Me olho no espelho pelo última vez antes de sair de casa. Meus cabelos estavam perfeitamente presos, dando a impressão de que eu fosse uma garota super educada e certinha, do mesmo jeito que minha mãe costumava penteá-lo para me levar para a escola quando tinha uns cinco ou seis anos. O blazer do meu novo colégio caia perfeitamente sem nenhum amassado perceptível. Se eu chegasse desse jeito provavelmente me achariam a maior nerd e eu seria o alvo de todos para todas as brincadeiras infames. Eu não queria isso de novo.

Soltei o cabelo e o penteei para o lado o deixando um pouco bagunçado, como costumava fazer antigamente. Deixei o blazer do jeito que estava e passei lápis escuros nos olhos. Agora estava menos "garota certinha" e mais para "garota gótica", bem melhor do que antes.

Peguei minha mochila, que já estava velha e suja, jogada no canto do quarto junto com meu ursinho, Flufy, que eu tinha desde os cinco anos, quando ainda era aceitável dar um nome desses para um ursinho de pelúcia e peguei meu celular em cima da cama. O celular começou a vibrar assim que o peguei. O nome de Scarlet Banks piscava na tela como uma nova mensagem. Joguei o celular na mochila, a última coisa que queria no momento era falar com meus antigos amigos.

Desci as escadas e encontrei minha mãe assistindo a um noticiário na televisão, como sempre fazia pela manhã enquanto comia seus waffles e bebia suco de laranja sem gelo. Cindy, minha irmã, estava jogada no sofá abraçando um ursinho cor-de-rosa enquanto dormia tranquilamente.

-Bom dia mãe. -falei apoiando a mochila na cadeira e me sentando.

-Bom dia. -disse ele sem tirar os olhos da pequena televisão que estava apoiada em uma das caixas da mudança.- Você vai assim para a escola? -perguntou ela agora olhando para mim.

-Vou. Algum problema? –perguntei colocando um pouco de suco no copo.

-Não, nenhum. –falou ela sem me olhar nos olhos, como sempre fazia quando estava mentindo.

Depois da morte de meu pai, minha mãe estava meio estranha. Claro que ela estava abalada com tudo o que acontecera, mas já fazem quatro anos e ela age como se ele estivesse morrido há algumas horas.

Bom, primeiro ela aparece com um homem estranho em casa dizendo que era seu novo namorado e, desde então, ela não parava mais em casa. Ora estava no trabalho, fazendo compras no shopping ou saindo com ele.

Enfim, durante os três anos em que ela esteve com ele, eu era praticamente a responsável da casa. Era eu quem levava e buscava Cindy na escola, quem fazia a comida, enfim..

Depois que eles terminaram, simplesmente, ela decide se mudar para o outro lado do oceano porque "ela não aguentava mais viver na Califórnia", sem nem ligar se eu e Cindy gostaríamos disso. Então, desde que nos mudamos, a exatas três semanas, ela vem sendo uma típica mãe coruja.

Tudo que ela costumava não se preocupar, agora ela se preocupava em dobro. Uma prova disso eram a waffles que tinham na mesa do café.

-Você vai levar a Cindy para a escola? -perguntei ignorando o que ela havia dito anteriormente e bebendo um gole de suco.

-Sim. -disse simplesmente- Quer uma carona?

-Não, obrigada. Eu vou andando mesmo. -falei me levantando e pegando minha mochila.

Caminhar três quarteirões até chegar ao meu novo colégio não me mataria, mas andar a essa hora da manhã com certeza não estava nos meus planos.

Saí de casa e fui andando pelo caminho de pedra que ia desde as escadas que saiam da sacada, onde ficava a saída da casa, até a calçada. O ar cheirava a terra molhada, eu simplesmente odiava esse cheiro e completamente tudo relacionado a água e chuva.

Todas as casas da rua eram exatamente iguais a não ser pelo carro parado na garagem. Na da minha casa havia um Toyota com um amassado atrás, minha mãe o havia batido numa lata de lixo que ficava no estacionamento do McDonald’s. Pode-se dizer que ela não é uma ótima motorista...

Na casa ao lado, havia um Chevy azul-escuro caindo aos pedaços ao lado de Jeep cinza aparentemente novo.

Assim que passei pela casa, um garoto entrou no Chevy. Ele era alto, moreno e usava um blazer com um símbolo de London High, exatamente igual ao meu, com jeans surrados e all stars sujos. Ele virou o rosto em minha direção e logo o reconheci.

Agora posso dizer com certeza. Esse ano já começou péssimo!

O senti olhando em minha direção, mas apenas abaixei a cabeça e continuei andando como se não tivesse o visto.

Continuei sem prestar a mínima atenção no caminho que estava fazendo, só realmente percebi onde estava quando entrei numa rua cheia de prédios de pedra e tijolos, com uma praça cheia de estátuas de pessoas que eu nunca tinha ouvido falar e muitas pessoas paradas em grupos conversando.

Haviam alguns garotos sentados no para-choque do carro, usando óculos escuros e cochichando algo aparentemente interessante um para o outro. Eles pararam assim que viram, provavelmente não queriam que a novata soubesse sobre o que eles falavam.

Passei pelo portão do colégio e um grupo de garotas me olharam com cara feia. Todas eram exatamente iguais, loiras, magricelas, usando bolsas e roupas iguais, mas de cores diferentes. Provavelmente meus all star’s sujos não tinham as agradado muito.

Apenas suspirei. Estava realmente tentando me adaptar a esse lugar, mas do mesmo jeito eu me sentia uma Bratz esquisita no meio de milhares de Barbie's perfeitas.

Continuei andando até a entrada do prédio da escola tentando ignorar o olhar de todos.
Estava andando tão distraidamente olhando para o número dos armários e tentando achar o meu, que acabei esbarrando em um menino que estava assistindo a um jogo de futebol em uma tv portátil enquanto tentava equilibrar uma pilha de livros na mão e a mochila no ombro.

- Desculpa. –falei enquanto abaixava para ajudar o garoto a pegar os livros que haviam caído.

- Não foi nada. -disse ele pegando os livros da minha mão e se levantando assim como eu- Eu estava distraído.

- Mesmo assim, eu também estava, ia acabar esbarrando em alguém de qualquer jeito. -falei mexendo no cabelo como sempre faço.

- Então que bom que esbarrou em mim... -falou me olhando com seus olhos incrivelmente azuis- As pessoas aqui não costumam ter boas reações quando esbarram nelas.

-Imagino... -falei olhando para o chão.

-Bom, eu tenho que ir... -disse ajeitando a mochila no ombro.- Qual seu nome?

-Anna, e o seu?

-Louis, prazer em conhece-la Anna.- falou acenando e logo depois andando pelo corredor, e parando perto de um grupo de meninos, aparentemente os mesmos que cochichavam no estacionamento.

Virei para o lado, arrumei a bolsa no ombro e continuei andando pelo corredor procurando meu armário. Quando finalmente o encontrei, simplesmente joguei minha bolsa dentro do armário cinza e sem graça, e fui em direção à sala que ficava no final do corredor.

Dentro dela, todas as mesas estavam abarrotadas num canto, enquanto as cadeiras formavam um circulo no meio da sala. Haviam alguns alunos lá dentro. Uma menina de cabelos tingidos de um cor-de-rosa enjoativo que me lembrava mousse de morango, digitava algo apressada no celular. Ao lado dela, um menino vestido com o mesmo blazer que todos eram obrigados a usar, e calças jeans manchadas, me encarava.

Fingi que não tinha o visto e me sentei na cadeira que ficava mais perto na saída, assim poderia ser a primeira a pular para fora da sala assim que a aula acabasse.

Olhei em volta e percebi que o menino ainda me encarava. Normalmente eu me sentiria constrangida por ter alguém me encarando, mas o meu normal estava bem longe daqui.

Peguei meu celular no bolso. Ainda faltavam cinco horas para eu finalmente poder sair desse lugar, eu precisava achar algo de interessante para fazer enquanto isso, então resolvi responder as mensagens de Scarlet. Não que isso fosse uma coisa super interessante, mas a melhor coisa que eu poderia fazer enquanto não conhecia ninguém em meio de milhares de pessoas.

Após vários minutos, realmente muitas pessoas começaram a entrar na sala e se sentarem nas cadeiras. Reconheci Louis entrando com mais uns dois garotos.

Um deles não me agradou, com certeza. Eu esperava nunca mais ter que conviver com Adam Harries.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.