Era provável que a maioria dos alunos fizesse alguma coisa após as aulas, mas tenho certeza que Karla Sellivem não é um deles.

Quando o ultimo sinal tocou eu estava a esperando na frente da sala novamente de braços cruzados como minha irmã diz “pose de bad boy” Karla me olhou cansada e desanimada e se aproximou.

- Vai pra onde? – Perguntei.

- Pro quarto. – Ela respondeu andando em direção a saída do prédio.

- Tecnicamente eu tenho mais duas horas pra fica no seu pé, então eu tenho que ir junto. – Olhei no relógio.

- Achei que tinha dito que tinha que ficar oito horas seguidas no meu pé. – Ela parecia sem entender.

- Digamos que ninguém precisa saber que eu estou cabulando meu trabalho. – Pisquei.

Fomos em direção ao dormitório feminino. Entramos em seu quarto, ela jogou a bolsa e cima da cama e eu me sentei na poltrona perto da janela. Olhei por ela e havia varias alunas entrando e saindo do prédio. Ela começou a rir e eu desviei meu olhar pra ela sem entender o porquê do riso, ela tava sentada na cama com um all star na mão e o outro no pé, quando percebeu que eu estava a olhando ela parou de rir tirando o outro par e se ajeitando na cama. Ela pegou a bolsa e tirou os livros e começou a Lê-los, ou tentou.

- Ok, eu não deveria ter fugido por tanto tempo, deveria ter gastado meu dinheiro logo e ter voltado. – Ela dizia pra si mesma, dei risada da sua observação, pelo menos ela sabia que não deveria ter feito
aquilo.

- É sempre assim, sempre se arrepende por algo que fez. – Disse sem a olhá-la.

- Do que se arrepende? – Karla perguntou.

- Da mesma coisa que você. – Encarei o nada.

- Você fugiu da escola? – Ela perguntou ficando de joelhos na cama e se aproximando se mim.

- Fugi de casa quando tinha uns doze anos, quando minha mãe me achou me mandou pra um
colégio militar. – A olhei. – Ela achava que se me deixasse em uma escola “normal” eu poderia piorar e virar um ”marginal traficante”. Depois que acabei o colégio entrei pro FBI.

- Acabou gostando? – Ela perguntou curiosa.

- Entrei porque me indicaram para lá, eu tenho mira e atiro bem... Até então o meu dever era prender bandidos, ai aparece seu pai com essa carta e a mãe de Tomas me coloca no caso. – Respirei
fundo. Bem ela não sabia que o pai dela era do FBI e eu não podia contar então algumas pequenas mentiras seriam introduzidas nas nossas conversas.

- Então o que você queria era estar lá fora atirando em bandidos? – Ela arqueou a
sobrancelha.

- Não, a minha vontade é de estar de férias que esta vencida há dois anos. – Respondi com meio sorriso.

- Quantos anos têm? – A garota jogou as pernas para fora da cama sentando de frente para mim.

- Vinte e três. – Respondi, meu olhar estava preso nas pernas dela, ela tinha umas pernas bonitas, e... Dava pra ver a calcinha dela que era rosa.

- Há quanto tempo esta no FBI? – Ela cruzou as pernas e eu respirei fundo tentando desviar o olhar, mas meus olhos continuaram no mesmo ponto de antes, não respondi de imediato, primeiro desviei os olhos e depois respondi.

- Quatro anos. – Karla balançou a cabeça em um sim concordando e puxou a apostila dela voltando a ler.

- Porque essas pessoas não podem falar minha língua? Eles têm que colocar essas coisas estranhas nos livros e nós fazer responder o que são elas? – Ela perguntou revoltada. – Eu já tenho os meus próprios problemas não posso ficar resolvendo os dos outros também.

A olhei me levantando e pegando a apostila de sua mão. Li um pedaço da questão e tive vontade de rir. Como ela não sabia aquilo?

- Você aprendeu isso quando entrou no ensino médio. – Continuei lendo. – Era pra você saber.

- Eu nunca fui uma boa aluna, nunca gostei de estudar e alem do mais, meu tempo era bem gasto em quebrar vidros das salas de aula, jogar cimento do ventilador, Jogar bolinhas de papeis em Tomas, sai por ai quebrando o salto dos sapatos das meninas, e... É só. – Ela inclinou a cabeça pensativa.

- Colocar fogo na cozinha, esvaziar extintores, usar a piscina no fim de semana que é proibido, trazer bebida alcoólica e embebedar seus amigos... Acho que agora é só. – Ela começou a rir e eu a encarei sério.

- Eu tinha me esquecido dessas coisas. – Ela ainda estava rindo. – Andou lendo minha ficha?

- Fui obrigado, tenho que saber com quem estou lidando... – Ela parou de rir por alguns breves segundo, mas não demorou muito a voltar.

- Então se esqueceram de acrescentar o inicio de incêndio na floresta... E sobre o acidente da piscina... – A olhei sem entender, essas eram duas coisas que eu não estava sabendo. – É eu afoguei uma garota na piscina uma vez... Não gostava dela e não tava a fim de ter ela como minha cunhada.

Isso me assustou um pouco, com quem eu estava mesmo me lidando? Com uma garota de dezessete anos, ou uma psicopata?

Devolvi a apostila a ela e lhe dei as resposta.

– A um é a “A” a dois é a “D” e a três é a “F”.

- Meu Segurança é um gênio. – Ela disse animada anotando as respostas.

- Como você chegou ao ultimo ano?

- Isso foi à parte mais fácil, Sempre tive amizade com nerds pra quando chegasse às provas finais eu tirava uma boa nota. – Ela sorriu convencida.

Dei risada e voltei a me sentar na poltrona, em cada dois minutos ou até menos ela me perguntava algumas coisa sobre a lição, eu tava mais pra professor naquele instante do que pra segurança. Ela parou de escrever e ficou me olhando por alguns minutos como se quisesse perguntar alguma coisa, mas desviou o olhar e voltou a escrever.

- Ok, chega, não sirvo pra isso. – Ela fechou a apostila encostando a cabeça na cabeceira da cama.

- Você vai ter que se recuperar, perdeu muito tempo de aula. – Disse mexendo no celular.

- Eu sei. Só que não vou entrar no ritmo tão cedo. – Ela pegou o notebook na mão e prendeu sua atenção ali.

Algumas horas mais tarde o sinal do jantar havia tocado, Karla levantou desesperada colocando o tênis quase caindo o que me fez rir, felizmente ela não percebeu. Eu não queria correr o risco de perder alguma parte do meu corpo se ela tivesse visto.

Entramos no refeitório e eu sorri animado, não teria mais que esperar ela jantar e ir dormir pra eu jantar.

- Agora eu posso ser uma pessoa normal e jantar no horário certo. – Disse animado olhando o que havia no
“cardápio”.

- Rapunzel, Rapunzel, jogues seus tranças Rapunzel. – Tomas berrou entrando no refeitório.

Karla deu risada.

- E como passou à tarde princesa dos cabelos verdes? – Tomas perguntou se aproximando.

- Tentando fazer a lição da Senhora Montes. – Respondeu respirando fundo.

- Se saiu bem?

- Allan se saiu ótimo me passando as respostas. – Dei risada e ela me olhou rapidamente.

- Isso não vale é trapaça. – Tomas disse achando o cumulo.

- Fiquei alguns meses fora, mereço algum tipo de ajuda. – Ela mostrou a língua.

Pegamos as bandejas e Karla tomou a frente indo pra mesa mais distante que podia ir.

- Porque se afasta tanto? – Ela se sentou e eu sentei ao seu lado.

- Porque não me dou bem com eles. – Ela fez um sinal com a cabeça pras pessoas que estavam
na sua frente.

- Pelo que eu sei, as meninas daqui te vêem como uma ameaça. – Disse começando a comer.

- É porque eu sou uma. Todo que eu pude aprontar com elas eu aprontei. E não me arrependo faria de novo. — Seu rosto estava sério.

- Por quê?

- Ao contrario do que todo mundo pensa aqui, eu tive uma amiga, ela dividiu um dos quartos comigo quando tinha catorze anos. O problema é que ninguém gostava dela e ela não tinha a ignorância que eu tenho e por isso todo mundo se aproveitava dela, então de tanto isso acontecer ela se embebedou e se jogou da janela do ultimo andar, eu estava dormindo na hora, sabia que ela estava bebendo, mas não tinha
idéia de que iria se matar... – Uma lagrima escorreu pelo seu rosto e ela a limpou rapidamente com a esperança de que não visse. – Ela se matou ninguém fez nada todo mundo que se aproveitava da bondade dela, dizia que era uma perca de tempo se lamentar por ela, e foi ai que eu comecei a aprontar com elas.

- Vingança. – Disse balançando a cabeça em um não.

- Me colocaram em um quarto sozinha por causa disso. – Ela deu risada. – A maioria das meninas divide os quartos, eu acho que sou a única que tenho um quarto só pra mim. – A garota comemorou.

- Sorte a sua, quando eu estudei dividia um quarto pra dez caras e um banheiro. – Ela deu risada do meu comentário.

- Não quero imaginas situação desse banheiro. – Ela fez uma careta.

- Não era das piores, cada dia da semana um de nós era responsável por limpa-lo. – Disse dando de ombros.

- Tinha mulheres nessa escola também? – Ela brincava com a comida.

- Sim, mas era minoria e éramos separados como aqui. – Respondi. – Apesar de que não adiantava muito.

Ela soltou uma gargalhada.

- Aqui também não, já invadi o dormitório masculino centenas de vezes. – Ela disse com meio sorriso. A encarei me perguntando o que ela fazia lá, pergunta idiota essa, eu sabia o que ela ia fazer lá qualquer um
que escutasse isso sabia, mas desfiz o olhar em segundos. – As festas acontecem lá, e muitas poucas garotas são convidadas, e eu sempre fui uma delas.

- Então suponho que os garotos também entram no dormitório feminino?

- É muito mais comum do que você pensa. Metade das garotas daqui recebe visitas durante
à noite...

- E você é uma delas. – Afirmei.

- Minhas únicas visitas masculinas foram do meu irmão e de Tomas depois que nós separamos. – Ela parecia incomodada com o assunto. – E você.

- Vocês namoraram? – É lógico né, ele a chama de Rapunzel por que motivo.

- Ficamos juntos durante um mês. – Ela respondeu.

- Agora eu entendi porque ele te chama de princesa. – Ela começou a rir e eu fiquei sem entender.

- Não é por isso. Foi uma peça teatral que deu errado bem no dia da apresentação. Eu já tinha o cabelo verde mesmo assim me colocaram para fazer a Rapunzel, no dia Tomas passou mal e eu fiquei lá na torre esperando e o espero até hoje. – Ela disse rindo.

- RAPUNZEL. – Tomas berrou do outro lado do refeitório.

- Tá vendo o que eu tenho que agüentar, depois me pergunta por que eu fugi. – Ela revirou os olhos me fazendo sorrir, ela ficou me olhando um tempo e respondeu Tomas. – Fala príncipe de araque.

Tomas veio parecendo uma criança que acara de ganhar um brinquedo novo.

- Rafael quer te ver. – Tomas disse com uma careta.

- Manda ele se foder. – Ela disse sem pensar duas vezes.

- Sem palavras de baixo calão, por favor. – Tomas pediu.

- Não tô a fim de ver ele, quero que ele morra, eu o odeio pelo o que ele fez, e não aceito as desculpas dele. – Ela disse virando o copo com suco de laranja como se fosse bebida alcoólica, eu não duvidaria se fosse.

- Você é má. – Tomas disse se encolhendo. – Vai ter uma reuniãozinha no meu quarto hoje a noite se quiser ir.

- Tá. – Karla sorriu.

Tomas beijou a bochecha dela e voltou pro outro lado do refeitório, eu fiquei a olhando prestes a dizer algumas coisas que não deveria.

- Que?

- Acho melhor não ir. – Disse com cuidado.

- Eu não vou. – Ela empurrou a bandeja pra longe. – Rafael vai estar lá e eu não quero vê-lo se não acerto uma caneta no coração dele.

- Uma caneta? – Arquei a sobrancelha.

- É por falta de arma. – Ela respirou fundo.

- O que ele te fez? – Perguntei sabendo que não deveria ter perguntado.

- Me traiu. – A resposta saiu com raiva.

Fiz uma careta e fiquei quieto. Isso pra uma mulher é complicado ela se acha incapaz de fazer um homem se sentir bem quando é traída.

- Você carrega uma arma, certo? – Karla perguntou animada.

- Sim, mas não vou entregá-la a você. –A olhei.

- Então mata ele por mim? – Ela disse com um sorriso de psicopata.

- Não, e tira esse sorriso psicótico do rosto. – Ela rio.

- A regra seria eu te odiar por estar no meu pé, mas sei lá você até que é legal. – Ela escorregou na cadeira.

- Apesar do seu cabelo verde, seus quatro piercings e suas meias e all star você até que é legalzinha. –Disse com meio sorriso.

- Me julgando pela aparência né? – Ela riu novamente. – São seis.

- São seis o que? – Perguntei sem entender.

- Piercings.

- Visivelmente são quarto. – A olhei procurando os outros dois.

- Tenho um no septo, mas ele esta para dentro e outro no umbigo. – Karla apontou pro nariz e depois pra barriga.

- Tem mais alguma coisa escondida em você? – Eu perguntei me perguntando o que mais ela teria escondido. Ela riu mordendo a língua.

- Tenho uma tatuagem que ninguém nunca viu. – Ela piscou e sussurrou em seguida. – Só eu e a tatuadora.

- Desconfiava. – Disse com meio sorriso curioso pra saber a onde ficava essa tatuagem, vários lugares me vieram na cabeça, vários mesmo, um mais improvável que o outro, eu queria pergunta a onde, mas nós tínhamos um limite de intimidade e não era bom ultrapassar ele.

Depois do jantar eu a levei de volta pro prédio, Zoe estava na vigilância do prédio, ela sorriu e eu sorri de volta, deixei Karla no quarto e desci pra ir pro meu quarto.