Ladybug: uma história da Cinderela
1 O começo de tudo
Notas iniciais
Adrien
Eu nunca gostei da minha posição de príncipe. Muitos invejosos almejavam o poder, riqueza e influência que minha família possuía, porém devido à nossa posição eu sempre fui muito limitado na minha liberdade de ação. Temos que seguir as leis com mais rigidez que todos e manter uma imagem popular para que o povo não proclame a república.
Além disso, as relações são todas políticas e com interesses por trás, provavelmente nem poderei escolher minha noiva. Meu pai, o rei, está muito interessado na duquesa Lila para o posto. Nem conheço a mulher ainda, entretanto já sei que não é meu desejo unir-me a ela. Gostaria de casar por amor.
Outro fator que também sempre me chateou foram as aulas intermináveis. Além de dominar a grade comum curricular do reino, precisava de diversas aulas extras de idiomas, política, economia, administração, cultura, etiqueta… Na maior parte do tempo sentia-me sobrecarregado e raramente conseguia divertir-me.
Eu já fui bem em todos os testes, já era um adulto. Qual momento seria melhor para declarar minha formatura? Oh, se ao menos eu tivesse amigos de verdade em vez de aliados interesseiros… Sentia que não aguentava mais, precisava refrescar as ideias. Por isso, decidi que partiria.
No dia da fuga, acordei tão desanimado como sempre. Não havia nada de novo, só um roteiro muito chato a seguir. Participei de todas as aulas e reuniões do cronograma e tentei dar o máximo de mim, mesmo que meu máximo da época fosse o mínimo de outrora. Aquele também foi o dia de meu primeiro encontro com a duquesa Lila.
Minha primeira impressão dela foi a pior possível. A mulher era uma pessoa falsa, que a todo momento dizia me amar quando claramente o verdadeiro objetivo era conseguir a coroa. Achei-a horrível e jurei comigo mesmo que impediria nosso casamento a todo custo.
Quando a noite chegou, eu realmente estava esgotado. Só aguentara tudo aquilo pensando na saída que pretendia fazer mais tarde. Fiquei pensando em minha falecida mãe e se ela seria uma governante melhor do que meu pai se não houvesse falecido tão cedo.
De maneira nenhuma minha silhueta poderia ser reconhecível, do contrário seria barrado e muito repreendido. Por isso, escolhi uma roupa preta para camuflar melhor. Meu casaco possuía duas orelhas de gato, uma vestimenta que, com certeza, seria declarada infantil demais para um príncipe. De certo modo, minha fantasia também era um protesto, junto com minha saída.
Caminhei até a floresta porque era um lugar que me trazia lembranças de minha mãe. Apesar de que o termo mais correto seria no singular, visto que possuo apenas uma memória dela que, por coincidência era na floresta. Desde então, sinto que estou preso no castelo.
Fui correndo tentando usar um capuz para tapar o meu rosto. Porém, eu estava tão preocupado em me esconder do mundo a ponto de não lembrar que ele não se esconderia de mim. Não percebi a mulher que vinha na minha direção, até nos chocarmos e cairmos com o impacto.
Marinette
Minha mãe já morreu a muito tempo. Meu pai morreria em pouco tempo.
Ele estava muito doente e vários médicos tentaram encontrar a cura para a sua doença, todavia nenhum obteve sucesso. Meu progenitor não tinha muita expectativa de vida, então, com o intuito de não me deixar sozinha, casou-se com Audrey. Ela tinha uma filha chamada Chloé.
Nós as conhecemos na rua, eram sem-teto. As duas não tinham lar porque aparentemente o pai de Chloé havia abandonado-as. Como nós somos uma família consideravelmente rica, acolhemos ambas com intuito de ajudá-las. Demos emprego à Audrey como faxineira, porém quando meu pai se interessou por ela, foram promovidas ao cargo de membro da família.
Eu nunca confiei nelas, apesar de saber que eram pobres e incapazes de aplicarem algum golpe. Meu progenitor sempre dizia que era coisa de minha cabeça e saudades de minha mãe. Talvez ele estivesse certo e minha insegurança estivesse conectada com a minha vontade de virar-me sozinha, já que eu era adulta.
No dia em que finalmente a morte do homem que mais amava aconteceu, eu estava lendo no quintal enquanto escutava Chloé cantando de maneira que me fez desejar a surdez. Audrey estava cuidando no quarto dele, ou ao menos era o que deveria ter feito.
Por isso, quando apareceu subitamente chorando onde eu e Chloé estávamos, eu me desesperei já prevendo o pior. Mal sabia eu que a definição de pior deveria ser atualizada.
—Marinette, seu pai... ele... ele... ele morreu. — falou hesitante, lutando contra as lágrimas insistentes
Quando eu ouvi aquelas palavras juntas em uma frase, não consegui acreditar que era verdade. Mesmo já estando à espera do fato. Contudo, depois percebi que infelizmente era. Senti meu corpo quebrar-se em mil pedaços e não consegui juntá-los novamente. Foi uma tristeza que não cabia em mim. Tive ânsia de vômito, era como se meu corpo desejasse pôr a dor para fora. Chorei muito, muito e mais ainda.
Sem perceber fui em direção ao corpo, que provavelmente ainda estava no quarto. Me ajoelhei perante a cama e abracei o cadáver de meu pai, o que fez minha angústia aumentar. Até que eu percebi uma coisa: muito, mas muito bem escondido, havia um pote de veneno. Eu olhei para Audrey e ela percebeu que eu tinha visto.
—Você não… — tentei falar o mais ameaçadora e raivosamente possível enquanto chorava no dobro da intensidade
—Sim. Eu o matei. E você vai fazer o que? — disse fria, com o rosto totalmente limpo da tristeza fingida de antes
Logo após, Chloé apareceu. Considerando o sorrisinho em sua face, ela estava a par do plano.
—Maridiota. — riu do insulto que acabara de inventar – Achou mesmo que fôssemos ser uma família? — as duas gargalharam com escárnio
Eu abraçava com mais força o corpo inerte do meu pai, sentia que conseguiria protegê-lo delas com essa atitude. Somado à tristeza e angústia, estava o medo que passei a ter de seu plano maquiavélico. Todo esse misto de emoções fez-me explodir de raiva.
—Por quê? — gritei indignada
—Por que você acha? — Chloé ironizou
—Pelo dinheiro do seu pai, óbvio – Audrey concluiu
—E agora mãe? O que fazemos com ela? — perguntou Chloé, com um riso medonho
—Você não lembra do combinado? Ela será nossa escrava. — riu sombria
—Verdade, tinha esquecido. Pode começar pegando vinho para nós duas. — ordenou, sem muita criatividade
—Nunca! Eu vou expulsá-las daqui! Essa é a casa da minha família, a qual vocês não pertencem! A polícia vai pegar vocês e apodrecerão na cadeia por terem matado meu pai!
Audrey tirou um chicote de sua bolsa, prestes a estalar nas minhas costas.
—Minha filha disse que queria vinho. — disse antes de chicotear-me sete vezes
Eu urrei de dor desesperadamente, na esperança de que fosse socorrida. Porém, não importava o quanto aquilo doesse, não havia algo me machucaria mais que a perda de meu pai.
Ela parou de bater-me e ordenou firme:
—Vinho! Agora!
Aproveitei a oportunidade e, fingindo-me de submissa, fui até a adega pegar o vinho. Quando já estava longe da vista de ambas, simplesmente saí correndo sem nem olhar para onde ia. Qualquer lugar seria melhor do que o sofrimento daquele ambiente.
—Mãe, ela está fugindo! Não vai fazer nada? — perguntou Chloé quando me avistou
—Não. Ela vai voltar. — respondeu Audrey confiante
Eu atravessei a cidade inteira aos prantos. Cada lágrima que caía parecia ser uma a menos para soltar porque o conforto que a alta velocidade trazia era enorme. Eu sentia-me abraçada, era como se o espírito de meus pais estivessem comigo naquele momento. Só percebi que estava na floresta quando esbarrei em um homem.
—Legal ter caído aqui. — ele disse e me ajudou a levantar – Olá, eu sou… — ele pareceu pensar, hesitante – o Chat Noir! — completou como se fosse uma ideia genial
“Chat Noir?! Desde de quando isso é nome?” pensei. Até que olhei para ele e compreendi. Era um rapaz muito bonito, loiro com olhos verdes, e estava usando uma roupa toda preta com um capuz em que havia duas orelhas de gato. “Então é isso… Também sei jogar esse jogo.”
—Sou a… Ladybug. — disse, já que estava usando um vestido vermelho com bolinhas pretas
Após isso, pensava que seguiríamos o próximo passo da apresentação e apertaríamos as mãos um do outro. Mas o que recebi dele no lugar disso foi um forte e caloroso abraço.
—Eu vi sua cara de choro. Eu sei que acabamos de nos conhecer, mas confie em mim. Pode falar. — ele disse gentilmente
Algo nele realmente fez-me ter vontade de falar, seu olhar me passava uma enorme sensação de conforto e segurança. Por isso, confiei em meus instintos e me entreguei a ele. Retribui seu abraço e chorei em seu ombro enquanto contava toda a história. Audrey estava certa, eu voltaria, porém não tão cedo.
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