Lar
8 Eight
Notas iniciais
Demorou até que Eliza se situasse estava inerte num mundo próprio, até que esse fato era comum, a grande sensação de magia que só a experiência de ir ao cinema é proporcionada. A tela gigante que mal iluminava a sala repleta de cadeiras, os nomes estavam subindo na tela dando o mérito as pessoas que fizeram o filme, mas como boa expectadora ela queria ficar mais por estar sem reação, ainda tinha algumas lágrimas no olhar.
Sentia as poucas pessoas que ainda estavam na sala saírem aos poucos, a luz da sala foi acendendo devagar como para que alertasse da volta para a vida real, Eliza só foi apresentada aquele mundo infinito de possibilidades por pouco tempo, por Jonatas.
Pensar nele fez seu coração palpitar inquieto no peito, era ali, justamente ali que eles ganharam um ao outro, selaram uma união difícil de ser quebrada. Tudo começou a fazer um estranho sentido.
Se ontem quando deitou a cabeça no travesseiro acomodada em sua cama lhe contassem o que passaria assim que despertasse, não acreditaria e provavelmente mesmo que ficasse com uma pulga atrás da orelha, cairia na gargalhada. Agora depois de tudo o que tinha passado durante todo o dia, veio parar no cinema, não qualquer um mais o seu lar. Acabou de ver um filme que fez todo o sentido, precisava fazer algo por si que só ela mesma poderia.
Quando ela pegou a sua bolsa com rapidez e se levantou da cadeira confortável da sala de cinema deu de cara com ele próximo dela a encarando. Aquilo era inacreditável, que a fez soltar um riso.
:- Me aproximei para ter certeza de que era você. Mas, como eu poderia ter dúvidas, impossível eu não te reconhecer. – Jonatas, arriscou falando enquanto colocava as mãos no bolso.
Eliza deixou a bolsa no seu lugar e olhou para a sala de cinema quase vazia se não fosse por eles dois, a tela gigante já estava apagada e as luzes da sala acesas. Caminhou até ficar na frente dele, tão próximos que poderia tocar nele facilmente bastava somente levantar uma das mãos.
:- É fácil me reconhecer, já só têm nós dois aqui dentro. – ela não pode deixar de implicar com ele, para esconder também o seu nervosismo – Estava indo te encontrar, agora. – ela falou de forma tão intensa que imediatamente Jonatas tragou sua saliva, sentia que era palpável a oportunidade que tinha a sua frente. Há tanto tempo esperava ficar a sós com ela, desde quando se viram na escadaria perto da casa dela.
:- Eu também queria te ver, tem muito tempo. – ele tirou uma das mãos do bolso e passou atrás da cabeça num sinal de nervosismo.
:- Ando trabalhando tanto e você também – ela comentou.
:- Eu diria que foram muitos desencontros. Todas ás vezes que tentei falar com você, estava num trabalho importante, longe, São Paulo, Nova York. – ele deu os ombros.
:- Poderia ter me mandado mensagens, ou me ligado. – Ela tentou.
:- Não, Eliza. A conversa que temos que ter precisa acontecer pessoalmente, quero poder olhar em seus olhos e dizer cada palavra. – ele a encarou com mais seriedade – Até porque você poderia não querer falar comigo, ou deixar para outro momento, fugir, na verdade essa é a palavra. – Ele esperou que ela o contradissesse, algum contra-ataque, mas ela permaneceu quieta como se esperasse pelo o que ele tinha o que dizer. Ao notar que Jonatas ficou calado a avaliando, ela percebeu que tinha que dar uma resposta a ele.
:- Não vou fugir, quero escutar tudo o que você tem que me falar com a condição que me escute também.
:- Certo! – Ele concordou ainda que estivesse surpreso, talvez aquele fosse um sinal, um bom sinal de que ele devesse seguir em frente, foi como Davi o aconselhou certa vez. Agora ele colocaria em prática.
Ele andou pela sala de cinema, todavia não ficando muito longe dela, quando entrou o filme já tinha começado só que de tanto o ter visto, tinha tudo decorado na mente. Luzes da Cidade, de Charles Chaplin, passou a ser o seu filme favorito desde que ela entrou na sua vida. Especialmente depois de se apaixonar por ela, depois de partilhar um momento tão especial juntos. Ele olhava para sala de cinema voltando ao passado, como se a tela gigante pudesse mostrar ali o seu filme sobre sua vida.
:- Dá para acreditar nesse lugar assim, lindo. Foi um dia aquele cinema abandonado em que nós dois vivíamos? — Ele olhou para ela depois de questionar passando a mão no rosto. Ela apenas lhe sorriu o fazendo ver que ela entendia o significado do que ele queria dizer. – Nós vivemos aqui quando era difícil não deixar o pó tomar conta de tudo, quando havia pedaços de madeira, ferro espalhados, janelas arrebentadas, mal iluminado, eu fiz desse lugar o meu lar aqui. Não acredito em nada que venha de mão beijada, suei muito para conquistar o meu lugar, melhor do que ninguém você sabe o quanto sou otimista e que nada esta tão ruim que não pode ser consertado. Eu fui um dos maiores empresários das ruas que o Rio de Janeiro, pode ver. – ele abriu o peito e ergueu os braços para dizer fazendo com que ela risse mais. – Olho aqui dentro e ainda vejo o empresário, o vagabundo de Charles que muda por amor. Eu ainda vejo a florista por quem me apaixonei em você. – Ele confessa voltando à seriedade, querendo ser mais firme como Davi havia lhe dito, queria que ela lhe escutasse. E com toda atenção dela voltada para ele, foi caminhando até ela para lhe segurar o rosto com as duas mãos. – Aqui, quando esse lugar assim como nós dois, estava sozinho, te ensinei a vender flores, como se portar para seus clientes, aqui reparti com você o pouco que tinha porque eu me apaixonei pela garota que você realmente é, Eliza, e depois de tudo, agora que você é uma modelo internacional e eu trabalhando muito na Bastille, ainda te amo.
Vieram as duas palavras de forte impacto para os dois, aquelas que foram ditas algumas vezes por ele, porém por ela não. Ele a queria, ainda era completamente apaixonado.
:- Se essa tela grande mostrasse um filme sobre nossa história seria Luzes da cidade, assim como foi agora. Isso é um sinal. Consegue ver? É nossa história de amor. Você vive dizendo que não somos nem namorados, é óbvio que a cada beijo que dávamos mostrava a contradição disso. Não vou ser duro demais contigo, mas eu quero que me enxergue Eliza, como o homem da sua vida, mais que isso quero que me respeite como tal assim como eu te respeito pela mulher que se tornou. Consegue sentir o quanto eu mexo com você?
Os dois tinham as respirações alteradas, respiravam fortemente, desde que Jonatas a tocou Eliza sentiu o corpo arrepiar a cada palavra dita. Ele fechou os olhos e ameaçou a beijá-la, só isso fez com que tudo o que já sentia se intensificasse.
:- Jonatas... – ela soltou suspirando.
:- Eu sei que é errado falar isso, te querer tanto quanto eu te quero, ter te beijado aquela vez. Mas, quero tanto fazer isso de novo. – ele a interrompeu. – Nunca mais duvida do que eu sinto por você. Vou lutar por você, mesmo agora que esteja namorando o Arthur...
:- Shiu! – ela tapou a boca dele com o dedo indicador. – Eu acho que você já falou demais. – Ela disse e Jonatas já imaginou que tinha passado do limite ao mencionar o Arthur, agora viria o afastamento dela, porém foi o contrário.
Eliza o surpreendeu, o beijando, com intensidade, era tudo diferente o tempo, os dois, o beijo. Tudo estava melhor e mais maduro.
:- Eu e Arthur terminamos hoje cedo. – Eliza revelou para Jonatas que o deixou boquiaberto. – Eu acabei descobrindo por Dona Estelinha numa conversa com Jojô que eles armaram para que nós dois terminássemos quando ainda existia o concurso Totalmente Demais. Eu fui tirar satisfações com Arthur lá na Excalibur, me senti usada, ele sabia o quanto era importante pra mim. Me senti uma fantoche no jogo dele de quem tem mais poder com a Carolina Castilho, ele me deu a sua explicação, ficamos trancados horas dentro do seu escritório falando e ficando num silêncio carregado.
Eliza ficou quieta de repente vendo Jonatas ali ao seu alcance, cada palavra dita por ele foi direto ao seu coração, precisava ser verdadeira com ele também.
:- Eu então o olhei do outro lado da sua sala, passando a mão no cabelo grande enquanto olhava para o nada também pensativo e me dei conta que o perdoava. Porque afinal, não só me deu nova direção para minha vida, mas por me fazer ver que eu não o amo. – Mais uma vez e Jonatas foi pego de surpresa enquanto ela o abraça pela cintura, se mostrando mais entregue, ele sentia o peso do mundo sair de suas costas.
:- Perdi as contas de quantas vezes eu pensei em você, mesmo estando com Arthur. Quantas vezes senti ciúme de você com a Leila, pensando que talvez ela sim fosse a mulher certa pra você. — Mesmo o vendo negar com a cabeça ela insistiu em falar — Eu via os dois tão sintonizados, pensava em nós. Quantas vezes eu pensei no beijo em que você me deu naquela noite na boate, eu precisei viajar para o exterior para notar o quanto sentia sua falta. Pensar nas lembranças pra te trazer, nós criamos uma vida juntos bem aqui nesse cinema. Eu conquistei tudo o que sempre quis, comprei uma casa, trouxe minha família para o Rio, ganhei o concurso, mas me sentia perdida. — ela engoliu saliva para depois encará-lo — Tudo porque você não estava comigo. Depois que te perdi Jonatas, eu percebi a cada dia o quanto você é importante pra mim. Porque mesmo com a gente brigando, no fundo você sabe que é de você que eu gosto. Que assim como a florista do filme mudo, eu estava cega. Eu amo você. — ela se aproximou para dizer às palavras que tanto reprimiu e o sentimento que ela demorou a notar.
:- Você disse que me ama em voz alta? — ele perguntou chocado a fazendo dar um tapa de leve nele.
:- Eu amo você, meu sapo! — ela riu antes de se esticar pra beijá-lo de novo.
:- Ainda que eu esteja adorando tudo isso, preciso tirar uma dúvida. — deixou de beija-la para voltar a falar — Como veio parar aqui?
:- Megan! — Ela disse rindo agora entendendo o que aquela maluca tinha acabado de fazer. — Me ligou falando de uma história sobre ter encontrado uma cigana que viu uma carta chamada roda da fortuna que tinha a ver com destino. Agora entendo que cada palavra dela, não era falando de si, e sim para mim. Me disse que quando esteve aqui visitar o meu lar, a tinha feito bem, me sugeriu o mesmo foi uma conversa doida porque não parecia fazer sentido. Ela sabia que aqui estava reformando, lhe contei quando fui para os Estados Unidos, mas quando cheguei me deperei com o lugar assim. Fiquei emocionada queria ver cada detalhe de perto, desde as cores até as salas, o filme para estreiar era esse eu precisava ve-lo, então tudo fez sentido. Precisava te ver! Então pareceu que foi materializado.
:- Essa maluca me ligou falando essa mesma história, sem pé nem cabeça, me disse para vir aqui, dizendo que o que eu mais queria poderia se realizar, se fosse atrás do que eu queria. Não é que ela estava certa?
Os dois sorriram pensando na loucura em como tudo aconteceu para então devagar começarem se aproximar e começar outro beijo mais calmo e envolvente, sem presa porque tinham muito tempo pela frente.
‘Take me away to some place real 'cause they say home is where your heart is set in stone’
◘
:- Amor, eu ainda não acredito que você trouxe essa carta aqui. – Megan não pode evitar o sorriso largo a toda vez que ele a chamava de amor.
:- C'mon my cherished, tudo começou com essa carta, eu tinha que traze-la. – Megan continuava sorrindo ao respondê-la e foi pega de surpresa quando ele lhe abraçou a cintura e a puxou contra si.
:- Ainda bem que eu não estava com você quando comprou essa carta.
:- Oh yeah. Estragaria todo meu plano! Davi, desde que conhecemos Jonatas e Eliza, escutávamos os lamentos de cada lado deles, uma esta destinado ao outro, eu não menti em nenhum momento.
:- Megan! – Davi tentou um tom severo, mas não deu muito certo.
:- Certo, omiti alguns fatos e encaixei numa historinha minha. Mas, eu pretendia comprar esse cinema desde daquele dia em que aquele sequestro não deu certo, era importante para os dois e eu poderia ajudar. Comprei, contratei os melhores para reformar em tempo recorde. Era a minha surpresa, minha contribuição para esse casal que merece estar junto, assim como nós dois.
:- Você não acha que interferimos demais? Afinal de contas sou seu cúmplice. – Davi a questionou.
:- Claro que não, somos like a cupid’s of love! Davi, só damos um empurrazinho aos dois. Queríamos fazer uma surpresa com a nossa chegada ao Rio, certo?
:- Certo! – Davi concordou prestando atenção nela, eles estavam no Centro precisamente a passos de distância do antigo cinema. Observaram tanto Eliza quanto Davi chegarem para a sessão especial aos dois.
:- Então, a mãe de Eliza foi minha cúmplice, dona Gilda, ela me ligou contando que Eliza e o Arthur terminaram. Assim eu liguei para cada um e fiz o cinema estrear hoje com o filme que Eliza me disse ser dos dois, fiz estarem no mesmo lugar e horário justamente naquele cinema que representa muito na história deles, tudo porque precisam se acertar Davi.
:- Confesso que a notícia que Eliza e Arthur terminarem me agradou, eu e Jonatas não temos muita simpatia por este nome. – ele fez careta e ela além de rir lhe deu um beijo estalado, depois ele voltou a falar. – Então a senhora dos planos, quando vamos entrar no cinema para ver se o seu plano deu certo?
:- I don't have the slightest idea. Now, you got me!– ela olhou para a entrada do cinema do outro lado da calçada — Vamos esperar mais um pouco, o filme já deve ter acabado e agora devem estar conversando, vamos dar mais um tempo para eles.
:- Você é quem manda, senhora Parker Marra! – ele fez um aceno de cabeça. — Mas, me diz como essa carta o convenceram de vir até aqui?
:- Well, fui fazer umas compras naquela loja que adoro em Nova York, lá uma cigana me abordou falando sobre tarô, fiquei curiosa e olhando seu baralho queria saber algo que falasse de destino. Não estava interessada quanto a mim. Mas, a cigana me disse que precisava ajudar uma amiga, me deu a carta e disse o que significava, então só tive que ligar para eles e improvisar.
:- O que significa?
:- É a Roda da Fortuna, se refere a destino, reflexão onde tudo acontece ao seu próprio tempo. A roda representa algumas situações que se referem a mudanças nas nossas vidas. Ela pode trazer surpresas e mudar nossa direção. Resolvi usar isso ao meu favor.
:- Acho que estou mais apaixonado! – Davi tombou a cabeça de lado a olhando – Você fica mais linda armando para os outros. – Ele sorriu.
:- Tenha cuidado para não se viciar em mim.— Ela entrou no jogo de sedução dele.
:- Impossible. Mais do que já estou. – Ele falando num tom de brincadeira que dava para notar que tinha veracidade no olhar.
:- Love you. – Ela soltou se esquecendo completamente de tudo ao seu redor. E compartinhando a sua verdade.
:- Love you too. – Ele conrrespondeu. E sorriu quando ela veio lhe beijar a boca com paixão.
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