Lar
1 Único
Encontro-me defronte ao que costumava ser o nosso lar,
agora sendo apenas mais uma área soturna desta cidade
e, portanto, lamentável.
Mas, apesar de vazio, um lugar repleto de emoções dolorosas e tristonhas
que seguem tornando-se cada vez mais árduas
impossíveis de serem carregadas tão solitariamente.
Entristeço com a nostalgia que me traz à tona aquela época mágica
a época em que o lar estava habitualmente cheio
a época em que ele transbordava
a época em que inundava todo o arredor
Nossas risadas ecoando pelo quarto
as paredes imaculadas nos espiando, tingidas pela luminescência débil do abajur
seu calor e seu perfume marcando os lençóis
minhas mãos amparadas naquele belo rosto, inoculando-o do conforto de estar em casa
o conforto de estar em seus braços.
Meu amor, o que foi que aconteceu conosco?
Tudo acabou tão freneticamente quanto começou.
Seu cheiro aos poucos esvaindo-se
as marcas de seu toque afetuoso desvanecendo-se do meu corpo
agora substituídas pela sensação nova e entorpecente do álcool na garganta
ato quase desesperado para minha revigoração
frustrado pateticamente pelas memórias indesejadas afligindo-me.
Estou farta de viver assim.
De você eu possuía o tão almejado aconchego
vindo em palavras adocicadas e gestos brandos
um sorriso manhoso que me acolhia calorosamente.
Eu estava em paz
e, por mais que doesse ocasionalmente
por mais tóxico que parecesse
ou por mais cansativo que fosse manter-te aqui
ter você era tudo o que me bastava.
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