Lapso Paradoxal
5 Capítulo 05 - A Única Maneira
Estava prestes a perder minha consciência, na minha visão, três policiais correndo em minha direção enquanto eu cambaleava e me apoiava em um eucalipto no meio daquela pseudo floresta, o tempo nublado fazia com que as luzes das sirenes se refletissem por todo arredor, recobrei minha consciência e olhei no banco da frente da ambulância, realmente, ele não estava lá, o maldito portador que tentou me matar. Faltavam poucos segundos para os policiais me alcançarem, certamente tudo aquilo seria um borburinho, pensei que teria a ajuda deles a partir de agora, mas sabe-se lá o que aconteceria se eu contasse a história verdadeira por trás de toda essa merda, eles iriam confiscar a minha chave, iriam me deixar presa para ‘proteção’, enfim, eu não estaria mais no jogo, então tudo que eu podia dizer era que havia um maníaco stalker atrás de mim. Olhei para meu relógio e percebi que o tempo não havia sido alterado. A viagem no tempo tem propriedades absurdas e paradoxais, eu não entendo muito disso e nunca procurei saber a respeito, mas se ele fez a viagem no tempo nesse momento, supõe-se que ele voltou 10 minutos antes, em uma outra linha do tempo? Não, isso não faz sentido! Considerando todos os eventos até agora, ele deve voltar na mesma linha do tempo, mas se a 10 minutos ele estava na ambulância saindo do shopping, como a ambulância está aqui, como eu estou aqui? Se o poder dele faz só ELE voltar ao passado, mesmo assim, ele teria que voltar no momento em que estava na ambulância, mas a ambulância está aqui, mas pensando por outro lado, essa linha do tempo ficaria como está agora...droga, eu não sabia como pensar, não sabia como esse poder funcionava, quando me dei conta, os policiais estavam na minha frente.
– O que aconteceu!? Foi você que nos ligou? – Um deles segurava um revólver em mãos olhando para a floresta, olhei para ele, se por ventura, o portador não tivesse usado a viagem no tempo, ele tinha fugido por esse mato.
– Ele fugiu, vão atrás dele! – Eu não podia deixar essa chance escapar, torcia para que o portador tivesse mesmo fugido, ele não poderia escapar de 5 ou 6 policiais, ele não parecia ser tão bom a esse ponto.
– Quem é ele? Me conte com calma o que aconteceu! – No momento em que ia responder, outra ambulância chegou ao local. Uma ambulância socorrendo outra ambulância, quão irônico. De alguma forma Marco estava bem, eu me sentia um monstro pelo que tinha feito, mas aquele jogo era real, agora a guerra se intensificou, e depois daquele bilhete que rasguei antes dos policiais chegarem, sabia que eu não podia contar totalmente com a ajuda deles.
Marco foi levado ao hospital, e eu, à delegacia. O portador não foi encontrado, por mais que os policiais tivessem procurado na floresta. Eu estava agora de frente para o mesmo homem que tinha encontrado naquele mesmo dia, horas atrás. Meus pais estavam a caminho e agora eu me via em uma situação ainda mais acirrada, a chave estava em meu bolso, mas isso era o de menos, eu não me sentia protegida naquele lugar.
– Você de novo, hein! – Naquela mesma sala que fui conduzida anteriormente com Marco, dessa vez, estavam esse homem que se chamava Ricardo e mais dois sujeitos que pareciam investigadores ou autoridades acima dos policiais. O ventilador fraco de teto começou a esfriar o meu suor que expressava meu nervosismo, até agora, estava bem porque Marco estava comigo, mas sozinha, me sentia acuada.
– Eu te disse, eu avisei, aquele cara, ele quer nos matar! Se você tivesse levado nosso relato a sério... – Tentei demonstrar inquietação e irritação com Ricardo, ele me olhou carrancudo mas no fundo, se mostrava arrependido.
– Não posso fazer nada, o cara veio aqui e denunciou vocês, claro que sem provas, mas é natural que se fique com um pé atrás. Mas me diga, quem está realmente atrás de você e seu amigo? – Eu não podia dizer, não podia contar a verdade. Me senti pressionada a falar, mas tentei respirar fundo e acalmar as batidas aceleradas do meu coração, eu tinha o endereço e o horário que o portador havia me passado, eu tinha medo dos meus pais serem mortos, por mais que aquilo parecesse uma ameaça clichê, merda, eu sou tão idiota, se eu não estivesse naquela ambulância... Marco estaria morto. Eu me odiei mais ainda pelo que pensei.
– Eu quero saber também! Eu disse, não é? O cara loiro veio atrás de mim e me ameaçou, mas acho que devia ser um cúmplice dele, o que veio até aqui, vocês têm a descrição dele, não tem? Vocês podem ir atrás agora mesmo! – Sim, eu tinha essa vantagem, o sujeito havia aparecido para a polícia, ele se arriscou e agora isso iria custar sua vida, eu estava a um passo da vitória, ele podia fugir da polícia com seu poder de voltar no tempo, mas faria isso pra sempre.
– Não temos provas o suficiente pra ir atrás desse cara, ninguém o viu, ninguém o viu na ambulância nem no shopping. A descrição que pedimos às vítimas não bate, ninguém assim esteve lá. E mais, você não disse que antes de morrer, a enfermeira havia falado o nome ‘Marcelo’? Marcelo foi o rapaz encontrado morto nos bancos da frente da ambulância, será que ele não fez isso tudo e se matou? É uma hipótese. – Ricardo foi interrompido pelo homem bem vestido ao seu lado que tinha uma aparência frágil, era um senhor magrelo por volta dos 60 anos, tinha um bigode peculiar e uma aparência de alguém que não queria saber mais nada da vida a não ser viver em um chalé afastado do mundo.
– Isso é equivocado sargento. A equipe analisou já, o corte na garganta dele não veio de suas próprias mãos, ele foi morto, assassinado, assim como a enfermeira. Isso é um caso sério, a garota tem razão quando diz que devíamos colocar equipes com a descrição do cara que veio aqui, se não for ele, paciência, mas as chances são grandes, agora, o porquê dele querer você, filha, isso ainda não está claro.
– Eu disse, deve ser um stalker qualquer, já teve um que veio atrás de mim a um tempo, ele ficou me ameaçando por cartas e me observando de um carro na rua. – Eu não podia dizer, tinha medo das consequências, mas com a ajuda deles, será que eu poderia vencer mesmo? Mas e quanto à carta? Eu não podia deixar meus pais correrem esse risco... Foi quando eles chegaram na delegacia e entraram na sala onde eu estava. Claramente eles ficaram perturbados pelo que aconteceu, minha mãe começou a chorar enquanto me abraçava e meu pai queria logo que pegassem o ‘criminoso’. A polícia concordou em fazer uma busca pelo homem que foi até a delegacia, mas eu sentia que isso não daria em nada, a luta só acabaria quando eu o enfrentasse.
Meus olhos ficaram vidrados na tela do notebook, era segunda-feira, cinco da manhã, mas eu ainda não havia dormido. Estava procurando uma solução para todo aquele caos, Marco já havia saído do hospital e estava dormindo em sua casa, ele devia estar mal ainda pelo remédio, ouvi dizer que todos do Starbucks foram levados pra delegacia, havia realmente uma substância sonífera extremamente forte em meu café, provavelmente aqueles pobres funcionários vão receber a culpa, mas no momento, estava mais preocupada com meus pais, desde que cheguei em casa, minha mãe perguntava de hora em hora se eu estava bem, meu pai ainda estava em contato com os policiais para achar o ‘sequestrador stalker’, e eu, tentava descobrir alguma pista sobre aquele homem que queria me matar, eu só tinha aquele endereço que ele havia me passado, juntamente com o número, Rua Júlio Novaes, 342, eu tinha menos de 7 horas pra ir até essa casa e levar a chave, mas eu precisava realmente fazer isso? Como eu fui tola! Basta eu dar esse endereço pra polícia, certamente não é a casa do portador, mas tinha de haver alguma conexão com ele, se não ele não passaria esse endereço.
– Eu fui dar uma olhada nesse endereço, a casa tá vazia, abandonada, até meio destruída! – Heitor abriu a porta do meu quarto sem que eu percebesse, me dando um tremendo susto que me fez saltar para trás da cadeira, eu não tinha escolha se não naquele momento pedir por mais ajuda, já que Marco estava parcialmente fora do ‘jogo’, Heitor era um garoto de 19 anos, ele é um amigo virtual que conheci a anos, uma pessoa realmente boa em que eu posso confiar, sei vários segredos dele, e depois de contar toda a história, diferente de Marco, ele acreditou em tudo e ainda se ofereceu para me ajudar, ele parecia empolgado, para um nerd como ele, aquilo estava sendo um battle survive que ele nunca poderia ter sonhado acontecer em sua vida mundana. – E pesquisei nas listas telefônicas virtuais antigas, coloquei o endereço da casa na busca, e deu que uma tal de Regiane Albuquerque morava lá, eu fui pesquisar sobre ela depois, e você não acredita o que encontrei. – Heitor era um garoto de estatura baixa, sua magreza o fazia parecer bem inofensivo, mas diferente de sua aparência, era um garoto bem enérgico e falava muito, até demais pro meu gosto.
– Fala logo, não é hora pra ficar de mistérios e adivinhações.
– Essa mulher se matou a uns 3 anos! Ela foi encontrada pendurada no seu quarto, parece que ela fez isso porque não aguentava o marido. – Aquela revelação havia me pegado de surpresa, Heitor se mostrou mesmo alguém útil, com um computador na mão, sabia que ele era capaz de realizar várias façanhas.
– E quem é o marido dela?
– Na reportagem do site que eu vi, não foi divulgado seu nome, parece que ele se negou a dar.
– E os vizinhos? Eles devem saber dele!
– São cinco da manhã cara, os vizinhos devem estar todos no quinto sono, não seria nada legal apertar a campainha nesse horário pra perguntar sobre um defunto.
– Você tem razão mas não podemos mais esperar! Se soubermos o nome dele, podemos ir na polícia, vai ajudar nas investigações.
– Esse cara é idiota ou o que? Ele se expõe primeiro, depois passa um endereço em que poderíamos identificá-lo, assim parece que ele quer ser pego. – Naquele exato momento, meu e-mail havia me notificado de uma nova mensagem. Ao abri-lo, me deparo com algo que já estava mentalmente preparada esperando, uma mensagem de texto seguida de um vídeo, a mensagem de texto continha o seguinte:
“Que pena que nosso encontro hoje durou pouco tempo, não é? Tinha muito o que conversar, mas você teve que estragar tudo! Bem, eu não quis te apressar mas é que preciso mesmo dessa chave pra hoje sabe, estou com medo que outra pessoa tome a dianteira, então por gentileza, se não quer ver seus pais degolados no seu banheiro, sugiro que faça isso, e ah, só pra dizer, caso avise para a polícia sobre mim, eu vou mata-los, caso você peça ajuda, eu vou mata-los também, e caso você já tenha feito isso, darei a oportunidade de concertar o seu erro, eu sei que a polícia está atrás de mim, e você deve estar pensando agora que eu estou encurralado e que mesmo com as ameaças a polícia protegeria você e seus pais, mas está errada Naiara, porque esse vídeo que eu fiz irá lhe mostrar que você não tem escolha se não me entregar essa merda, então eu vou ter a sua chave e você vai dizer para a polícia que não era ‘eu’, vai dar uma descrição diferente pra eles, abra o vídeo agora, por favor.”
– Então esse é o bastardo? Devíamos levar pra polícia agora, eles podem rastrear pelo IP, não? – Heitor não parecia totalmente consciente sobre o que estava acontecendo naquele momento, foi quando respirei fundo e pensei com calma.
– Vamos ver o vídeo antes. – Eu dei dois cliques no vídeo anexado no e-mail:
– “Olá mundo. Meu nome é Lourenço, estou aqui pra revelar a todos que esse mundo está no fio da navalha, e o causador de todo esse desastre se chama Naiara Oliveira, moradora do apartamento Continente na rua Getúlio Vargas, ela tem uma chave que abrirá uma caixa com um vírus que se espalhará e acabará com metade da humanidade, e se acham que isso é loucura, pois bem, vou lhes mostrar algo ainda mais louco.” – No vídeo, Lourenço, como ele se auto denominou, estava em um quarto mal iluminado, na sua frente havia um relógio de parede com umas luzes azuis, a câmera focava ele e a porta, ele segurou em sua mão o que parecia ser um relógio de pulso dourado com um botão atrás, alguns segundos se passaram e um garotinho que tinha por volta dos 7 anos entrou em seu quarto, o garotinho parecia não entender a situação, mas naquele momento, o vídeo mudou para quatro diferentes câmeras instaladas naquele quarto, uma no canto da parede, que pegava todo quarto, outra no canto posterior, uma no centro de uma das paredes, e a outra com o Lourenço. A tela foi dividida em quatro partes, não havia cortes, e o tempo da gravação era o mesmo em todas, o garotinho se dirige até o guarda-roupa do quarto e entra no mesmo, Lourenço o tranca e joga a chave em cima da cama, naquele momento, Lourenço aperta o botão do seu relógio de bolso e os números da câmera voltam alguns minutos, dez, pra ser exata. As câmeras continuam filmando todo quarto, Lourenço parece não ter saído do lugar, e depois de exatos 9 minutos e 30 segundos, o garotinho que deveria estar no guarda-roupa, aparece novamente na porta, com a mesma expressão, ele segue os mesmos passos que deu anteriormente, abre o guarda roupa, mas antes de se fechar, Lourenço pega sua câmera e filma dentro do mesmo. Não havia nada lá. Eis que há o primeiro corte no vídeo, e Lourenço aparece na frente da câmera. – “Isso foi uma viagem no tempo, acreditem ou não. Assim como eu, a Naiara tem uma chave com o poder de infectar a humanidade, podem pensar que eu usei efeitos especiais e peço aos especialistas para analisarem, mas eles não encontrarão nada, então, se eu morrer ou for preso, sabem onde encontrar a Naiara. Você não vai escapar, sua vadia.”
– Ele está te ameaçando, não está? – Heitor me olhou com uma expressão irônica, ele parecia não ter acreditado totalmente em tudo que eu disse, por mais que estava me apoiando, era bom demais pra ser verdade.
– Não acho que podemos mais contar com a polícia. Ele está dizendo a verdade, se ele for pego o vídeo vai vazar, e eu estarei ferrada, por mais que ninguém acredite, os portadores vão acreditar e eles vão saber quem eu sou! Entenda, até agora meu nome não foi vazado nos jornais, meu pai conseguiu falar com a polícia pra eles encobrirem tudo que aconteceu, claro que eles anunciaram o sequestro mas não divulgaram os nomes, se até agora, esse cara foi o único que veio atrás de mim, creio eu que os outros ainda não saibam quem eu sou, então eu só tenho uma escolha, eu preciso mata-lo. – Essas palavras soaram naturalmente pra mim, eu não podia fugir daquela realidade, eu precisava vencer, mesmo que eu me transformasse em uma assassina.
– Então você pretende mata-lo sem contatar a polícia, né? Mas pense bem, seu nome já está rodado nas delegacias, se acontecer algo, você vai ser incriminada e os outros certamente vão te achar.
– Isso eu sei, por isso eu vou me mudar daqui quando acabar com esse miserável. Eu já planejei tudo, vou ficar na casa da Rafaela em Poços de Calda por uns meses, vou falar pros meus pais que não to bem pra ficar nessa cidade devido ao que aconteceu, por mais que eu sinta falta do Vitor, em 90 dias eu vou... – Naquele momento, notei algo importante. Heitor viu o vídeo, ele ouviu o Lourenço falar do vírus e da chave, eu havia notado até agora porque ele não me questionou, olhei em seus olhos e ele parecia sorridente como sempre, aquele garoto parecia estar sempre bem, não importa a situação. – Heitor, não acreditou no que ele disse né? – Eu tentei jogar verde para colher maduro.
– No vírus? Na verdade eu não acreditei em nada, quando você me disse da chave, eu acreditei que possa ter pessoas atrás de você, afinal, pode ser um daqueles reality shows insanos que existem por aí, algo assim é possível por mais que seja surreal, e considerando tudo que aconteceu até agora, as pessoas querem te matar, não sei porque pegou essa chave mas agora parece que vai ter que lidar com isso, e realmente se você falar pra polícia, os outros vão te achar, é melhor mesmo ir pra outro estado e se esconder.
– Então você não acreditou na viagem do tempo?
– Eu faço um vídeo daqueles em uma hora, por favor, estava até muito mal feito os efeitos, se eu analisar esse vídeo a fundo eu certamente acharei o corte, ele pode ser um profissional em edição mas eu também sou. – Isso não era uma boa ideia, já que Heitor era mesmo bom com esse tipo de coisa, mas fiquei aliviada por ele não ter acredito totalmente na história, eu quase me entreguei sem querer, se ele soubesse do vírus....ou melhor, se ele acreditar nisso, não sei o que poderia fazer. Eu estava sozinha, essa era a verdade.
– Eu já planejei tudo Heitor, eu vou até esse endereço, eu vou vencer esse bastardo e depois eu vou fugir, você me ajudaria? Sei que é pedir muito, você vai lidar com um assassino mas...
– Não me importo. Se for pra te ajudar, está tudo bem, eu já não disse? Isso é mais divertido que do que eu imaginei! – Naquele momento, percebi naquele ingênuo e doce sorriso de Heitor, traços de insanidade.
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