Karla ligou o radio e eu a encarei sério, aquele radio nunca, nunca funcionava comigo.

- Que?

- Nada. – Respondi.

- Ah tá. – Ela revirou os olhos.

Ela trocou de radio umas quatrocentas vezes até achar algo que conhecia e que eu também conhecia digo de passagem, um sorriso surgiu no rosto dela quando Beatles começou a tocar, e começou a cantar junto e eu estava fazendo o mesmo sem perceber.

- Não sabia que gostava de Beatles...

- Há muita coisa que não sabe sobre mim meu anjo. – Disse olhando a pista.

- Ok, me senti mal agora.

- Não se sinta, há muitas coisas que você não sabe sobre mim, quanto as que eu não sei sobre você. – Disse dando de ombros.

Ficamos um tempo na estada até que entramos na cidade, Karla começou a estralar os dedos e balançar a perna freneticamente o que tava me deixando nervoso.

- Tá nervosa?

- Imagina.

- Então vou te deixar um pouquinho mais... É na próxima rua. – Apontei com o dedo, e ela fez cara de choro na hora. – Respira fundo.

- Não vai adiantar. – Fiz bico.

Virei à rua e estacionei na frente da casa Azul com alguns detalhes em branco, a onde mais da metade da minha vida.

- Chegamos. – Karla escondeu o rosto com as mãos e respirou fundo algumas vezes, eu achei que ela não estava tão nervosa, mas ela estava quase surtando. — Preparada? – Perguntarei a olhando.

- Não. – Ela respondeu olhando no espelho e escondendo o piercing do septo.

- Ela não vai te matar... E outra, estamos aqui por outros motivos.

- Tá, essa parte você não precisava me lembrar. – Ela respirou fundo mais uma vez.

- Vamos. – Sai do carro dando a volta e abrindo a porta pra ela.

- Hey, eu sei fazer isso. – Ela disse brava.

- É sério, eu não entendo vocês mulheres, se não abrimos a porta do carro pra vocês se sentem mal amadas, se abrimos vocês acham que nós achamos que vocês não tem capacidade pra isso. – Revirei os olhos.

Ela deu risada e eu a puxei pra fora do carro. Passamos pela entrada e fomos até a porta, bati a mão na maçaneta da porta e a abri.

- Vai entrar assim, sem mais sem menos? – Ela perguntou preocupada.

- É claro que vou, é a casa da minha mãe. – Entrei na casa e vi que não tinha movimento na sala, Sammy não deveria estar em casa e minha mãe provavelmente estava na cozinha. — Mãe?

- O que estava fazendo aqui? – Ela apareceu na sala nervosa, fodeu, mas quando ela viu Karla se acalmo. – Você deveria estar trabalhando.

- É bom te ver também. – Bufei. – E tecnicamente eu estou trabalhando, não quer perder seu filho quer? Porque se quiser eu volto pra casa e sou assassinado por alguém que atrás dela? – Apontei pra Karla que ficou sem jeito.

- Se metendo em encrenca de novo? – Ela perguntou preocupada.

- É meu trabalho. – Respirei fundo. – Karla essa é minha mãe Rose, mãe essa é a garota que eu estou tentando proteger a um pouco mais de um mês, Karla.

- Olá, querida espero que pelo menos uma vez Allan esteja tratando uma mulher como deve ser tratada. – Só minha mãe pra dizer uma coisa dessas sorrindo ainda.

Minha mãe tinha quarenta e três anos, não pareia, teve Samara com dezenove anos e eu com um pouco mais de vinte. Ela adorava crianças, quando eu tinha cinco anos o pirralho do Andersom nasceu atrapalhando minha vida e roubando meu quarto, dois anos depois veio a Samantha, então finalmente meus pais pararam de querem ter mais filhos, eu achava que só dois estava bom né, mas quem sou pra dizer alguma coisa não é? Quem sustentou foi meu pai e quem pariu foi minha mãe.

A única coisa que eu tinha da minha mãe era o cabelo, que por causa dos anos começaram a clarear.

- Pelo menos ele não me deixou morrer. – Karla me olhou brevemente.

- Sente-se. – Karla estava congelada tive que empurrá-la pra se mover, o que fez ela me olhar brava.

- Estão com fome? – Minha mãe perguntou. Karla respondeu com um não de cabeça.

- Eu tô. – Olhei pela janela e vi Sammy parada no jardim com outra menina conversando.

- Você sempre tá com fome moleque. – Ela se virou de costas e foi pra cozinha.

- Amor maternal. – Disse me largando no sofá.

Karla escondeu o rosto nas mãos.

- A onde foi que eu fui me meter? – Ela perguntou.

- Na casa da minha mãe. – Respondi rindo.

- Não isso. – Ela me olhou. – Se eu não tivesse voltado tivesse ficado com a Sra. Thonsem eu estaria bem, não teria nem um maníaco psicopata tentando me matar, vai saber eu por que, você não estaria nessa confusão, teria tirado férias e além de tudo estaria bem tranquilo em sua casa bebendo e com alguma garota sem problemas. Minha mãe tava certa, eu só sirvo pra arruma problema. – Havia lagrimas em seus olhos que rolaram pelo rosto, estiquei o braço e as limpei.

- Mas foi graças a isso que eu te conheci. – beijei sua testa e me afastei. – Não fiquei se culpando porque tem alguém atrás de você, e de uma maneira ou de outra eles iriam me colocar em outro caso, então que bom que foi esse. – Ela me olhou e forçou um sorriso.

Minha mãe voltou da cozinha e me entregou uma gororoba que depois de anos ainda não sabia o que era, às vezes eu não fazia questão de saber.

- Então do que precisão? – Ela perguntou.

- Precisamos de uma noite pra achar uma cidade segura pra levar a madame pra bem longe. – Disse com a boca cheia.

- Não fala com a boca cheia Allan. – Minha mãe disse brava e Karla começou a rir.

- Me desculpa, mas é que lembra muito minha mãe falando com meu irmão. – Ela disse sem graça.

- Karla pode ficar no quarto de Samantha, e você fica no seu quarto. – Ela disse me encarando.

- Ele não é meu há muito tempo. — Disse pensativo.

- Mãe... – Sammy entrou em casa berrando. – Aquele carro não é do... – Ela olhou Karla sem entender e olhou pra mim e sorriu. – Hey, você veio.

Levantei-me e a abracei.

- Tenho uma coisa pra você Sammy. – Puxei a corrente do bolso da calça e entreguei a ela.

- Você arrumou. – Ela pegou a corrente da minha mão e me abraçou novamente.

Sammy era esquisita igual Karla, tinha o cabelo cumprido e repicado, olhos sempre pretos pela maquiagem, ela tinha os mesmos olhos que o do meu pai e que eu tinha. – Obrigada... Achei que não viria para casa tão cedo.

- Não ia, agradeça a Karla, ela me fez vir. – Apontei pra Karla que acenou com a mão.

- Gostei do seu cabelo. – Ela disse sorrindo. – Bem legal, quando você solta fica rosa, né?

- Er... É. – Ela disse sem graça porque minha mãe a olhava.

- Vermelho cereja. – Disse pra mim mesmo.

- Hã? – Sammy me encarou.

- Porque não corrigiu ela também? – Perguntei ofendido.

- Porque ela esta dizendo que meu cabelo é rosa de dois em dois minutos, e de acordo com o Jeph é vermelho cereja, pra mim é vermelho, pro Tomas é uma cor ai. – Ela disse rindo. – E outra ele desbotou então esta rosa.

- Mãe tá vendo eu tenho que aturar essa garota há um mês, oito horas por dia. – Disse fazendo cara de sofrido, minha mãe riu e saiu da sala, que mãe é essa? — Não vai me defender? Que mãe é essa?

- Desde quando você precisa ser defendido? – Ela me olhou e sorriu ironicamente.

Isso que eu ganho sendo um filho exemplar.

- Você tem um piercing no septo. – Sammy afirmou olhando Karla.

- Tenho. – Ela disse meio assustada.

- É o que mais ela tem. – Revirei os olhos e me sentei novamente.

- Não fique depredando minha imagem assim pra sua irmã. – Karla me encarou séria.

- Quantos tem?

- Seis. – Karla respondeu baixo.

- Legal eu tenho dois. – Sammy respondeu no mesmo tom de voz. – Mas minha mãe é contra e não sabe... Ninguém disse nada quando você apareceu com eles?

- Criticas ruins de todos, boas de alguns, meus pais foram os últimos a ver, meu pai quase me matou, minha mãe fez de conta que não viu e meu irmão pulou de alegria e foi fazer o mesmo. – Ela disse pensativa.

- Com se você ligasse muito para que os outros dizem. – Revirei os olhos mais uma vez.

- Hey, eu ligo para o que o Tomas diz e o que vo... — Ela não terminou o que ia dizer, mas eu suspeitava do final. – Só porque eu ignoro a maioria dos comentários não quer dizer que eu não ligue para eles.

- Isso é novo pra mim... Sammy a Karla vai ter que dividir o quarto com você hoje.

- Hã? – Sammy se virou pra mim sem entender. – Achei que você dois... Ok, eu deixo você ficar com a cama de cima. – Minha irmã sorriu.

- A mãe não mandou tirar a beliche quando a Samara ficou grávida? – Perguntei.

- Como se ela entrasse no meu quarto, né? – Sammy revirou os olhos e deu risada. – Privacidade. Ela não te colocou pra dormir no porão de novo né?

- Felizmente não. – Comemorei. – Vou dormir no meu quarto.

- Andersom não vem faz três semanas.

- Ou ele gostou mesmo de lá, ou deve estar com sérios problemas para levantar. – Karla me olhou e eu sorri. – Nos primeiros dias foi difícil até pra dormir.

- Você com dificuldade pra dormir? – Sammy deu risada. – Qual é se deixarem você dorme de pé.

- Faz um terço do que nós fazemos em treinamento e depois me fala se você consegue dormir com a dor que sente no corpo. – Sorri sem humor.

- Você é chato às vezes sabia? – Sammy mostrou a língua e se levantou do sofá. – Vem Karla eu vou te mostrar o quarto.

Karla me olhou meio desesperada e eu fiz sinal pra ela ir.

Ela e Sammy subiram as escadas e sumiram por elas.

— Tirando os piercings até que ela tá bonita. — Minha mãe se sentou ao meu lado no sofá. E eu me perguntei da onde é que ela tinha saído. — A ultima vez que a vi ela tinha se muito oito ou nove anos.

— E quando foi isso? — Perguntei a encarando surpreso.

— Ação de graças. — Ela respondeu.

— Então eu posso te pergunta por que eu não me lembro dela? Porque se ela tinha oito eu deveria ter uns catorze ou quinze anos...

— Você estava ocupado de mais correndo pra cima e pra baixo atrás da 'Vivi'...

— Mãe... — Ela me encarou séria.

— Ela era bem quietinha, ficou ao lado de Charles o tempo todo... Já nessa época deveria ter trauma da mãe que tem. — Ela deu de ombros se levantando e indo pra cozinha, fiquei de boca aberta no meio da sala e me levantei indo atrás dela.

— Agora me explica isso direito, da onde conhece Charles? E mais da onde conhece a mãe dela? E a onde foi esse ação de graças que eu não tô lembrado...

— Allan eu não quero te mandar calar a boca, então fica quieto. — Me mando cala a boca do mesmo jeito. Revirei os olhos e ela me olhava séria. — Seu pai e Charles são amigos, estudaram juntos, isso fez com que eu conhecesse Charles, ele foi padrinho do meu casamento, conheço a mãe dela porque eu e seu pai fomos padrinhos de casamentos deles, ela estava com uma barriga enorme quando casou, e até hoje todo mundo afirma que ele só se casou com ela por causa dos gêmeos. E no ano que eles vieram, foi aqui em casa...

— Não gostei de saber disso. — Disse pra mim mesmo.

— Charles sabe? — Ela perguntou de costas pra mim.

— Sabe do que? — Perguntei sem entender.

— Que você tá com a filha dele, não protegendo, igual um casal. — Ela disse ainda sem olhar pra mim.

— Que tipo de telepatia que você tem?

— Achei que ia me chamar de senhora novamente...

— Não quero ter uma faca cravada no meu coração. — Disse me sentando na cadeira do balcão da cozinha.

— Não tenho telepatia, só que eu te conheço há muito tempo, fiz você se lembra...

— Então podemos poupar esse assunto? — Perguntei fazendo careta.

— Como se você não fizesse isso. — Ela virou pra me encarar.

— É, mas felizmente eu não tenho filhos, e não fico falando com eles como foram feitos... Tá mãe continua! — Pedi.

— Você olha pra ela como olhava pra Viviane, aquele famoso olhar de bobo apaixonado. — Ela sorriu e eu revirei os olhos, eu merecia uma mãe dessas. — Se ela tirar aqueles dois piercings da boca vai fica mais bonita.

— Deixa ela com os piercings. — Ri. — Eu vou ver a situação do meu quarto.

— Se tiver bagunçado o arrume. — Ela disse brava.

— E olha que eu nem moro aqui. — Disse saindo da cozinha.

Notas finais
Gente linda do meu coração, como vão?
Hoje é o ultimo dia de 2011 e eu vim aqui fazer atualização só pra desejar um Feliz 2012 pra vocês.
Que vocês comam muito, encham a cara e sejam felizes nesse próximo ano que tá pertinho de chegar *-*
Boas festas e um prospero ano novo *O*
Beijos da tia Keller *-*