Laranja Azeda

68 Capítulo 68 –Términos e Começos


Notas iniciais
Vamos ao novo capítulo pessoal, as peças estão sendo postas no tabuleiro do grande confronto que se aproxima. Neste capítulo presenciaremos um termino e um começo, então vamos nessa!

Depois de tanto esforço, James Malamar finalmente realizou seu objetivo, trouxera seu deus em carne e osso para o mundo humano. Foram anos de preparação e sacrifícios, mas agora tinha tudo que sempre sonhara em seus braços. A seita do bode o venerava ajoelhados em circulo, enquanto seu líder ninava um bebê, seus olhos eram vivos e espertos de mais para alguém que acabara de nascer, no lugar de seus pés possuía cascos e seu pênis era do tamanho de um adulto.

—Você é tão lindo, meu pequenino, mas um dia todos tremerão diante de seu nome, de seu poder.

—Mas o que faremos até lá? –Perguntou um homem da seita –O Otto sem dúvida vai vir nos procurar, quantos anos teremos que esperar para vermos o poder do Sinep?

—Não teremos que esperar tanto tempo e acredite, Sinep não nos deixará desamparados –Os olhos do bebê e os do próprio James brilharam em cor violeta e magicamente a floresta ganhou vida.

Árvores dançaram se retorcendo, galhos e folhas se entrelaçavam formando paredes, o chão se nivelou formando o piso, nevoa envolvia a construção viva que se formava, a sua volta a floresta se tornou um pântano e diante deles se manifestou um castelo moldado de madeira, folhas e trevas.

—Deslumbrem nossa nova moradia. Sigam-me.

Tochas se acenderam iluminando o interior do castelo. Os membros da seita estavam eufóricos e excitados com a demonstração do poder de seu deus. O bebê era um poço de magia, do qual James podia desfrutar a vontade. Todos estavam muito felizes, a não ser Tobias que chorava em silêncio com o corpo de Beatriz nos braços.

—James! –Chamou uma voz sofrida fazendo a seita do bode parar na entrada do castelo.

—Diana? –Perguntou o líder olhando na direção da acabada criatura.

—Eu consegui, eu distraí a Santana –Diana tinha o corpo todo queimado, seus cabelos estavam chamuscados e curtos, ela andava se apoiando nas árvores.

—Minha querida você sobreviveu! –Ainda assim James conseguia ver beleza naquela poderosa mulher, afinal ela esteva ao seu lado desde o início –Venha, se ajoelhe diante de nosso deus e sinta sua generosidade.

Diana caiu aos pés de James que se abaixa lhe mostrando o bebê, a mulher sorrir alegre por viver suficiente para deslumbrar aquele ser soberano. Sinep segurou seu rosto e seus olhos brilharam violeta, o corpo da mulher se curou, seus cabelos cresceram, mas não parou por ai, sua magia se expandiu. A oráculo se levantou, recuou e deu um grito, uma onda de ar fez as árvores chacoalharem.

—Eu sinto... É incrível! Estou excitada com tanto poder!

—Sinep jamais a deixaria morrer minha querida, ele precisa de todos nós para a guerra que se aproxima. Os deuses estão voltando, mas nós vamos destruí-los.

—Onde esta a Beatriz? –Diana perguntou e todos olharam para Tobias. Os olhos da oráculo quase saíram de suas orbitas –Ela esta... Morta?

—Si-sim –Gaguejou Tobias, não por medo e sim por tristeza.

—James será que Sinep pode trazê-la de volta?

—Sinto muito querida, mas o que esta feito não tem volta. No entanto deve alegra-se, pois sua filha adotiva serviu de sacrifício para o nascimento de nosso deus, sem ela nada disso seria possível.

—Estou tão feliz! –Exclamou Diana com os olhos calejados por lágrimas de orgulho –Sempre me perguntei por que ela foi deixada ainda bebê em minha porta, por mais que tentasse descobrir seu passado, nunca consegui, mas sempre acreditei que nosso futuro estava ligado. Minha pequena estava destinada desde seu nascimento a contribuir com o nascimento de deus.

—Venham, vamos entrar e celebrar.

Tobias não conseguia deixar a tristeza de lado tão facilmente quanto os ali presentes. Entraram no castelo, o pé direito era alto, o salão bem iluminado, moveis eram feitos de galhos e cipós, numa mesa um enorme banquete os esperava e no centro uma fogueira queimava com chamas violetas.

—Por hoje vamos festejar, mas acabo de ter uma ideia do que fazer com o corpo da Beatriz –Disse James chamando a atenção de todos, em especial de Tobias –Ela servirá à Sinep uma última vez. Ela será nossa declaração de guerra!

Naquela mesma noite a tribo do escorpião celebrou a vida numa maravilhosa festa com direito a orgia, os casais declararam seu amor. Quando aos poucos as pessoas foram se dissipando, Anna foi até um lago, saltitando de felicidade pela festa. Quando finalmente estava sozinha, se sentou abraçada aos joelhos e suspirou.

—Beatriz –E chorou, suas lágrimas transbordaram num choro livre, toda a dor guardada saiu numa enxurrada. A cena de Tobias a esfaqueando pelas costas, depois perfurando seu coração, fez a garota mergulhar em dor e ódio –Por que assim?! Por que teve que morrer daquele jeito tão horrível! Ela não merecia isso! Não a Beatriz, ela... –Lembrou-se de como a pequena negra lutara contra o brutamontes Raul para protege-la, de como era baixinha mais arretada, sensual, divertida e bonita –Eu juro! –Ela olhou com intensidade para o horizonte –Eu matarei o Tobias com minhas próprias mãos.

Outra pessoa teve uma noite bem diferente, Lucy, a humana, teve um inusitado encontro na praia, ela se deparou com um viajante dos mundos, tal garoto já fora citado nas mirabolantes histórias da Anna, ele era real e a ex fênix já o tinha encontrado antes. Tinha lhe pedido para que matasse uma versão demoníaca sua que habitava um outro mundo, ele o fizera e retornara, para ele se passara apenas alguns dias, mas para ela foram quase dois anos, pouco tempo quando era deusa, mas muito agora que era humana. Eles dormiram abraçados na praia, Lucy estava experimentando a maravilhosa sensação de dormir pela primeira vez.

O dia amanhecera e Fabrício estava decidido! Hoje ele resolveria de uma vez por todas as coisas com o Felix. Tinham dormido na mesma casa, mas dessa vez não mais no mesmo quarto. Ele entrou receoso e viu Felix e Hector deitados abraçados.

—Bom dia –Disse constrangido.

—Bom dia –Respondeu Felix nervoso.

—Bom dia, Fabrício –Disse Hector. E o clima estava bem tenso entre eles.

—Felix, podemos conversar?

—É claro.

Os dois foram para a praia, mas quando chegaram lá viram a Santana e Otto transando com um garoto novo, na verdade com Dylan Stark, o viajante. Então andaram na direção oposta até saírem de vista, o caminho todo em silêncio, sentaram na areia olhando para o mar.

—Eu...

—Olha...

—Pode falar-

—Primeiro vo-

Se calaram constrangidos, a que ponto tinham chegado? Sempre foram melhores amigos e agora mal conseguiam olhar um na cara do outro. O coração de Fabrício doía muito, tinha vontade de chorar e implorar que o Felix ficasse com ele.

—Eu já entendi, Felix –Disse finalmente –Você escolheu o Hector.

—Me desculpe, eu gosto muito de você, mas...

—É ele que você ama –Fabrício tinha que ser maduro, tinha que termina tudo numa boa, mas queria gritar! Queria jogar na cara do outro tudo que tinha feito por ele, tinha abandonado sua vida em busca de seu amor, deixara tudo pra trás para reencontra-lo, quase fora morto pela serpente para salva-lo e o Hector. Queria perguntar o que tinha acontecido no dia anterior para mudar tudo! Os três estavam bem como um casal triplo, por que o Fafa tinha que sobrar? Eram tantos pensamentos que gritavam em sua cabeça que nem ouvia as desculpas do outro até este segurar seu ombro.

—Por favor não chore!

—Não estou... –Fabrício percebeu que as lágrimas lhe escaparam sem que percebesse –Droga que vergonha –Felix o abraçou, e Fabrício caiu no choro de vez –Me desculpe, que vergonha.

—Não sinta. Já choramos abraçados inúmeras vezes –Felix também sentia muita dor, não conseguia se perdoar por esta fazendo seu amigo sofrer daquele jeito –Antes da ilha eu nem se quer me imaginava estando com um garoto, todo o tempo que passei com você, todos nossos risos, brincadeiras, abraços, tudo era inocente, naquele tempo nunca lhe desejei, te amava muito é verdade, mas não desse jeito. Quando cheguei a ilha e conheci o Hector, ele me transformou, não, ele me ajudou a ser eu mesmo, abandonei preconceitos e conheci um amor completamente novo, Hector é o meu primeiro amor.

—Me desculpe por me colocar entre vocês –Disse enxugando as lágrimas –Então você nunca me amou como eu te amo.

—Esta enganado –Felix puxou seu rosto o obrigando a olhar em seus olhos –Quando você chegou na ilha, senti uma felicidade incrível, ambos tínhamos mudado muito e praticamente tivemos que nos conhecer novamente e aos poucos fui me apaixonando por você, até me entregar de vez a esse sentimento. Vivia com dor de cabeça de tanto pensar, de me culpar por amar os dois ao mesmo tempo, quando finalmente nos tornamos um casal triplo achei que a dor pararia, mas ela só fez aumentar. Me sentia um egoísta, via que vocês dois não se amavam, só faziam parte daquilo por que não queria abrir mão de mim, me senti muito mal por fazer vocês dois sofrer por tanto tempo.

Suas palavras trouxeram momentaneamente um certo conforto ao Fabrício, ouvir sua voz fazia-lhe bem, era como se aquele termino não estivesse acontecendo. Saber que o Felix também sofria em silêncio, que se importava com sua dor, foi bom, entretanto a forma que o pequeno Homem-Aranha encontrou de acabar com aquele sofrimento, foi escolher o que mais amava, escolher o Hector.

—Sei que vai ser difícil no início, mas você acha que um dia poderemos voltar a ser amigos? –Felix perguntou.

—Eu sei que sim, mas precisarei de tempo.

Felix sorriu, Fafa se esforçou para fazer o mesmo, aquela conversa tinha chegado ao fim, seu namoro tinha chegado ao fim, mas o amor... Os dois se levantaram e se abraçaram apertado, encostaram os narizes e deram um último beijo, naquela última vez que seus lábios se encontraram o som a sua volta parou, não ouve som do mar, do ar ou de sua dor. Seus lábios se separaram, sentiram a respiração um do outro, se olharam e seguiram cada um por um caminho. Aquele era o fim.

Felix chorou, chorou muito, aquela dor era horrível, mas era necessária, um dia os dois poderiam rir juntos novamente, poderiam ser amigos.

Fabrício encontrou-se com Anna perto da hora do almoço, ela o acolheu em sua cabana e lá ele desmoronou, chorou por muito tempo em seu colo, ela ficou em silêncio alisando seus cabelos esperando-o colocar toda a dor pra fora. Quando finalmente terminou de chorar, Fabrício sentiu uma estranha paz.

—Um dia essa dor vai passar, Fafa. Um dia você vai amar novamente, talvez até mais que amou o Felix.

—Assim espero, Anna.

—Mas sabe o que é a melhor coisa pra se esquecer um término?

—Tem bebidas alcoólicas na ilha?

—Não seu bobo, bem, não que eu saiba. Mas acredite, você não vai querer me ver bêbada, da última vez em que bebi foi uma catástrofe –Fabrício riu só de imaginar mais um episódio da insana vida de Anna –Mas a outra forma é você vir comigo conhecer meu amigo Dylan Stark e termos uma transa fan-tás-ti-ca!

Fabrício não sabia quem era Dylan Stark, mas resolveu aceitar a ideia da amiga, afinal cada um pode sofrer a sua maneira, por que não afogar as mágoas num bom sexo gostoso?

Lucy levou o viajante para passear pela floresta, ela tinha um motivo muito especial para ir exatamente naquele lugar, pararam diante de um circulo de terra queimada, de mais ou menos um metro de diâmetro.

—O que é isso? –Perguntou Dylan Stark.

—Certa vez uma pequena fogueira foi acesa aqui, suas chamas foram tão intensas que nunca cresceu nada nele e nunca crescerá. Foi aqui que eu nasci, foi exatamente nesse lugar que o Infinito me criou, acendeu uma fogueira e ordenou: Que haja a luz! Uma bola de fogo subiu ao céus e se fez o sol, os vestígios das chamas que ficaram assumiram a forma de uma ave.

—Você? –O garoto ficou boquiaberto –Você é tipo irmã gêmea do sol? –Lucy riu.

—Algo do tipo –Depois seus olhos lacrimejaram.

—Não chore! –Disse a abraçando, o que a fez chorar em seu peito.

—Agora que sou humana vejo as coisas de uma perspectiva completamente diferente. Eu devia estar morta, sei que devia estar morta.

—Não diga isso, você merece estar aqui.

—Eu me sacrifiquei por aquelas pessoas, em minha sabedoria divina sabia que ia morrer, mas ele interveio. O Infinito mais uma vez me criou, pude ter a honra de nascer duas vezes, mas sinto no meu coração que minha vida nesse mundo terminou.

—O que?

—Depois de transamos daqui há pouco, quando você abrir a porta para deixar esse mundo para sempre, eu irei com você.

A ex deusa da Ilha do Escorpião tinha tomado uma decisão que mudaria completamente o rumo de sua história. Já tinha cumprido seu papel na ilha, agora tinha ganhado a chance de uma vida nova e decidira seguir em frente, para um futuro incerto com o viajante dos mundos.

Dylan Stark ficou surpreso com o pedido da ex fênix, mas por algum motivo foi tomado por uma enorme alegria, talvez fosse mais confortável viajar acompanhado, ou talvez fosse outra coisa. Os dois se olharam e se inclinaram juntando os lábios num beijo doce, seus corações aceleraram e ambos se entregaram sem pensar em justificativas para aquele novo sentimento que começara a aflorar. No circulo de terra queimada uma nova fogueira se acendeu, as chamas iluminou o casal, talvez fosse o Infinito dando o sinal de apoio à sua eterna filha, Lucy.

Notas finais
Aguardando os comentários