Lar doce lar

1 Capítulo único - Amor ao primeiro strip-tease


Notas iniciais
só pra divertir~

Fui uma pessoa extremamente solitária por muitos anos sem ao menos me dar conta. E provavelmente seguiria sem perceber caso não tivesse conhecido a pessoa que transformou minha existência em algo bom. Contudo não era como se não houvesse outras pessoas ao meu redor. A minha solidão, no caso, era interior, então por mais amigos que tivesse aquela sensação oca persistia no peito.

Lembro-me como se fosse ontem a maneira que o conheci. Estava terrivelmente cansado e preferia mil vezes ter ficado no conforto do meu lar a ser arrastado para boates noite a dentro. Só me permiti ser arrastado depois de uma tarde de intensas filmagens porque meu amigo, Chris, merecia uma despedida de solteiro decente. Por isso, sacudi a franja, enxotei o cansaço e seguiu com o grupo de amigos mais íntimos para uma boate reservada especialmente para a gente.

Diferente das despedidas usuais onde os noivos faziam festinhas separadas, nessa ambos os noivos preferiram participar de uma despedida conjunta. O lugar escolhido fora uma boate famosa pelos belos dançarinos de poledance. Também era conhecida por realizar apresentações com strip-tease quando alugada para festinhas particulares. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso quando avistei postes de poledance sobre algumas mesas com dançarinos profissionais entretendo os convidados. Também não fiquei surpreso por constatar o número considerável de celebridades e subcelebridades presentes ali. Afinal, eu mesmo era uma celebridade, então nada mais natural do que ter um círculo de amizades cheio de pessoas desse meio.

Quando Chris se afastou para ir cumprimentar seu noivo, Phichit, que estava tirando selfies com algumas amigas, aproveitei para dar uma voltinha. Dei uma olhada no local, cumprimentando velhos amigos – entre eles maquiadores, colegas dos tempos de faculdade e ex-romances – e recebendo diversos elogios sobre o último filme que participei. Estava relembrando histórias engraçadas envolvendo os noivos quando meus olhos foram atraídos para um dançarino em especial.

Oh, não tinha como não o perceber. Principalmente por estar dançando sensualmente sem tirar os olhos de mim.

— O que houve, Viktor? — a jovem de cabelos ruivos ao meu lado indagou ao me ver cessar o que falava abruptamente.

Eu, sem em nenhum momento também desviar o olhar do japonês que movia o corpo de um jeito hipnótico, apontei para o foco da minha atenção.

— Tenho a impressão de conhecer aquele dançarino...

Mila estreitou os olhos para o homem japonês, logo sorrindo em seguida.

— Claro que conhece. Ele era o fotógrafo que foi responsável pelas fotos promocionais do nosso último filme. Lembro dele porque toda vez que ele olhava pra você sem estar com uma câmera no meio, corava adoravelmente. Acho que o nome dele é Yuuri alguma coisa...

— O nome dele é Yuuri Katsuki e é o melhor amigo do meu querido noivo. Na verdade, ele não é um dos dançarinos daqui. Acho que deve estar mais desinibido por ter bebido alguns drinques. — Chris informou após chegar furtivamente e colocar um braço sobre os meus ombros. — Interessado?

Não respondi, mas aparentemente ficou óbvio para quem me observava que meu coração foi fisgado quando Yuuri deu uma volta no poste e mandou um audacioso beijo no ar para mim. Bem, e claro que a camisa com cheiro doce jogada em minha direção não teve nada a ver. Levei a mão ao peito onde o coração palpitava forte, sentindo-me impactado pela sensualidade do rosto corado e ébrio do homem de cabelos negros. Quando dei por mim, estava no balcão pedindo pela primeira bebida que me veio à mente.

Fazia quanto tempo desde a última vez que sentira algo similar? Por mais que fosse conhecido na mídia por ter inúmeros relacionamentos amorosos, a realidade era bastante diferente. Era difícil me interessar verdadeiramente por alguém, por isso há um certo tempo minha vida sexual era preenchida por casos de uma só noite e/ou por amizades coloridas mantidas com alguns companheiros de trabalho.

Mas... Há quanto tempo não sentia uma atração tão forte como a que tive naquele momento?

Animado diante a possibilidade de uma boa e revigorante noite de sexo, bebi mais algumas doses e parti para uma aproximação do japonês. Contudo, os eventos da noite não seguiram exatamente como planejei. Acabei participando de uma competição de dança improvisada que durou grande parte da festa e no fim, quando todos ficaram cansados demais para continuar dançando, sentei num canto com um Yuuri adormecido babando no meu ombro. Minha cabeça girava um pouco, mas não podia imaginar melhor final para uma despedida de solteiro como aquela.

As minhas calças se perderam em algum momento da baderna, mas até disso eu ri sem a menor preocupação. Na verdade, era incrível ainda estar com a camisa, visto meu dom em perder roupas quando ficava meio alto de bebida.

Dei um pequeno sorriso quando ouvi Yuuri balbuciar em meio a sonolência um “não se esqueça de mim”. Oh, é claro que eu lembraria. Ou melhor, não teria nem como esquecer. Deixaria para conversar melhor quando estivéssemos mais sóbrios, mas certamente queria conhecer mais daquele fotógrafo sedutor.

Uma pena que no dia seguinte, quando acordei todo dolorido pela posição que dormi, não havia o menor rastro do homem japonês ao meu lado, além, é claro, da baba na minha roupa e da marca de chupão no pescoço.

“Bem, sem problema” pensei “nos veremos no dia do casamento”.

Mas esse foi apenas outro engano. Até vi Yuuri de relance em certos momentos, entretanto ele parecia fugir de mim como um gato foge do banho. Desse modo se tornou impossível conversar com ele durante o casamento. E durante a festa nem o vi mais.

Tentei, alguns dias mais tarde, entrar em contato com Yuuri das mais diversas formas, mas todas elas foram falhas. Até tinha feito meu produtor agendar várias sessões de fotos no lugar onde Yuuri trabalhava para ver se topava com ele, contudo em nenhuma das vezes o avistei. Quem tirou as fotos foram outros fotógrafos que não me interessavam. Nesse ritmo se passou três meses sem que conseguisse revê-lo.

Nem eu entendia bem o porquê de estar me esforçando tanto, mas simplesmente não conseguia desistir. Todavia, toda persistência sem retorno acaba se desgastando. Quando estava prestes a, de fato, desistir do fotógrafo que não aparentava estar minimamente interessado em mim, em um de meus passeios no shopping acabei o avistando numa loja. Usando meu usual kit de disfarce – que se tratava de um boné, óculos escuro e uma máscara descartável – me aproveitei para ficar o observando de longe. Segui Yuuri discretamente quando ele foi para a ala de filmes blu-ray e quase soltei um “oh” surpreso ao ver que ele olhava animado para a edição de um filme antigo meu. Nesse momento decidi que era a melhor hora para expor minha presença ao Katsuki.

— Você é mesmo meu fã, não é? — murmurei perto do ouvido dele, adorando o gritinho e o salto que ele deu quando reconheceu minha voz. Retirei os óculos, mas permaneci com a máscara e o boné.

— V-viktor! O que faz aqui?! — volveu agora em um tom mais baixo ao perceber que vários olhares se viraram em nossa direção pela sua reação exagerada.

Observei as bochechas que logo adquiriram um tom rosado enquanto Yuuri se empenhava em desviar o olhar para qualquer outro ponto que não fossem meus olhos. O comportamento do Yuuri bêbado diferia tanto do seu eu sóbrio que me questionei se não estivera o tempo todo correndo atrás de uma ilusão.

— Yuuri, você gosta desse filme? — indaguei apontando para o DVD ainda nas mãos dele. — Ele não é muito bom.

Era um filme do começo de minha carreira onde interpretava um homem com a capacidade de virar um urso de dois metros e que usava uma metralhadora para matar seus inimigos embora tivesse poderosas garras. O filme em si não tinha lá essas qualidades, mas por seu um blockbuster tinha me rendido um certo reconhecimento.

O rosto de Yuuri avermelhou ainda mais e ele ajeitou os óculos no rosto num claro gesto nervoso.

— Gosto sim! É um dos que mais gosto do início da sua carreira. Os efeitos não são tão bons mesmo, mas a sua interpretação compensa muito. — ele olhava para a capa do DVD com tanta admiração que fiquei um pouco constrangido. Aquele não era um dos filmes que eu me orgulhava de ter feito. — E essa edição vem com um pôster especial!

Ri de sua animação quase infantil e quando Yuuri ergueu o rosto, lhe dediquei um sorriso sedutor.

— Se quiser eu autografo seu pôster.

— Eu quero! — respondeu de prontidão, o que acabou por me causar um novo riso. A sua animação realmente era bem sincera. — Quer dizer... Se não quiser, eu...

— Sem problema. Vamos pegar seu pôster com o vendedor que eu assino.

— Mas... Você não está irritado comigo? Então porque assinaria algo pra mim?

Pestanejei sem entender. Eu jurava que era justamente o contrário.

— E porque eu estaria?

Yuuri respirou fundo, coçando o pescoço com a mão livre.

— Eu não lembro bem o que aconteceu na noite da despedida de Phichit, mas sei que devo ter te incomodado muito. Aliás, desculpe por isso. Não queria incomodar e sei como é chato ter que aturar gente bêbada.

Ele não se lembrava bem? Yuuri não lembrava das conversas e dos pequenos beijos que trocamos naquela noite? Nem da dança especial que fez no poste (com strip-tease e tudo) apenas para mim? Nem dos passos que inventamos juntos quando estávamos muito altos na bebedeira? Dos segredos sem importância que compartilhamos quando ficamos cansados demais para ficar de pé? As pecinhas na minha cabeça fizeram um "clac" mental ao se encaixarem uma a uma.

— Espera. Então é por isso fugindo de mim o tempo todo? Você não lembra o que fez e imagina ter sido algo tão ruim que precisa me evitar? Como sua cabeça conseguiu gerar isso?

Yuuri arregalou um pouco os olhos, parecendo surpreso por eu ter notado que estava sendo evitado.

— Ah... Bem... É que... — se atrapalhou na resposta, mas nem prestei muita atenção pois baixei a máscara e comecei a gargalhar alto. Foi a primeira vez em muito tempo que eu dava uma risada tão espontânea assim e não consegui segurar.

Foi inevitável! Yuuri era tão fofo e inocente para um homem da sua idade! Senti vontade de descobrir até onde ia a sua inocência, mas perdi a linha de raciocínio quando ouvi um flash próximo. Abri os olhos e me deparei com um Yuuri de face séria segurando uma câmera que provavelmente tirara da bolsa. (Mais tarde ele me disse que meu riso tinha sido tão espontâneo e belo que seu reflexo de fotógrafo profissional entrou em cena.)

O flash e as gargalhadas que soltei sem medir chamou a atenção de muito mais olhares do que antes e, por não estar mais usando dois dos meus itens de disfarce, logo fui reconhecido por alguns clientes. Percebendo a situação que me metera, agarrei Yuuri pelo pulso e levei o DVD para o caixa. Deixei uma quantidade além do necessário no balcão, peguei o pôster que o atendente ofereceu e saímos da loja o mais rápido que pudemos. Claro que arrastei comigo o aturdido Yuuri.

O resto da tarde seguiu com a gente fugindo e se escondendo de paparazzis que surgiram quando o sobrenome Nikiforov mal saiu da boca de um transeunte. Não lembrava da última vez que corri e ri tanto com alguém. Por mais que ser perseguido por fotógrafos atrás de qualquer furo tenha sido um pouco exaustivo, passar um tempo com Yuuri tinha sido realmente bom. Ele era fofo e divertido mesmo sem estar apresentando metade da sensualidade de quando estava bêbado. Corava quando eu me aproximava muito e ao que tudo indicava adorava comer.

Apesar da correria foi uma tarde incrível.

Aquele, aos meus olhos, foi uma espécie de primeiro encontro da gente. Claro que ainda foi preciso um pouco mais de empenho, mas quando Yuuri entendeu que eu realmente não estava irritado pela noite da despedida, começamos a partilhar dos mais variados passeios. E logo me peguei estando bastante fascinado pelo Yuuri sóbrio tanto quanto tinha me atraído pelo Yuuri ébrio. Não foi necessário muito mais para concluir que estava perdidamente apaixonado pelo jovem fotógrafo, Yuuri Katsuki.

O crescimento da nossa intimidade foi gradual. Primeiro veio a amizade e aos pouquinhos fui demonstrando sinais de que desejava um relacionamento mais profundo com ele. Essa parte foi bem difícil de cumprir, na verdade. Principalmente por Yuuri ter a autoestima quase negativa e por isso não acreditava que eu poderia estar interessado nele. Todavia, nada que tornasse impossível minha missão de conquista-lo.

Algumas dezenas de encontros depois e fui apresentado a calorosa família Katsuki. Como vim de uma família rígida com uma criação que não valorizava o afeto, receber tanta atenção e carinho da família de Yuuri me deixou desarmado, mas não insatisfeito. Aquele lugar vazio no peito já não existia mais. Em seu lugar havia um quadro pintado com diversos tons e que se tornava cada vez mais colorido a medida que meu convívio com Yuuri aumentava.

Ele jamais terá noção do quanto sou grato por ele existir.

O casamento só veio dois anos depois de termos assumido um relacionamento diante as câmeras. A cerimônia foi pequena e apenas com os amigos mais íntimos, pois Yuuri não queria extravagâncias. Foi consideravelmente simples se fosse considerar o estilo de vida que eu levava. Estive puro sorrisos durante toda a cerimônia e permaneci assim até o final da festa. Não tenho a menor vergonha em admitir que aquele tinha sido um dos dias mais felizes de minha vida. Nunca antes tinha me imaginado casando, mas depois de me apaixonar por Yuuri foi o que eu mais desejei.

Quando pus a aliança eu seu dedo, uma sensação incrível de encontrar meu lugar no mundo me abarcou. E pelo sorriso que Yuuri me dedicou, imaginei que se sentia da mesma forma. Aproveitamos bastante nosso tempo de recém-casados, mas como nem tudo são flores, chegou o tempo das famosas tensões entre casais.

— O que você está fazendo, Yuuri? — perguntei ao me acomodar do lado dele no sofá e permitindo que ele se aconchegasse em meu ombro.

Yuuri me deu um beijo na bochecha e indicou o objeto no colo.

— Revendo o álbum do nosso casamento. — passou outra página, sorrindo com a selfie do altar que Phichit tinha tirado. Abaixo dessa tinha uma selfie de Phichit com seus pais e na outra página uma selfie comigo e Yuuri dançando ao fundo. — Hm, talvez tivesse sido melhor ter deixado outra pessoa responsável pelas fotos. Elas não ficaram ruins, mas Phichit aparece em quase todas...

Sorri.

— E não foi melhor assim? Devemos ser o único casal que tem o álbum do casamento composto por selfies. É uma memória e tanto.

— É, tem razão. — falou depois de um tempo considerando o que eu falei. Em seguida deu uma tapinha na minha perna e se levantou, indo em direção a cozinha. — Vou fazer algum lanche pra mim. Vai querer também?

— Não, não. Vou encontrar com Chris pra beber. Volto mais tarde.

Antes que saísse ainda pude ouvir um "não beba muito" vindo da cozinha. Peguei um casaco já que a noite estava fria e saí com o carro de passeio para um bar chique que frequentava com os amigos. Mal entrei no ambiente e avistei Christophe sentado elegantemente no balcão do bar. As pernas cruzadas e o olhar esmeralda por trás das lentes redondas eram de uma esbelteza incrível. Não era à toa que juntos fomos uns dos solteiros mais cobiçados do meio hollywoodiano.

— Olá, Viktor. — o loiro cumprimentou enquanto me observava ocupar o assento ao seu lado.

— Boa noite, Chris. Como foi a viagem? — fiz um sinal para o barman pedindo o de sempre.

— Quente e cansativa, mas ainda assim boa. Principalmente porque consegui levar Phichit comigo. — apoiou o cotovelo no balcão, descansando a bochecha na mão para me fitar melhor. — E você como está?

— Hm? Ah, estou bem.

— Tudo certo no trabalho?

— Bem, sim. Tirando a semana que fiquei gripado e atrasou a filmagem de algumas cenas.

— E com seus pais?

Fiz uma careta.

— Perdemos contato quando saí da Rússia. Felizmente eles agem como se não tivessem mais filho há bastante tempo.

— Então o problema é com Yuuri?

Pestanejei devagar procurando não passar nenhum sentimento conflituoso com minha expressão. Mesmo assim eu sabia que era bem fácil para Chris me ler como um livro aberto dado nossos longos anos de convivência. Porém não custava tentar, não é mesmo?

— Que problema?

Chris revirou os olhos como se minha resposta/pergunta o entediasse.

— Desde que você chegou que está inquieto, batendo os dedos sem parar. Além de ter tomado a bebida num só gole, está usando maquiagem para ocultar olheiras. — sorriu compreensivo para mim. — Quer conversar sobre o que tem incomodado seu sono?

Como sempre, Chris sendo um monstro observador. Mordi o lábio pensando se deveria ou não entrar em detalhes. Não me sentia à vontade para falar aquilo em voz alta mas tinha tanta coisa entalada que acabei assentindo. Por fim pedi uma nova bebida e acompanhei Chris até uma mesa mais reservada.

— Você e Yuuri brigaram?

Meneei com a cabeça. Desde que casamos nossas brigas apenas tinham sido por trivialidades tão ínfimas que no dia seguinte nem lembrávamos mais.

— Não brigamos, mas... — dei uma pausa para criar coragem de falar e Chris esperou pacientemente pela minha continuação. — Ele anda diferente...

Chris franziu as sobrancelhas.

— Diferente como?

Suspirei.

— Ele anda fazendo e recebendo chamadas que não podem ser atendidas na minha presença, tem saído mais com a Yuuko do que comigo e tem dado uns pedidos estranhos de comida. Ele até disse que o meu perfume dava enjoo nele! Mas esse era justamente o seu perfume preferido!

— Espera. O que você quis dizer com a parte da comida?

— Ah. Ontem mesmo ele comeu katsudon com chocolate e limão. — bebi o líquido do copo de uma só vez, nem me sentindo incomodado com a queimação na garganta. — E se ele tiver adquirido esse gosto por combinações estranhas de comida de alguém com quem anda se encontrando as minhas costas? Ou se ele tiver afim da Yuuko outra vez? Eu não sei se conseguiria viver sem Yuuri do meu lado, Chris... — choraminguei.

Diferente do que eu esperava, Chris não foi solidário com a minha situação. Na verdade, ao piscar seus longos cílios para mim, parecia mais que ele estava se divertindo com meu sofrimento. Essa era a forma que ele me retribuía pelos nossos tantos anos de amizade?

— Me diga, por acaso Yuuri anda tendo enjoos matinais? Ou ainda aumentando de peso?

Assenti sem entender onde queria chegar e Chris aumentou o sorriso.

— O que há de tão engraçado nisso?

— Oh, não entenda errado. Não é que eu esteja rindo de você ou algo assim. Só estou feliz por um dos meus mais estimados amigos estar no caminho da paternidade.

Fiquei olhando para ele sem conseguir entender o significado de suas palavras. Paternidade? Quem dos nossos amigos devia estar esperando um bebê? Ninguém tinha comentado algo comigo... Foi então que lembrei do comportamento relacionado a gravidez e percebi o quanto encaixava com o modo que Yuuri vinha se comportando. Paralisei relembrando todos os momentos em que ele parecia enjoado com cheiros comuns do dia a dia ou as misturas peculiares que fazia na cozinha.

Como demorei tanto a relacionar tudo isso?

Não lembro se me despedi de Chris antes de deixar algumas notas na mesa e me retirar as pressas do lugar. Somente voltei a mim quando já estava na porta de casa segurando um buquê de flores diversas e uma caixa de bombons recheados.

— Viktor? Chegou cedo hoje... — interrompeu no ar uma colherada de algo cremoso com aroma de café a caminho da boca. — Pra que isso tudo?!

Sorri sem conseguir conter a felicidade me tomando, deixei os presentes sobre a mesa e abarquei seu rosto com minhas mãos.

— Por que não me contou logo?

Yuuri fez uma ligeira carinha de confusão antes de arregalar os olhos e corar forte.

— Ah, então você já sabe? E você está contente com a notícia? — anui, distribuindo beijos pelo seu rosto. — Ah, isso com certeza é aliviador já que nunca conversamos sobre filhos e eu não fazia ideia de como você reagiria...

— E você achava que eu não gostaria dessa maravilhosa novidade? — dei um beijo leve em seus lábios quando não houve resposta. — Yuuri, eu te amo e o que eu mais quero é formar uma família com você. Jamais pense que eu rejeitaria um filho nosso. Ou até mesmo se não fosse meu! Espera, ele é meu, não é?

Yuuri fechou a cara.

— Viktor Katsuki-Nikiforov, o que o senhor quis dizer com isso?!

Dei uma risadinha sem graça.

— Estou brincando, querido!

Bem, não pude evitar a pergunta que saiu tão natural. Claro que eu sabia que era apenas neura da minha mente, mas todos nós temos nossos momentos falhos e esse foi um dos meus. Naquela noite, além de ir dormir no sofá, mal consegui cochilar de tanta excitação. Ter um filho com Yuuri seria o próximo passo para nossa família se tornar cada vez mais completa.

Acompanhei bem feliz toda a gravidez e fiz de tudo para que Yuuri ficasse confortável nesse período. Quando o nosso garotinho finalmente nasceu lhe demos o nome de Yuri em homenagem ao meu avô, mas à medida que Yuri crescia e chamávamos constantemente seu nome percebemos que não tinha como diferenciar o nome de Yuuri e Yuri vocalmente. Sendo assim em casa acabamos aderindo a chamá-lo de Yurio para evitar confusão.

Yurio era um menino carinhoso quando criança, contudo parecia ter dificuldades em se expressar. Ele sempre preferia ficar com o cachorro da família do que brincar com os filhos dos nossos amigos.

— Será que ele desenvolveria mais a conversação se tivesse um irmão? — Yuuri me perguntou certa vez ao observar Yurio se balançando sozinho no parquinho. — Acho que ele se sente sozinho por ser a única criança em casa.

Não éramos especialistas em comportamentos, mas a ideia era interessante. Principalmente quando encontramos um diário dele onde tinha escrito, numas letras mais parecidas com garranchos, que invejava seus coleguinhas com irmãozinhos. Por isso quando Yurio completou oito anos adotamos uma criança. (Yuuri foi veemente na decisão de adotar, pois ele não achara a gravidez nada mágica e maravilhosa como os filmes costumavam retratar.) Seu nome era Minami e embora fosse dois anos mais velho parecia mais novo que Yurio.

Chamou minha atenção por ser uma das crianças mais alegres no orfanato e também por ter se apegado imediatamente a Yuuri. Admito que invejo e admiro a capacidade que meu estimado esposo tem para cativar a todos. E o mais incrível é que ele nem é consciente disso! No nosso primeiro encontro Minami agarrou na perna de Yuuri com os olhinhos brilhando e pediu pra ser adotado.

Foi impossível negar. Principalmente depois que ele me reconheceu de algum filme que viu e ficou ainda mais insistente para que o levássemos. Como rejeitar uma criança fofinha pedindo aos prantos para ser adotada.

No início nossos filhos não se deram muito bem, mas em questão de dias Yurio já tinha se tornado super protetor com Minami. Na infância isso era bonitinho e Minami não se importava muito, mas quando chegaram a adolescência foi que a coisa complicou.

— Papai, o Yurio está sendo um babaca completo comigo de novo! — Minami irrompeu bravo na sala, correndo pra se jogar nos meus braços.

Suspirei passando a mão nos seus cabelos. Embora há pouco tempo tivesse completado dezoito anos, Minami continuava baixinho e adorável. Yuuri, que veio do quarto trazendo uma câmera em mãos, franziu as sobrancelhas.

— O que houve dessa vez?

Yurio chegou logo depois pela mesma porta por onde Minami passara, soltando os fios loiros antes presos por elástico. Não sei dizer exatamente quando foi que ele perdeu seu brilho de inocência infantil e se tornou um rebelde sem causa. Só sei que de uma hora para outra ele passou a rejeitar meus abraços, ouvir músicas barulhentas e a dar respostas agressivas. Ah... Porque eles tinham que crescer tão rápido? (Quer dizer, o outro não cresceu muito fisicamente e não podíamos comentar isso em casa...)

— Ele disse que me proíbe de namorar! — bradou apontando acusadoramente para Yurio.

Yuuri olhou repreensivo para o mais novo.

— Você não pode fazer isso, Yurio. Seu irmão já tem idade o suficiente para saber se deve namorar ou não.

— Yuuri está certo. Quando vai parar de tratar Minami como uma propriedade sua?

— Calado, velhote careca! Se nem eu namoro, porque ele precisaria namorar? Isso é desnecessário.

Se Yuuri também o repreendia, porque somente eu era xingado? E ainda me chamando de careca! Isso foi como um tiro no meu ego, mas consegui controlar minha vontade de ir procurar um espelho e permaneci no lugar. Ia retrucar qualquer resposta quando Minami se prontificou a falar.

— Então está dizendo que vai parar de implicar sobre isso se você começar a namorar também?

— Interprete como quiser. De qualquer modo nunca vou namorar mesmo, então pode desistir disso.

Minami deu um sorrisinho vitorioso ao retirar um gravador do bolso e mostrar que tinha gravado a conversa toda. Yuuri e eu nos entreolhamos pasmos.

— Depois não adianta voltar com a palavra~

— Não adianta vir com seus planos pra cima de mim não, Mi. Dessa vez eu estou preparado! Não tem jeito de você me arranjar uma namorada, se eu não quiser!

— É o que veremos...

Os dois trocaram um olhar de desafio e sorri diante tal comportamento infantil. Yuuri veio para o meu lado, passando um braço na minha cintura.

— Eles são tão animados, não é?

Não tive como não concordar, então sorri ao beijar sua testa. Quando eles resolviam discordar em algo a casa virava zona de guerra, mas isso não era de todo ruim. Era até divertido observar as trocas de desaforos sem pé nem cabeça.

Porém o mais incrível aconteceu uma semana depois dessa discussão. De fato, Minami não arranjou uma namorada para ele, mas sim um namorado. O meu queixo quase caiu quando um jovem de rosto sério apareceu para pedir permissão para namorar Yurio. Num primeiro momento achei que era uma pegadinha, mas ao olhar a carinha constrangida de Yurio do lado fiquei mudo. Lembro que nesse dia levei um bom sermão de Yuuri por ter fechado a porta na cara de Otabek.

Ser pai tinha seus momentos de extrema dificuldade.

— Você já está liberado, Viktor. — a maquiadora sorriu para mim quando finalizou a retirada de toda a maquiagem do dia.

Levantei-me alongando os braços e saí depois de me despedir. O ritmo de filmagem daquele mês tinha sido pesado e meu corpo já não lidava com o cansaço da mesma forma que anos atrás. Entretanto, contrariando as dores no corpo, meu ânimo estava ótimo. Depois de passar duas semanas longe de casa finalmente estava podendo voltar para eles e isso me deu forças para dirigir ansiosamente até em meu lar. Minha saudade estava tão forte que até suprimiu a desconfiança por Yuuri ter se comunicado tão pouco comigo nos últimos dois dias.

O mais provável é que ele estivesse triste pela minha ausência, então procurei não ficar tão preocupado com isso. Mal tinha estacionado o carro quando vi pela janela os primeiros flocos de neve de uma noite que provavelmente seria bem fria. Coloquei minhas luvas e saí do carro para enfrentar o clima não tão hostil. (Minha terra natal tinha um inverno consideravelmente pior.)

Estava vasculhando os bolsos atrás das chaves quando a porta se abriu me revelando um sorridente Yuuri de nariz avermelhado pelo frio. Ele vestia um suéter verde com uma rena bordada na frente, seus óculos caseiros e a câmera pendurada no pescoço. Pelas suas bochechas rechonchudas pude perceber que Yuuri aumentara de peso outra vez, mas isso não era novidade visto a facilidade que tinha desde sempre para engordar. Sorri de volta para o homem que eu amava, me sentindo sortudo por ter casado com uma pessoa tão linda.

— Tadaima, Yuuri.

Ele não me respondeu apesar de seu sorriso ter aumentado ao ponto de fazer seus olhos quase se fecharem. Em seguida agarrou meu pulso e antes que conseguisse raciocinar o que estava acontecendo, me vi no centro da sala sendo cercado pelos membros da minha família. Os pais de Yuuri, Otabek, Mari, Chris, Phichit e até o namorado de Minami, que eu vivia esquecendo o nome, estava ali. Não entendi de imediato o motivo daquela reunião até que Minami e Yurio trouxeram um grande bolo azul com os dizeres em cima de “parabéns” escrito em russo.

"Oh."

Era meu aniversário e eu tinha esquecido completamente disso de tão alheio a datas que estava. Lágrimas me vieram aos olhos e fiquei alternando o olhar entre as pessoas expectantes e o bolo obviamente caseiro.

— Bem-vindo ao lar, Viktor. — Yuuri puxou meu queixo para um beijinho leve, roubando minha atenção. — E feliz aniversário.

É, realmente eu tinha encontrado meu lar.

Notas finais
BOAS FESTAS PR
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!