Last First Kiss
1 Sonho de uma Noite de Outono
Notas iniciais
Cá estou eu, postando short-fic Flemia. Espero que isso tire vocês da depressão de dia 31 de Outubro.
Música que eles cantam nesse capítulo: http://www.vagalume.com.br/randy-newman/my-silent-love.html
Os personagens Oberon e Titânia foram tirados da peça shakespeariana Sonho de uma Noite de Verão (entendedores pegaram a referência óbvia).
No mais, espero que gostem!
Last First Kiss
Capítulo 1. Sonho de uma Noite de Outono
Fleamont Potter arumava-se diante do espelho do banheiro, terminando o feitiço que deixaria sua pele esverdeada e mais angulosa, junto com as orelhas pontudas. Sorriu para si mesmo nervosamente, satisfeito com o resultado e pondo a coroa de ramos que fizera algumas semanas atrás sobre a cabeça. Perfeito. A fantasia estava completa.
Perscrutou as roupas que vestia com os olhos castanhos cobertos por lentes de contato, já que sua fantasia não incluía os grossos óculos de armação redonda que usava; em vários tons de verde, bastante leves, pareciam vestes formais de bruxo exceto por uma coisa: os vários adornos em ouro que lembravam galhos retorcidos de folhas de louros e seus sapatos pontudos na cor preta. Deveria ser assim, já que naquele noite ele não era o certinho e queridinho de Slughorn Fleamont Potter; era Oberon, Rei dos Duendes, e deveria descer até o Salão Principal para encontrar sua acompanhante naquela noite.
Era 31 de Outubro, Halloween. Seus colegas grifinórios organizaram uma festa à fantasia para honrar a data e convidaram os amigos próximos e as pessoas com quem simpatizavam, e isso incluía o promissor setimanista grifinório que se olhava no espelho e torcia as mãos nervosamente naquele momento.
Fleamont não era muito acostumado a sair com garotas; preferia ficar seguro em sua sala comunal, com seus livros e caldeirões, a ir aos detestáveis encontros que seus amigos de vez em quando arrumavam para ele. “Fleamont, você precisa de uma namorada!” “Fleamont, você nos envergonha sendo virgem aos 17!”
O moreno revirou os olhos para o pensamento. Por que mesmo aqueles idiotas eram seus amigos?
E então lembrou da vez em que, logo no primeiro ano, os terceiranistas sonserinos resolveram usar seu nome esquisito como motivo para azará-lo. Ele teria ficado com vários machucados por semanas, não fossem Doug e Mitchell a sacarem as varinhas e lançarem o único feitiço que haviam aprendido até aquele dia: Wingardium Leviosa. Ao chegar o dia em que os terceiranistas foram liberados da Ala Hospitalar com os ossos no lugar, os três primeiranistas já eram amigos.
‘Pare de divagar e desça as escadas, Potter’ ordenou para si mesmo em pensamento, tentando imaginar que fantasia a bela Effie havia escolhido para aquela noite.
Euphemia Benenati era uma lufana de seu ano, com longos cabelos cacheados, rosto delicado, sorriso fácil e bonito e um desastre completo em Poções desde que a conhecera, dois anos atrás. No ano dos NOM’s, o professor Slughorn gentilmente pressionou Fleamont a dar aulas particulares à garota, que explodira um caldeirão na última aula. Ela passara raspando nos NOM’s e pegara a turma avançada de Poções graças a ele, e poderia conseguir seu sonho de ser auror desde que os dois estudassem juntos.
Effie o encantara logo na primeira vez que se falaram, para acertar os detalhes das aulas. Sua genuína alegria quase constante, a luz que parecia emanar dela e seu jeito engraçado sem ser malvado fizeram-no começar a se apaixonar; seus lindos olhos azuis e a paixão dela por literatura trouxa deram conta do resto.
Saiu pelo porta-retrado da sala comunal da Grifinória ainda imaginando a fantasia escolhida por sua acompanhante, mal reparando nos olhares estranhos dos alunos que passavam. Ele a amava em segredo desde que podia se lembrar, desencorajado pela quantidade enorme de convites que ela recebia para sair toda santa manhã. Ela tinha metade da população masculina de Hogwarts aos seus pés, sendo a outra metade composta de alunos até o terceiro ano que ainda estavam descobrindo o que era uma garota. Por que afinal se importar com ele, o CDF grifinório baixinho que tinha um fraco por Shakespeare e nome esquisito?
Mas ela aceitara seu convite para acompanhá-lo na festa de Halloween que Mitchell, Doug e mais alguns grifinórios estavam organizando; aceitara o seu, dentre todos os outros que recebera. Era por isso que Fleamont estava tão nervoso naquela noite. Ele queria que tudo fosse perfeito.
‘Desça as escadas que levam para o Salão Principal agora, Potter. Não tropeçe e faça papel de idiota, pelo amor de Mérlin,’ voltou a ordenar para si mesmo, parando de divagar para prestar atenção onde pisava, fazendo uma prece silenciosa ao bruxo citado para não cair.
Ao chegar com segurança ao chão térreo do Salão Principal, encostou-se em uma coluna de pedra e esperou, olhando a cada três segundos do relógio para o corredor que levava à escadaria que dava no salão comunal da Lufa-Lufa.
‘Está tudo bem. Garotas sempre se atrasam,’ tentou acalmar a si mesmo, passando a mão pelos cabelos negros que não estavam sob a coroa e olhando de novo para o corredor. A visão que teve o fez perder o ar e abrir a boca em descrença; com certeza suas pupilas também dilataram até o máximo possível com a beleza pura caminhando em sua direção com um sorriso incrédulo.
Mérlin, a garota à sua frente era a personificação de Titânia, a Rainha das Fadas, personagem tirada do mesmo livro de onde Fleamont tirara o personagem Oberon. Na verdade, aquela era a esposa dele! Não podia ser, aquilo era muita coincidência. Sem falar que ela estava linda, linda demais.
Effie trajava um longo e rodado vestido de cor não-identificável por refletir todas as cores do arco-íris, delicadas sapatilhas brancas, leve maquiagem que deixara sua pele levemente azul e orelhas pontudas. Seu longos cabelos cacheados estavam soltos e caíam perfeitamente sobre suas costas, onde asas translúcidas emergiam da coluna e, em sua cabeça, uma coroa de lírios brancos completava o visual mágico.
Os dois encararam-se, embasbacados por alguns segundos, ignorando todos os olhares que os espectadores estudantes roubavam, principalmente da garota.
Fleamont então sorriu de lado, fazendo Euphemia sorrir também.
— “Orgulhosa Titânia, é mau indício assim nos encontrarmos ao luar.” — ele falou, citando o cumprimento dos dois personagens. A lufana riu, replicando como na peça:
— “O ciumento Oberon! Fadas, partamos; abjurei do seu leito e companhia.”
— “Detém-te, presunçosa; acata as ordens de teu senhor.” — Fleamont ergueu uma sobrancelha.
— “Então, senhora eu sou. No entanto eu sei que do país das fadas vieste furtivamente, após a forma tomares de Corino, e o dia inteiro na avena rude versos amorosos a Fílida cantavas. Por que causa vieste aqui ter, deixando a Índia longínqua? Certamente tão-só pela imperiosa Amazona de botas elegantes, vossa guerreira amada, que está a ponto de casar com Teseu.” — ela continuou sorrindo.
— “Não te envergonhas, Titânia, de atirar-me esses remoques pelo interesse que eu dedico a Hipólita, se eu não ignoro que amas a Teseu? Com tua ajuda, numa noite fosca, não pôde ele fugir de Perigônia, que ele próprio raptara? Quem não sabe que o fizeste violar os juramentos feitos a Egle formosa, a Ariadne, a Antíopa?” — ele sorriu. Não havia nenhuma chance daquela garota lembrar-se da próxima fala inteira.
— “Tudo isso é o ciúme que a inventar vos leva. Desde aquele verão, nunca podemos nos reunir na floresta, pelos prados, nas colinas, nos bosques, junto às fontes em que os juncos vicejam, pelas praias sonorosas do mar, para dançarmos em coro ao som dos ventos sibilantes, sem que em nossa alegria não nos víssemos perturbadas por tuas invectivas. Por isso os ventos, como em represália de em vão nos assobiarem, do mar vasto aspiraram vapores contagiantes, e estes, pelo país se derramando, tanto deixaram túmidos os rios, que as margens inundaram, de orgulhosos.” — ela hesitou, franzindo a testa por alguns segundos até se lembrar do resto — “Em vão os bois no jugo se cansaram; perdeu o suor o lavrador; o verde trigo podre ficou antes de a barba juvenil lhe nascer; os currais se acham vazios nas campinas alagadas; cevam-se os corvos no pestoso gado: as quadras de pelota estão desertas e cobertas de lama; quase esfeitos na verde relva os belos labirintos, porque ora já ninguém neles transita. Falta aos homens mortais o frio inverno; com hinos e canções, as noites claras já não são abençoadas como outrora. E assim, a lua, que o mar vasto impera, pálida de rancor, todo o ar deixa úmido, abundando os catarros. Em tamanha desordem vemos as sazões trocadas: do seio brando da virente rosa sacode a geada a cândida cabeça, enquanto sobre o queixo e nos cabelos brancos do velho inverno, por escárnio, brotam grinaldas de botões odoros do agradável estio. A primavera, o estio, o outono procriador, o inverno furioso as vestes habituais trocaram, de forma tal que o mundo, de assombrado, para identificá-los não tem meios. Pois bem; toda essa prole de infortúnios de nossas dissenções, tão-só, provêm; geradores e pais somos de todos.” — Euphemia discursou, para o espanto de seu acompanhante.
— “Dai o remédio, então; tendes os meios. Por que há de contrariar sempre, Titânia, seu Oberon? Não peço muito, apenas uma criança perdida, para dela fazer meu pajenzinho.” — ele falou, ainda levemente surpreso. Ela riu.
— “Tal cuidado tirai do coração. Nem todo o reino das fadas me comprara este menino. Ao meu culto sua mãe era votada, Muitas e muitas vezes, na atmosfera perfumada das Índias, me aprazia ouvi-la discretear, tê-la ao meu lado nas amarelas praias de Netuno a admirar os cargueiros balouçantes sobre as ondas inquietas. Como ríamos, ao ver as velas enfunar-se, grávidas ao parecer, sob os lascivos beijos dos ventos buliçosos! Imitando-as, a andar com irresistível gaiatice – grávida, então, do meu donoso pajem – por terra a velejar se punha, em busca de ninharias mil para ofertar-me, voltando após, como de viagem longa, de sua gentil carga mui vaidosa. Mas, porque era mortal, morreu no parto deste menino que, por amor dela, recolhi para criar. Por isso, agora, pela mesma razão dele não largo.”
— “Neste bosque morar é vosso intento?” — ele segurou-lhe a mão.
— “Até o dia, talvez, do casamento de Hipólita e Teseu. Se com tratável disposição quiserdes tomar parte de nossa alegre ronda e ver os ludos à clara luz da lua, sois bem-vindo. Se não poupai-me, que eu terei cuidado de evitar vossos sítios preferidos.” — ela aproximou-se um pouco mais do rapaz, evidenciado a diferença de poucos centímetros de altura entre eles.
— “Dá-me o menino e eu seguirei contigo.” — Fleamont continuou, sorrindo.
— “Nem por todo o teu reino.” — ela terminou a cena, gargalhando. Ele juntou-se a ela, erguendo a mão segura por ela no ar para que ela girasse em torno de si.
— Linda. — ele murmurou, só para que a lufana pudesse ouvir.
— Você também. — ela sorriu. Ele soltou-lhe a mão e ofereceu-a o braço.
— Podemos ir?
— Claro. — Effie pôs a delicada mão na junção do braço com o antebraço de Fleamont, e assim, de braços dados, eles saíram do castelo em direção à casa ‘mal-assombrada’ onde se realizaria a festa.
A conversa fluía agradavelmente entre os dois, como sempre havia sido. Eles não paravam de encarar-se, pensando em como aquela havia sido uma coincidência inimaginavelmente boa. Outros casais e grupos de amigos juntaram-se aos dois na caminhada, mas a atração entre os dois era perceptível até para um cego. Fleamont não poderia nem imaginar que Euphemia sempre admirara-o de longe: primeiro por sua inteligência, depois por seu caráter e teimosia em azarar quem o insultasse por causa de seu nome. A paciência que ele exercia com ela nas aulas particulares, juntamente com o sorriso de arrasar corações e seu gosto por Shakespeare terminaram de fazê-la se apaixonar perdidamente por ele no ano anterior.
À medida que os dois se aproximavam durante os anos, nunca sequer passara pela cabeça da lufana que o sentimento que ela adquirira por ele era recíproco até o dia em que ele a convidara para ir à festa com ele. Não que ela não soubesse que era bonita, ela tinha consciência disso devido às pencas de convites para sair que tinha de declinar a cada dia. Mas imaginava que ele se sentiria atraído por uma corvina, linda E inteligente, e não por uma lufana de nome estranho aficcionada por literatura trouxa e desastrosa em Poções, justamente a matéria onde o Potter era mais brilhante.
Mas, mesmo assim, lá estava ela e lá estava ele. Os dois. Juntos. Com fantasias combinando, mesmo sem terem combinado nada. Parecia uma espécie de sonho. Um sonho de uma mágica noite de outono, que acabaria quando a festa acabasse. Ou assim imaginava Euphemia.
Envolvida com a conversa, a garota de cabelos castanhos não prestou atenção na passagem secreta que levava à casa que futuramente seria conhecida como Casa dos Gritos e nem no corredor mal iluminado que levava à festa. Tudo o que via eram os olhos escuros de seu acompanhante, seu sorriso fácil e sincero.
Quando deu por si, os dois já estavam na sala de estar decorada como em uma mansão mal-assombrada. Provavelmente os garotos nem tiveram que transfigurar móveis, apenas limpá-los um pouco.
Havia uma bancada onde servia-se cerveja amanteigada e firewhisky entre bebidas trouxas, e foi para lá que Fleamont a conduziu. Encostados na parede ao lado do bar, com copos de um líquido qualquer em mãos, estavam Doug e Mitchell.
— Senhores. — Euphemia fez uma reverência fingida, sorrindo de lado para os rostos embasbacados dos amigos de seu acompanhante. Ouviu uma pequena gargalhada do rapaz ao seu lado, que também fez uma reverência e apresentou:
— Meus caros colegas, quero apresentar-lhes minha acompanhante: Euphemia Benenati. — ele sorriu, orgulhoso. Os dois grifinórios ergueram as sobrancelhas e tomaram as duas mãos da garota, beijando-as com reverências pomposas:
— Encantado, senhorita.
Euphemia riu e puxou Fleamont para a pista de dança do outro lado da sala quando ouviu a música que começara:
— Eu adoro essa música. — ela falou, pondo a mão esquerda sobre o ombro direito dele e guiando a mão dele até sua cintura. O grifinório sorriu, reconhecendo a letra e terminando de assumir a posição de valsa.
— I reach for you like i'd reach for a star, worshipping you from afar, living with my silent love. (Eu alcanço você como alcanço uma estrela, te adorando de longe, vivendo com meu amor em silêncio.)— cantou perto do ouvido dela, conduzindo-a pelo salão com a leveza que as fantasias implicavam. Fleamont Potter, graças à educação bruxa que recebera, era um dançarino de primeira.
— I'm like a flame dying out in the rain, only the ashes remain, smouldering like my silent love. (Eu sou como uma chama morrendo na chuva, só restam as cinzas, ardendo como meu amor em silêncio.)— ela cantou de volta, sorrindo com o quanto aquela música encaixava com a história dos dois.
— How I long to tell all the things I have planned. Still, it's wrong to tell. You would not understand. (Como anseio de dizer todas as coisas que planejei. Ainda assim, é errado dizer. Você não entenderia.)— ele continuou, olhando-a nos olhos e deixando-a ter certeza de que aquela letra era exatamente o que sentia no momento.
— Está enganado, Flynn. Eu entendo, sim. — ela sussurrou, sorrindo com o arregalar de olhos dele — You go along never dreaming I care, loving somebody somewhere, leaving me my silent love. (Você pode ir em frente, nunca sonhando que eu me importo, amar alguém em algum lugar, deixando-me com meu amor em silêncio.) — terminou a letra, ainda sorrindo.
O rapaz não conseguia acreditar que dançava aquela música com ela. Que era ela ali, em seus braços.
Talvez tivesse sido a magia do momento, ou o desejo há muito ardente em seu peito, que o fez acabar com a curta distância que os separava e beijá-la. Os dois continuavam dançando, dessa vez com os lábios colados em um beijo intenso de quem esperara muito tempo para aquilo. Não estavam ligando para as pessoas que achavam aquilo uma indecência sem tamanho, só sentiam que aquele era o momento perfeito e não queriam estragá-lo.
— Sabes, minha rainha, que depois disso eu me casarei com você, não é? — Flynn sussurrou-a depois de, a contra-gosto, separar seus lábios dos dela. Effie riu, assentindo com a cabeça e replicando atrevidamente:
— Eu já tinha isso planejado, meu caro rei.
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