Last Breath
5 Capítulo 5.
Notas iniciais
O celular de Lily iluminou o quarto, não eram nem seis da manhã, e Hugo já a acordara. Ela encarou o celular, uma única mensagem, ele dissera que eles não poderiam se ver no dia em questão. Havia surgido um imprevisto e ele teria que fazer uma viagem rápida. A ruiva ficou triste, mas se dedicaria ao seu eterno amigo diário.
Não lembra como aquele diário havia chego em suas mãos exatamente na época que tudo começou a piorar, mas a pessoa que havia o perdido deveria estar desesperada até aquele dia. Pois quando ela encontrou o diário em uma das pontes que havia na cidade, já tinha tudo desenhado e explicando cada morte. Havia uma carta no meio do caderninho preto, mas Lily não queria ler antes de se sentir preparada para invadir a vida dessa pessoa e descobrir tudo sobre ela e o porque de ela ter feito aquele caderno.
Tudo que ela tem do antigo dono do caderno é um apelido “Sam”, mas não tem como saber se Sam é homem ou mulher, pode ser um Sam de Samantha ou Sam de Samuel. E tudo que ele havia feito era encher de desenhos e formas horríveis de morrer, a última que ele havia feito era “Se jogar de uma ponte”, Lily sempre se pegou imaginando se ele havia feito isso ou não, mas sabendo onde havia sido encontrado o caderno, ela tinha quase certeza.
Ela folheou o caderno, e sempre se encantava lendo as anotações de Sam, ele havia tido ideias malucas e extremamente mortais de como fazer para morrer, e era tão mórbido que deixava a jovem Lily arrepiada, ela não queria nem pensar o que seus pais diriam se soubessem disso.
Ela havia feito uma escolha, e encarava a carta que Sam havia escrito. Ela iria ler. Ela finalmente se sentia à vontade para ler aquela carta de um desconhecido, penetrar em sua vida e conhecer cada detalhe da sua história, viver e ser aquela pessoa enquanto aquele papel continua a lhe manter preso.
Com as mãos tremulas ela abriu a parte de cima do envelope amassado. Mas adiou a leitura mais um pouco, apenas deixou que a carta relaxasse sobre as cicatrizes em suas pernas (eram mais fáceis de esconder) e apenas se lembrou que fez aquilo porque quis, não para colocar para fora a sujeira que ela sentia por dentro, ou por raiva ou dor. Ela apenas fez, e se arrependeu eternamente por isso.
Por mais triste que ela estivesse, aquilo não valia a pena. Não pensem que ela era mais um adolescente com depressão, Lily era deprimida, se é que entendem a diferença, ela não tinha a doença, ela vivia a ver a sua vida como uma negatividade e tristeza a rondando.
Ela queria prolongar a leitura daquela carta para que a felicidade momentânea, tal qual ela experimentava quando estava com seu primo mais próximo, durasse mais. Ela abriu o papel dobrado, e encarou a letra minúscula que ela já havia visto nas primeiras páginas do diário. “Olá quem quer que esteja lendo esse pedaço de papel.”— Lily leu aquelas palavras e se policiou para não ler mais. Não naquele momento.
Então ela desceu as escadas e tomou café com sua mãe e seu pai. Coisa que ela raramente fazia. Não que ela não gostasse de seus pais ou de ficar com eles, mas ela sempre sentia que algo faltava, era como se ela nunca soubesse como conversar ou interagir com eles. Era como se eles fossem dois velhos idiotas que só faziam criticar e reclamar de como ela estava sendo estúpida em largar o futuro e agindo dessa forma.
Não, eles nunca a chamaram de estúpida ou falaram que ela jogava seu futuro fora. Eles eram perfeitos, mas ela sempre via aquilo nos olhos deles, aquele desapontamento todo fim de semestre na escola, ou sempre que ela agia daquela forma.
— Vai sair hoje com Hugo, Lils? – Ginny a perguntou com um sorriso doce no semblante, ela sempre havia apoiado a amizade deles, principalmente porque Lily sabia que sua mãe via nisso uma chance de Lily mudar de vida.
— Não, ele disse que havia acontecido uma coisa e ele foi obrigado a mudar de planos. – ela deu de ombros, e nem percebeu o olhar alarmado que seus pais trocaram.
— Ah sim, e vai fazer o que hoje? – Harry perguntou a olhando por cima dos velhos óculos.
— Não sei, tava querendo ir ao parque hoje. – Lily mentiu, ela queria ler. Mas talvez não fosse uma má ideia afinal sair e se divertir um pouco.
— Ah, isso é ótimo. – Harry disse animado se levantando na mesa, ele notava algo novo na filha, um brilho da antiga garota.
— Bom, vocês sabem que está chegando aquele dia do ano, certo? – ela perguntou para os pais, mas seus olhos permaneceram grudados na mesa, na tigela onde comia cereal. Ela não precisou explicar de que dia se tratava, eles sabiam, afinal eles sempre a ajudaram a passar por aquele dia sem sequelas. Estava chegando o aniversário de morte de Genevive, e Lily sempre levava algum brinquedo ao túmulo de sua amiga, e sempre ia falar umas palavras bonitas para confortar a sua querida amiga.
— Nós sabemos. – sua mãe disse e com um toque leve na mão da filha, ela continuou – Se quiser dinheiro para comprar o presente desse ano, eu vou deixar no seu quarto. É só nos avisar e nós te levamos lá como sempre fazemos.
Ela sabia que eles iam dizer isso. Eles nunca haviam esquecido, e sempre estavam lá para ela. Mesmo que ela os afastasse. Ela comeu o resto do cereal em silêncio e correu escada acima. Queria chorar, mas não conseguia. Então apenas pegou aquela carta e passou o polegar sobre ela.
“Meu nome é Sam, e eu sou o dono original desse caderno. Você deve estar se perguntando agora onde eu estou, e se você está lendo essa carta significa que eu já estou morto. E isso significa que você está lendo o que um fantasma escreveu.”
Lily riu, ela sabia que não havia sido um fantasma, ela estava adorando como Sam falava. Ou adorando a imagem de Sam que ela havia criado. Um jovem, entre 15 e 19 anos. Os olhos castanhos e o cabelo loiro, talvez alto e magricela, com as roupas enlutadas. Ela não sabia porque, mas ela o havia imaginado dessa forma.
“Eu quero contar a minha história, e quero que um dia você conte a sua, para passar adiante o caderno quando estiver pronto. Eu fui pai jovem, eu não tinha nem 15 anos quando aconteceu, mas eu amava minha menininha mais do que tudo. Infelizmente para mim, sua mãe não aguentou e acabou tendo complicações do parto e nos deixando. E eu tive que desde jovem cuidar da minha menina, seu nome era Megan, e ela era perfeita. Mas um dia, alguém muito ruim resolveu que ela havia vivido muito em seus dez anos de vida, e a tirou de mim.”
Essa história lembrou muito da história de Genevive, e isso fez Lily querer largar aquela carta naquele exato momento. Mas ela não o fez, queria saber mais sobre o desconhecido Sam. Então agora sabemos que ele tem mais de vinte e cinco anos.
“Eu era o cara normal até isso acontecer, apesar de eu ter tido que aprender a lidar com uma criança mais cedo do que esperava e ter criado muita responsabilidade rápido demais. Eu sempre ouvia dos meus pais, parentes e amigos que aquilo era um erro, que minha menina era um erro, mas nunca foi, não para mim. Eu a amava com toda minha alma, e isso nunca vai mudar. Mesmo agora. Você deve ter folheado meu caderno, não pense mal de mim, eu apenas queria imaginar a melhor forma de poder encontrar minha família novamente em um lugar melhor. E acho que agora finalmente o fiz.
Isso pode acabar de duas formas, e você está avisado. Você pode acabar desistindo de viver e se mantando, ou pode simplesmente aprender que a vida pode não ser tão ruim quanto você achava e aprender a seguir em frente seria um ótimo primeiro passo. Mas eu peço que se você perceber que a vida é mais que isso escreva uma carta como essa e deixe dentro do caderno para que mais alguém possa saber. E se você achar que o melhor é se entregar faça o mesmo.
Estou aqui escrevendo minhas razões para que vocês saibam. Eu decidi que minha vida não valia mais a pena sem as duas mulheres da minha vida para me ajudarem. Então sim, eu estou morto, eu não consegui lidar com isso. Eu posso ter conseguido lidar com o fato de que eu tinha perdido minha mulher cedo, e tido que criar uma criança sozinho. Consegui lidar com o fato de meus pais terem me expulsado de casa por ter engravidado uma menina inocente. Mas não com o fato de que elas me deixaram nesse mundo cruel. Nem com o fato de que algumas noites antes de dormir eu só conseguia ver minha pequena filha em seu último suspiro sem poder salva-la.”
LL via muito de si em Sam, e perguntou se ela teria o mesmo fim que ele. Mas não sabia se assim o queria mais. Agora ela tinha Hugo ao seu lado, e Hugo era uma pessoa incrível. Ela não se cortou mais desde a última vez que viu a face de Genevive a implorar por ajuda. Por Hugo ela não faria mais isso.
Ela sentiu seu celular vibrar e antes de atender apenas encarou a foto por alguns segundos. Era Hugo, então ela atendeu sem titubear. “Hey, monstrinha.” – ele disse animadamente, como ela adorava quando ele agia assim, tão afável, tão contrário dela.
— Hey cenoura. – ela respondeu – Onde está agora?
— Bem longe, mas quase voltando para casa. – ele respondeu e ela jurou que ouviu um sussurro da tia Mione ao longe. – Eu sei, mãe.
— Diga oi para a Tia Mione. – LL sorriu ao ouvir ele dizendo “Lily te mandou um beijo muito melado e um abraço apertado, além de um suspiro dobrado, mamãe.” – Não foi isso que eu disse.
— Foi sim. – Hugo riu, Lily não conseguiu evitar que um sorriso alegre saísse na sua boca antes tão amarga de dor. – Só liguei para perguntar como foi seu dia.
— Foi incrível, eu fingi me importar com minha vida social, e até fui ao parque. – Lily contou animada.
— Nossa, um dia longe e você já vai ao parque sem mim? – ele perguntou ofendido, e Lily só ria. – Eu aqui morrendo de saudades e você se divertindo sem mim. Que feio, dona Lilian.
— Você morre de saudades de mim? – Lily perguntou com um sorriso no rosto, não era o mesmo sorriso divertido de quem ri, mas um sorriso tímido. Ela gritou mentalmente que ele não podia ver que ela estava toda tímida, mas não pode evitar.
— Mas é claro, você é minha droga, sou viciado em você, dona monstrinha.
— E quando vamos nos ver? – Lily perguntou sorrindo.
— Amanhã? Podemos seguir com aquilo?
— A lista? – Lily perguntou e ouviu o ‘Uh-hum’ vindo dele. – Claro, qual número você quer fazer agora, senhor rebelde?
— Número 10, pode ser? – ele perguntou animado.
— Sério, Hugo? – Lily perguntou com um risinho superior. – Claro, o que você quiser.
— É por isso que eu te amo. – Hugo comentou antes de desligar o telefone.
Lily voltou sua atenção para a carta, faltava apenas o final, e ela já imaginava o que vinha, alguma frase motivacional que tentasse fazer com que ela desistisse ao final do intensivo que o caderno proporcionava. Algo como: “Você tem algo ao que se agarrar, segure com força e sorria” ou alguma besteira parecida, então ela apenas ignorou colocando a carta no seu devido lugar. Sam seria uma pessoa legal, ela gostaria de tê-lo conhecido.
Se eles tivessem se conhecido eles poderiam ter se ajudado, mesmo que a ruiva não fosse tão experiente como ele, eles havia experienciado as mesmas coisas e isso já era suficiente. Mas ele não a conhecera e agora ele estava morto. Lily suspirou pesadamente. Ela também às vezes pensava em se matar, mas isso estava ficando cada vez mais raro por causa de Hugo.
Hugo era seu porto seguro.
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