Lar
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Parei em frente à minha casa. A nossa casa. Foi um longo turno. Eles sempre são. Carregados de crimes, assassinatos e roubos. Você acaba se surpreendendo com a maldade das pessoas. E acaba ficando com medo também. As coisas acontecem tão rapidamente e de modo tão inesperado. Parece que tudo acontece com os outros e não com você. Com todos, menos com alguém que você ama.
E eu confesso que tenho medo disso. Eu não devia ter medo. Se estou aqui, é porque evitei sentir medo a maior parte do tempo. Mas eu tenho. Tenho medo de que aconteça algo com as pessoas que eu amo, com a minha família.
Família. Eu nunca tive uma verdadeira família. Nunca soube o que é ter uma daquelas de propaganda de margarina ou de pizza, com todos reunidos, sorrindo e se divertindo. Isso parecia ser coisa de outro mundo para mim. Pode-se dizer que a minha família era de outro mundo, Um mundo escuro e triste, onde brigas, discussões e álcool eram completamente normais. Tive medo por minha vida.
Depois que o pior aconteceu e fui obrigada a conhecer outros mundos, outros realidades, ainda não me sentia segura. Por mais que as pessoas me dissessem para eu me sentir segura e que eu ficaria bem, eu não acreditava. Eu tinha medo e não acreditava em mais ninguém.
Mas eu não desisti. Tentei fazer o melhor que pude com a minha vida, sem olhar para trás. Confiei em mim, e apenas em mim. Até que eu vim parar em Las Vegas. Dizem que aqui tudo acontece por acaso, mas na verdade não é assim. Seu destino já está traçado e eu fico feliz que o meu tenha sido traçado desse jeito.
Foi em Las Vegas que eu conheci a pessoa que iluminou meu mundo escuro, que me tirou de um oceano de mágoas e me trouxe à superfície, que deu um sentido verdadeiro para minha vida. Não, não somente um sentido, acho que é melhor dizer que essa pessoa deu um significado para minha vida. Algo em que eu pudesse acreditar, algo em que eu pudesse me segurar e seguir um novo caminho.
E essa pessoa está dentro de casa agora, dentro da nossa casa.
Suspirando, saí do carro, tranquei e andei vagarosamente até a porta. Eu já conseguia sentir seu perfume do outro lado da rua. Eu já consegui ouvir seu riso enquanto assistia a algum programa na televisão. Eu até mesmo conseguiria distinguir sua presença no escuro em meio à uma multidão de pessoas. Não há como esquecer alguém como ela.
Abri a porta da nossa casa e entrei silenciosamente. Coloquei as chaves na mesinha ao lado da porta e fui até a sala de estar, onde minha amada estava sentada no sofá, assitindo algo engraçado na TV e sorrindo sem parar. Seu sorriso era lindo, encantador. Minhas pernas tremiam apenas em ouvir o doce som da sua voz.
Ela notou minha presença e sorriu para mim. Mas era um sorriso diferente daqueles que eu acabara de ver, era maior e, se possível, mais deslumbrante. Não, ela era deslumbrante.
Fiquei parada encostada na porta, observando-a. Ela ergueu uma sobrancelha, levantou-se e caminhou até parar na minha frente. Envolvi meus braços em volta de sua cintura, tentando deixá-la o mais próximo de mim possível, tentando inalar o máximo possível de seu doce perfume. Ela correspondeu ao meu abraço e depois de alguns segundos nos separou, olhando profundamente nos meus olhos. Seu polegar roçou contra minha bochecha e foi então que eu notei que estava chorando.
— Tudo bem com você? Aconteceu alguma coisa no trabalho? — perguntou ela, preocupada.
— Não, está tudo perfeito — respondi.
— Então por que está chorando?
— Porque eu te amo. — Foi o necessário para que minha Catherine abrisse seu sorriso novamente, o sorriso que eu tanto amava. Eu faria qualquer coisa para que ela nunca precisasse parar de sorrir daquela maneira.
— Eu também te amo — sussurrou ela, com os lábios a poucos centímetros dos meus. Não resisti, como poderia? Uni nossos lábios em um profundo e significativo beijo. Não apressei as coisas, eu tinha que de algum modo mostrar o quanto eu a amava. Explorei sua boca em todos os lugares e senti gosto de café e algo tão doce que era apenas de Catherine. Quando nos separamos, eu estava ofegando.
— Uau — Catherine disse e me olhou curiosamente. — Tem certeza de que nada aconteceu?
— Onde está Lindsay? — ignorei sua pergunta e dei uma breve olhada pelo resto da casa.
— Aqui! — Lindsay desceu as escadas rapidamente e veio ao nosso encontro. Envolvi a pequena loira com um dos braços enquanto continuava a abraçar a mãe dela com outro.
— Eu amo vocês — sussurrei, mas alto o suficiente para que as duas ouvissem e também me abraçassem. E foi naquele breve momento carregado de amor que eu percebi o que a palavra "família" realmente significava. Eu tinha uma família e eu tinha Catherine ao meu lado. Não havia mais medo. Eu finalmente havia encontrado... meu lar.
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