Lapso Paradoxal
13 Capítulo 13 - No meio da alcateia
‘Comecei a correr como nunca, eu precisava chegar àquele ônibus o quanto antes, me preocupava com Heitor, ele podia ser fodão, mas naquela situação... Meu corpo todo coberto de sangue nem me incomodava mais, clareava a frente da pista enquanto acelerava meus passos, correr naquela situação, naquele local, era perturbador, mesmo sabendo que estava em um local ‘vazio’, dava a sensação de que uma scannia me atingiria por trás a qualquer momento. De longe pude avistar a luz dos faróis do ônibus, adentrei no meio do mato para chegar até o local onde o mesmo estava, chegando lá, ofegante, parei diante de todos, colocando minhas mãos em meus joelhos enquanto inclinava minhas costas para frente, tentando recuperar o fôlego pedido.
— Marco? O que aconteceu cara? O que é todo esse sangue!? – Carlos foi o único que se aproximou, todos os outros se afastaram de mim assustados, as luzes do ônibus clareavam meu corpo sujo de sangue, eu tinha até mesmo uma ferida no braço, Cleuza começou a gritar e me chamar de assassino novamente, mas ao me ajoelhar no chão, tentei transparecer o que sentia.
— Me ajudem! Por favor! A Naiara ficou louca, ela tá com você, né seu filho da puta, seu cretino! – Olhei para Heitor, me levantei e fui em direção ao mesmo cambaleando quando Carlos me segurou.
— O que aconteceu agora? O que tem a Naiara? – Carlos me segurava firmemente, eu estava tentando mesmo ir até Heitor que me olhava sorrindo, ainda amarrado colocado na frente daquela rocha.
— Há, então você descobriu. Ela não conseguiu te matar? Que inútil essa garota também. – Todos voltaram a atenção para Heitor que começou a rir feito um psicopata. – Hahahahaha, tolos, acharam mesmo que eu estava sozinho?
— Como assim? O que aconteceu cara? – Juliana começou a tremer quando perguntou para mim.
— A Naiara ficou louca! Do nada ela pegou um revólver e matou João e o Leonardo, ela tentou me matar também, mas não conseguiu atirar, ela tentou me matar usando um pedaço de pau, eu estava com medo de morrer, então corri, não pude fazer nada, ela estava segurando o revólver, não sabia se ela podia atirar ou não. – Parece que todos estavam acreditando no meu falso desespero, tive que me cortar não só no braço, mas nas pernas e barrigas para ser convincente, confesso que aquilo não foi nada agradável, mas eu tinha que convencer todos ali, pelo menos a maioria.
— Então você e ela estão juntos moleque? – O motorista segurou Heitor pelos cabelos quase compridos do garoto o fazendo falar.
— Qual é, quer me sadomizar agora tio? Eu e a Naiara estamos juntos a algum tempo, eu disse que amava ela, e que queria a chave do coração dela, mas eu já havia conseguido, nosso plano era dar um fim nesse merda que não deixava ela de lado, ele ameaçou matá-la várias vezes quando ela ameaçou terminar, sabiam? Eu fiz isso por ela! Eu queria mesmo era incriminar esse puto, mas ela parece que ficou com dó do ‘ex’, eu até estranhei, mas tive que salvar a pele dela, sabe-se lá o que vocês poderiam fazer, não queria colocar minha amada em perigo, mas agora parece que ela voltou ao normal, ela finalmente decidiu se livrar desse lixo imprestável, HAHAHAHAHAHA. – Heitor entendeu onde eu queria chegar, esse cara realmente era inteligente, isso me fez me sentir um péssimo ator perto dele, mas eu não podia me esquecer de que o portador estava ali, ele não acreditaria nesse teatro, ao menos que usássemos a ‘chave’.
— Cara, vocês são loucos! Que história é essa de chave? Ela disse pra mim que tem uma chave que pode realizar qualquer desejo, e que ela precisa proteger isso a todo custo, você tem a ver com isso? Era essa chave que você tava falando né? Ou é mais uma ilusão de suas mentes doentias? – Eu tive que falar toda ‘verdade’ diante daquelas pessoas, a maioria não iria entender nada, mas o portador sim, com isso, ele poderia acreditar que eu fui mesmo atacado por Naiara.
— Oh, ela te falou até isso? Parece que ela estava mesmo disposta a matar, haha. – Heitor conseguia sorrir feito um assassino mesmo, e aquilo me dava calafrios.
— Como assim porra? João tá morto? COMO ASSIM PORRA? – Gustava colocou as mãos na cabeça, todos se desesperaram.
— Já chega porra, alguém mata esse cara logo pelo amor de DEUS! – Neide pediu a cabeça de Heitor, no momento todos queriam, e eles acabariam matando o garoto mesmo, se eu não fizesse nada.
— Gente, não façam nada, a gente vai sair dessa situação, estamos presos mesmo em uma droga de loop, já foi provado, não acreditam mesmo depois de tudo? E pelo que tudo indica, esse moleque tá envolvido, como pode ele e a guria lá matarem 4 pessoas e não terem nada a ver com esse ‘labirinto’? É claro que tem a ver! Eles devem ter algum poder paranormal, ou algo do tipo... – Mariana olhava para baixo após acabar de falar, ela se envergonhava no fundo, mas aquilo era mesmo a verdade, só que não era a gente que tinha a merda do poder.
— Que poder o que porra! Eu vou furar aquela vadia e esse bosta! – Gustavo pegou uma faca de sua mochila e correu em direção a estrada. Isso me fez ficar atento ao que Naiara disse.
— Você vai atrás dela? – Perguntou Carlos o olhando com seriedade.
— Vou dar cabo nela, e depois no moleque.
— Eu vou com você, não podemos deixar uma assassina a solta mesmo. Valdecir foi o próximo a se oferecer.
— Eu também vou, é perigoso demais, ela tem uma arma, temos que emboscá-la. Motorista, você pode vir também? – Carlos pegou sua mochila enquanto chamava o motorista, aquele era o cenário que Naiara sugeriu, e isso começou a me assustar.
— Se vocês encostarem a mão nela, juro que NUNCA VÃO SAIR DAQUI SEUS LIXOS! – Heitor gritou enquanto bufava enfurecido.
— Então foi você! Você nos prendeu aqui! – Kelly se sentou no chão e começou a chorar enquanto soluçava.
— Não se preocupem, vou torturar esse merdinha até ele falar a maneira de sairmos, confiem em mim. – Juliana olhava para Heitor enquanto sorria ironicamente. Sei que eles não matariam Heitor, não essas pessoas que ficaram, mas ele poderia sofrer alguns danos. Heitor... preciso me desculpar com você mais tarde, mas por enquanto, aguente isso.
— Nos leve até ela logo porra! – Gustavo me segurou pelo colarinho e finalmente fomos em direção onde Naiara estava.
Valdecir, Gustavo, Carlos, eu e o motorista seguimos iluminando a estrada apressadamente até o local onde Naiara se encontrava. Eu estava com medo, nunca senti tanto medo na vida, afinal, como não sentiria naquela situação? Era um cordeiro entre lobos, eu seguia na frente sentindo uma lâmina fria que percorria por todo meu corpo, eu comecei a correr e todos começaram a me seguir, não sabia se o portador estava lá, e também não sabia se estavam correndo comigo, ou correndo até mim, foi quando chegamos no local da barraca de coco, eu parei de correr e apontei minha lanterna para onde Naiara deveria estar. Antes, perguntei aleatoriamente para o motorista:
— Você mora perto do restaurante Albergue das Massas que abriu recentemente, não? Acho que te vi por lá, todos de Americana estão indo nesse restaurante. – O motorista me olhou perturbado, sem entender.
— Do que diabos tá falando garoto? Nunca vi restaurante com esse nome! – Então Naiara estava mesmo certa! Aquela maldita.
— É ali. Eu não vou entrar, alguém vai primeiro. – Eu precisava parecer o menos suspeito possível, todos desconfiavam de mim, a todo momento pensava em quem poderia ser o portador, e também me preocupava com Heitor sozinho lá... Depois do que a Naiara me mostrou, depois do que vi com meus próprios olhos, eu tinha certeza de que estávamos correndo grande perigo.
— Eu vou primeiro, se ela matou mesmo o Jão, vou furar ela feito um porco. – Gustavo pegou sua faca e começou a gritar por Naiara, Carlos foi atrás do mesmo, ele parecia bem apreensivo.
— Você não vai deixar a Naiara morrer, né? – Segurei Carlos por um de seus braços o puxando enquanto Valdecir e o motorista seguiam Gustavo.
— Relaxa, cara, eu também quero proteger ela, por mais que ela tenha mesmo matado duas pessoas, ela e o Heitor são dois psicopatas, eu não acredito totalmente em você ainda, mas olhando para seus olhos.... – Carlos arregalou seus olhos enquanto me observava, ele parecia surpreso. – Não nos conhecemos? – Carlos parecia trêmulo, ele, até então, nunca havia se comportado de tal maneira, sempre mostrou segurança, mas seus traços agora eram de uma criança correndo com medo do escuro.
— Eu nunca te vi, pelo que me lembro... – Mas por que então, no fundo, eu sentia que conhecia Carlos também? Não quis dizer isso pra ele, mas eu realmente não me lembrava de onde.
— Ei sua puta, aparece, eu juro não te esfolar se falar onde tá agora. – Gustavo gritava procurando por Naiara, eu e Carlos o seguimos, claro que ele com uma faca não tinha chance contra Naiara armada, mas minha preocupação não era com isso.
— Não devia tomar cuidado filho? O rapaz disse que ela tá armada – Valdecir ia avisando Gustavo, mas antes que todos pudessem prestar atenção nas palavras do homem, enquanto caminhávamos, os corpos de João e Leonardo ficaram visíveis quando o motorista clareou o chão onde eles e o ruivo foram mortos.
— Santo Deus... – O motorista colocou uma das mãos em sua boca, Gustavo pareceu não se importar em ver os cadáveres, Valdecir começou a rezar baixo, e Carlos, respirava ofegante, ainda parecendo estar com pavor de algo.
— Eu juro, eu vou te matar vadia! – Gustavo berrou tão alto que alguns morcegos saíram voando de um pé de jatobá antigo que se encontrava no meio daquele mato, encostado no tronco, estava o corpo de Naiara, com sangue espalhado por sua camiseta e um buraco feito na mesma na região de sua barriga.
— Ela tá morta? O que aconteceu? – Valdecir tentou não chegar perto, eu corri até o corpo da mesma antes que Gustavo pudesse se aproximar, verifiquei o seu pulso e revistei seus bolsos, dentro do bolso de trás de sua calça, retirei uma chave dourada de ferro.
— Será que era isso, que ela tava se referindo? – Mostrei a chave para todos ali em minha frente. Esse era o plano. Se o portador estivesse entre nós, naquele momento, poderíamos morrer em questão de segundos.
Minutos atrás
— Isso é mesmo sério Naiara? Que porra acabou de acontecer? – Enquanto eu via as filmagens do chaveiro espião de Naiara em seu notebook, um frio percorreu toda minha espinha, minha pressão caiu imediatamente, o que eu tinha visto me perturbou de uma maneira que nunca havia acontecido antes, Moacir, depois que entrou no banheiro, retirou uma lâmina do bolso de sua calça, e sentado no vaso sanitário, cortou sua própria garganta sem pestanejar.
— Sim, isso é mesmo sério, Marco.
— Mas como explica? Por que ele faz isso? Ele é o portador? Digo, era... E o assassino da Tainá?
— Você ainda não entendeu, né?
— Entender o que? Por que ele se mataria?
— Você se lembra? Da lista dos poderes dos portadores? – Naiara me olhava friamente enquanto abria novamente aquele bloco de notas que havia anotado os supostos poderes dos portadores. – ‘“Fios do Céu” – Habilidade de criar ‘bonecos’ humanos que não pensam por si só e não tem alma. Essa habilidade permite ao usuário criar humanos vazios, ele pode controla-los como quiser, mas para cada humano artificial criado, ele precisa de uma vida humana em troca.’. – Eu não sei bem como funciona essa habilidade, mas, Marco, você percebe? – Eu engoli seco ao começar a entender onde ela queria chegar.
— Estamos diante de dois malditos portadores, Marco. – Aquilo me deixou ainda mais nervoso, meu corpo não conseguia se mover.
— C-como assim? Mas disse que eles não trabalhariam juntos!
— Isso é a maior besteira que já ouvi, Marco. Pense bem, quem tiver a chave pode realizar um desejo, QUALQUER UM. Ou seja, se um portador pedir 100 bilhões de reais, ele pode dividir isso com todos os outros portadores, é óbvio que eles podem trabalhar juntos, ao menos que sejam bem gananciosos, como foi o primeiro. – Naiara tinha razão quanto a isso, qualquer desejo podia englobar tudo, desde dar mais poderes para outras pessoas, desde muito dinheiro ou o que for.
— Então quer dizer que dentro do ônibus...tem dois portadores? O dos ‘bonecos’ e que criou essa maldita rodovia?
— Pode ser, ou pode ser um só. Pensou na possibilidade do motorista ser o portador dos bonecos, e ter dado várias voltas em um ‘atalho’ para nos fazer acreditar que estávamos presos em um loop? Ele podia querer nos confundir, Marco! Mas veja bem, o ponto em que quero chegar é o de que, todos, ou a maioria das pessoas no ônibus, são bonecos controlados pelo portador.
— E o que te faz pensar isso? – Naquele momento, lembrei da pergunta feita por Naiara para todos, a respeito do Albergue das Massas.
— Você entendeu, né? Aquela minha pergunta não foi por nada. No começo até tinha sido, mas depois comecei a pensar nessa possibilidade, pra mim era impossível, mas parece que é a realidade. Todos no ônibus, exceto o portador, são fantoches.
— Mas que diabos! Quer dizer então que todos estão querendo nos matar?
— Não, isso não pode ser Marco, se não já teriam feito. Eles tiveram a oportunidade, nos mantiveram presos e etc, e por que o portador faria Tainá e Moacir se matarem? Digo, ele parece querer brincar com a gente. Se ele pode mandar nos fantoches, por que não pedir para nos matar? Tem algo de muito errado, mas de uma coisa eu sei, eles não são humanos, então precisamos acabar com isso agora Marco.
— E o que você sugere? Matar todos eles? – Depois disso, Naiara me contou o seu plano. Ela me sujaria com o sangue de algum dos mortos e me faria se cortar – algo que já reprovei mas não tive escolha, no final -, eu iria até todos no ônibus dizendo que ela havia surtado e matado todos menos eu, contaria a história da chave pro portador acreditar, e se ele tivesse mesmo acreditado, ele seria um dos que me seguiriam até Naiara para pegar a chave da mesma, visto que, ele acreditaria que eu não estaria mais do lado dela, a atuação de Heitor me ajudou com isso tudo, quando peguei a chave falsa criada por Naiara antes de sairmos de Americana, eu esperava que o portador a pegasse de mim ou pedisse, e o que acabou de acontecer segundos depois, foi o primeiro passo da nossa vitória.
— Eu posso ver essa chave? – Perguntou Carlos, enquanto estendia sua mão olhando apreensivo para mim.
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