Last Battle

17 Ou eu mesmo tiro vocês


Sara acordou antes que o castelo realmente despertasse. Por alguns segundos, permaneceu deitada, olhando para o teto do dormitório da Corvinal enquanto tentava se lembrar de onde estava. Hogwarts. Ainda era estranho pensar que aquele castelo fazia parte de sua vida. Depois de tudo o que vivera na Audácia, depois de descobrir que magia existia, que deuses existiam e que o mundo era muito maior, mais perigoso e mais absurdo do que jamais imaginara, acordar em um castelo centenário cheio de bruxos ainda parecia algo saído de um sonho. Ela se virou para o lado e observou as outras garotas dormindo. Algumas respiravam profundamente, outras estavam enroladas nos cobertores, completamente alheias ao mundo. Sara sorriu de leve e se levantou com cuidado para não acordá-las.

A rotina matinal já estava tão incorporada ao seu corpo que não precisava pensar para segui-la. Vestiu uma roupa confortável para treinar, prendeu os cabelos ruivos e saiu do dormitório em silêncio. Os corredores ainda estavam praticamente vazios. Hogwarts parecia outro lugar naquele horário, iluminado apenas pela luz fraca das primeiras horas da manhã que entrava pelas janelas altas e se espalhava pelas paredes de pedra. Durante o dia, o castelo era barulhento, cheio de vozes, passos, portas se abrindo e fechando e estudantes correndo para as aulas. Naquele momento, porém, parecia pertencer somente a ela.

Sara desceu até os terrenos e respirou fundo assim que sentiu o ar frio atingir o rosto. Aquilo era familiar. Começou pelos alongamentos, trabalhando ombros, braços, pernas e quadris, depois passou para flexões, abdominais e exercícios de equilíbrio. O treinamento da Audácia havia deixado marcas nela que iam muito além dos músculos. Seu corpo aprendera a obedecer antes que sua mente terminasse de pensar. Era uma disciplina que Sara não queria perder, mesmo naquele mundo novo.

Mais do que isso, o treinamento havia transformado a maneira como ela enxergava qualquer ambiente. Sem perceber, seus olhos percorriam as portas, as janelas, os caminhos de acesso e os pontos onde alguém poderia surgir. Quando precisava parar para descansar, escolhia posições de onde pudesse enxergar o espaço ao redor. Quando caminhava pelos corredores, registrava automaticamente as saídas. Era uma coisa tão arraigada nela que já não sabia distinguir o instinto da simples atenção. A Audácia ensinara Sara a nunca confiar completamente em um lugar apenas porque ele parecia seguro. Hogwarts era diferente, mas seu corpo ainda não sabia disso.

Quando terminou os exercícios, começou a correr pelos terrenos de Hogwarts. Seus passos mantinham um ritmo constante sobre a grama úmida, enquanto o castelo permanecia imponente ao fundo. O frio fazia seu rosto corar e algumas mechas escapavam do cabelo preso. Correr ajudava a organizar os pensamentos, e Sara gostava daquela sensação de liberdade. Era uma das poucas coisas que continuavam exatamente iguais, independentemente do mundo em que estivesse.

Foi durante uma das voltas que avistou Hailey correndo no sentido contrário. As duas diminuíram ligeiramente o ritmo ao se aproximarem e trocaram apenas um olhar cúmplice antes de continuarem seus caminhos. Sara sorriu sozinha.

— Pelo menos não sou a única maluca acordada a essa hora.

Quando terminou a corrida, voltou a uma área mais afastada dos terrenos e começou o treinamento de combate. Seus movimentos eram rápidos e precisos, construídos muito mais pela experiência da Audácia do que pela educação bruxa que ainda estava aprendendo. Esquivou-se de um golpe imaginário, girou sobre o próprio eixo, avançou e recuou novamente, repetindo a sequência até sentir o corpo aquecer. Não treinava apenas para manter a forma. Treinava porque havia aprendido, muito tempo antes, que estar preparada significava ter uma chance maior de sobreviver.

Estava tão concentrada que quase não percebeu as duas figuras que se aproximavam.

Victoria Rosier e Eleanor Selwyn caminhavam lado a lado. Ambas usavam os cachecóis da Sonserina e carregavam no rosto aquela expressão de superioridade que Sara já havia aprendido a reconhecer. Ela terminou o movimento que estava fazendo e respirou fundo antes de se virar.

— Então é verdade — Victoria comentou.

Sara olhou para ela.

— O quê?

Victoria apontou discretamente para a mão dela.

— Você realmente está usando o anel dele.

Sara olhou para o próprio dedo e depois voltou os olhos para Victoria.

— Estou. Quer conferir de perto?

Eleanor soltou uma risadinha.

— Você realmente acha que Draco se interessaria por alguém como você?

Sara arqueou uma sobrancelha.

— Alguém como eu?

— Uma garota que aparece do nada — Victoria respondeu. — Que nem estudou em Hogwarts, não conhece a história daqui, não conhece as pessoas, não sabe fazer magia direito... Você simplesmente chegou no meio do ano e acha que pode ocupar um espaço que não é seu.

Sara cruzou os braços. Por alguns segundos, limitou-se a observá-las, tentando decidir se aquelas duas haviam realmente acordado cedo apenas para incomodá-la.

— Entendi. Vocês acordaram cedo só para me dar uma palestra.

— Nós conhecemos Draco há anos — Eleanor disse. — Muito antes de você sequer saber que ele existia.

Sara ficou alguns segundos olhando para ela.

— Parabéns. Quer uma medalha?

O sorriso de Eleanor desapareceu.

Victoria deu um passo à frente.

— Você não entende. Existem pessoas que fazem parte da vida dele há muito tempo.

— E agora eu também faço.

— Talvez você esteja ocupando o lugar que deveria ser de outra pessoa.

Sara soltou uma risada curta.

— Esse lugar não estava reservado para ninguém.

Victoria estreitou os olhos.

— Você nem sabe de onde veio.

A frase fez Sara hesitar por uma fração de segundo. Não era exatamente a mesma coisa que ouvir que não era uma bruxa, mas havia alguma coisa naquela provocação que tocava em uma parte dela que ainda permanecia desconfortável. Ela realmente não sabia muitas coisas sobre sua própria história. Não sabia por que sua vida havia sido tão diferente da de todos aqueles bruxos. Não sabia como havia chegado àquele mundo nem por que tantas coisas pareciam ter esperado por ela antes mesmo de saber que existiam.

Eleanor percebeu a hesitação.

— Você passou a vida inteira aprendendo a sobreviver em outro lugar — disse, com uma calma quase cruel. — Isso não significa que saiba viver aqui.

Sara sustentou o olhar dela.

— Vocês acham tudo isso muito importante, não é?

— Você acha tudo engraçado? — Eleanor perguntou.

— Não. Só algumas coisas. Como esse discursinho patético de vocês.

— Você não deveria estar aqui — Victoria disse.

— Essa é a opinião de vocês.

— Você não pertence à Sonserina.

Sara sorriu.

— Eu sei. Tanto que fui selecionada para a Corvinal.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Eu sei exatamente o que você quis dizer.

Ela tentou passar por elas, mas Victoria se moveu para bloquear seu caminho.

— Sai da frente.

— Ou o quê?

— Ou eu passo por cima.

Victoria se aproximou mais.

— Você acha que pode chegar aqui e simplesmente tomar tudo o que quiser? O castelo, seus amigos, Draco... Você não pode entrar na vida das pessoas como se tivesse algum direito sobre elas.

Sara sentiu o sangue esquentar, mas manteve a expressão controlada.

— Eu não tomei nada de ninguém. Draco fez uma escolha. Se isso incomoda vocês, talvez o problema não esteja comigo.

Victoria segurou o braço dela.

Sara reagiu no mesmo instante. Segurou o pulso da garota, girou o corpo e a fez perder o equilíbrio, mantendo-a presa apenas o suficiente para deixar claro que poderia fazer muito mais.

— Eu disse para não encostar em mim.

— Me solta!

Sara soltou imediatamente, mas não recuou.

— Fica longe de mim.

— Ou o quê?!

Uma voz conhecida surgiu atrás delas.

— Ou eu mesmo tiro vocês daqui.

As três se viraram. Draco vinha pelo corredor, os olhos fixos em Victoria. Seu rosto estava sério, e havia uma frieza familiar em sua expressão. Ele se aproximou sem pressa, mas sua postura deixava claro que não estava ali para negociar.

— Draco...

— Não — ele interrompeu. — Você não vai começar.

Parou ao lado de Sara e passou um braço ao redor da cintura dela, trazendo-a para perto de si.

— Não incomodem minha namorada. E, principalmente, não toquem nela.

Victoria ficou sem resposta.

— Nós só estávamos conversando.

Draco soltou uma risada curta, sem humor.

— Eu vi como a conversa estava sendo extremamente civilizada.

Eleanor cruzou os braços.

— Nós conhecemos você há anos. Desde antes de Hogwarts!

— E aparentemente ainda não aprenderam a me ouvir.

Ele olhou para as duas.

— Vocês não têm direito de decidir com quem eu fico. Não têm direito de decidir quem pertence à minha vida e muito menos de tentar humilhar alguém porque ela não se encaixa no que vocês esperavam.

— Nós só estamos tentando proteger você — Eleanor respondeu.

Draco ficou alguns segundos em silêncio antes de responder. Quando falou, sua voz estava mais baixa.

— Eu já me machuquei bastante na minha vida. E nenhuma de vocês estava lá.

O silêncio caiu entre os quatro. Draco apertou discretamente a cintura de Sara.

— Eu escolhi quem eu quis. E escolhi Sara. Se vocês têm algum problema com isso, lidem com ele longe de nós.

Victoria olhou para Sara e depois para Draco.

— Isso não vai durar.

Draco sorriu de maneira fria.

— Então você terá que aprender a conviver com essa possibilidade.

As duas finalmente se afastaram. Draco esperou até que desaparecessem pelo corredor antes de voltar a atenção para Sara.

— Você está bem?

Sara ergueu uma sobrancelha.

— Eu não precisava ser salva.

— Eu sei.

— Então por que essa cara?

— Porque saber que você consegue se defender não significa que eu tenha que ficar parado enquanto alguém tenta te humilhar.

Sara o observou por alguns segundos. A resposta tinha sido simples, mas havia alguma coisa por trás dela que a atingiu de maneira inesperada.

— Você ouviu tudo?

— O suficiente.

Ela desviou os olhos.

Draco percebeu.

— Foi o que ela disse sobre você não ser uma bruxa?

Sara respirou fundo.

— Não foi nada.

— Sara.

— Draco, sério. Eu consigo lidar com duas garotas que não gostam de mim.

— Eu sei que consegue. Não foi isso que perguntei.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, até finalmente encará-lo.

— Talvez seja estranho admitir isso, mas às vezes ainda parece que eu estou tentando descobrir onde eu pertenço. Passei a vida inteira em um lugar que deixou de existir para mim do jeito que existia antes, depois descobri que existe magia, deuses, Hogwarts e um monte de coisas que eu nem sabia que eram possíveis. E agora algumas pessoas olham para mim e dizem que eu não pertenço aqui. Talvez uma parte de mim tenha medo de que elas estejam certas.

Draco não respondeu imediatamente. Em vez disso, segurou o rosto dela com uma das mãos, obrigando-a a manter os olhos nele.

— Você não precisa provar que pertence a lugar nenhum para mim.

Sara sorriu de leve.

— Isso foi inesperadamente bonito.

— Não se acostume.

Ela riu.

— Você realmente não consegue ficar sentimental por mais de cinco segundos.

— Estou tentando preservar minha reputação.

— Que reputação?

— A de homem insuportável.

— Essa você mantém muito bem.

Ele sorriu.

— Ótimo.

Sara passou os braços ao redor do pescoço dele.

— Você fica muito gato quando está irritado.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— É mesmo?

— Muito.

— Então talvez eu devesse ficar irritado com mais frequência.

— Não se empolga.

— Tarde demais.

Ele segurou sua cintura e a puxou para perto. Sara passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijo aconteceu naturalmente. Começou breve, mas nenhum dos dois parecia particularmente interessado em encerrá-lo tão cedo. Draco manteve uma das mãos firme em sua cintura, enquanto a outra subiu até sua nuca. Quando se afastaram, continuaram próximos, as testas encostadas.

— Como sabia que eu estava aqui?

— Tenho os meus métodos... — ele disse, cutucando a própria têmpora.

Sara sorriu.

— Você me seguiu?

— Talvez.

— Draco.

— Senti sua falta essa noite — ele murmurou.

A expressão dela suavizou.

— Eu também. Achei estranho ter ido para a Corvinal, mas foi até bom eu não ter ido para a Sonserina.

Draco franziu a testa.

— Por quê?

O sorriso dela se tornou malicioso. Sara se aproximou do ouvido dele.

— Você acha mesmo que eu teria deixado você dormir?

Draco ficou imóvel por um segundo antes de começar a rir. A gargalhada foi tão alta que Sara se afastou, surpresa.

— Qual é a graça?

— Nada. É só que...

— Que...?

Ele se inclinou novamente para perto dela.

— Na verdade, eu que não teria deixado você dormir.

Sara deu um tapa no braço dele.

— Draco!

— O quê? Você começou.

— Você é impossível.

— E você gosta.

— Talvez.

— Você gosta muito dessa palavra.

— Porque ela mantém você curioso.

Draco sorriu.

— E eu gosto de deixar você curiosa também.

Sara tentou manter a expressão séria, mas acabou sorrindo.

— Convencido.

— Sua culpa.

— Minha?

— Foi você quem decidiu gostar de mim.

Ela revirou os olhos.

— E você teve sorte.

Draco aproximou o rosto do dela.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Sara o beijou novamente antes que ele pudesse continuar. Quando se afastaram, ela respirou fundo.

— Quero conhecer a Sonserina.

Draco sorriu.

— Vem. Agora já deve estar vazia. Não vai dar problema.

— Você tem certeza?

— Não.

— Ótimo.

— Mas eu conheço os lugares onde não devemos ser vistos.

Sara soltou uma risada.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não. Mas deveria deixar você interessada.

— Talvez eu já esteja.

Os dois seguiram juntos pelos corredores. Durante o trajeto, Draco mostrava a ela algumas partes do castelo enquanto Sara fazia perguntas sobre tudo. Ela comentava como aquelas paredes pareciam muito mais antigas do que qualquer coisa que conhecera, perguntava sobre passagens, salas e histórias do castelo, e Draco respondia enquanto aproveitava qualquer oportunidade para provocá-la.

Em determinado momento, Sara começou a contar novamente sobre a Audácia. Falou sobre os treinamentos, os amigos e as coisas absurdas que haviam vivido juntos. Quando chegou a Tobias, Grace, Hailey e Gareth, sua voz ficou um pouco mais baixa.

— Eu sinto falta deles. É estranho estar aqui sem eles.

Draco apertou suavemente sua mão.

— Eles devem estar dormindo.

— A Hailey eu sei que está acordada. O resto deve estar dormindo mesmo.

— Naturalmente.

Sara olhou para ele.

— Eu fiquei grudada neles muito tempo. É estranho.

— Você ainda tem todos eles.

— Eu sei.

Draco entrelaçou os dedos nos dela.

— E agora tem a mim também.

Sara sorriu.

— Isso foi fofo.

Draco fez uma expressão séria.

— Não espalha.

— Vou contar para todo mundo.

— Sara.

Ela riu.

— Você fica engraçado quando tenta fingir que não é carinhoso.

— Eu não sou carinhoso.

— Claro que não.

— Não sou.

— Está segurando minha mão desde que saímos do corredor.

Draco olhou para as mãos entrelaçadas.

— Coincidência.

— Claro.

— Uma coincidência muito conveniente.

Sara apertou os dedos dele.

— Gosto dessa sua versão.

Draco olhou para ela por um instante.

— Só você conhece essa versão.

Ela sorriu, mas permaneceu em silêncio por alguns segundos. A mão dele continuava entrelaçada à sua.

— Às vezes parece que estou vivendo duas vidas — ela comentou.

Draco virou o rosto para ela.

— Por causa da Audácia?

— Por causa de tudo. Eu ainda sou a garota que treinava até não conseguir mais sentir os braços. Ainda sinto falta de correr pelos lugares onde cresci. Ainda penso neles o tempo todo. Mas agora também existe isso. Hogwarts, magia, você... e eu não sei se deveria escolher uma parte ou outra.

Draco apertou sua mão.

— Talvez você não precise escolher.

Sara o encarou.

— Você fala como se fosse simples.

— Não é. Só não acho que você precise deixar uma parte de você morrer para que outra possa existir.

Ela sorriu lentamente.

— Essa foi outra resposta inteligente.

— Estou tentando impressionar minha namorada.

— Está funcionando.

— Ótimo.

Depois de algum tempo, chegaram às masmorras. O ambiente se tornou progressivamente mais frio e silencioso. Draco explicou onde ficavam as salas de Poções e indicou os caminhos que levavam às áreas ocupadas pelos alunos da Sonserina.

Sara olhou para uma passagem de pedra.

— É ali?

Draco assentiu.

— A sala comunal da Sonserina.

Os olhos dela brilharam.

— To muito curiosa pra conhecer.

Draco a encarou.

— Você fica aqui que eu vou conferir se está tudo vazio.

— Por quê?

— Você agora é da Corvinal. Via de regra, não pode entrar lá.

Sara cruzou os braços.

— Então não deixe ninguém descobrir.

Draco balançou a cabeça, sorrindo.

— Você ainda vai ser minha ruína.

— Talvez por isso você me ame.

— Isso eu não posso negar.

Ele disse a senha em voz baixa e entrou pela passagem, que se fechou atrás dele. Sara esperou do lado de fora por não mais que três minutos antes de a porta se abrir novamente. Draco apareceu e fez um gesto para que ela entrasse.

— Rápido.

Sara entrou e fechou a passagem atrás de si.

A sala comunal estava completamente vazia. Não havia alunos espalhados pelos sofás, nem vozes, nem movimentação. Todos já haviam saído para aproveitar o sábado de sol, deixando o ambiente silencioso. Sara caminhou alguns passos, observando tudo. As paredes de pedra escura, os móveis elegantes, a lareira e, principalmente, a luz esverdeada que vinha do lago através das janelas davam ao lugar uma aparência quase sobrenatural.

— É assustadoramente bonito.

Draco aproximou-se por trás dela e envolveu sua cintura.

— Eu sabia que você gostaria.

Beijou sua têmpora. Sara virou o rosto e encontrou seus lábios. O beijo foi lento, íntimo, sem pressa. Draco manteve os braços ao redor dela enquanto Sara apoiava as mãos em seu peito. Quando se separaram, permaneceram próximos, as testas encostadas.

— Você está muito quieto — Sara comentou.

— Estou pensando.

— Isso nunca é bom.

— Estou pensando que você está no meu território, sozinha comigo, e ainda não decidiu se quer me provocar ou me deixar em paz.

Sara sorriu.

— Eu nunca deixaria você em paz.

— Eu sabia.

Ela passou os dedos pela gravata dele.

— Você sabe que é muito convencido, não sabe?

— Sei.

— E irritante.

— Também sei.

— E acha que é irresistível.

Draco se aproximou.

— Você esqueceu uma coisa.

— O quê?

— Você ainda está aqui.

Sara tentou esconder o sorriso.

— Talvez eu tenha péssimo gosto.

— Eu diria excelente.

— Ah, cala a boca.

— Estou apenas apresentando fatos.

Ela riu.

— Você realmente gosta de ter a última palavra?

Ele inclinou o rosto para o dela.

— Eu gosto de ver você bravinha...

Sara balançou a cabeça, divertida.

— Eu dou essa discussão por encerrada e eu por vencedora.

— Eu aceito essa derrota com prazer...

— Ridículo...

— Sua culpa.

Ela passou os braços ao redor do pescoço dele.

— Você sabe que eu poderia ir embora agora.

— Poderia.

— E não vai tentar me impedir?

Draco a encarou.

— Eu nunca vou impedir você de fazer alguma coisa que queira fazer.

Sara ficou alguns segundos em silêncio, olhando para ele.

— Essa foi uma resposta bem inteligente.

— Estou tentando impressionar minha namorada.

— Está funcionando.

— Ótimo.

Ele a puxou um pouco mais para perto.

— Mas se você decidir ficar...

Sara sorriu.

— O quê?

— Eu provavelmente vou continuar tentando convencer você de que foi uma ótima decisão.

Ela riu.

— Você é impossível.

— E você continua aqui.

Por um instante, porém, nenhum dos dois brincou. Sara deixou os braços ao redor do pescoço dele e olhou para o ambiente. Havia algo diferente naquela sala quando não estava cheia de estudantes. Pela primeira vez, ela conseguia imaginar Draco ali anos antes, sentado sozinho em algum daqueles sofás, cercado por pessoas e ainda assim isolado.

— Você ficava aqui sozinho? — perguntou.

Draco acompanhou o olhar dela.

— Às vezes.

— Por quê?

Ele deu de ombros, mas não desviou o olhar.

— Porque aqui ninguém esperava que eu fosse alguma coisa por alguns minutos.

Sara o observou com atenção.

— E o que esperavam que você fosse?

Draco soltou um suspiro curto.

— O que todo mundo sempre viu. O filho perfeito, o Malfoy perfeito, o garoto que sabe exatamente como agir, o garoto que nunca hesita. É cansativo.

Sara aproximou-se mais.

— Você não precisa ser nada disso comigo.

Draco sustentou o olhar dela.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

— Você tá me ensinando sem perceber...

Sara sorriu.

— Então talvez eu goste desse lugar.

— Por quê?

— Porque agora eu sei onde você costumava se esconder.

Ele passou os dedos pelo rosto dela.

— Eu não me escondo mais.

— Não?

— Não de você.

O sorriso dela desapareceu por um instante, substituído por uma expressão mais suave.

— Então estamos quites.

— Como assim?

— Eu também não quero mais esconder quem eu sou de você.

Draco aproximou-se e beijou-a novamente. Dessa vez, havia menos provocação e mais intimidade. O beijo demorou alguns segundos, até que Sara se afastou lentamente.

Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer alguma coisa, um vento gelado percorreu o salão comunal.

Os dois pararam.

O sorriso desapareceu do rosto de Sara.

Eles olharam ao redor.

Ali não havia janelas abertas e a porta estava fechada. Não havia corrente de vento que justificasse aquilo.

Então a lareira oscilou.

Sara imediatamente mudou de postura. Seus olhos percorreram as entradas, as janelas e os cantos escuros do salão, enquanto seu corpo assumia quase automaticamente a posição de combate que a Audácia lhe ensinara.

Draco percebeu.

— Sara...

— Eu vi.

O fogo diminuiu lentamente até desaparecer. As janelas vibraram. A luz verde do lago pareceu escurecer, como se alguma coisa tivesse passado diante delas.

Uma sombra atravessou a parede.

Draco imediatamente se colocou à frente de Sara.

— Fique atrás de mim.

Sara segurou o braço dele.

— Não.

Draco olhou para ela.

— Sara, eu não sei o que é isso.

— Nem eu. É justamente por isso que não vou ficar escondida atrás de você.

Ela se posicionou ao lado dele.

Draco soltou um suspiro curto, mas não discutiu. Conhecia aquela expressão no rosto dela. Sara não estava recusando sua proteção. Estava apenas deixando claro que continuaria sendo ela mesma.

O frio aumentou de repente. Draco ficou imóvel, os olhos percorrendo o ambiente. Uma escuridão começou a se concentrar no fundo da sala. Não era simplesmente falta de luz. Parecia possuir forma, movimento, intenção.

As últimas chamas da lareira se apagaram quando uma figura atravessou a escuridão.

Era um homem alto e imponente, vestido completamente de preto. Os cabelos eram escuros, o rosto muito pálido e os traços aristocráticos e severos. Havia algo nele que fazia o próprio ambiente parecer menor. As sombras pareciam se mover ao seu redor, obedecendo à sua presença.

Ele parou a poucos metros deles.

Seus olhos se fixaram em Sara.

— Sara.

Ela sentiu um arrepio percorrer a espinha.

— Quem é você?

Draco olhou rapidamente para ela.

— Você conhece esse homem?

Sara balançou a cabeça.

— Não.

A figura continuou olhando para ela. O silêncio que veio depois pareceu pesado demais para ser natural.

Ele deu apenas mais um passo.

— Temos muito o que conversar.

Sara apertou os dedos ao redor do braço de Draco, sem desviar os olhos daquele homem.

Então o olhar do estranho caiu sobre a mão dela.

Sobre o anel.

— Você está mesmo usando o anel que ele lhe deu.

Sara imediatamente olhou para o próprio dedo. Draco também percebeu.

— Como sabe que é dele? — ele perguntou, dando um passo à frente.

O homem não respondeu.

Em vez disso, voltou os olhos para Sara.

— Você cresceu...

Sara franziu a testa.

Draco ficou entre os dois novamente.

— Você vai responder às perguntas dela.

O homem finalmente olhou para Draco.

— Filho de uma família que conhece bem o valor dos segredos... e ainda assim acredita que pode exigir respostas.

Draco estreitou os olhos.

— Não fale como se me conhecesse.

— Conheço mais do que imagina, filho de Lucio e Narcisa Malfoy.

Draco congelou e Sara sentiu um arrepio percorrer a espinha. O homem ficou em silêncio por alguns segundos.

— Temos muito o que conversar, Sara.

A voz dele permaneceu baixa, quase tranquila, mas havia uma certeza assustadora nela. Sara sentiu o coração acelerar. Não sabia quem ele era, como havia entrado ali ou por que conhecia seu nome. Não sabia como conhecia o anel ou detalhes que ninguém deveria saber. Mas havia alguma coisa naquela presença que não parecia completamente desconhecida. Alguma coisa nos olhos, na voz e na maneira como pronunciara seu nome fazia uma sensação estranha percorrer seu corpo.

Draco permaneceu ao lado dela, pronto para reagir ao menor movimento.

Sara apertou mais forte seu braço.

Dessa vez, não porque precisasse ser protegida.

Mas porque percebeu que, pela primeira vez desde que chegara a Hogwarts, havia alguém diante dela que parecia conhecer uma parte de sua história que nem ela mesma conhecia.

E Draco percebeu a mesma coisa. Aquele homem não tinha aparecido por acaso. Nenhum dos dois desviou os olhos do estranho.

E, naquele instante, Sara entendeu que aquele encontro não era simplesmente um encontro com o desconhecido. Havia alguma coisa por trás daquela presença. Algumas respostas estavam finalmente começando a encontrá-la.

E, pela forma como aquele homem havia surgido das sombras, ela tinha a sensação de que algumas delas poderiam mudar tudo.