Last Breath
18 Capítulo 18.
Notas iniciais
— Lily? – a garota ouviu sua mãe gritar e bater desesperadamente do outro lado da porta. – Lilian? – a maçaneta estava girando freneticamente, ela havia trancado a porta, queria permanecer sozinha.
Lily encarava seu pulso, sua tatuagem, e a gilete em sua mão, estava ponderando o porquê de não conseguir fazer aquilo, não entendia porque não conseguia fazer seu sangue jorrar. Ela só conseguia pensar no rosto doce de Hugo. O rosto doce que ela não iria mais ver com vida. Ela sabia que devia se arrumar e ir ao funeral daquele que ela mais amou na vida. Mas não conseguia também. Ela estava parada na cama. Lágrimas inundavam seus olhos, e ela não conseguia para-las.
Hugo havia morrido. Lily havia visto seu primo morrer, mesmo que pacificamente, isso gerava dor. Tudo que a ruiva conhecia sobre morte era que envolvia sofrimento e dor constante.
— Deixe comigo, tia Gin. – Lily ouviu a voz forte de Scorpius, ele não disse mais nada, e isso preocupou a menina, ela só ouviu uma pancada forte na sua porta, e depois outra, e sua porta no chão.
— Obrigada, Scorpius. – a ruiva mais velha disse, seu semblante aparentava ter envelhecido dez anos, os olhos vermelhos e no rosto as marcas inchadas e quentes das lágrimas que ela chorou a noite toda.
— Lily, podemos conversar? – Rose perguntou docemente, o cabelo castanho preso em um rabo de cavalo e os olhos castanhos escurecidos pelas lágrimas que insistiam em não descer. Ela não esperou pela resposta da Lily, apenas entrou no quarto e pediu licença ao namorado e à tia.
— Eu não consigo, Rose. – a ruiva disse apenas encarando a lâmina em suas mãos, ela queria tirar aquela dor de seu corpo, ela não queria sentir nada.
— E você acha que Hugo iria querer que você fizesse isso? – Rose perguntou calmamente, tirando das mãos da ruiva a lâmina e segurando as mãos dela – Ele te amava, Lils, ele não iria querer isso. Ele quis voltar para aproveitar os últimos dias ao seu lado.
— Eu... E-eu...
— Você não precisa dizer nada, okay? – a morena ofereceu um abraço de lado para a prima e com um sorriso fraco ela continuou a falar – Você não sabe toda a história do que aconteceu com ele, ele sofreu muito ao descobrir que aos dez anos ele não era imortal, que ele teria que deixar tudo para poder se tratar de uma doença que mata muitos todos os dias. Mas ele foi forte, ele foi forte pela mamãe, e pelo papai. E eu tive que ser forte também, eu queria ficar com ele todos os dias, e queria trocar de lugar com ele, queria que fosse eu que estivesse naquela situação.
Ela se calou para enxugar as lágrimas que agora desciam descontroladamente. Sua voz seguiu completamente embargada por aquela dor – Você não sabe o que ele passou, ele passou horas lutando e fazendo todos os tratamentos mais avançados que nos ofereceram. Ele mudou muito nesses anos, e o pior é que Hugo já havia aceitado há muito tempo o seu destino, ele não se rendeu, mas ele não queria ser apenas uma vitima, ele queria lutar por algo. E ele escolheu lutar por você.
“Ele soube o que você estava sofrendo, e quando o médico disse que seu tempo estava acabando ele só fez um pedido, poder te ver mais uma vez. Eu quero que você saiba Lils, que você era muito importante para ele, mais do que eu era, eu posso arriscar. Ele te amava como prima, como irmã, como amiga e como mulher. E isso desde sempre. Ele queria que você lutasse pela vida como ele lutava, não queria que você desperdiçasse sua virtude, sua força, e sua beleza dessa forma. Você teve muita força de vontade enquanto ele estava aqui, e não pense que agora que ele se foi você deve abandonar essa força. Ele ainda não te abandonou, ele nunca vai te abandonar, e foi por isso que você não conseguiu fazer isso.” – Rose disse e apenas sentiu a cabeça de Lily Luna se afundar ainda mais no seu ombro, sentiu as lágrimas quentes a banharem sua camiseta. – Eu sei que você o ama, Lily. Eu soube desde o primeiro momento que vocês ficaram juntos quando ele voltou.
O silêncio dominou o quarto então, e o único som que era ouvido eram as fungadas e os soluços que vinham das duas mulheres ali naquele quarto. A porta jazia quebrada no chão, e Lily nem conseguiu resmungar que Scorpius teria que pagar. Ela não conseguia encontrar mais voz nenhuma dentro dela. Rose a ajudou a vestir um vestido preto, e ela vestiu os coturnos. Seus cabelos foram domados em uma trança e Rose lavou aquele rosto delicadamente, tentando fazer com que as marcas do choro descontrolado sumisse.
Lily não conseguia se mexer, seu corpo continuava paralisado, ela apenas recebia aquele cuidado de sua prima. James e Albus carregaram Lily escadas abaixo, ela não conseguia nem andar. Seu corpo não queria aceitar ir ao velório, pois seu coração não queria aceitar o fato de que ele havia partido.
Aquele era o fim, Lily sabia. Ela iria o ver ali deitado, a pele mais pálida do que o normal, os cabelos ruivos sem vida que não iriam reagir ao vento que entrasse pela porta, os olhos para sempre fechados, em um sono eterno. E ela sabia que não teria mais o carinho único que ele dava, nem aquele sorriso de lado que pertencia só a ele, ou como aqueles olhos brilhavam quando ele estava se arriscando mais do que deveria.
Ela não conseguiu falar nada durante toda a cerimonia, nem ao menos conseguia olhar para as pessoas ao seu redor, sabia que todos tinham lágrimas nos olhos enquanto Hermione fazia o discurso fúnebre de seu filho amado. Lily ficou grata por sua tia não ter começado dizendo que nenhuma mãe deveria enterrar seu filho, ou que nenhuma mãe deveria viver mais que seu filho, porque todos sabiam disso. Ela fez um discurso fúnebre digno de Hugo.
Lilian viu seus avós, Molly e Arthur, eles estavam abraçados e encarando o caixão como se ali estivesse presa toda a felicidade futura da família, viu o Sr. e Sra. Granger, esta chorava de maneira copiosa no peito daquele que apenas afagava a cabeleira castanha e grisalha desta. Viu seus irmãos e seus primos. Seus pais e seus tios. Todos choravam, por mais que eles estivessem tentando ser fortes e aparentar estarem aceitando aquela fatalidade eles choravam.
Lily não viu quando sua tia se aproximou, Hermione apenas depositou a mão sobre o ombro da sobrinha e sussurrou perto dela: — Você fez diferença para o Hugo, Lily, acho que ele ia querer que você soubesse. Você era muito importante para ele. – Não havia lágrimas no rosto da tia, e Lily lutou contra as suas o máximo que pode.
— Ele também fez diferença para mim, tia, mas acho que onde ele estiver ele sabe. – aquilo saiu instintivamente, e a garota não reconheceu sua voz depois de tanto tempo sem usá-la, ela apenas disse a verdade para sua tia, sabia que para ele a dor deveria ser muito grande e não quis piorar as coisas. Hermione a deu um sorriso condescendente e então foi para próximo do marido e o abraçou.
Estranhamente, para Lily aquele momento havia sido libertador. Enterrou com Hugo todo o seu medo, se viu livre da eterna busca pela morte, enterrou essa nova Lily que ela vinha fazendo de armadura. Ela não queria mais ser assim.
Não, não somos apenas um grão de areia para o mundo, somos parte constituinte dessa areia, não era ar pútrido que ela respirava, era ar livre, ar que ela tinha que compartilhar com milhares de pessoas, pessoas sim que sofriam e pessoas que morriam e lutavam por suas vidas a cada instante.
Não queria desperdiçar mais sua vida, não agora. Ela precisava mostrar algo para Hugo, mas não poderia. Então após o enterro ela apenas voltou ao seu quarto, voltou ao quarto depois de jogar uma rosa e uma carta para Hugo. Ela não queria mais chorar, toda a dor havia ido embora.
Quando chegou no quarto, pegou o seu caderninho preto e desbotado de uso, e sem pestanejar pegou um papel de carta no escritório de seus pais e pensou mil vezes no que escrever, e então começou.
“Ei, eu me chamo Lily Luna, e sou uma garota de 17 anos. Eu encontrei esse caderno numa hora de completa escuridão, e ele me ajudou a perceber uma coisa que a partir de agora irá me guiar. Eu amo a vida, completamente e perfeitamente, a minha vida é perfeita.
Vou contar o que aconteceu comigo para me guiar até a escuridão e qual foi o meu norte para sair de lá, e os dois envolvem uma única coisa, a morte. Eu sei que a morte normalmente só nos leva em um buraco de minhoca infinito de escuridão, mas para mim ela também foi minha salvação.
Tudo começou quando eu tinha dez anos e presenciei a morte pela primeira vez, e foi de uma criança da mesma idade, minha amiga Genevive foi brutalmente assassinada e eu não consegui fazer nada. Eu não consegui gritar, me mexer ou chorar, eu apenas a encarava e percebia que eu não era imortal.
Eu sonho com aquela cena quase todos os dias desde então, e esse é o meu pior lado. É ouvir a voz doce e leve de Genevive exclamando que esperava que eu a ajudasse, que ela não estava pronta para morrer, e que eu apenas a deixei lá. Mas isso é o que minha mente me diz disso. Por que eu não consigo lembrar do rosto dela daqueles momentos felizes? Por que tudo que eu vejo e me lembro dela é a agonia que ela passou naqueles momentos antes de sua morte?
Simplesmente porque eu me prendi tão fortemente naquela cena que eu só conheci aquilo por anos. Até meu primo Hugo voltar da Alemanha. Eu o amava, ele era encantador e você o amaria também, eu tenho certeza. Ele era a pessoa mais encantadora do mundo, conseguia te fazer sorrir até nos piores momentos da sua vida, ele me fez sorrir até ele dar seu último suspiro.
E ele é minha luz guia. Hugo tem uma força de atração positiva tão forte que eu não resisti, e ele me mostrou que a morte não é a escuridão que eu achava. A morte é apenas a aventura seguinte, e um dia, quando for minha vez, eu irei encontrá-lo para desfrutar dessa aventura ao lado dele, nós sempre gostamos dessas aventuras.
Você pode pensar: “O que essa menina sabe da vida?”, eu sei tão pouco quanto qualquer um, mas eu pensei e tentei me matar mais vezes do que imagina. Esse livro é recheado de tudo que imagina. E se ele chegar a você no momento mais escuro da sua vida, você deve escrever uma carta, assim como eu fiz.
Essa carta não significa que eu me matei, eu não faria isso. Mas sim que eu sobrevivi, eu escolhi lutar por minha vida tal como Hugo lutou contra seu câncer por tantos anos. Se ele conseguiu eu vou conseguir, eu sou uma sobrevivente, pois eu vivo agora a minha vida e a vida do Hugo, vou fazer o que ele deseja que eu faça.
Espero que ao ler a minha carta, e ler a carta do Sam, você pense como eu tenho pensado, você perceba que morrer não é a solução para tudo, mas que também pode ser, isso é você quem vai descobrir. Vai escolher morrer ou viver?”
Lily dobrou a carta e colocou-a junto com a carta de Sam. Ela escreveu suas iniciais logo abaixo do nome “Sam”, queria que as próximas pessoas que tivessem acesso a aquele diário de vida e morte soubesse que aquele caderno passou por duas pessoas, com histórias e vidas diferentes e que fizeram escolhas diferentes.
Se esgueirou para fora do quarto pela janela, e correu o máximo que pode até àquela mesma ponte onde havia encontrado o caderno. E ali deixou, no mesmo lugar que o achou. E esperou que alguém que realmente precisasse o encontra-se. Quem sabe isso ajude a pessoa a lutar contra seus demônios como Hugo a ajudou a lutar contra os seus.
Lily percebeu quando deitou sua cabeça sobre o travesseiro e encarou a porta destruída pelo namorado da sua prima, percebeu que na verdade o que ela mais temia era a morte.
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