar com os comentários. – Avisei com certo tédio.

- É-é... O crânio humano não foi criado para aguentar tamanho impacto. – Respondeu ele enquanto limpava o giz da própria testa.

- Já que estão se divertindo tanto, por que não distribuem os papéis para a turma?

- Papéis? – Perguntei me apoiando sobre o próprio braço como se estivesse cansado. Lisa olhou para nós como se todo o ódio do universo estivesse concentrado em um ponto. Se algo não fosse feito, nossa querida professora iria começar a chorar.

- Você tem alguma coisa na cabeça além de vento? É claro que ela está falando do sorteio de grupos pro Aniversário da Escola. – Uma pessoa bastante incômoda se levantava de sua cadeira.

- Alida Van Haley. Para uma deusa como você nos direcionar a palavra, quanta honra!

- Cale-se. – Respondeu Alida, após o comentário de Alonzo. – Venham aqui e peguem as cestas com os papéis, então distribuam pela sala. Vocês são bons em ficar andando por aí inutilmente, então acho que podem fazer isso.

- Ora, assim eu fico...

- Não foi um elogio.

Bem, ela era bastante... Difícil. Eu sempre acreditei que ela era assim por ser uma herdeira rica, mas nunca dei muita importância. De qualquer forma, eu me levantei e fui até a mesa da professora, acima da qual havia duas cestas com papéis. Alonzo veio junto de mim. Basicamente, não havia porque explicar o que estava acontecendo ali. O Aniversário da Escola era um tipo de festival comemorado todos os anos, mas não pelos alunos. O festival era feito pelos alunos, que eram separados em grupos de quatro pessoas. A competência de cada grupo decidiria sua pontuação, que valia como metade da nota bimestral no primeiro bimestre. Um grupo poderia fazer qualquer coisa. Uma loja, um show, um jogo. O importante era levantar o máximo de fundos possível. Uma parte de todo o dinheiro obtido iria para o Conselho Estudantil, que poderia implementar melhorias para os alunos. De certo modo, todos nós estávamos competindo uns contra os outros, mas ao mesmo tempo tínhamos de nos ajudar.

- Ei Lisa, nós precisamos usar o uniforme durante o festival?

- Não, vocês... O que eu falei sobre me chamar pelo nome?!

- Qual é sua idade mesmo, Lisa?

Dessa vez fui eu quem recebeu um giz na testa.

- Ahahahaah! O giz até ficou preso na sua cabeça!

- Eu não quero ouvir isso de você, Alonzo!

Acabamos de distribuir os papéis. Basicamente, cada pequeno pedaço de papel tinha um número. As pessoas com o mesmo número iriam estar no mesmo grupo. Era tão simples assim. É claro que eu e Alonzo fizemos questão de guardar dois papéis com o mesmo número para ter certeza de que sairíamos juntos. Em uma troca de olhares, ele piscou os olhos duas vezes o que decidiria que o número escolhido era o “dois”. Os grupos geralmente tinham quatro pessoas, mas podiam ter até sete. Nós geralmente não nos importávamos com quem aparecesse no nosso grupo, já que iríamos provavelmente faltar todos os encontros e fazer alguma coisa sozinhos. Porém, neste mundo, as coisas sempre tendem a dar errado.

- Tudo bem classe. Agora aqueles que tiraram o número um devem levantar suas mãos. Ótimo, estão todos aqui. Agora, o grupo dois, por favor.

Como eu imaginei, tanto eu quanto Alonzo levantamos nossas mãos. O que eu não imaginava, nem mesmo em um milhão de anos, era a identidade dos últimos dois membros do grupo. De forma decidida, uma garota com longos cabelos loiros, peitos fartos e uma pele branca e lisa como seda levanta sua mão direita enquanto olha para nós com um tipo de aura assassina.

- Isso só pode ser...

-... Um lindo milagre! – Disse Alonzo, terminando a minha frase contra minha vontade. – E pensar que teríamos duas beldades em nosso grupo! Quem sabe o espírito da primavera não brota em nós durante nossa jornada?

- Estamos no meio do outono e... Você disse duas beldades?

Sim. Outra garota levantava sua mão direita, porém de forma mais discreta. A segunda pessoa da fila mais distante da janela. Ela tinha cabelos castanhos escuros que paravam no começo do pescoço, olhos verdes penetrantes e uma personalidade quieta e tímida. Não era alta ou pequena demais. Sem qualquer característica notável, uma pessoa exatamente na média. Essa era Aya Tsuyameku para mim.

- Ora, não me diga que você não percebeu a bela senhorita Tsuyameku? Mesmo você sendo perdidamente apai...

Um giz acerta em cheio a testa de Alonzo, derrubando-o no chão antes que terminasse sua frase.

- Eu fico te devendo essa, minha respeitável professora.

- Não há de quê, senhor Blake.

A aula acabou pouco depois. Alonzo havia colocado um band-aid no meio da testa por motivos óbvios, todos menos Lisa, eu e Alonzo já haviam saído da sala enquanto nós conversávamos e guardávamos o material.

- Ei Black, você precisa aproveitar essa oportunidade.

- Que seja, não é como se eu ligasse...

- Não me venha com essa. O fato de Aya estar no seu grupo só pode ser um lindo presente dos céus para a sua vida amorosa.

- Sei lá...

Nós dois saíamos da sala quando somos parados por Lisa.

- Espere. Black, pode sair. Terei uma palavrinha com Alonzo.

- Te vejo no inferno.

- Só se ele for cheio de gatinhas!

E fechei a porta. Suspirei ao imaginar a bronca que Alonzo estava levando dentro da sala, mas esqueci daquilo imediatamente quando olhei para o fim do corredor. Aya subia as escadas para o terceiro andar. Eu imaginei que poderia puxar alguma conversa com ela agora que estávamos no mesmo grupo do festival.

- Ei, você!

Sem resposta. Ela subiu as escadas saindo de vista, eu então corri para tentar alcançá-la. Não havia como saber em que andar ela havia parado, então eu simplesmente chequei andar por andar e continuei subindo as escadas até o terraço.

- Ela tem que estar aqui.

A escadaria dava para uma única porta, a qual deveria levar ao terraço. Geralmente é uma área proibida para os alunos, então fica trancada, porém a porta estava somente encostada como se houvesse sido deixada aberta por engano. Eu andei até a porta, abrindo-a lentamente como quem não queria chamar atenção. Do outro lado, estava o terraço. Só uma barra de metal impedia alguém de cair da borda do mesmo para uma morte certa. Aya estava de pé no meio do terraço.

- Ei, Tsuyameku não é? Eu gostaria de falar com... – Foi aí que eu vi. Foi aí que tudo mudou. Aya se debatia enquanto segurava com a mão esquerda seu braço direito. Ela gemia como quem estava lutando contra algo. Foi aí que eu vi. -... Você.

Seu braço inchou como o de um gorila, depois voltando ao normal. Como uma ilusão, como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu, ou ela não estaria se debatendo. Aya continuou como se estivesse sentindo mais e mais dor. Eu não podia fazer nada, eu fiquei paralisado. “O que está acontecendo?”. Só consegui pensar em mais e mais dúvidas. E aí ela caiu. Lutando contra si mesma, acabou batendo contra a grade de metal. A última coisa que eu vi foi ela tornando seu olhar para mim, como se finalmente houvesse notado minha presença, então seus lábios se moveram. Eu não consegui ouvir, era apenas um sussurro. Porém chame do que quiser, tenho certeza que entendi perfeitamente o que ela disse naquele instante. As últimas palavras de Aya antes de cair foram:

- Me ajude...!