Lady?
2 Capítulo um - O garoto sem amor
Poucas coisas neste mundo são mais irritantes que o som de um despertador. Ainda mais, numa sexta-feira de manhã. Porém, atribuir ao aparelho, o adjetivo “irritante” não vai fazê-lo calar-se.
Aquela manhã estava especialmente gélida, o que fez Chibi estremecer ao ouvir o barulho da máquina cujo qual estava apitando. O menino desligou-a, porém, não saíra da cama. Ali permanecera, observando teto, envolto pelos cobertores, sem coragem para levantar, e encarar mais um dia horrível, naquele lugar horrível, com aquela gente horrível.
Apenas depois de longos minutos, o menino adquiriu coragem para levantar-se.
Seus pés – que até então estavam quentes, guardados embaixo do edredom por horas – tocaram sutilmente o chão gélido, fazendo o pequeno arrepiar-se.
Abriu o guarda roupas, e escolheu simples vestimentas. Estava de certo modo feliz, pois amanhã seria sábado, e ele não iria ter que voltar para aquele inferno chamado escola.
Sendo assim, o menino desabotoou seu pijama, e retirou-o, vestindo uma calça jeans preta, uma camisa e um moletom da mesma cor. Simples tênis vermelhos, confortavelmente aconchegantes. Olhou-se no espelho, pensou um pouco, e pegou uma jaqueta de couro, pois o dia estava realmente frio.
Antes de ir, o menor sentou-se em frente à penteadeira, e escovou seus lisos cabelos castanhos. Sorriu para seu reflexo, e disse:
- Eu amo você, Chibi.
Afinal, se ele não dissesse isso... Quem diabos, diria?
Por fim, ele escovou seus dentes, pegou sua pasta, e saiu porta a fora, com todo cuidado, para não acordar seu irmão que dormia como uma pedra no quarto ao lado, acompanhado de mais uma mulher estranha.
O irmão de Chibi, Keitaro Atsushi Aoi, era um tanto quanto esquisito – pelo menos aos olhos do caçula. – Desde que seus pais morreram, o maior levava praticamente todos os dias, uma moça diferente parar dormir com ele. Eles faziam um barulho insuportável até de manhã, e depois, antes de dormir, faziam juras de amor eterno. O que o pequeno não entendia, era como o irmão poderia amar tantas garotas ao mesmo tempo.
Esse era apenas um dos motivos pelo qual Chibi odiava seu irmão. Desde que ele podia lembrar-se, ele nunca escutara um “Eu te amo”, quanto mais sincero, e achava que era um absurdo desperdiçar palavras tão puras e sagradas com vadias quaisquer, até porque, no outro dia pela manhã, ela iria embora, e nunca mais apareceria, amenos que fosse paga para isso.
Chibi não tinha sequer moral para ter ódio a prostitutas, porém, ele sempre fora um garoto extremamente hipócrita, sendo assim, ele não sentia obrigação de estar em uma posição tal, para criticar os outros. Apenas criticava o que achava errado. Em outras palavras... A sociedade, e a raça humana no geral.
E suas opiniões sobre tais, eram um tanto quanto repulsivas, até porque, ele considerava a sociedade algo realmente repulsivo. A maneira vulgar como tudo e todos eram tratados, a mídia e sua influencia sobre a humanidade, a igreja e suas mentiras manipuladoras... Tudo aquilo era tão escroto, que o garoto sentia nojo de si mesmo por ter nascido humano.
Este era mais um dos motivos pelos quais o menino evitava contato com pessoas. Elas magoavam, manipulavam, usavam os outros como brinquedos... E ele não precisava passar por nada disso, para saber desse tipo de coisa. Ao contrário do que muita gente diz, ele não acreditava que só se aprendia errado. Podíamos muito bem aprender, observando o erro alheio.
Talvez fosse covardia não se aproximar de ninguém por medo de errar, por medo de se machucar e por medo de perder... Porém, ele não se importava em ser um menino solitário e covarde. Ele só não queria sentir o amargo sabor da perda, novamente. Até porque, as únicas pessoas neste mundo que realmente o amaram, deixaram-lhe de uma forma realmente cruel.
Um dos muitos traumas por trás do estranho e solitário menino foi ter nascido homem. Estar preso num corpo no qual ele não se sentia bem. Este, sempre quisera ter nascido mulher. Talvez por isso, ele as odiava tanto. Por inveja.
Afinal... Ele nunca sentira atração por pessoas do sexo oposto. As mulheres eram vulgares, manipuladoras, afinal, também eram seres humanos. Porém, diferente dos homens, elas não possuíam nenhum atrativo sequer. Podiam ser bonitas, se soubessem valorizar-se... Mas era algo a se admirar, apenas isso.
Outra razão para ele desejar ter nascido mulher... Era que os homens em geral, não se interessavam por outros homens... E sim, por mulheres.
Ele sabia muito bem disso.
Por ser uma criança sem amor, Chibi travestia-se, e de madrugada, ficava em esquinas sem nome, sem importância, abordava homens solitários, e dormia com eles, apenas para sentir-se amado, nem que fosse por uma noite.
Ele sabia que caso ele se vestisse como um garoto, não conseguiria muita coisa, porém, travestido de forma tão convincente – isto sem falar de suas feições femininas – ele enganava facilmente os outros, que quando descobrissem que este era de fato, um menino, já seria tarde demais.
Pode parecer um tanto quanto trágico tudo isso, até porque, o pequeno Chibi possuía nada mais do que 12 anos da idade. Perdera seus pais com 8, em um terrível acidente de carro, e tivera que ser criado por seu irmão, que na época, possuía 19 anos, porém, nem emprego tinha.
Sua família, ele não conhecia. Nem por parte de mãe, e nem por parte de pai, até porque, seus pais nunca foram ligados a família. O amor dos dois era a coisa mais pura e harmoniosa que o garoto já tinha visto. Ambos eram tão fieis, tão amorosos, carinhosos, e não se importavam com mais nada que não fossem seus filhos, e eles mesmos. De certa forma, isso deixava Chibi feliz. Porém, a única coisa que este nunca entendera, foi o motivo de um casal tão apaixonado, dar ao filho, um nome tão repulsivo como este. Eles apenas o afirmaram que tal nome fora escolhido antes mesmo de ele nascer, não era algo que ele pudesse mudar.
Mesmo com tantos pensamentos em mente, o garoto não poderia deixar-se levar por estes. Estava a caminho da escola, e tinha de concentrar-se para não passar a manhã dormindo, pois deste jeito, não renderia nada, e seus esforços diários também não valeriam de nada.
O menino tinha apenas uma ambição na vida. Acabar com tudo, de forma natural. Ele não pensava em casar, em constituir família, pensava apenas em estudar, conseguir um bom emprego, e assim, acabar com tudo de uma forma gloriosa. Ser reconhecido por todos que o humilharam, e prová-los que ele tinha conseguido ser alguém. Alguém muito melhor do que todos aqueles imbecis poderiam sequer sonhar em ser.
Ao chegar aos altos portões da escola, ele resolveu esperar o toque do sinal para entrar. Não queria ficar no pátio, não queria misturar-se com aquela gente. Apenas sentou-se e ficou rabiscando coisas em seu caderno. Escrevendo mais uma de suas poesias, até dar a hora exata.
“Por mais que este céu acinzentado insista em desabar sobre minha cabeça
Por mais que estes olhares me julguem,
Desafiem-me a desistir
Por mais que ninguém mais tenha fé em mim
Eu irei continuar
Até minha alma suicidar-se da forma mais dolorosa possível
Levando consigo
Todas as minhas forças
Todos os meus sonhos
Toda a minha fé.”
Por fim, o atordoante sino tocou. A aula estava para começar, e o pequeno não tinha tempo a perder. Porém, também não tinha energias para continuar.
Andava lentamente em direção a sua sala de aula, sem a mínima pressa. Sabia que daria tempo, e também, se não desse, não importaria mais.
Por sorte, ele chegou a tempo. O professor não havia entrado em sala. Todos estavam em pé, conversando, gritando, rindo. Porém, Chibi apenas sentou-se em sua carteira, colocou seus fones de ouvido, e começou a ouvir música. Esperando calado, a aula começar.
E assim, sua manhã foi seguindo. Cada aula parecia demorar décadas para acabar. Todos os murmúrios e gritos a sua volta, faziam sua cabeça latejar. Era realmente insuportável ser obrigado a se submeter aquilo todas as manhãs, porém, não havia outra maneira.
Porém, ao bater o sinal do meio dia, nada mais daquilo o importava. O dia de aula havia acabado, e ele só teria que voltar para aquele inferno, segunda-feira, o que lhe deixou bastante aliviado.
É realmente uma pena que a paz do pobre garoto nunca durava muito.
- Ei, menino. – Chibi ouviu uma voz chamar. Porém, ignorou-o.
- Menino? – Zombava outra voz – Tem certeza?
- Você tem razão – Concordava a primeira voz com desdém – Restam dúvidas.
Akuma apenas queria livrar-se daquilo, ir para casa e descansar, então, resolveu ir ver o que aqueles inúteis queriam antes que ele perdesse de vez a pouca paciência que lhe restava.
- O que vocês querem? – Indagou o menino num tom de desprezo.
- Olha Hiroto, não é que ele é homem mesmo? – Ria um dos meninos.
- E não é? – Zombava o outro, aparentemente chamado Hiroto. – Estou até com medo dele.
- Bom, não pretendo gastar minha sexta-feira ouvindo baboseiras de crianças medíocres. – Respondeu Chibi com desdém atravessando os portões de ferro da escola.
- Ei, o que você disse, imbecil? – Indagou um dos garotos segurando o menino brutalmente pelo braço direito. – Olhe bem como fala comigo.
- Você está me machucando, seu inútil. – Reclamou o pequeno irritado. – Me solta ou eu vou gritar.
- Nossa, a vadiazinha vai gritar. – Zombava Hiroto. – Ouviu essa Takashi?
- Isso é o que garotinhas dizem quando estão prestes a serem estupradas. – Dizia um dos garotos – Qual é o seu problema afinal?
- No momento, vocês dois. – Respondeu o pequeno.
O garoto loiro, que aparentemente chamava-se Takashi, não pensou duas vezes antes de empurrar Chibi, lançando-o contra o chão. Seu corpo era frágil, ele era um garoto extremamente magro, e um impacto daqueles poderia ser bem doloroso.
- Ei, o que vocês dois idiotas estão fazendo? – Bradou uma voz desconhecida. Não parecia ser a voz de ninguém que o pequeno Akuma conhecesse, não era uma voz infantil, era uma voz um tanto quanto adulta. Uma voz bruta. – Deixem o menino em paz, ele não lhes fez nada.
Os dois meninos largaram Chibi, que ainda não havia se levantado do chão. Ficara apenas ouvindo a discussão. Os dois meninos apenas rebatendo as ofensas lançadas por aquela voz desconhecida.
Alguns momentos após aquilo tudo, o pequeno só pudera ouvir os passos dos garotos afastando-se ainda mais. E ver o dono daquela voz agachado a sua frente, estendendo-lhe a mão.
- Venha – Dizia sorrindo – Levante-se.
Chibi realmente não sabia dizer ao certo a idade do rapaz, porém, chutara que este, tivesse por volta de uns vinte anos. Possuía cabelos vermelhos como sangue, compridos, na altura do peito. Usava umas vestimentas pretas, uma calça cheia de fivelas, rebites, cintos. Uma luva preta, que aparentemente combinava com a calça. Um coturno negro, e uma camisa da mesma cor, escrita em letras brancas “I wanna kill you like they do in the movies.” Isso sem falar da maquiagem dele, os lábios negros, com duas cicatrizes falsas, feitas aparentemente com lápis de olho, que forçavam um falso sorriso. Os olhos, que com certeza, deveriam estar escondidos por lentes de contato, eram vermelhos, assim como os cabelos. Estes também, pintados de preto. O que deveria ser considerado algo um tanto quanto repulsivo, ou até mesmo assustador, para Chibi era extremamente atraente, interessante, e até, quem sabe, bonito.
O pequeno segurou a mão do maior, e percebeu que suas unhas também eram pintadas de preto, e eram bastante longas.
Chibi levantou-se, sacudiu a poeira das roupas, pegou sua mochila que também fora jogada no chão, e pôs se a andar, em direção a sua casa.
— Não vai nem agradecer? – Ouviu o homem dizer.
- Agradecer? – Indagou Chibi no mesmo tom indiferente de sempre – E porque eu deveria?
- Porque eu lhe ajudei. – Respondeu o homem sério. – Isto é o mínimo que você pode fazer. Talvez, ir tomar um sorvete comigo também seria uma boa forma de retribuir o favor.
- Não obrigado. – Recusou – Eu não costumo me envolver com... Pessoas, se é que me entende.
- O que quer dizer com isso? – Perguntou o ruivo. – Você obviamente deve ter amigos, família, talvez até uma namorada.
Akuma riu em resposta.
- Não, pode ter certeza que não. – Respondeu. – Agora, se me der licença, eu agradeceria.
- Não tem curiosidade nem em saber meu nome? – Perguntou o estranho.
- Não. – Respondeu Chibi em seu típico tom de desprezo.
- Me chamo Kodou. – Respondeu o homem ignorando totalmente o menino.
-Legal, posso ir agora? – Insistia Chibi.
- Não antes de me dizer o seu. – Disse Kodou.
- Que diferença fará a você, saber o meu nome? – Criticava o pequenino. – Nunca mais vamos nos ver mesmo.
- Se dependesse de mim, nos veríamos todo dia. – Negou Kodou em um tom de tristeza. – Você é um garotinho tão doce e fofinho.
- Você não me conhece, seu idiota. – Respondeu Chibi irritado.
- Só me diga seu nome. – Pediu.
- Chibi Akuma Aoi. – Respondeu o menino, que já havia perdido a paciência. – Este é meu nome completo, será que quer meu endereço e CPF também?
- Por enquanto não, mas obrigada. – Agradeceu o ruivo. – Você tem um nome realmente lindo.
“Lindo? Onde é que “Pequeno Demônio” poderia ser considerado um nome lindo?” Pensou o moreno. “Este cara só pode estar de brincadeira.”
- Eu gostei de você, Chibi. – Dizia ele. – Por favor, venha tomar um sorvete comigo. Eu posso colocar a calda que você escolher e ...
- Eu já disse que não posso! – Retrucou o menino irritado. – Porque você insiste tanto? E mais uma coisa, você não gostou de mim, você não me conhece, eu sou uma pessoa extremamente hipócrita, covarde, arrogante, anti-social, entre muitas outras coisas. Agora me deixe em paz!
- Own, que bonitinho! Ele sabe palavras difíceis! – Brincou Kodou. – Mas tudo bem, já que insiste... Até segunda-feira, então.
- O que? – Indagou Chibi surpreso.
- É. Agora eu sei onde você estuda, e a hora que sai. – Respondeu o homem. – Posso vê-lo sempre que quiser. A propósito, você tem um rosto lindo.
- Desculpe meu senhor mas...
- Não me chame de senhor. – Pediu o estranho rapaz. – Eu tenho apenas 17 anos.
Sem mais nenhuma palavra, ele deixou Chibi sozinho, e foi andando em direção ao ponto de ônibus.
- Mas que diabos... – Murmurou Akuma assustado.
Por mais encantador que aquele rapaz fosse, Chibi não poderia se aproximar dele. Ele não queria machucar-se, não queria sofrer, não queria criar laços nem se apegar... Pelo menos, o seu lado homem não poderia.
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