Last Battle

30 Hailey, Grace e Sara


A batalha terminou de maneira tão abrupta que, durante alguns segundos, ninguém soube como reagir.


Depois de horas de gritos, explosões, feitiços lançados de todos os lados, criaturas rugindo e armas se chocando, o campo de batalha mergulhou em um silêncio estranho. A voz feminina que havia comandado parte do exército inimigo atravessou os terrenos de Hogwarts pela última vez, firme e absolutamente segura, sem qualquer sinal de pressa ou desespero.


— Recuem. Já conseguimos o que viemos buscar.


A ordem foi obedecida imediatamente. Os bruxos das trevas começaram a recuar em grupos organizados, alguns desaparecendo, outros atravessando os terrenos destruídos em direção à floresta. As criaturas que ainda permaneciam de pé foram conduzidas para longe do castelo, abandonando os corpos, os destroços e os sobreviventes que haviam enfrentado até poucos minutos antes. Não havia pânico naquela retirada. Não havia soldados tentando escapar da derrota. Eles simplesmente estavam indo embora, como se a batalha tivesse terminado exatamente quando deveria.


Os defensores de Hogwarts permaneceram imóveis por alguns instantes, ainda com as armas erguidas. Alguns professores continuaram apontando as varinhas para os inimigos até que eles desaparecessem completamente de vista. Ninguém sabia se aquilo era uma armadilha ou se outro ataque estava prestes a começar. Mas os minutos passaram e nada aconteceu.


Então alguém gritou que eles tinham vencido.


Outro sobrevivente começou a rir, quase sem acreditar.


Pouco a pouco, o alívio se espalhou pelo campo. Pessoas feridas se abraçaram, algumas caíram de joelhos, outras choraram enquanto procuravam amigos e familiares entre os destroços. Professores começaram a chamar pelos alunos, tentando descobrir quem ainda estava vivo. Alguns combatentes ergueram as armas em comemoração, enquanto outros simplesmente permaneceram parados, respirando profundamente depois de horas lutando.


Hogwarts ainda estava de pé.


Voldemort não havia retornado.


Os Titãs não haviam retornado.


O exército inimigo tinha recuado.


Depois de meses esperando aquela guerra, depois de tantas noites se preparando para o pior, a sensação que começava a tomar conta dos sobreviventes era simples e poderosa: eles tinham conseguido. O bem havia vencido.


Mas, enquanto a maioria começava a acreditar nisso, três pessoas sequer perceberam que a guerra havia acabado.


Gareth procurava Hailey.


Tobias procurava Grace.


Draco procurava Sara.


Gareth atravessava o pátio entre destroços, feridos e combatentes sem prestar atenção a absolutamente nada ao redor. Seu corpo inteiro doía. Havia sangue seco em sua roupa, cortes espalhados pelos braços e uma dor insistente no peito desde o momento em que fora lançado contra a parede durante a batalha. Nada disso importava. Seus olhos percorriam cada rosto, cada corpo, cada pessoa que passava por ele, procurando apenas uma mulher.


— Hailey!


Sua voz saiu rouca.


Ele continuou andando.


— Hailey!


Nenhuma resposta.


Gareth parou um bruxo que conhecia pelo braço.


— Você viu Hailey? Ela estava aqui. Lutando comigo. Você viu para onde ela foi?


O homem balançou a cabeça.


— Não. Desculpa.


Gareth o soltou imediatamente e continuou.


Perguntou a outra pessoa. Depois a outra. Ninguém sabia. Alguns sequer sabiam de quem ele estava falando. Outros disseram que tinham visto Hailey lutando durante a batalha, mas ninguém conseguia dizer onde ela estava quando os inimigos começaram a recuar.


Quanto mais respostas negativas recebia, mais rápido Gareth caminhava.


Ele voltou para o lugar onde havia lutado ao lado dela. As marcas dos poderes de Zeus ainda estavam espalhadas pelo chão. Havia paredes quebradas, pedaços de pedra espalhados e sinais dos feitiços que haviam sido lançados durante o combate. Gareth procurou entre os destroços, chamando por ela novamente, mas encontrou apenas os vestígios da batalha. Um pensamento surgiu imediatamente, mas Gareth tentou afastá-lo.


Talvez ela tivesse sido desarmada. Talvez estivesse ferida. Talvez alguém a tivesse encontrado e levado para a enfermaria. Talvez. Mas nenhuma dessas possibilidades explicava por que ninguém sabia onde ela estava. E então outra possibilidade surgiu.


Uma possibilidade que Gareth não queria sequer pronunciar dentro da própria cabeça.


O alívio que começava a nascer por causa do fim da guerra desapareceu completamente.


Do outro lado do pátio, Tobias fazia praticamente a mesma coisa.


Ele caminhava entre os sobreviventes, perguntando por Grace, mas havia algo diferente em seus olhos. A cada pessoa que dizia não ter visto sua namorada, uma lembrança antiga parecia se aproximar. Durante a batalha, ele havia perdido Grace de vista em meio ao caos. Lembrava-se de ter visto a lança dela, lembrava-se da confusão, das criaturas avançando, das pessoas correndo em todas as direções. Depois disso, não conseguira mais encontrá-la.


— Grace! — chamou novamente.


Nada. Ele perguntou a um dos combatentes se havia visto uma garota de cabelos cacheados lutando com uma lança de bronze.


— Acho que vi alguém assim perto do lado leste do terreno.


Tobias imediatamente foi naquela direção. Quando chegou ao local indicado, não havia nada. Seu coração pareceu despencar. Por um instante, uma lembrança que ele havia passado anos tentando manter enterrada surgiu com uma força brutal. Tris. A batalha. O momento em que ele desviara o olhar por apenas alguns segundos e ela desaparecera. A busca desesperada. A esperança de encontrá-la viva. E depois a realidade que o destruiu.


Não.


Tobias fechou os olhos por um instante. Não podia ser igual. Não com Grace. Ele abriu os olhos novamente e continuou procurando. Perguntou a mais pessoas, percorreu áreas destruídas, chamou por ela até a garganta doer. As respostas continuavam sendo as mesmas. Ninguém a tinha visto. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Tobias antes que ele sequer percebesse. Ele tentou limpá-las com a mão, irritado consigo mesmo por não conseguir controlar a própria reação, mas elas continuaram caindo.


— Grace... — murmurou, quase sem voz.


Ele apertou a lança dela contra o peito.


Não podia perdê-la.


Não depois de tudo.


Draco procurava Sara de uma maneira completamente diferente.


Enquanto Gareth gritava seu nome e Tobias perguntava desesperadamente aos sobreviventes, Draco permanecia quase em silêncio. Ele atravessava os corredores, os pátios e as áreas destruídas do castelo com passos rápidos, os olhos percorrendo cada espaço.


— Você viu a Sara?


A pergunta se repetia para diferentes pessoas.


— Não.


— Tem certeza?


— Tenho.


Draco seguia adiante. Procurava os cabelos ruivos entre os feridos. Procurava o rosto dela. Procurava qualquer coisa que pudesse indicar que Sara estava ali. Nada. Ele voltou aos lugares onde sabia que ela havia lutado. Encontrou marcas de combate, sangue e destroços, mas nenhum sinal dela.


— Sara!


Sua voz ecoou pelo corredor. Nenhuma resposta. Draco continuou. Quanto mais tempo passava, mais difícil ficava manter a expressão controlada. O rosto permanecia rígido, mas seus olhos denunciavam o medo que crescia dentro dele. Não era calma. Era contenção. Era o esforço desesperado de alguém tentando manter o controle porque sabia que, se permitisse que o medo tomasse conta, talvez não conseguisse mais fazer nada. Ele chamou por ela novamente.


— Sara!


Silêncio.


Draco parou.


Por um momento, baixou a cabeça e respirou profundamente.


Então continuou andando.


Os três rapazes acabaram chegando ao mesmo ponto do pátio quase ao mesmo tempo.


Gareth segurava a varinha de Hailey.


Tobias carregava a lança de Grace.


Draco estava com as mãos vazias.


Os três se encararam.


Nenhum deles precisou perguntar imediatamente. A resposta estava nos rostos uns dos outros.


— Eu não acho a Hailey — disse Gareth, a voz baixa e tensa.


Tobias apertou a lança entre os dedos.


— Grace também desapareceu.


Draco demorou alguns segundos antes de responder.


— Sara também.


O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros daquela noite.


Gareth olhou para Tobias.


Tobias olhou para Draco.


Então os três compreenderam. Não era apenas uma garota. Não eram duas. As três tinham desaparecido durante a mesma batalha.


— Isso não pode ser coincidência — disse Gareth.


— Não é — respondeu Tobias imediatamente.


Draco permaneceu olhando para os dois.


— Elas foram capturadas. Não tem outra explicação...


A frase fez o estômago de Gareth se contrair. Antes que pudessem começar a organizar qualquer plano, uma voz surgiu atrás deles.


— Finalmente encontrei vocês.


Os três se viraram. Hermione vinha em direção a eles. Estava ferida, suja e visivelmente exausta, mas caminhava com determinação. Gareth deu um passo em sua direção.


— Hermione, você viu Hailey?


Hermione hesitou por apenas um instante. Foi o suficiente para que Gareth entendesse que a resposta não seria boa.


— Não — respondeu ela. — E é justamente por isso que estou procurando vocês.


Tobias franziu a testa.


— O que aconteceu?


— Um dos inimigos foi capturado vivo. Ele é um bruxo das trevas ligado ao grupo que comandou a invasão. Minerva está com ele.


Draco imediatamente perguntou:


— Ele sabe onde elas estão?


— Nós acreditamos que sim.


Hermione olhou para os três.


— Minerva estava esperando vocês chegarem antes de começar o interrogatório.


Gareth não precisou ouvir mais nada. Hermione se virou e começou a andar. Os três a seguiram imediatamente. Eles atravessaram os corredores parcialmente destruídos de Hogwarts até chegarem a uma sala no térreo. Era uma sala simples, que normalmente não chamaria atenção, mas naquele momento havia uma tensão tão pesada no ambiente que parecia diferente de qualquer outro cômodo do castelo.


Minerva McGonagall estava de pé ao lado de Harry Potter e Rony Weasley. No centro da sala, sentado em uma cadeira e completamente imobilizado por cordas mágicas, estava o prisioneiro. Havia várias varinhas apontadas diretamente para ele.


O homem parecia estranhamente tranquilo. Minerva virou-se quando os três entraram.


— Finalmente.


Gareth deu um passo à frente.


— Onde elas estão?


Minerva levantou uma mão.


— Teremos respostas. Mas precisamos fazer isso da maneira correta.


Ela apontou discretamente para o frasco vazio sobre a mesa.


— Ele recebeu Veritaserum.


Draco encarou o prisioneiro.


— Então ele não consegue mentir.


— Não — respondeu Hermione. — Não consegue.


Minerva aproximou-se do homem.


— Antes de vocês chegarem, ele já confirmou que a intenção da invasão era capturar Hailey, Grace e Sara. Foi por isso que pedi que Hermione os encontrasse. Vocês precisam ouvir o restante diretamente dele.


Gareth apertou a varinha de Hailey entre os dedos. Minerva prosseguiu.


— Por que seus homens recuaram?


O homem respondeu sem hesitar.


— Porque a operação terminou.


Harry estreitou os olhos.


— Que operação?


— A que foi planejada para esta noite.


— Qual era o objetivo? — perguntou Minerva.


— Criar a batalha.


Rony franziu a testa.


— Criar?


— Sim.


O homem falava com uma clareza desconcertante. Não havia hesitação, medo ou tentativa de escolher palavras. Minerva continuou:


— Explique.


— Precisávamos de todos aqui. Hogwarts era o lugar ideal porque era onde os grupos que poderiam nos impedir acabariam reunidos. Bruxos, semideuses, Audaciosos e todos os aliados que viessem ajudá-los. Sabíamos que, quando a invasão começasse, ninguém ficaria em casa. Todos viriam lutar.


Harry ficou imóvel.


— Então vocês sabiam que nós estaríamos aqui?


— É claro.


— E era isso que queriam?


— Era uma parte do que queríamos.


Minerva manteve os olhos sobre ele.


— Qual era a outra parte?


O homem respondeu:


— As mortes.


O silêncio tomou a sala.


Gareth franziu o cenho.


— O quê?


— Precisávamos que vocês lutassem — explicou o prisioneiro. — E precisávamos que muitos de vocês morressem.


Tobias deu um passo à frente.


— Por quê?


— Porque não adianta trazer os mortos de volta para um mundo cheio de pessoas capazes de lutar contra eles.


Harry empalideceu.


— Quem vocês pretendem trazer de volta?


— Aqueles que considerarmos necessários.


— Nomes.


— Voldemort. Os Titãs. Outros Comensais da Morte que foram mortos e são poderosos. Todos os monstros possíveis..


Rony soltou uma respiração incrédula.


— Então essa guerra...


— Era necessária.


Minerva continuou olhando para ele.


— Explique exatamente por quê.


— O mundo precisava estar enfraquecido antes que o ritual começasse. Cada pessoa que morreu nesta noite representa uma pessoa a menos capaz de lutar quando os mortos retornarem. Cada combatente perdido significa menos resistência.


Hermione parecia horrorizada.


— Vocês provocaram uma guerra inteira para matar as pessoas que poderiam impedir vocês.


— Sim.


Gareth sentiu o sangue gelar. Ele olhou para Tobias e depois para Draco. Nenhum dos três conseguia falar. A compreensão começava a se formar. Eles não haviam vencido. A retirada não significava derrota. Os inimigos haviam ido embora porque já tinham conseguido aquilo que precisavam. Draco foi o primeiro a verbalizar.


— Vocês queriam que nós acreditássemos que vencemos?


O prisioneiro olhou para ele.


— Sim.


— Por quê?


— Porque, enquanto vocês comemorassem, não procurariam imediatamente pelo que realmente perderam.


A expressão de Draco mudou. Gareth sentiu a garganta fechar. Tobias apertou a lança de Grace com tanta força que os dedos ficaram brancos. Minerva percebeu.


— As três garotas.


O homem assentiu.


— Sim.


Gareth avançou um passo.


— Por que elas?


O prisioneiro respondeu sem hesitação.


— Porque elas são diferentes.


— Diferentes como? — perguntou Minerva.


— Hailey é filha de Zeus.


Gareth parou de respirar por um instante.


— Grace é filha de Poseidon.


Tobias fechou os olhos.


— Sara é filha de Hades.


Draco permaneceu imóvel. Minerva não desviou os olhos do homem.


— Continue.


— As três são filhas dos Três Grandes. E são bruxas.


Harry entendeu imediatamente a importância daquilo.


— O sangue delas.


O homem explicou que o ritual precisava de sangue divino, mas os responsáveis por ele não tinham acesso direto aos deuses. Não poderiam simplesmente chegar até Zeus, Poseidon ou Hades e exigir aquilo que precisavam. Por isso buscaram os descendentes que carregavam diretamente essas linhagens.


— Precisávamos do sangue das filhas diretas deles.


— Por que não qualquer semideus? — perguntou Hermione.


— Porque não seria suficiente.


Minerva permaneceu em silêncio, deixando-o continuar.


— Filhas de Zeus, Poseidon e Hades. Os três maiores poderes entre os deuses. E ainda existe outra coisa que torna essas três diferentes. Cada uma delas foi abençoada por todos os deuses.


A expressão de Harry mudou.


— Todos eles?


— Todos.


O prisioneiro explicou que as três não carregavam apenas o sangue dos próprios progenitores. Cada uma havia recebido bênçãos divinas, acumulando uma quantidade de poder que nenhum outro semideus comum possuía. Além disso, eram bruxas. O sangue delas reunia a natureza divina e a magia.


— É por isso que o sangue delas é tão valioso — concluiu o homem. — Não existe outro sangue igual.


Tobias respirava com dificuldade.


— O que vocês vão fazer com elas?


O homem olhou para ele.


— Usar o sangue delas no ritual.


— Quanto? — perguntou Gareth.


O prisioneiro respondeu sem hesitação.


— Tudo.


Gareth ficou imóvel.


— Não precisamos de uma amostra. Não precisamos de algumas gotas. Se fosse só isso, poderíamos ter conseguido quando elas se feriram na Audácia e já teríamos chegado aqui com a força total. Precisamos de todo o sangue delas para alimentar o ritual.


Tobias empalideceu.


— Isso vai matá-las.


— Sim.


A palavra caiu na sala como uma sentença. Gareth perdeu completamente o controle.


— Seu filho da—


Ele avançou, mas Harry e Rony o seguraram antes que pudesse alcançar o homem.


— Gareth! — Harry gritou.


— Me solta! — Gareth se debateu. — Solta!


— Você não vai conseguir nada se matá-lo agora! — Rony tentou segurá-lo.


— Eles estão com ela! — Gareth gritou, a voz quebrada. — Eles estão com a Hailey!


Tobias estava igualmente perturbado, mas sua reação era diferente. Ele tentava pensar, encontrar uma brecha, qualquer coisa que pudesse significar que ainda havia tempo.


— Quanto tempo temos? — perguntou.


— Não sei.


— Quando o ritual começa?


— Quando elas estiverem com sangue mais quente. E o que causa isso é a adrenalina. Elas vão ser enfraquecidas primeiro.


Tobias respirou fundo.


— Então ainda estão vivas.


— Provavelmente. Do jeito que elas são e poderosas como são, não vão morrer sem lutar antes. E estamos contando com isso.


Essa resposta foi suficiente para que ele se agarrasse à única esperança que restava. Draco, porém, permanecia parado. Ele não parecia ter ouvido metade das coisas que haviam sido ditas. Seus olhos estavam fixos no prisioneiro. Quando finalmente falou, sua voz saiu baixa.


— Onde está Sara?


O homem respondeu:


— Na antiga propriedade dos Malfoy.


Draco ficou completamente imóvel. A antiga casa de sua família. O lugar onde os inimigos haviam levado Sara. O lugar onde pretendiam drenar seu sangue até matá-la. Por alguns segundos, ninguém disse nada. Então Draco fechou lentamente as mãos.


E, naquele instante, o último resquício de controle que ainda existia dentro dele desapareceu.