Lamplight

1 The words we said by dim lamplight


Notas iniciais
Olá! Well, eu gostei da minha cor. xD Para constar, pela primeira vez na vida, eu terminei um desafio bem antes do prazo. Isso me deu tempo para recorrer a uma beta (finally!) que fez um trabalho maravilhoso. ♥ Só queria dizer isso mesmo. Boa leitura~

Carla era a garota que ela conhecera sob os focos de luz âmbar dos postes de luz.

Amélia estava acostumada a levantar-se no meio da noite que virava madrugada, abrir uma fresta na persiana e esperar que Carla rasgasse a inércia da rua fresca e deserta. Carla, vestindo o uniforme da escola ainda, com sua mochila laranja batendo abaixo da cintura pelas alças compridas demais.

O cabelo castanho-claro quase sumia na luz amarelada da rua, desmanchando-se do coque na correria até o portão. Havia floreiras sobre o muro branco da casa de Carla, a sombra delas às vezes era muito longa e a camuflava no breu. Amélia achava incrível como ela conseguia se esgueirar como um gato da casa de Lucas – o idiota que se dizia namorado dela – para o portão no muro das floreiras tarde da noite, e, ainda assim, parecer bem-descansada e impecável na manhã seguinte no colégio.

Lá havia outros focos para Carla se enfiar, com as camisetas do uniforme sempre rasgadas nas mangas, deixando os ombros à mostra. Havia outros olhares para segui-la em suas correrias, em seus pulos que desafaziam seus penteados e em sua mochila laranja com um botom exageradamente grande da banda de Lucas – Pé de Cabra não era bem um nome muito inteligente para uma banda de punk-rock.

Amélia sentia-se numa competição, perdendo. Por isso desviava os olhares de Carla sempre que precisava e limitava-se a cumprimentá-la apenas na entrada e na saída do colégio. Sua carteira ficava ligeiramente longe da fileira da porta – do grupinho de Carla. Quando o clube de teatro promovia alguma apresentação, ou convidava os outros estudantes para assistir um ensaio, Amélia se sentava nas fileiras do meio para o fundo do auditório, desejando que a escuridão fosse densa o suficiente para fazê-la desaparecer com sua pele escura.

“Isso não resolve nada, você sabe”, Guilherme cruzava os braços e ajeitava os óculos sempre que Amélia pedia que fossem mais para o fundo. Ela fingia não ter ouvido, mas comprimia os lábios, angustiada.

Não que Carla fosse procurá-la na plateia no meio de suas cenas tão vívidas e tocantes, quando os holofotes de luz âmbar, amena e aconchegante, estavam a mantendo nas alturas. Mas nunca se sabe.

Ela continuou se escondendo por detrás de seus cachos rebeldes e crespos por muito tempo. Em dois anos, algumas lâmpadas dos postes de luz queimaram, e Amélia esteve notificando a prefeitura para trocar cada uma delas. Em dois anos, o clube de teatro apresentou muitos ensaios e peças. E enquanto Carla continuava sob os focos das lâmpadas âmbar, dando sorrisos e fugindo do colégio para a casa de Lucas, ela permanecia no escuro – as persianas do quarto e de seus cabelos cheios fechavam-se ao menor risco de contato visual.

No terceiro ano, Carla invadiu seu círculo apagado e monótono de existência. O clube de teatro procurava por novos membros. O sorriso dela de arrancar suspiros estava ali, os ombros aparecendo morenos e as mãos cheias de rabiscos de caneta ocupando o centro de sua carteira. Amélia gaguejou, ponderou se corria para o banheiro ou simplesmente dizia não. Mas Guilherme cutucou suas costas discretamente e um sim escapou de seus lábios.

Ela guardaria muito bem a lembrança dos cantos da boca de Carla se erguendo e alargando o sorriso. “Maneiro, você vai adorar”, era uma promessa em que poderia acreditar facilmente.

No terceiro ano, Carla a tomava pela mão eufórica e a arrastava para o auditório no prédio três. Amélia a ajudava a ensaiar os roteiros e também a fazer o laboratório de estudo do personagem, e as frestas nas persianas aos poucos se tornavam cada vez maiores. Porém, enquanto Carla ganhava aplausos, flores e pedidos de fotos sem sair de seu palco, ela continuava no escuro, agora atrás das cortinas de veludo.

“Pelo menos você está mais próxima dela”, Amélia não cansava de repetir para sua imagem no espelho do banheiro. Os ensaios do clube terminavam, ela acompanhava Carla até a casa de Lucas e então rumava para casa, indo repetir sua ladainha entre paredes seguras.

Perto da procissão de adeus, canudos, becas e capelos, isso era tudo o que Amélia tinha para consolar-se. Assim, a notícia do acampamento de formatura foi recebida sem entusiasmo algum. Mas Guilherme a fez inscrever-se, garantindo que ela precisava divertir-se quando podia, e que haveria outras Carlas mais acessíveis na faculdade.

“É um adeus”, Amélia sussurrou para si mesma dentro do ônibus da viagem. Seus cabelos curtos e volumosos iam amarrados num rabo alto, acompanhados por shorts e regata – as persianas estavam ficando para trás junto com a paixonite do ensino médio. E, pelas horas que levaram para chegar ao seu destino, ela realmente acreditou que poderia apagar suas luzes sobre Carla. A voz de Guilherme cantando Madona e falando sobre Teen Wolf no banco ao seu lado quase a fez se esquecer de que havia uma garota com um namorado desagradável, cabelos claros e mochila laranja no mesmo espaço que ela.

Então veio a noite. Os violões soando aconchegantes ao redor de fogueiras, danças de passos frouxos e risos altos. Carla não tomou parte na cantoria, nem nas brincadeiras – por coincidência, Lucas também não. Amélia enfurnou-se em sua cabana junto com o primeiro grupo de alunos, estupidamente atingida por algo que já era previsto.

Na madrugada, a luz âmbar de seu lampião ainda estava acesa e ela ainda estava encarando a armação da barraca. Dedos apareceram na aba da abertura da barraca, pingentes de pulseiras tilintaram. Carla pulou para o lado de seu saco de dormir, os olhos avermelhados e as bochechas úmidas.

“Oi”, a voz embargada soava terrivelmente sincera, sem atuação.

Os lábios de Amélia tremeram de frio e de excitação – aquela doce, que faz desejar abraços. Os dedos passearam pelas trilhas molhadas no rosto de Carla, afagando a pele macia e marcada por manchas de espinhas.

“Oi”, ela deixou o conforto do saco de dormir de prontidão.

Carla sorriu triste e ferida. Amélia não perguntou o porquê das lágrimas, nem da invasão repentina – imagens de Lucas estragando a noite dela corriam por sua mente. Retribuir o sorriso foi mais sensato e leve do que fazer perguntas. A falta de palavras era tênue.

Os dedos de Carla foram parar em seu braço quando se viraram uma para a outra. Demorou longos minutos, mas as pernas iam se encaixando com resvaladas de pele fria. A distância ia se extinguindo, como se aquilo fosse o certo a se fazer.

Amélia sabia que era por carência. Mesmo assim, não conseguia deixar seu devoto.

“Isso não resolve nada, você sabe”, Guilherme estava ecoando por seus ouvidos. Ela decidiu que o amigo tinha razão.

Carla soprou de leve em seus lábios, provocando-a sutilmente. A distância sumiu. Gradativamente, os lábios encontraram-se sedentos e molhados.

Ela era a garota que Amélia desvendara sob o foco de luz âmbar do lampião.

Notas finais
Links para "Lamplight": Original - https://www.youtube.com/watch?v=M1LrLEcrawc Cover - https://www.youtube.com/watch?v=z_y_UmagoyY Beijunda. ;* Lollallyn.~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!