Last Battle
34 Um ano depois…
Um ano havia passado desde a noite em que Hogwarts quase se transformara no túmulo de todos eles. Durante aquele ano, o castelo aprendera novamente a respirar. As pedras que haviam sido destruídas durante a batalha foram recolocadas, algumas janelas precisaram ser completamente refeitas e determinadas paredes ainda apresentavam diferenças sutis de tonalidade, marcas que denunciavam onde a magia dos reparos havia terminado. Os jardins também haviam sido recuperados. As árvores que haviam sido derrubadas durante o confronto foram substituídas, os caminhos de pedra foram reconstruídos e as áreas onde a batalha havia deixado marcas profundas voltaram a receber alunos. Hogwarts não era exatamente a mesma de antes, mas talvez isso fosse inevitável. Nenhum lugar que tivesse sobrevivido àquilo poderia permanecer completamente igual.
Ainda assim, naquela manhã, não havia nada de sombrio no castelo. As bandeiras das quatro casas pendiam das paredes do Salão Principal, balançando suavemente sob a magia que as mantinha suspensas. Velas flutuavam acima das fileiras de cadeiras, refletindo sua luz sobre as paredes de pedra e sobre os detalhes dourados colocados especialmente para a cerimônia. As mesas tradicionais haviam sido retiradas, deixando espaço para os formandos e seus familiares. Na plataforma elevada onde os professores se sentariam, havia um grande arco de flores brancas e douradas emoldurando o brasão de Hogwarts, enquanto as cores das quatro casas se entrelaçavam em faixas que desciam pelas laterais. O teto encantado mostrava um céu de verão claro e luminoso, tão azul que quase parecia impossível que aquela mesma escola tivesse sido, apenas um ano antes, um campo de batalha.
Havia algo quase estranho naquela tranquilidade. Durante muito tempo, Hogwarts havia sido associada a corredores silenciosos depois da batalha, enfermarias cheias, vozes preocupadas e o cheiro de magia queimada. Agora havia risadas. Alunos mais novos corriam pelos corredores carregando flores, professores organizavam os últimos detalhes da cerimônia e famílias começavam a chegar. Fotografias eram tiradas em praticamente todos os cantos do castelo. Alguns formandos abraçavam amigos, outros tentavam controlar o nervosismo e havia aqueles que simplesmente permaneciam parados, olhando para tudo como se ainda não conseguissem acreditar que aquele dia finalmente havia chegado.
Para Hailey, Grace e Sara, porém, aquele momento carregava um significado muito maior. Pela primeira vez desde que tinham chegado tão perto da morte, nenhuma delas precisava pensar se iam sobreviver até o dia seguinte. Naquela manhã, precisavam apenas viver o presente.
A Sala Precisa havia se transformado em um espaço amplo e iluminado, com três grandes espelhos de corpo inteiro, poltronas próximas às janelas e uma mesa sobre a qual estavam dispostos acessórios, perfumes e pequenos objetos que as três haviam escolhido levar para a cerimônia. Grace estava diante de um dos espelhos, observando o próprio reflexo enquanto ajeitava o vestido. O tecido começava em um preto profundo na parte superior e se transformava gradualmente em dourado à medida que descia, criando um degradê luminoso que captava a luz a cada movimento. Pequenos pontos de brilho estavam espalhados pelo tecido, fazendo o vestido parecer diferente dependendo do ângulo. A capa da Lufa-Lufa repousava sobre seus ombros, com o amarelo e o preto da casa envolvendo o vestido sem esconder completamente o dourado que aparecia abaixo dela. Seus cabelos cacheados haviam sido cuidadosamente arrumados, mas alguns fios continuavam livres ao redor do rosto, dando à aparência algo menos formal e mais parecido com ela.
Hailey estava ao lado, terminando de prender os últimos fios do cabelo. Seu vestido vinho era elegante, de um tom profundo que lembrava o vermelho das cores da Grifinória sem ser exatamente igual. A capa da casa repousava sobre seus ombros e pequenos detalhes dourados apareciam discretamente na roupa e nos acessórios. Ela se virou para o espelho e analisou a própria imagem por alguns segundos, respirando fundo, enquanto a consciência de que aquela seria sua última manhã como aluna de Hogwarts começava a se tornar real.
Sara estava mais próxima da janela. O vestido azul-marinho tinha um corte elegante e sóbrio, adequado à personalidade dela, e contrastava com o azul e o bronze da capa da Corvinal. Seus cabelos estavam cuidadosamente arrumados e, preso à parte interna da beca, havia um pequeno bottom que carregava uma fotografia de Amélia.
Aquela era a foto que Draco a deu. Nela, Amélia sorria para a câmera com os cabelos ruivos caindo sobre os ombros. Era jovem, mas havia naquele sorriso uma maturidade que sempre fizera Sara pensar na mãe como uma mulher inteira, não apenas como a pessoa que havia perdido cedo demais. Sara tocou o bottom uma última vez antes de cobri-lo parcialmente com a capa.
Grace percebeu o movimento pelo espelho.
— Você vai mesmo levar a foto dela assim?
Sara olhou para o reflexo da amiga e sorriu.
— Vou. Eu passei muito tempo imaginando como seria se ela pudesse estar aqui. Então pensei que talvez a melhor maneira de fazer isso fosse trazer uma parte dela comigo. Ela me disse para viver. Então, hoje, eu quero viver por nós duas.
Hailey se aproximou e tocou delicadamente o ombro da amiga.
— Ela estaria orgulhosa de você.
Sara abaixou os olhos por um instante, contendo a emoção.
— Eu sei. Agora eu percebo que continuar vivendo seja a melhor maneira que encontrei de levar minha mãe comigo.
Grace se aproximou das duas.
— Então é isso que você vai fazer hoje. Vai levar ela com você.
Sara assentiu, os olhos marejados.
— Vou.
Hailey voltou para o espelho.
— Nós realmente vamos fazer isso.
Grace soltou uma risada.
— Depois de tudo o que enfrentamos, uma formatura deveria ser a parte fácil.
— Eu não sei — Hailey respondeu, sorrindo. — Enfrentar monstros parece mais simples do que ouvir meu nome diante de um salão inteiro.
Sara arqueou uma sobrancelha.
— E você ainda vai fazer o discurso.
Hailey fechou os olhos por um instante.
— Não me lembre disso. Tenho horror a plateia.
Grace riu.
– Voce estudou aqui sua infância e adolescência. Depois de tudo o que você passou, a Hermione estava certa em ceder o lugar dela de oradora a você.
Hailey abriu os olhos e encontrou o próprio reflexo. Aquela frase a atingiu de uma maneira que não esperava. Ela realmente havia estudado ali a vida inteira. Hogwarts não era apenas uma escola para ela. Era infância, adolescência, amizades, professores, descobertas, erros, castigos, noites estudando, festas, brigas, primeiros amores e perdas. Era o lugar onde havia crescido. Era também o lugar onde quase havia morrido. E agora estava prestes a sair dali.
— Acho que estou com medo — confessou.
Grace segurou sua mão.
— De fazer o discurso?
Hailey balançou a cabeça.
— De tudo acabar.
Sara olhou para ela.
— Não está acabando.
Hailey sorriu fracamente.
— Eu sei. Mas é a primeira vez que parece que realmente existe um depois.
Grace apertou sua mão.
— Então vamos descobrir como é esse depois.
Hailey respirou fundo e sorriu.
— Juntas?
— Sempre — Grace respondeu.
Sara colocou a mão sobre as delas.
— Sempre.
Pouco depois, as três deixaram a Sala Precisa.
Do lado de fora, Gareth, Tobias e Draco esperavam. Os três haviam chegado pontualmente no horário combinado mesmo sabendo que as três atrasariam, embora nenhum deles admitisse que o atraso em relação às meninas não era o verdadeiro motivo de estarem tão inquietos. Gareth caminhava de um lado para o outro, tentando parecer casual e falhando miseravelmente. Tobias permanecia encostado em uma das paredes, mas seus dedos se moviam de tempos em tempos, revelando o nervosismo que ele tentava esconder. Draco estava mais quieto, como sempre, mas havia algo diferente na maneira como mantinha os ombros rígidos e o olhar atento.
Eles estavam prontos para a cerimônia (Draco também trajado para receber seu diploma). E, secretamente, para algo muito maior.
Cada um carregava no bolso uma pequena caixa de veludo.
Gareth havia sentido o peso dela durante toda a manhã. Ainda se lembrava da conversa que tivera com Zeus algumas semanas antes. Não havia sido uma conversa fácil. Gareth sabia que pedir a permissão de Zeus significava reconhecer que não estava apenas planejando um momento romântico. Estava dizendo que pretendia passar o resto da vida ao lado da filha dele.
Zeus o recebera em silêncio.
— Você entende o que está me pedindo? Entende o que está prometendo?
Gareth sustentara o olhar do deus.
— Entendo.
Zeus permanecera alguns segundos observando-o.
— Hailey não é simples. Ela é impulsiva, teimosa, extremamente poderosa e provavelmente vai continuar fazendo coisas perigosas mesmo quando você pedir que não faça.
Gareth sorria.
— Eu sei disso.
Pela primeira vez, Zeus sorrira.
— Então talvez você seja exatamente o tipo de homem que ela precisa.
Lucy havia sido muito mais emocional. Ela segurara as mãos de Gareth e perguntara se ele tinha certeza.
— Eu nunca tive tanta certeza de algo como tenho disso — ele respondera.
Lucy chorara antes mesmo de conseguir dizer que sim.
E agora a pequena caixa de veludo estava no bolso de Gareth.
O pedido seria depois da cerimônia. Lucy e Zeus estavam cientes.
Tobias havia passado por uma conversa semelhante com Evelyn e Poseidon. Evelyn havia chorado, mas sorrira quando ele explicou que não queria simplesmente pedir Grace em casamento porque estavam juntos havia muito tempo. Queria fazer aquilo porque, depois de tudo o que haviam vivido, tinha certeza de que queria continuar escolhendo Grace todos os dias.
Poseidon fora mais silencioso.
— Você pretende ficar ao lado dela mesmo quando a vida deixar de parecer uma aventura? — perguntara.
Tobias respondera sem hesitar.
— Principalmente quando deixar de parecer uma aventura.
Poseidon o observara durante alguns segundos antes de assentir.
— Então você tem minha permissão.
Draco havia tido uma conversa ainda mais difícil.
Hades o recebera com aquele silêncio que parecia pesar mais do que qualquer ameaça. Draco havia explicado suas intenções, falado sobre Sara e sobre o futuro que imaginava ao lado dela. Não tentara impressionar o deus. Apenas fora honesto.
Hades demorara a responder.
— Minha filha não precisa de alguém que prometa protegê-la de tudo.
Draco franziu a testa.
— Eu sei.
— Ela precisa de alguém que permaneça quando não puder protegê-la.
Draco assentira.
— Eu permanecerei.
Hades finalmente dissera sim.
Agora os três estavam ali, cada um escondendo o mesmo segredo.
Sem perceber, cada um colocou a mão no bolso e apertou discretamente a caixa de veludo. O pequeno objeto parecia pesar muito mais do que deveria. Não era medo de elas dizerem não. O medo era da dimensão daquele momento. Eles haviam sobrevivido juntos a uma guerra. Eles haviam vistos elas quase morrerem. Tinham segurado os corpos delas sem saber se voltariam a abrir os olhos. Tinham ouvido suas vozes chamando por eles quando retornaram. Eles sabiam exatamente o quanto a vida era frágil.
E agora queriam pedir a cada uma que elas passassem o resto dela ao lado deles.
A porta da Sala Precisa se abriu.
Os três homens ficaram em silêncio.
Grace saiu primeiro.
Tobias simplesmente parou. Durante alguns segundos, esqueceu completamente o que pretendia dizer. Grace caminhou na direção deles, ajeitando distraidamente a capa da Lufa-Lufa, sem perceber imediatamente o efeito que havia causado. O vestido preto e dourado aparecia sob a capa, brilhando discretamente à luz dos corredores. Os cabelos cacheados emolduravam seu rosto, e havia uma segurança tranquila em sua postura que fazia Tobias lembrar de tudo o que ela havia se tornado naquele último ano.
Ele a conhecia antes e depois da guerra. Conhecia a Grace que havia enfrentado monstros, lutado ao lado dele e escolhido retornar da fronteira entre a vida e a morte. Mas naquele momento ele viu também a jovem que agora caminhava em direção à própria formatura usando o sobrenome Blackthorn.
Tobias sorriu.
— Você está linda.
Grace parou diante dele sorrindo. Ele soltou uma risada.
— Eu estava tentando começar com alguma dignidade.
— E conseguiu?
— Não. Você acabou de sair daquela sala e eu esqueci metade das palavras que tinha pensado.
Grace sorriu.
— Então tente lembrar…
Tobias segurou a mão dela e beijou seus dedos.
— Estou olhando para a mulher que eu amo e percebendo que ela está prestes a encerrar uma parte enorme da própria vida. E, ao mesmo tempo, estou lembrando da garota que conheci, de tudo o que aconteceu entre nós e de quantas vezes eu tive medo de não chegar até este dia com você.
Os olhos de Grace ficaram úmidos.
— Você está tentando me fazer chorar antes da cerimônia? Vai borrar minha maquiagem!
— Talvez.
Ela riu e apertou sua mão.
— Então acho que está conseguindo.
Tobias sorriu.
— Eu só queria que você soubesse.
Hailey saiu logo depois.
Gareth sentiu o coração apertar.
Ela usava a capa da Grifinória, mas o vestido vinho aparecia sob o tecido, criando um contraste elegante. O cabelo estava arrumado, mas ainda conservava aquela aparência natural que ele sempre associara a ela. Havia algo na maneira como caminhava, no pequeno sorriso que surgiu quando encontrou os três rapazes esperando, que fez Gareth esquecer completamente a tensão que sentia minutos antes.
Ele apenas olhou com a boca aberta. Hailey percebeu.
— O que foi?
Gareth piscou.
— Nada.
— Gareth.
— Você está linda.
Ela sorriu.
— Você também está.
— Não é a mesma coisa.
— Por quê?
Ele se aproximou e segurou a mão dela.
— Porque você não faz ideia do que está causando em mim agora. Eu passei tanto tempo vendo você em uniforme, correndo pelos corredores, chegando atrasada, discutindo com professores, aparecendo coberta de sujeira depois de algum treinamento e fingindo que não estava cansada, que acho que meu cérebro ainda está tentando entender que aquela garota está aqui diante de mim, pronta para se formar.
Hailey riu.
— Você está ficando sentimental.
— Hoje eu tenho esse direito.
Ela observou o rosto dele por alguns segundos.
— Você está nervoso?
O coração de Gareth quase parou.
— Estou.
— Por que? Eu que vou me formar e discursar na frente de duzentas pessoas…
Ele sustentou o olhar dela mas não respondeu. Apenas riu. Hailey sorriu, sem imaginar o verdadeiro motivo.
Gareth entrelaçou os dedos aos dela.
Por último, Sara apareceu.
Draco ergueu os olhos e ficou imóvel.
Ela usava a capa da Corvinal sobre o vestido azul-marinho, e o conjunto fazia com que parecesse ainda mais elegante. Havia algo mais sereno nela do que um ano antes. Não porque tivesse esquecido a guerra ou a mãe, mas porque havia aprendido a carregar suas perdas sem permitir que elas definissem todos os seus passos.
Draco não disse nada imediatamente.
Sara chegou perto.
— Você também vai ficar me olhando sem falar?
Ele sorriu.
— Estou tentando decidir o que dizer.
— E conseguiu?
— Não. Eu tinha pensado em alguma coisa muito inteligente, mas você acabou de aparecer e estragou completamente meu raciocínio.
Sara arqueou uma sobrancelha.
— Eu fiz isso?
— Fez. E você parece estar gostando.
Ela sorriu.
— Talvez.
Draco segurou a mão dela.
— Você está linda. Mas não é só isso. Tem alguma coisa diferente em você hoje. Acho que é porque você parece realmente feliz. E eu gosto de ver isso. Depois de tudo o que você passou, depois de tudo o que quase perdeu, ver você aqui, preocupada com uma cerimônia, com o próprio vestido e com o fato de seu cabelo estar exatamente como queria… eu não consigo pensar em nada que me deixe mais feliz.
Sara sentiu os olhos arderem.
— Você está muito romântico hoje.
— Talvez seja a formatura.
— Talvez.
Ela não percebeu quando a mão dele tocou discretamente o bolso interno da capa.
A pequena caixa estava ali.
Os três homens trocaram um olhar rápido.
Nenhuma das meninas percebeu.
E talvez fosse melhor assim.
Pouco depois, os seis seguiram juntos em direção ao Salão Principal.
A cerimônia começou diante de um salão completamente transformado. As cadeiras estavam organizadas em fileiras impecáveis, os professores ocupavam a plataforma e o brasão de Hogwarts brilhava atrás deles, cercado pelas quatro cores das casas. As velas flutuantes refletiam a luz sobre os rostos das pessoas, enquanto o teto encantado mostrava um céu azul e claro.
Lucy estava sentada entre os convidados. Ao lado dela estava Zeus. Evelyn estava ao lado dela, acompanhada por Poseidon. Hades estava sentado ao lado de Poseidon encostado na parede. Narcisa e Lúcio Malfoy estavam atrás de Hades. Gareth estava ao lado de Tobias ambos na fileira à frente dos sogros.
Os estudantes do último estavam sentados nas primeiras fileiras. Hailey com os formandos da Grifinoria, Grace com os da Lufa Lufa, Sara com os da Corvinal e Draco com os da Sonserina.
McGonagall falou primeiro. Sua voz atravessou o salão com a firmeza habitual, mas havia emoção escondida sob a formalidade. Ela falou sobre os anos de estudo, sobre os professores que haviam ensinado aqueles alunos e sobre a responsabilidade que acompanhava o conhecimento adquirido. Quando mencionou o último ano, porém, sua voz mudou.
— Alguns de vocês aprenderam este ano coisas que nenhum livro poderia ensinar. Aprenderam sobre coragem, sobre perda, sobre responsabilidade e sobre a importância de permanecer ao lado de alguém quando seria mais fácil fugir. Hogwarts continuará sendo parte de vocês depois que atravessarem estas portas. E espero que, quando olharem para trás, não se lembrem apenas do que perderam aqui, mas também de tudo o que encontraram.
A cerimônia prosseguiu até chegar ao momento que todos aguardavam.
McGonagall abriu o pergaminho. E começou a ler os nomes. Um a um os formandos subiam ao palco para pegarem seus diplomas sob o forte barulho de aplausos.
— Blackthorn, Grace.
Evelyn permaneceu imóvel por um instante quando ouviu seu sobrenome ser pronunciado em alto e bom som.
Blackthorn.
Evelyn levou uma das mãos à boca. As lágrimas surgiram imediatamente. Não eram lágrimas de tristeza. Evelyn sorriu enquanto chorava, como se aquele simples nome tivesse devolvido uma parte da história que ela acreditara precisar esconder para sempre. Poseidon olhou para ela e, sem dizer nada, passou um braço ao redor de seus ombros. Evelyn encostou-se nele por um instante, incapaz de conter a emoção.
Grace viu a mãe. Viu Poseidon. E sorriu.
Então caminhou até a plataforma.
Quando recebeu o diploma, seus dedos tremeram levemente. Ela olhou para o documento e depois para o salão. Para Evelyn. Para Poseidon. Para Tobias.
Então McGonagall continuou chamando os nomes até que…
— Cipriano, Hailey.
Lucy se levantou imediatamente.
As palmas começaram antes mesmo de Hailey conseguir se levantar completamente. Lucy aplaudia de pé, sorrindo através das lágrimas, sem se importar com a formalidade da cerimônia.
Hailey olhou para ela e riu.
Zeus permaneceu sentado, mas sorriu. Um sorriso discreto, orgulhoso, quase imperceptível para quem não o conhecia.
Hailey conhecia.
Ela percebeu.
E aquilo foi suficiente.
Ela caminhou até a plataforma com a capa da Grifinória acompanhando seus movimentos e recebeu o diploma. Por um instante, olhou para o próprio nome escrito nele.
Depois voltou para o lugar.
Minerva continuou chamando os alunos até que, no final do alfabeto…
— Vanye, Sara.
Sara respirou fundo.
Ela tocou o bottom escondido sob a capa.
A fotografia de Amélia estava ali.
Então levantou-se.
Hades começou a aplaudir. Não alto, não de maneira expansiva. Apenas bateu as mãos algumas vezes, com um sorriso discreto no rosto.
Mas Sara viu.
E, naquele instante, imaginou a mãe.
Imaginou Amélia vendo-a atravessar aquele salão. Imaginou o sorriso que teria.
Sara caminhou até a plataforma.
Quando recebeu o diploma, seus olhos ficaram marejados.
Ela segurou o papel com as duas mãos e respirou fundo.
— Obrigada — murmurou.
Então voltou ao seu lugar.
Então chegou o momento do discurso. McGonagall chamou Hailey para a plataforma. Gareth observou-a se levantar. A pequena caixa de veludo pesou novamente no bolso.
Depois da cerimônia.
Ele repetiu mentalmente tentando se acalmar.
Depois.
Hailey caminhou até o centro da plataforma.
Diante dela estavam seus professores, seus amigos, suas famílias e todas as pessoas que haviam feito parte daqueles anos.
Ela olhou para Hogwarts.
E começou.
— Quando me pediram para falar hoje, eu pensei que seria fácil. Afinal, estudei em Hogwarts a minha vida inteira. Passei anos aprendendo dentro dessas paredes, errando, crescendo e, em alguns momentos, acreditando que já sabia exatamente quem eu era. Hoje percebo que talvez uma das maiores coisas que Hogwarts tenha nos ensinado seja justamente entender que nós nunca terminamos de descobrir quem somos.
O salão permanecia completamente silencioso.
— Nós aprendemos feitiços, história, poções, criaturas, astronomia e tantas outras coisas que levaremos conosco. Aprendemos disciplina, mesmo quando não queríamos. Aprendemos que algumas coisas só funcionam quando temos paciência suficiente para tentar novamente. Aprendemos que conhecimento exige responsabilidade. Mas também aprendemos coisas que nenhum professor consegue colocar em uma prova.
Hailey respirou fundo.
— Aprendemos sobre amizade. Sobre amor. Sobre as pessoas que entram na nossa vida e deixam marcas que não desaparecem simplesmente porque uma etapa terminou. Aprendemos que amar alguém também significa ter coragem de ficar quando tudo fica difícil. Aprendemos que algumas pessoas vão embora cedo demais e que a saudade não significa que precisamos deixar de viver. Significa apenas que aquilo que sentimos foi importante.
Lucy abaixou os olhos. Evelyn segurou a mão da amiga. Ambas pensaram em Amelia. Sara tocou discretamente o bottom da mãe.
Hailey continuou:
— Também aprendemos sobre perdas. Sobre medo. Sobre coisas que gostaríamos de esquecer e que provavelmente nunca esqueceremos. Houve momentos em que não sabíamos se chegaríamos até aqui. Momentos em que sobreviver parecia ser a única coisa que importava. E talvez tenha sido justamente por isso que aprendemos algo que eu considero ainda mais importante: sobreviver não é o mesmo que viver.
Gareth sentiu o peito apertar. Hailey olhou para Grace e Sara.
— Nós estamos aqui porque escolhemos continuar. Cada um de nós carrega coisas que ninguém mais consegue enxergar completamente. Carrega saudades, cicatrizes, pessoas que ficaram para trás e histórias que talvez nunca consiga contar inteiras. Mas também carregamos aquilo que veio depois. As pessoas que permaneceram. Os amores que encontramos. As amizades que nos salvaram. As escolhas que fizemos quando ninguém podia fazê-las por nós.
Ela sorriu.
— Talvez seja isso que uma formatura realmente significa. Não significa que sabemos para onde estamos indo. Significa apenas que estamos prontos para descobrir.
O salão permaneceu em silêncio por mais alguns segundos.
— Então, para todos que estão aqui hoje, eu só quero dizer uma coisa: não tenham medo do depois. Hogwarts sempre fará parte de nós, mas a nossa história não termina quando atravessamos essas portas. Talvez seja justamente agora que ela comece de verdade. Nós sobrevivemos. Nós aprendemos. Nós amamos. Perdemos pessoas. Sentimos saudade. Caímos. Levantamos. E chegamos até aqui. Então, quando sairmos deste castelo hoje rumo à nossa vida que nos espera, eu espero que todos nós tenhamos coragem de fazer aquilo que aprendemos da maneira mais difícil: viver.
Por alguns segundos, ninguém se moveu. Então o salão explodiu em aplausos.
Hailey sorriu, emocionada, e seus olhos se encheram de lágrimas. Ela olhou para Grace e Sara, que estavam aplaudindo de pé. Gareth também estava de pé. Tobias sorria observando Grace. Draco observava Sara. Lucy chorava abertamente. Evelyn abraçava Poseidon enquanto tentava limpar as lágrimas. Zeus continuava sorrindo.
Hailey deixou a plataforma e, quando chegou até Gareth, ele a abraçou com força.
— Você foi perfeita.
Ela riu contra o peito dele.
— Eu achei que fosse esquecer tudo. Eu quase esqueci como respirar.
Gareth afastou-se o suficiente para olhar para ela.
— Então eu vou continuar lembrando você de respirar.
Ela sorriu.
A cerimônia terminou alguns minutos depois, sob aplausos, fotografias e abraços. Quando os formandos finalmente deixaram o Salão Principal, o castelo pareceu ficar ainda mais luminoso. O sol entrava pelas grandes janelas, iluminando o corredor onde alunos e familiares se espalhavam, e, pela primeira vez, as três puderam respirar sem a formalidade da cerimônia.
Grace abraçou Evelyn demoradamente.
— Você está chorando muito, mãe.
Evelyn riu entre as lágrimas.
— Estou. E não pretendo pedir desculpas.
— Eu sabia que você faria isso.
— Você foi chamada como Blackthorn, Grace. Você realmente achou que eu conseguiria ficar sentada como se aquilo não significasse tudo para mim?
Grace passou os braços ao redor da mãe.
— Eu queria que você pudesse ouvir esse nome sem precisar sentir medo.
Evelyn fechou os olhos.
— Hoje eu ouvi. E, pela primeira vez, não tive medo nenhum.
Poseidon aproximou-se e colocou uma mão no ombro de Evelyn. Evelyn olhou para ele.
Grace observou os dois e sorriu.
Mais adiante, Lucy abraçava Hailey.
— Eu não acredito que você se formou! E com notas máximas nos NIEM’s
Hailey riu.
— Eu também não. Eu achei que não ia conseguir passar.
Lucy segurou o rosto da filha entre as mãos.
— Você sabe que eu vou guardar essa foto para o resto da minha vida, não sabe?
— Qual delas?
— Todas.
Hailey olhou para Zeus, que se aproximara.
— E você? Não vai dizer nada?
Zeus sorriu.
— Eu já disse.
— Você só sorriu.
— Foi um sorriso muito significativo.
Hailey riu e o abraçou. Lucy fez ela e Zeus posarem juntos para que pudesse continuar fotografando. Gareth ria com gosto.
Sara permaneceu alguns metros distante, segurando o diploma e tocando o bottom com a fotografia de Amélia.
Hades aproximou-se.
— Ela teria gostado.
Sara levantou os olhos.
— Você acha?
— Tenho certeza.
Sara sorriu.
— Eu queria que ela tivesse visto.
Hades observou o rosto da filha.
— Eu garanti que ela visse. Ela só não pôde estar presente.
Sara respirou fundo com lágrimas nos olhos.
— Obrigada...
Hades tocou delicadamente seu ombro.
— Ela tem muito orgulho de você.
Sara encostou a cabeça nele por alguns segundos.
Quando as famílias começaram a se reunir para fotografias, os seis encontraram um pequeno espaço mais afastado dos demais, próximo aos jardins. O sol da tarde iluminava Hogwarts, e o castelo parecia quase dourado sob aquela luz.
As três estavam com os diplomas nas mãos.
Gareth observou Hailey por alguns segundos antes de chamar sua atenção.
— Hailey, vem comigo um minuto?
Ela o acompanhou sem suspeitar de nada. Lucy e Zeus sorriram cúmplices e voltaram para o Salão.
Gareth a conduziu até uma parte mais tranquila dos jardins, onde uma árvore antiga projetava sombra sobre um banco de pedra. Dali era possível ver Hogwarts inteira.
Hailey olhou ao redor.
— Por que você me trouxe aqui?
Gareth respirou fundo.
— Porque eu precisava de um lugar onde pudesse falar com você sem ter cinquenta pessoas olhando.
Ela sorriu.
— Bom... estamos aqui… o que você queria falar comigo?
Ele segurou as mãos dela.
— Eu só quero que você me escute até o fim.
O sorriso de Hailey diminuiu. Ela percebeu que havia algo realmente importante acontecendo.
Gareth respirou fundo.
— Eu pensei muito sobre o que dizer. Pensei durante meses. Tentei escrever alguma coisa, tentei decorar algumas frases, tentei imaginar como seria olhar para você e fazer isso sem ficar completamente nervoso. E descobri que nada disso funcionou porque, quando eu olho para você, eu não penso em frases bonitas. Eu penso em tudo o que vivemos.
Hailey sentiu o coração acelerar mas não interrompeu. Ele apertou suas mãos.
— Eu penso na primeira vez que percebi que estava apaixonado por você. Penso nas vezes em que brigamos, nas vezes em que você me fez rir quando eu estava tendo o pior dia possível, nas vezes em que eu fiquei com raiva porque você se colocou em perigo e depois percebi que eu teria feito exatamente a mesma coisa se fosse necessário para proteger você. Penso naquela noite em que achei que tinha perdido você. Eu não consigo explicar o que aconteceu dentro de mim naquele momento. Foi como se o mundo tivesse ficado vazio. E quando você abriu os olhos, eu entendi que não queria apenas continuar vivendo ao seu lado enquanto as coisas fossem difíceis. Eu queria estar ao seu lado quando as coisas fossem boas também.
Os olhos de Hailey começaram a se encher de lágrimas. Gareth levou a mão ao bolso.
— Eu conversei com Zeus antes de fazer isso. Conversei com sua mãe também. Eu queria que eles soubessem que eu não estava fazendo uma promessa vazia. Queria que eles soubessem que eu amo você e que, se você me permitir, eu quero construir uma vida com você.
Hailey levou uma das mãos à boca. Gareth abriu a pequena caixa de veludo com as mãos trêmulas. O anel de diamante refletiu a luz dourada do fim da tarde. Ele se ajoelhou diante dela. Hailey começou a chorar.
— Hailey Cipriano, eu amo você desde muito antes de entender completamente o que significava amar alguém. Eu amo a garota impulsiva que me desafia, a mulher que você se tornou, a força que existe em você, a maneira como você ama as pessoas e até a parte de você que insiste em acreditar que consegue enfrentar o mundo inteiro sozinha. Quero ser a pessoa que estará ao seu lado enquanto você descobre tudo o que ainda pode ser. Quero conhecer os lugares que você ainda não conhece, quero rir com você, discutir com você, ter uma família com você, envelhecer com você e, se algum dia a vida voltar a ser difícil, quero que você saiba que não precisará enfrentá-la sozinha. Então eu preciso perguntar uma coisa, mesmo morrendo de medo da resposta.
Ele sorriu através da emoção.
— Você quer se casar comigo?
Hailey estava chorando tanto que precisou respirar fundo antes de conseguir falar.
— Você realmente acha que existe alguma possibilidade de eu dizer não depois de tudo isso?
Gareth riu, emocionado.
— Eu precisava ouvir você dizer sim.
Hailey se ajoelhou diante dele, segurando o rosto dele entre as mãos.
— Então sim. Claro que sim. Eu quero viver tudo isso com você.
Gareth fechou os olhos por um instante, tomado pelo alívio. Hailey o abraçou. Ele passou os braços ao redor dela e a apertou contra si, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Depois colocou o anel no dedo dela. Hailey olhou para a própria mão.
— Você pediu mesmo a permissão da minha mãe e do meu pai?
— Com certeza. Eu sou um cavalheiro.
Hailey o beijou.
Foi um beijo longo e emocionado, cheio de alívio, felicidade e da certeza de que aquilo não era apenas uma promessa para o futuro. Era uma escolha que os dois estavam fazendo naquele instante.
Quando se afastaram, Hailey encostou a testa na dele.
— Eu amo você.
— Eu amo você também.
Alguns metros dali, Tobias havia levado Grace até os jardins próximos ao lago. O lugar estava mais silencioso, e o reflexo de Hogwarts tremulava sobre a água.
Grace olhou para ele.
— Você está com a mesma cara estranha que estava antes da cerimônia.
Tobias riu nervosamente.
— Eu esperava que você não percebesse.
— Eu sempre percebo quando tem algo errado com você.
Ele segurou a mão dela.
— Então você precisa saber que eu estou nervoso porque existe uma coisa que eu preciso dizer.
Grace ficou séria.
— O que aconteceu?
— Nada ruim. Muito pelo contrário.
Tobias respirou fundo.
— Grace, eu passei muito tempo acreditando que a vida era uma sequência de coisas que aconteciam conosco e que precisávamos enfrentar. Depois conheci você e comecei a perceber que também podemos escolher. Escolhemos ficar. Escolhemos amar. Escolhemos voltar. E hoje, olhando para você com esse diploma nas mãos, percebi que existe uma escolha que eu quero fazer pelo resto da minha vida.
Ele tirou a pequena caixa do bolso. Grace ficou imóvel.
— Tobias…
Ela ficou de pé quando ele se ajoelhou.
— Eu pedi a permissão da sua mãe e a permissão do seu pai. E fiz isso porque eu queria que eles soubessem que eu não estou pedindo apenas para continuar sendo só seu namorado. Eu quero construir uma vida com você. Quero estar ao seu lado quando você estiver feliz, quando estiver cansada, quando estiver com medo, quando estiver tentando descobrir quem quer ser depois de Hogwarts. Quero conhecer todos os lugares que ainda vamos conhecer. Quero discutir com você sobre restaurantes, viagens e qualquer outra coisa idiota que aparecer pelo caminho. Quero ter dias completamente comuns com você, porque depois de tudo o que vivemos, eu descobri que os dias comuns são algumas das coisas mais preciosas que existem.
Grace já chorava.
Tobias abriu a caixa. O anel brilhou ante a luz dourada do sol se pondo.
— Eu não posso prometer que vou conseguir impedir que coisas ruins aconteçam. Não posso prometer que nossa vida será perfeita. Mas posso prometer que, quando alguma coisa acontecer, você não vai olhar para o lado e descobrir que eu fui embora. Eu vou estar ali. Então, Grace Blackthorn, eu quero perguntar se você aceita passar o resto da sua vida escolhendo ficar comigo?
Grace cobriu a boca com uma das mãos.
— Você sabe que eu odeio quando você me faz chorar.
Tobias sorriu.
— Eu sei.
Ela se aproximou e o fez levantar.
— Mas eu também sei que você é a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida.
Ele fechou os olhos, emocionado. Grace segurou o rosto dele.
— Sim. Eu quero. Quero me casar com você. Quero viver todos esses dias comuns que você acabou de prometer. E, principalmente, quero continuar escolhendo você.
Tobias a abraçou com força. Grace riu contra o peito dele.
— Você está tremendo.
— Eu estava convencido de que você diria sim.
— E ainda assim estava tremendo?
— Eu te amo demais para não ficar nervoso.
Ela se afastou apenas para permitir que ele colocasse o anel em seu dedo.
Depois o beijou.
O beijo foi lento, emocionado e cheio da felicidade tranquila de quem acabava de perceber que o futuro não precisava mais ser algo distante. Poderia ser construído.
Enquanto isso, Draco havia conduzido Sara até uma parte mais silenciosa do castelo, próxima aos jardins internos. Não havia ninguém ali. O sol atravessava os vitrais, lançando manchas coloridas sobre o chão.
Sara percebeu imediatamente que ele estava nervoso.
— Você está escondendo alguma coisa, não está?
Draco sorriu.
— Estou.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Pelo menos você admitiu.
Ele segurou as mãos dela.
— Eu não queria esconder de você. Só queria esperar o momento certo.
Sara observou o rosto dele.
— Momento certo? Como assim?
Draco respirou fundo.
— O momento em que eu pudesse olhar para você e saber que você chegou até aqui.
Ele tocou a pequena caixa dentro da capa.
— Eu pedi a permissão do seu pai pra isso…
Sara ficou imóvel. Sara levou a mão ao peito.
— Meu Deus.
— Eu também achei que fosse sobreviver a uma batalha mais facilmente do que a essa conversa.
Ela riu entre as lágrimas. Draco continuou:
— Sara, eu não quero prometer que vou apagar suas dores. Não quero fingir que posso substituir sua mãe ou que consigo proteger você de tudo. Eu sei que existem partes da sua vida que pertencem somente a você. E eu nunca vou tentar tirar isso de você. Mas quero estar ao seu lado enquanto você constrói tudo o que vem depois. Quero conhecer a mulher que você vai continuar se tornando. Quero ouvir suas histórias, conhecer os lugares que você ainda quer conhecer, ver você rir mais vezes do que chorar e estar perto quando você precisar de alguém. Quero que, quando você pensar no futuro, eu faça parte da imagem.
Sara chorava em silêncio.
Draco abriu a caixa.
— Você voltou para a vida quando poderia ter escolhido partir. Eu nunca vou esquecer isso. E, se você permitir, quero passar o resto da minha vida lembrando você de que aquela escolha valeu a pena. Eu quero fazer você feliz. Quero acordar todos os dias com você e criar uma família com você.
Ele se ajoelhou. E abriu a caixa. A Esmeralda do anel era tão brilhante que reluzia no ambiente todo.
— Sara Vanye, você quer se casar comigo?
Sara olhou para ele por alguns segundos. Então levou a mão ao rosto.
— Eu não sei nem como responder.
Draco ficou pálido.
— Isso é um não?
Ela riu através das lágrimas.
— Não, seu idiota. É um sim. É só que… eu passei tanto tempo achando que meu futuro seria uma coisa que eu precisaria descobrir sozinha. Depois encontrei você. E, quando minha mãe me mandou voltar, eu pensei que talvez eu tivesse voltado porque ainda havia coisas que precisava viver. Agora eu entendo uma delas.
Draco levantou os olhos. Sara sorriu.
— Eu quero viver com você.
Ele respirou fundo, tomado pelo alívio.
— Então isso é um sim?
— É um sim.
Draco levantou-se e a abraçou. Sara escondeu o rosto no peito dele.
— Ela teria gostado de você. A minha mãe…
Draco fechou os olhos.
— Eu espero que sim…
Sara afastou-se e tocou o próprio peito.
— Eu acho que ela já gostava.
Ele sorriu.
— Então vou confiar no julgamento dela.
Sara riu.
Draco colocou o anel em seu dedo.
Ela olhou para a joia por alguns segundos antes de tocar o bottom com a fotografia de Amélia.
— Eu queria que ela estivesse aqui para ver isso.
Draco segurou sua mão.
— Talvez ela esteja vendo.
Sara olhou para ele.
— Você realmente acredita nisso?
— Depois de tudo o que vivemos? Sim.
Ela sorriu.
— Então está bem.
Os três casais voltaram a se encontrar algum tempo depois, próximos aos jardins de Hogwarts, onde as famílias ainda permaneciam reunidas para tirar fotografias e aproveitar os últimos momentos daquela noite tão importante. Lucy foi a primeira a perceber o anel no dedo da filha. Como já sabia exatamente o que havia acontecido, não houve surpresa em seu olhar; o que surgiu foi uma alegria tão imediata e expansiva que Hailey mal teve tempo de dizer qualquer coisa antes de a mãe abrir um sorriso enorme.
— Finalmente! — Lucy exclamou, levando uma das mãos ao peito e a outra imediatamente à boca, embora não houvesse absolutamente nenhuma tentativa real de conter a emoção. — Eu estava tentando me comportar mesmo sabendo que minha filha ficaria NOIVA!
Hailey começou a rir, sentindo os olhos se encherem de lágrimas novamente, e levantou a mão para mostrar o anel com mais clareza. Lucy soltou uma exclamação alegre, abraçou a filha com força e começou a beijar seu rosto repetidamente, apertando-a contra si com aquela intensidade afetuosa que fazia Hailey rir ainda mais.
— Meu Deus, minha filha! Você está noiva! — Lucy dizia entre risadas e lágrimas, afastando-se apenas o suficiente para segurar o rosto de Hailey entre as mãos. — Olha para você! Eu sabia que esse menino ia fazer isso, mas saber e ver acontecendo são duas coisas completamente diferentes. Você está feliz?
Hailey olhou para Gareth, depois para a mãe, e o sorriso que surgiu em seu rosto respondeu antes mesmo que ela conseguisse falar.
— Muito.
Lucy voltou a abraçá-la imediatamente, desta vez ainda mais apertado, enquanto Gareth observava a cena com um sorriso emocionado. Ao lado deles, Zeus acompanhava tudo com uma expressão que misturava orgulho, divertimento e uma admiração evidente pela maneira como Lucy demonstrava o amor pela filha. Ele já havia testemunhado a alegria dela quando Gareth lhe pedira autorização para se casar com Hailey, mas vê-la agora comemorando daquela forma parecia diverti-lo particularmente. Zeus cruzou os braços por um instante, observando Lucy falar sem parar, beijar a testa da filha e perguntar detalhes que ela própria já sabia, antes de finalmente olhar para Gareth.
— Eu deveria ter previsto que ela reagiria assim — Zeus comentou, com um sorriso discreto.
Gareth soltou uma risada.
— Eu acho que ela está sendo exatamente como eu esperava.
Lucy, que havia ouvido, virou-se imediatamente para os dois.
— E vocês dois parem de conversar como se eu não estivesse aqui! É claro que eu vou comemorar. Minha filha acabou de ficar noiva!
Zeus soltou uma risada baixa, claramente encantado com a cena, enquanto Hailey balançava a cabeça, ainda sorrindo.
— Mãe, você está fazendo parecer que eu ganhei um prêmio.
— Você ganhou um noivo! É muito melhor! — Lucy respondeu, segurando novamente a mão da filha para admirar o anel. — E olha esse anel! Gareth, você acertou em cheio. Eu sabia que você tinha bom gosto, mas isso aqui foi muito bem escolhido.
Gareth sorriu.
— Fico feliz que tenha gostado. Eu mesmo forjei.
— Eu amei! — Lucy respondeu com a voz um pouco esganiçada
Zeus aproximou-se de Gareth e colocou uma das mãos em seu ombro, olhando para ele com uma expressão mais séria, embora ainda houvesse orgulho em seus olhos.
— Eu já sabia que isso aconteceria. Só queria ver se teria coragem de realmente colocar o plano em prática depois de tudo o que vocês viveram.
Gareth sorriu.
— Eu nunca tive dúvida.
Zeus sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de assentir.
— Então cuide dela.
Gareth respondeu sem hesitar, com a mesma segurança que havia demonstrado quando conversara com Zeus antes da cerimônia.
— Todos os dias. Não importa o que aconteça.
A expressão de Zeus suavizou-se ainda mais. Ele assentiu novamente, satisfeito, e apertou brevemente o ombro do rapaz antes de voltar os olhos para Hailey. Havia algo quase solene na maneira como a observava, como se estivesse tentando guardar na memória aquela versão da filha: adulta, feliz, formada e agora prestes a construir uma vida ao lado de alguém que havia escolhido para estar ao seu lado.
Mais adiante, Grace e Tobias aproximaram-se de Evelyn e Poseidon. Evelyn já sabia do pedido e, portanto, não havia surpresa quando seus olhos imediatamente procuraram a mão da filha. No instante em que viu o anel, porém, a emoção que ela vinha tentando controlar desde o início da cerimônia voltou com força. Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela levou as mãos ao rosto antes de abraçar Grace.
— Mãe, por favor — Grace disse entre uma risada e outra, retribuindo o abraço. — Você já chorou o suficiente por hoje.
Evelyn afastou-se apenas para olhar para ela, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto.
— Não, eu não chorei o suficiente. E vou continuar chorando, porque você está tão feliz. E está NOIVA!
Grace segurou as mãos da mãe.
— Eu estou muito feliz.
— Eu sei — Evelyn respondeu, sorrindo entre as lágrimas. — É justamente por isso que eu não consigo parar.
Ela voltou a olhar para o anel, como se precisasse confirmar mais uma vez que aquilo realmente estava acontecendo. Depois passou os dedos pelo rosto da filha, afastando uma mecha de cabelo e observando-a com uma ternura quase dolorosa. Havia algo profundamente significativo naquela cena para Evelyn. Depois de tudo que Grace havia descoberto sobre sua família, depois da revelação de Blackthorn, depois da guerra, da perda e do medo de não ter a filha de volta, vê-la ali, sorrindo com um anel no dedo e os olhos brilhando de felicidade era uma espécie de resposta para todas as coisas que haviam tentado destruir sua família.
Poseidon aproximou-se por trás de Evelyn e pousou uma mão delicada em seu ombro. Ele também olhava para Grace, e havia um orgulho silencioso em sua expressão. Seu olhar passou pelo anel, depois por Tobias, e finalmente voltou para a filha.
— Você conseguiu fazê-la sorrir desse jeito depois de tudo — Poseidon disse, com um tom sereno, mas carregado de significado.
Tobias sorriu.
— Ela faz isso sozinha. Eu só tenho a sorte de estar ao lado dela.
Poseidon sustentou o olhar dele por alguns segundos e então assentiu, claramente satisfeito com a resposta.
— Era exatamente o que eu queria ouvir.
Evelyn segurou o braço de Poseidon, ainda emocionada.
— Você sabia que isso ia acontecer e conseguiu ficar calmo o tempo todo.
Poseidon olhou para ela com um pequeno sorriso.
— Eu sabia que Tobias faria o pedido. Não significa que eu não esteja feliz em vê-lo acontecer.
Grace aproximou-se dos dois e abraçou a mãe novamente, enquanto Tobias cumprimentava Poseidon. O deus o recebeu com um aperto de mão firme e um sorriso orgulhoso, e depois pousou a mão em seu ombro.
— Parabéns, Tobias.
— Obrigado.
— E cuide dela.
Tobias sorriu.
— Eu vou.
Poseidon olhou para Grace mais uma vez. Ela estava sorrindo para a mãe, com os olhos ainda úmidos pela emoção, e por um instante ele simplesmente a observou. Havia orgulho naquele olhar, mas também uma espécie de encantamento silencioso diante da mulher em que sua filha havia se transformado. E Poseidon sabia o quanto aquilo significava.
Um pouco afastados dos demais, Sara e Draco finalmente se aproximaram de Hades, Narcisa e Lucio. Ao contrário de Lucy, que havia transformado a notícia em uma celebração barulhenta, ou de Evelyn, que mal conseguia conter as lágrimas, eles três permaneceram mais reservados. Eles já sabiam que Draco pretendia pedir a mão de Sara e Hades já havia dado sua permissão. Portanto, quando seus olhos encontraram o anel na mão de Sara, não houve surpresa alguma. Houve apenas aquela satisfação silenciosa que ele raramente demonstrava de maneira aberta.
Sara percebeu o olhar do pai e dos sogros e levantou a mão, mostrando o anel.
Narcisa e Lucio sorriram, principalmente Narcisa que havia ajudado Draco a escolher a joia. Hades observou a esmeralda por alguns segundos antes de erguer os olhos para a filha. Seu rosto continuava sério, mas havia uma suavidade incomum em seu olhar. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, discreto, porém genuíno, e Sara sentiu o peito apertar ao perceber o quanto aquele gesto significava vindo dele.
Hades aproximou-se dela e abriu os braços.
Sara não precisou de mais nenhum convite. Aproximou-se imediatamente e o abraçou, envolvendo-o com força. Hades fechou os braços ao redor da filha e permaneceu assim por alguns segundos, permitindo-se demonstrar aquele orgulho que normalmente escondia atrás da postura fria e controlada.
— Eu sabia que ele faria isso — Hades murmurou, olhando brevemente para Draco por cima do ombro de Sara. — E sabia que você aceitaria.
Sara sorriu contra o peito do pai.
— Você aprovou.
— Aprovei porque ele ama você.
Hades se afastou apenas o suficiente para olhar diretamente para ela. Seus olhos percorreram o rosto da filha, e a satisfação em sua expressão ficou mais evidente.
— E porque você está feliz.
Sara assentiu.
— Estou.
Hades olhou para Draco novamente. O rapaz sustentou o olhar sem hesitar, e Hades fez um breve aceno de cabeça, como se aquela pequena confirmação fosse suficiente para selar algo muito maior.
— Então parabéns, Draco.
— Obrigado.
Hades voltou os olhos para Sara e tocou de leve o rosto dela.
— Sua mãe teria ficado feliz em ver você assim.
A emoção atravessou o rosto de Sara imediatamente. Ela respirou fundo e segurou a mão do pai.
— Eu sei.
Hades apertou seus dedos e permaneceu ao lado dela, sem tentar preencher o silêncio com palavras. Não precisava. A satisfação que sentia estava ali, na maneira como permanecia próximo, na suavidade rara de seu olhar e no sorriso discreto que ainda não havia desaparecido completamente.
Ao redor deles, as três famílias começaram a se aproximar, e a atmosfera do jardim mudou. Já não era apenas a noite da formatura. Era uma celebração de três novos começos acontecendo ao mesmo tempo. Lucy continuava falando animadamente sobre Hailey e Gareth, alternando entre abraçar a filha, elogiar o anel e comentar que precisava começar a pensar em casamento imediatamente, enquanto Zeus a observava com um sorriso divertido e claramente apaixonado por aquela maneira tão intensa que ela tinha de amar. Evelyn ainda enxugava as lágrimas enquanto segurava a mão de Grace e olhava para Tobias com gratidão, e Poseidon permanecia ao lado dela, compartilhando daquele orgulho silencioso. Hades, mais reservado, mantinha Sara perto de si, e Draco permanecia ao lado dela, recebendo do deus apenas o suficiente para saber que estava verdadeiramente aceito.
No fim, os três casais se reuniram novamente diante das famílias, cada um com seu próprio anel brilhando sob a luz das lanternas do jardim para as fotos. Hailey entrelaçou os dedos aos de Gareth, Grace apoiou a cabeça por um instante no ombro de Tobias e Sara segurou a mão de Draco enquanto permanecia próxima do pai. Não havia surpresa naquela comemoração. Todos ali sabiam que aqueles pedidos aconteceriam. O que ninguém conseguia esconder era a felicidade de finalmente vê-los acontecer.
Depois de tudo o que haviam enfrentado, de todas as perdas, batalhas e momentos em que o futuro parecera incerto, aquela noite oferecia algo que durante muito tempo parecera impossível: a certeza de que eles ainda tinham um futuro para construir. E, pela primeira vez em muito tempo, os adultos que haviam lutado ao lado deles, protegido-os e chorado por eles podiam simplesmente assistir aos seis jovens que amavam escolherem a vida, o amor e um ao outro.
Ao redor deles, Hogwarts continuava cheia de vozes, risadas, fotografias e despedidas. Os alunos mais novos ainda corriam pelos corredores, os professores conversavam e os familiares celebravam.
Mas, por alguns minutos, os seis permaneceram juntos.
Quatro diplomas.
Três anéis.
Histórias que haviam começado de maneiras completamente diferentes e que, apesar de tudo o que haviam enfrentado, haviam chegado ao mesmo ponto.
Hailey segurou a mão de Gareth.
Grace entrelaçou os dedos aos de Tobias.
Sara encostou-se em Draco.
As três olharam para Hogwarts.
O castelo permanecia diante delas, imenso e familiar, carregando nas paredes tudo aquilo que viveram.
Hailey sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
— Eu vou sentir falta daqui.
Grace apertou sua mão.
— Eu também.
Sara olhou para o castelo.
— Talvez a gente volte.
Gareth sorriu.
— Tenho certeza de que vão.
Hailey olhou para ele.
— Como você sabe?
— Porque Hogwarts é parte de vocês.
Tobias olhou para Grace.
— E porque algumas casas nunca deixam de ser nossas.
Draco observou Sara.
— Algumas pessoas também não.
Sara sorriu.
O vento passou pelos jardins, movimentando as capas das três formandas. Hailey olhou para o anel em sua mão. Grace fez o mesmo. Sara tocou a fotografia de Amélia escondida junto à beca.
Um ano antes, elas haviam voltado da morte.
Agora estavam ali, diante do castelo que quase as perdera, segurando diplomas, usando anéis e fazendo planos para uma vida que ninguém poderia mais escolher por elas.
E, dessa vez, nenhuma das três teve medo do que viria depois.
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