Notas iniciais
Oie! E aqui está o último capítulo, como eu disse nos avisos da história :) Lembrando novamente que a história se passa em tempos diferentes, e o passado está entre parênteses. E quando aparecer o símbolo Ω, significa que são épocas diferentes. Sem mais, boa leitura!

A senhora de azul que está sentada de frente para Glória – Sônia, se não me engano – repara que estou observando a dançarina maravilhosa na pista de dança e chama minha atenção.

— Se você está tão encantado com a mocinha, vai lá e dança com ela, garotão! – Ela sugere com um sorriso e uma piscadela.

Dou uma risada curta com seu jeito sugestivo e me aproximo dela para que me escute melhor por sobre a música alta.

— Eu vou, mas só na última música. Ela gosta de conhecer os diferentes jeitos de dançar das outras pessoas.

As três senhoras ficam sem entender o que eu quis dizer e simplesmente me encaram com feições confusas a engraçadas.

— Eu tive a mesma reação quando ouvi isso pela primeira vez – digo, com um leve sorriso que se apaga lentamente enquanto meu pensamento volta ao passado.

Ω

“Meu pai havia acordado após três dias em coma, mas ficaria no hospital por mais algumas semanas e depois iria para uma clínica de reabilitação.

Fazia dois meses que o episódio tinha acontecido, e desde então minha vida era trabalhar, trabalhar, pagar as contas, e trabalhar mais ainda. Meu pai estava bem melhor, mas ainda não se sentia pronto para deixar a reabilitação, o que significava que eu teria que continuar na mesma.

Após tanto tempo não indo à escola, recebi uma carta da diretoria que exigia explicações, ou eles iriam me repetir de ano ou até mesmo me expulsar por faltas. Decidi ir até lá pessoalmente falar com a diretora.

Ao andar pelos corredores da escola, percebi que sentia falta daquilo, e principalmente da aula de dança. Não consegui controlar a vontade e passei pela sala. Jane estava lá, magnífica como sempre, dançando elegantemente. Em um giro, ela me viu, e pude ver o ódio invadindo seus olhos.

— Como ousa aparecer aqui depois de tanto tempo como se nada tivesse mudado? – Ela gritou de onde estava. Não respondi, apenas dei as costas e continuei meu caminho até a sala da diretora. Ela me seguiu correndo e pisando firme. – Vai me ignorar agora? Nossa, quanta maturidade. Por que não fala que só estava fingindo que estava gostando da dança para me fazer criar expectativas e depois me ver quebrar a cara? Hein? – Continuei caminhando e ignorando-a na tentativa de não dizer nada de que me arrependesse depois ou que me fizesse contar tudo e ver uma expressão de pena em seu rosto.

Cheguei na diretoria e ela parou de me seguir, voltando para a dança.

Por mais que eu não quisesse, contei tudo para a diretora, não escondendo nada. E disse que talvez não conseguisse mais voltar para a escola, e que tudo bem se ela quisesse me expulsar, eu só havia ido até lá para que ela ao menos soubesse os meus motivos. Fui embora dali sentindo-me mais leve, mas mesmo assim triste por ter que ficar afastado.

Mais um mês e meio se passara, quando um dia, ao sair de casa para o trabalho, dei de cara com a menina mais linda que meus olhos já viram. Jane estava ainda com a mão levantada, prestes a tocar a campainha.

— Oi – ela disse, timidamente.

— Oi – respondi. Não fazia ideia do que ela estava fazendo ali, para mim estava claro que ela me odiava.

— Eu... – ela começou. – Eu só queria dizer que sinto muito por ter ficado tão brava, eu não fazia ideia que isso tinha acontecido com o seu pai.

Olhei-a chocado. Como ela sabia? E por que estava aqui? Ela continuou ao ver meu espanto:

— A diretora avisou a dona Gertrudes, que veio falar comigo. Ela me explicou a situação. E eu quero ajudar...

— Não – interrompi-a. – Isso não é assunto seu. Agradeço a preocupação, mas não quero sua pena. – Fechei a porta e comecei a andar para não chegar atrasado ao trabalho.

— Espera! Não estou com pena – ela tentou me parar segurando minha mão, e eu parei e olhei para ela. – Mas eu sei como ajudar. Falei com uma tia minha que trabalha no centro de reabilitação que seu pai está, e ela me disse que ele está prestes a sair. – Escutei-a com mais atenção, nem eu sabia desse detalhe sobre meu pai. – Tenho duas maneiras para te ajudar. A primeira é oferecendo um trabalho para seu pai no escritório do meu avô. Seu pai é formado em contabilidade, não? – Assenti. – Então, meu avô disse que o último contador que trabalhava lá pediu as contas, e eles estão precisando de gente. Posso conseguir isso para o seu pai.

— E por que você faria isso? O que você ganha com isso? – Estava bom demais para ser verdade. E eu não iria cair num esquema, tinha que ter alguma pegadinha.

— Você... – Ela abaixou o olhar, enquanto meu queixo caía. Ela tinha falado sério? – Eu ganho você. – Ela respondeu com a voz mais firme, olhando em meus olhos. Continuou:

— E com você nós podemos ganhar a competição, nós já temos a coreografia feita e...

— Pare – interrompi-a novamente. – Eu sabia que estava fácil demais. Você não quer me ajudar, só quer ganhar essa maldita competição para alimentar esse seu ego de ganhadora.

Ela arregalou os olhos e fez uma careta. Percebi que eu falei algo errado, mas na minha cabeça estava tudo fazendo sentido.

— Não é nada disso, seu idiota. – Ela parou por um segundo, como se pensasse. – Talvez seja em parte, mas não é só isso! Os ganhadores da competição de dança de salão recebem um prêmio de quinhentos dólares. – Meus olhos se arregalaram, eu não sabia dessa parte. Esse dinheiro me ajudaria a pagar o restante da conta da clínica de reabilitação. – Eu não te contei antes porque esse dinheiro geralmente é reinvestido na escola, mas dessa vez eu conversei com a dona Gertrudes e com a diretora, e elas concordaram em usar o dinheiro para te ajudar. Assim você pode voltar para a escola.

Eu não disse mais nada. Se eu dissesse, todas as lágrimas que eu estava segurando começariam a sair. Aquela fora a melhor coisa que alguém já fizera por mim, e aquilo com certeza era algo que mudaria a minha vida e a dos meus pais. Então simplesmente me aproximei de Jane e a abracei, finalmente aceitando ajuda.

***

Era o dia da competição. Todos os outros pares da nossa escola já tinham se apresentado em suas devidas categorias, e agora só faltava a categoria em que Jane e eu estávamos inscritos: Salsa.

Enquanto as outras duplas dançavam, Jane e eu esperávamos nos bastidores. Meu coração estava acelerado e minhas mãos começaram a suar e tremer. Eu nunca tinha feito aquilo na frente de tantas pessoas antes, e comecei a achar que estava tendo um ataque de pânico. Estava quase desistindo quando senti a mão macia de Jane apertar a minha.

— Vai dar tudo certo – essa disse em meu ouvido, e em seguida beijou minha bochecha. Aquilo me deu uma dose extra de confiança, e sorri para ela agradecido.

Seguimos lado-a-lado assim que nossos nomes foram chamados para o palco, e nos posicionamos em nossas marcas. A música começou a tocar, e comecei a me mover ao ritmo da música.

A batida alegre da música era contagiante, e, mesmo extremamente nervoso, consegui executar os passos que passamos meses ensaiando. Até consegui me distrair um pouco e cantarolar um pedaço em que o ritmo mudava um pouco. Percebi que aquele verso resumia bem o que eu sentia sempre que estava com Jane, e foi nesse momento em que essa música se tornara a nossamúsica.

“Baby, don’t you know I love you so

Can’t you feel it when we touch?

I will never never let you go

I love you oh so much”

Por estar imerso em meus pensamentos, acabei demorando demais para girar o corpo de Jane, fazendo com que a coreografia atrasasse um pouco, deixando-me extremamente nervoso, mas logo consegui recuperar o compasso, e tudo correu como deveria. A música já estava acabando, e logo seria o passo mais complicado, aquele que eu quase nunca conseguia com maestria.

— Pronto? – Perguntou minha parceira.

Assenti, preparando-me com todo o foco e atenção que consegui.

— Pronto.

E assim, ela pulou. Impulsionei-a para cima e consegui agarrá-la pela cintura, abaixando nossos corpos para a pose final com perfeição. Isso, pensei. Conseguimos!

Estava concentrado olhando nos lindos olhos cor de mel de Jane, mas consegui ouvir aplausos e alguns assovios ao fundo.

Criei coragem enquanto ainda estávamos em nosso mundinho particular e soltei a bomba:

— Quer sair comigo um dia desses? Pra dançar, comer, conversar, sei lá?

Ela me olhou com um sorriso satisfeito.

— Acho que depois de tudo, eu seria louca se não aceitasse. – E me puxou para um beijo, fazendo com que a plateia fizesse ainda mais barulho.

Nesse dia, nós pegamos o prêmio de primeiro lugar, e todo o resto foi se acertando. Meu pai saiu da reabilitação e conseguiu o emprego com o avô de Jane e está sóbrio até hoje; Jane se formou no colégio e foi aceita na academia de dança que queria; e eu voltei para a escola e me formei um ano depois.

Jane e eu nos casamos dez anos depois, e continuamos dançando, mesmo que não em competições, mas de vez em quando ela vem com alguma ideia maluca na cabeça e me faz participar de alguns concursos de dança de salão.”

Ω

Algumas horas se passam e a festa está chegando ao fim. Nesse tempo, já conversei com as três “moçoilas” – Glória, Tânia e Sônia –, já passeei por todo o barracão, já ajudei um dos convidados bêbados a achar a família, já comi, já conversei mais ainda com as minhas novas amigas – que se convidaram para tomar chá-da-tarde em minha casa no próximo fim de semana –, e agora me encontro quase dormindo na mesa.

Sinto um leve toque na minha cabeça e dedos correm pelo meu cabelo. Imediatamente levanto a cabeça dos braços apoiados na mesa e encaro a face mais bela que já vi. A dançarina do vestido vermelho sorri para mim, seu rosto avermelhado e os cabelos grudados no pescoço suado.

— Amor, nós temos que ir logo, a babá tem que ir para casa em meia hora – diz Jane.

Entendo o real significado de suas palavras e me levanto totalmente aceso, o sono some imediatamente. Chegou o meu momento!

Olho para as senhoras que me acompanham e apresento a mulher ao meu lado.

— Madames – digo, orgulhoso do que tenho a dizer –, quero que conheçam a pessoa que vocês passaram a noite inteira me importunando para que eu chame para dançar – minhas amigas dão de ombros e riem sem entender.

Jane se aproxima delas sorridente.

— Olá! É um prazer conhecer as pessoas que cuidaram tão bem do meu zangado esta noite – ela diz enquanto junta as mãos em frente ao corpo em sinal de agradecimento. As senhoras riem sem jeito, mas finalmente entendendo todo o meu mistério não tão misterioso.

— Glória, Tânia, Sônia, essa é minha adoravelmente estranha esposa Jane – apresento-a às moçoilas, que ficam animadas e começam a falar todas de uma vez. Levantam-se de suas cadeiras e nos rodeiam, tagarelando com minha esposa sobre os mais diversos assuntos – incluindo o chá-da-tarde –, enquanto Jane responde a tudo empolgada.

Após finalmente conseguirmos nos livrar das três senhoras, dirigimo-nos à pista de dança para a última dança da noite. Uma música alegre começa a tocar, e não consigo parar de pensar na coincidência de ser justamente a nossa música. Mais tarde descobriria que Jane passou pelo DJ antes de ir me buscar.

Passo meus braços ao redor da cintura de Jane e a puxo para perto, enquanto ela encosta a cabeça em meu ombro. Dançamos colados pela pista, às vezes trombando em outros casais empolgados. Com o amor da minha vida assim bem perto de mim, sinto-me mais uma vez completo, como quando me sentia quando jovem, e é uma sensação maravilhosa.

Afasto-nos por um breve momento para girá-la, mas ela não volta mais para tão perto, ficando a uma distância para que consiga me olhar nos olhos.

— Parece que alguém ganhou umas amigas bem encantadoras, hein? – Ela ri, contente por eu estar me socializando mais.

Rio de suas palavras e a aperto um pouco mais.

— Está com ciúmes, meu amor? Porque você sabe que só tenho olhos para você. E passos de dança também – completo rindo.

Mais alguns giros e risadas e a música está quase acabando. Jane começa a cantar o último refrão da música, e eu a acompanho, sabendo que, não importa quantas músicas ela dance, com quantas pessoas diferentes, eu sempre terei sua última dança.

Ω

“So, don’t forget who’s taking you home

Or in who’s arms you’re gonna be

So, darling, save the last dance for me”

Notas finais
Ai, gente, eu achei esse final um amorzinho kkkkkk E vocês, o que acharam? Comentários são muito bem-vindos! Bjs!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!