Last Battle
1 Acampamento Meio Sangue para Nova Chicago
O Acampamento Meio-Sangue parecia estranhamente tranquilo naquela manhã.
O sol se espalhava sobre Long Island, dourando os telhados dos chalés e fazendo o mar, ao longe, brilhar como uma imensa lâmina azul. O vento carregava o cheiro salgado da água e o aroma das árvores que cercavam o acampamento.
Havia vozes espalhadas por todos os lados.
Alguns campistas treinavam na arena. Outros caminhavam entre os chalés, conversando sobre as atividades do dia. Cavalos relinchavam perto dos estábulos, e, de algum lugar, vinha o som metálico de espadas se chocando.
Era um daqueles raros dias em que o Acampamento Meio-Sangue parecia simplesmente... normal.
Grace Vance, porém, não estava aproveitando a tranquilidade.
Ela estava diante de uma pia.
E havia uma quantidade absurda de pratos dentro dela.
Grace esfregava um deles com tanta força que parecia estar tentando arrancar alguma coisa da superfície.
— Você sabe que, se continuar assim, vai acabar furando o prato, não sabe?
Grace nem precisou olhar para trás.
— Eu sei.
— Só estou avisando.
— Obrigada, Clarisse.
Clarisse La Rue estava encostada na parede, os braços cruzados sobre o peito e um sorriso divertido no rosto.
Grace finalmente olhou para ela.
— Você está gostando disso, não está?
— Muito.
— Você é uma péssima amiga.
— Eu prefiro “honesta”.
Grace revirou os olhos e voltou para a louça.
— Ainda acho que foi uma punição exagerada.
Clarisse soltou uma risada.
— Grace, você pregou uma peça em uma filha de Afrodite e fez metade das coisas dela voarem pela janela.
— Eu não fiz metade das coisas dela voarem.
Clarisse ergueu uma sobrancelha.
Grace hesitou.
— Tá. Talvez tenha sido metade.
— E o armário?
— Aquilo foi um acidente.
— O armário explodiu.
— Tecnicamente, ele já estava velho.
Clarisse riu alto.
Grace tentou esconder o sorriso.
Era difícil ficar irritada com Clarisse por muito tempo.
Talvez porque as duas fossem parecidas demais em alguns aspectos.
Nenhuma gostava de levar desaforo para casa.
Nenhuma tinha muita paciência.
E ambas tinham uma tendência bastante questionável a resolver problemas usando força. Grace colocou outro prato sobre a bancada. Foi então que ouviu passos se aproximando.
— Grace.
A voz fez seu sorriso desaparecer. Ela conhecia aquela voz. Virou-se. Quíron estava vindo em sua direção.
O centauro carregava a habitual expressão serena, mas havia alguma coisa diferente em seus olhos. Alguma coisa que fez Grace endireitar a postura.
— O que foi?
Quíron parou diante dela.
— Preciso que venha comigo.
Grace olhou para a pia. Depois para Clarisse.
— Agora?
— Agora.
Ela suspirou.
— Eu fiz alguma coisa?
— Não desta vez.
Grace estreitou os olhos.
— “Desta vez” não é exatamente reconfortante.
Clarisse soltou uma gargalhada. Quíron apenas balançou a cabeça.
— Venha, por favor.
Grace secou as mãos em um pano e acompanhou o centauro.
Enquanto caminhava, não conseguiu evitar a sensação de que havia alguma coisa muito errada.
Quíron não costumava chamá-la daquela maneira.
E, quando chamava, nunca era por um motivo simples.
───
A Casa Grande estava mais silenciosa do que de costume.
Grace entrou e imediatamente encontrou Gareth Travers perto de uma das janelas.
Ele estava encostado na parede, os braços cruzados e uma expressão que tentava parecer despreocupada. Não funcionava. Gareth percebeu sua presença e sorriu.
— Finalmente.
Grace parou.
— Você sabe de alguma coisa?
— Talvez.
— Gareth... Não começa...O que está acontecendo?
— Se eu soubesse, você acha que eu estaria aqui parado esperando você chegar?
Ela abriu a boca para responder. Então viu quem estava sentado no sofá.
Dionísio.
O deus do vinho segurava uma lata de refrigerante e parecia profundamente entediado com a existência.
Grace respirou fundo. Definitivamente havia alguma coisa errada.
— Isso parece sério.
Dionísio levantou os olhos.
— Sente-se, Geórgia.
Grace fechou os olhos.
— Grace.
— Foi o que eu disse.
Gareth abaixou a cabeça, segurando o riso. Grace apontou para ele.
— Não começa.
— Eu não disse nada.
— Está rindo.
— Não posso evitar.
Grace bufou e se sentou. Quíron permaneceu de pé. Por alguns segundos, ninguém falou. O silêncio foi ficando desconfortável.
Até Grace finalmente perder a paciência.
— Certo. Alguém vai me contar o que está acontecendo ou eu vou precisar adivinhar?
Quíron trocou um olhar com Dionísio. Então voltou-se para ela.
— Grace, existem algumas coisas que precisamos lhe contar.
Ela cruzou os braços.
— Isso parece péssimo.
— Algumas delas dizem respeito a você.
Grace sentiu o coração acelerar.
— A mim?
Quíron assentiu.
— Você sempre soube que era uma semideusa.
— Sim.
— Sabe que é filha de Poseidon.
— Sim.
— E conhece os poderes que herdou dele.
Grace assentiu lentamente.
— Controle sobre a água. Algumas habilidades físicas. Combate.
— Exatamente.
Quíron fez uma pausa.
— Mas esses não são os únicos poderes que você possui.
Grace franziu a testa.
— Como assim?
— Você possui poderes mágicos.
Ela ficou imóvel. Por um segundo, achou que tinha ouvido errado.
— O quê?
— Magia.
Grace soltou uma risada curta.
— Não.
Quíron não sorriu.
— Sim.
— Não, Quíron.
Ela balançou a cabeça.
— Eu sou uma semideusa.
— Também.
— Filha de Poseidon.
— Sim.
— Então como...
Ela parou. Uma lembrança surgiu em sua mente. Um copo que havia flutuado sozinho quando tinha oito anos. Uma janela que se abriu durante uma discussão. Objetos que se moviam quando estava nervosa. Pequenas coisas que ela havia passado anos tentando ignorar.
Grace sentiu a garganta apertar.
— Aquilo...
Quíron permaneceu em silêncio.
— Aquilo era magia?
— Era.
Grace desviou o olhar. De repente, as lembranças pareciam diferentes.
Durante anos, ela havia acreditado que aquelas coisas aconteciam quando estava estressada. Tentava respirar fundo. Meditar. Controlar os pensamentos. Qualquer coisa que pudesse explicar aquilo. Porque não havia sentido. Nenhum outro semideus fazia aquilo. E ser diferente nunca havia sido fácil. Grace lembrava dos olhares. Dos cochichos. Das pessoas que se afastavam. Da sensação constante de que havia alguma coisa errada com ela.
Agora sabia que não havia.
— Minha mãe era bruxa?
Quíron assentiu. Grace permaneceu em silêncio.
— E meu pai sabia?
— Sabia.
Ela levantou os olhos.
— Poseidon sabia?
— Sim.
A resposta foi simples. Mas atingiu Grace como um golpe.
— E nunca me contou.
Não era uma pergunta. Quíron respirou fundo.
— Ele tinha seus motivos.
— Típico...
— Ele não queria que você fosse para Hogwarts.
Grace franziu a testa.
— Hogwarts?
A palavra lhe era familiar. Não como algo real. Como uma história. Uma lenda. Quíron percebeu sua expressão.
— Sim.
Grace ficou olhando para ele.
— Hogwarts existe?
Pela primeira vez, Quíron sorriu. Mas havia tristeza naquele sorriso.
— Existe.
Grace ficou completamente imóvel. Gareth se afastou da parede.
— Acho que chegamos à parte mais estranha.
Grace nem respondeu. Quíron caminhou até uma das janelas.
— Durante muito tempo, o mundo dos bruxos permaneceu escondido. Eles fizeram isso por segurança. Para proteger sua sociedade, suas famílias e, principalmente, aqueles que poderiam ser usados contra eles.
Grace continuava olhando para ele.
— Então Hogwarts é real.
— É.
— A escola das histórias.
— A mesma.
Ela balançou a cabeça lentamente. Durante toda a vida, havia ouvido histórias sobre lugares que pareciam impossíveis. Criaturas. Deuses. Heróis.
Mas aquilo era diferente.
Porque, pela primeira vez, alguém estava lhe dizendo que uma dessas histórias era real.
— Como vocês sabem?
Quíron voltou-se para ela.
— Porque nossos mundos já se encontraram antes.
Grace franziu a testa.
— Como?
— Algumas missões realizadas por semideuses acabaram levando-os a lugares onde encontraram bruxos.
Gareth assentiu.
— Eu já encontrei alguns.
Grace olhou para ele.
— E você nunca me contou?
— Eu não sabia que isso era relevante.
— Você encontrou bruxos?
— Sim.
Quíron continuou:
— Alguns desses bruxos contaram histórias.
Grace ficou em silêncio.
— Histórias sobre a escola. Sobre o mundo deles. Sobre uma guerra que aconteceu lá... E sobre Harry Potter.
Grace reconheceu o nome. Claro que reconhecia. Todo mundo conhecia. Ou, pelo menos, conhecia a história que os semideuses que, agora fazendo mais sentido, ouviram dos próprios bruxos
— O Menino que Sobreviveu.
Quíron assentiu.
— Exatamente.
Grace soltou uma pequena risada.
— Então ele não é uma lenda? Ele e tudo o que houve com ele é real?
— Sim...
Quíron caminhou lentamente até a mesa.
— Durante anos, a existência dele foi mantida em segredo. Não apenas por proteção pessoal, mas para proteger todo o mundo bruxo. Quanto menos pessoas soubessem quem ele era, onde estava e o que havia acontecido, mais seguro ele estaria.
Grace ficou olhando para Quíron.
— Mas ele existe? – ela repetiu a pergunta tentando pescar alguma mentira mas Quíron não mudou sua resposta
— Existe. E derrotou o Lord das Trevas
Grace sentiu um arrepio percorrer os braços.
A história que ouvira tantas vezes, contada por campistas que haviam encontrado bruxos durante suas missões, não era uma lenda. Era real.
— Como aconteceu de fato?
— Há aproximadamente um ano, Harry Potter derrotou Voldemort.O nome pareceu mudar a temperatura da sala. Grace percebeu. Mesmo sem conhecer aquele homem, mesmo sem conhecer aquele mundo, sentiu que aquele nome carregava alguma coisa.
Peso. Medo. História.
— Voldemort era o Lorde das Trevas?
— Sim.
Quíron fez uma pausa.
— E sua derrota não significou que tudo havia acabado.
Grace cruzou os braços.
— Por quê?
— Porque alguns de seus seguidores sobreviveram.
Gareth ficou sério. Quíron continuou:
— Os Comensais da Morte.
Grace repetiu o nome mentalmente.
— E o que eles querem?
— Poder.
A resposta veio simples.
— Depois da queda de Voldemort, eles começaram a procurar aliados. Alguém forte o suficiente para ajudá-los a reconstruir aquilo que perderam.
Grace olhou para Quíron.
— E encontraram?
— Encontraram algo pior.
O silêncio voltou a preencher a sala.
— Os Titãs.
Grace sentiu o estômago apertar. Ela conhecia aquele nome. Conhecia bem demais.
— Eles se uniram aos Titãs?
— É o que acreditamos.
Gareth descruzou os braços.
— E isso explica a ameaça.
Quíron assentiu.
— Mas existe mais.
Grace respirou fundo.
— Claro que existe.
Quíron pegou um pergaminho sobre a mesa.
— Um bruxo das trevas foi capturado recentemente. Durante o interrogatório, revelou informações sobre uma magia muito antiga.
Grace sentiu a atenção se voltar completamente para ele.
— Que magia?
— Uma magia que poderia trazer os mortos de volta.
Ninguém falou. Grace sentiu um arrepio percorrer a nuca.
— Isso é possível?
— Nunca foi testada.
— Então ninguém sabe.
— Exatamente. Eles estão apostando no tudo ou nada. OsComensais acreditam que pode funcionar.
Grace permaneceu em silêncio. Aquilo já seria assustador o suficiente. Mas Quíron ainda não havia terminado.
— Existe outra preocupação.
Grace soltou o ar.
— Qual?
— Hogwarts será atacada novamente.
Ela levantou a cabeça.
— Quando?
— Daqui a aproximadamente oito meses.
Gareth ficou imóvel.
— No próximo verão.
Quíron assentiu.
— Existe uma profecia.
Grace olhou para ele.
— O que ela diz?
— Que a próxima grande batalha acontecerá em terras pertencentes aos bruxos.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Grace olhou para Gareth. Ele parecia tão preocupado quanto ela.
— E o que nós podemos fazer?
Quíron respondeu:
— Precisamos de aliados.
A explicação seguinte pareceu ainda mais absurda.
— Nova Chicago?
Grace repetiu o nome lentamente. Quíron assentiu.
— A cidade que um dia foi conhecida simplesmente como Chicago.
Gareth se aproximou.
— As facções ainda existem.
— Sim.
Grace franziu a testa.
— E o que isso tem a ver com os semideuses?
— Existem semideuses vivendo entre eles.
— Quantos?
— Não sabemos ao certo.
Quíron fez uma pausa.
— Mas sabemos que a Audácia possui alguns.
Gareth sorriu de lado.
— Eu conheço o lugar.
Grace olhou para ele.
— Já sabemos disso.
Ele ignorou o deboche. Quíron continuou:
— Precisamos encontrar essas pessoas.
— Por quê?
— Porque vamos precisar de toda ajuda possível.
Grace sentiu que a resposta escondia algo maior.
— E quem mais está envolvido?
Quíron caminhou até a mesa.
— Dois jovens de Hogwarts serão enviados para Nova Chicago.
Grace imediatamente lembrou da história que acabara de ouvir.
Hogwarts.
A escola que, poucos minutos antes, acreditava ser uma lenda. Agora ela estava descobrindo que seus alunos existiam.
— Quem?
— Um garoto e uma garota.
Quíron olhou para Grace.
— O garoto tem cabelos loiros, quase brancos.
Grace assentiu.
— E a garota?
— É uma bruxa. E também é uma semideusa.
Grace sentiu uma estranha identificação.
— Como vamos reconhecê-la?
— Ela possui uma tatuagem de rosa na parte interna do braço esquerdo.
Grace guardou a informação.
— E depois?
— Vocês precisam encontrá-los.
— E trazê-los para cá?
— Sim.
Gareth cruzou os braços.
— E existe mais alguém.
Quíron assentiu.
— Um terceiro semideus muito poderoso
Grace ergueu uma sobrancelha.
— Onde?
— Na Audácia.
Ela respirou fundo. Então soltou lentamente.
— Então vamos até Nova Chicago, encontramos dois alunos de uma escola que, até hoje, eu achava que era uma lenda, encontramos um semideus que vive entre uma sociedade de guerreiros e voltamos.
Gareth sorriu.
— Quando você fala assim, parece fácil.
Grace lançou-lhe um olhar.
— Eu estava sendo irônica.
— Eu sei.
Quíron aproximou-se.
— Não subestimem essa missão.
Sua voz estava séria.
— O que está acontecendo pode determinar o futuro dos dois mundos.
Grace ficou em silêncio. Dois mundos. Até aquela manhã, ela acreditava conhecer o seu. Agora descobria que havia outro. Um mundo de bruxos. Uma escola escondida. Um garoto que sobrevivera ao maior bruxo das trevas de sua época. E uma guerra que parecia estar se aproximando novamente.
Quíron olhou para ela.
— Você e Gareth irão juntos.
Grace assentiu.
— Quando partimos?
— Hoje.
Dionísio levantou-se.
— Então, Geórgia e Geoff, podem ir.
Grace virou-se para ele.
— Grace.
— Foi o que eu disse.
Gareth soltou uma risada.
— Ele nunca vai aprender.
— Nem quero que aprenda.
───
Mais tarde, diante do chalé de Poseidon, Grace fechou a mochila. Havia poucas coisas dentro dela. Algumas roupas. Equipamentos. O necessário para uma missão. Ela encarou o mar por alguns segundos.
Aquela manhã havia começado com uma punição por uma brincadeira idiota. Agora ela estava prestes a atravessar o país atrás de pessoas que nem conhecia.
Gareth apareceu ao lado dela.
— Pronta?
— Não.
— Ótimo.
Grace olhou para ele.
— Você está nervoso?
— Não.
— Mentiroso.
— Talvez um pouco.
Ela sorriu.
— Pelo menos somos dois.
Antes que pudessem continuar, ouviram uma voz.
— Grace!
Ela se virou. Percy vinha em sua direção. Ao lado dele estava Blackjack. O pégaso bateu as asas ao vê-la e imediatamente se aproximou.
Grace sorriu.
— Oi, garoto.
Blackjack abaixou a cabeça. Ela acariciou seu pescoço. Gareth observou.
— Ele gosta mais de você do que do próprio dono.
— Porque eu sou mais legal.
— Ei — Percy protestou.
Grace riu. Mas Percy não estava sorrindo. Ele se aproximou.
— Grace.
Ela o encarou. Havia algo diferente nos olhos do irmão.
— Eu queria te pedir desculpas.
Grace franziu a testa.
— Pelo quê?
— Por ter sido um idiota com você.
Ela ficou quieta. Percy continuou:
— Eu deveria ter sido um irmão melhor.
Grace sentiu o peito apertar. Ela não era boa com demonstrações de afeto. Nunca havia sido. Mas aquilo era Percy. Seu irmão. Então simplesmente o abraçou. Ele a apertou contra si.
— Está tudo bem — disse ela.
Quando se afastou, apontou para ele.
— Mas não pense que está completamente perdoado.
Percy sorriu.
— Justo.
Gareth pigarreou.
— Não quero interromper o momento família, mas...
Grace olhou para ele.
— Você estraga tudo.
— Eu sei.
───
Blackjack voou durante horas. O mundo passou abaixo deles em manchas de verde, cinza e azul. Grace permaneceu em silêncio durante boa parte do caminho. Pensava em tudo o que descobrira.
Hogwarts.
Bruxos.
Harry Potter.
Voldemort.
Titãs.
Uma nova guerra.
E, principalmente, naquilo que havia aprendido sobre si mesma. Ela era uma bruxa. Por anos, acreditara que havia alguma coisa errada com ela. Agora sabia que não. Ela simplesmente pertencia a dois mundos.
Quando Nova Chicago surgiu no horizonte, Grace se inclinou ligeiramente para a frente. A cidade parecia diferente do que imaginara.
Viva.
Movimentada.
Quase normal.
Blackjack pousou perto de uma igreja abandonada. Grace desceu. Gareth veio logo atrás.
— Bem-vinda a Nova Chicago.
Grace olhou ao redor.
— Parece normal.
— Esse é o objetivo.
Ele olhou para as próprias roupas. Depois para as dela.
— Precisamos nos misturar.
Grace baixou os olhos.
— O que há de errado com minhas roupas?
Gareth a encarou.
— Tudo.
— Você é muito útil.
— Eu sei.
Depois de algum tempo procurando um lugar onde pudessem conseguir roupas adequadas, encontraram uma lavanderia. Quando Grace saiu, estava usando uma camisa branca de botões, calça preta e botas.
Gareth apareceu logo depois.
— Melhor.
— Não fala nada.
— Eu nem disse nada.
Ela revirou os olhos. Os dois seguiram pelas ruas. A multidão aumentava conforme caminhavam. Pessoas de todas as idades seguiam na mesma direção.
Grace franziu a testa.
— Para onde todo mundo está indo?
Gareth observou o movimento.
— A cerimônia.
— Que cerimônia?
Ele apontou para a frente.
— Da facção.
Grace olhou para a multidão. Então sentiu. Alguma coisa estava errada. Ela parou.
— Gareth.
— O quê?
Grace olhou para trás. Uma criança estava parada perto da lavanderia. Pequena. Sozinha. E olhando diretamente para ela. Grace franziu a testa. Havia algo naquela menina. Algo que não combinava. A criança sorriu. E seus olhos mudaram.
Grace e Gareth mal tiveram tempo de reagir.
A criatura revelou sua verdadeira forma e avançou. O impacto a lançou contra uma prateleira de vidro. O mundo girou. O som do vidro quebrando pareceu distante.
— GRACE!
Gareth correu. O machado de bronze celestial surgiu em suas mãos. A criatura avançou novamente. Ele bloqueou o ataque. O golpe fez seus pés deslizarem pelo chão. A Fúria soltou um grito agudo. Grace tentou se levantar. Tudo doía.
A criatura voltou-se para ela. Avançou. Grace levou a mão ao pescoço. Seus dedos encontraram o colar. Ela o apertou e o metal começou a mudar. Alongou-se e, em poucos segundos, o pequeno colar havia se tornado uma lança.
Grace a segurou.
A Fúria avançou.
Grace desviou.
Girou o corpo.
E cravou a lança contra a criatura.
O grito ecoou pela lavanderia.
Então, tão rápido quanto havia aparecido, o monstro se desfez em pó.
Grace permaneceu imóvel. Respirava com dificuldade. Gareth correu até ela.
— Você está bem?
— Acho que sim.
— “Acho” não é exatamente tranquilizador.
Ele abriu a mochila e entregou-lhe um pequeno frasco.
— Néctar.
Grace bebeu. O calor se espalhou por seu corpo, aliviando lentamente a dor. Gareth continuou olhando para ela.
— Você quase morreu.
Grace respirou fundo.
— Mas não morri.
— Esse não deveria ser o objetivo principal?
Ela sorriu.
— Talvez.
Ele balançou a cabeça.
— Precisamos ir.
Grace olhou para a rua. A multidão continuava caminhando. Todos na mesma direção. Ela apertou o cabo e a lança voltou a ser um pequeno objeto preso ao seu pescoço.
— Vamos. Os dois seguiram pela rua.
A multidão os envolveu. À frente, a cerimônia se aproximava. Grace não sabia quem encontraria ali. Não sabia que a garota da tatuagem de rosa estava muito mais perto do que imaginava. Não sabia que o garoto de cabelos quase brancos já estava a caminho. Não sabia quem era o semideus que procuravam dentro da Audácia.
E, acima de tudo, ainda não compreendia a verdadeira dimensão daquilo que Quíron havia acabado de revelar. Naquela manhã, Hogwarts era uma lenda. Harry Potter era uma história.
E o mundo dos bruxos parecia pertencer apenas aos contos que alguns semideuses haviam ouvido durante suas missões. Agora, pela primeira vez, Grace estava prestes a entrar nele. E não fazia ideia de que, a partir daquele momento, sua vida nunca mais seria a mesma.
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