Notas iniciais
Bem leitores, esse capítulo é menor, mas não menos importante. Como devem ter notado vocês já conheceram a região, norte, leste, central e Oeste, agora é a vez do SUL! Dedico o capítulo a Babs e a Helena, donas dos personagens. E vamos lá!

23 de Floril de 744 D.I

Território Sulista
DYNCE / REINO MENOR FLAIRBOTT

Aedion Lorcan Galleghar

A lança foi arremessada a cem metros de distância acertando de raspão o antebraço do feérico, em seguida uma adaga foi atirada mais desviou do percurso devido a repentina ventania. Aedion só teve tempo de limpar o sangue do rosto e abaixar antes que uma espada longa de um dos espadachim de Mizael tentasse o decapitar.

— Sabem rapazes, eu estava com saudade de uma boa briga! — O feérico disse quando o espadachim de capa preta junto com mais dois companheiros se aproximaram já com as armas em mãos. O feérico retribuiu o favor revelando os caninos sedentos para estraçalhar a presa.

O mais velho dos capangas de Mizael avançou pela esquerda deixando os outros dois se posicionarem em ângulos diferentes para cercar o desertor. Aedion suspirou chateado por ter sido menosprezado daquela maneira, ele sabia que a intensão deles não eram guerrearem de forma nobre, a morte viria pelo arqueiro posicionado na copa de um pinheiro no pico da montanha.

— Não me levem a mal cavalheiros, eu adoro uma boa luta de espada, mas estou um pouco atrasado para um compromisso. — O feérico piscou para os ladrões ao mesmo tempo que invocou o vento gélido do sul que varreu a copas das árvores as fazendo balançarem, nenhum arqueiro conseguiria se manter ali.

Os capangas olharam horrorizados para a orla da floresta magica, a vegetação parecia papel se rasgando, as arvores nada mais eram que uma gangorra descendo e subindo freneticamente, e a sessão térmica cortante, o sul já era mortalmente frio por natureza, mas com a ventania criada por Aedion tudo era diferente, ele praticamente retirou o oxigênio da superfície, conseguiu manipular a massa climática e moldá-la ao seu desejo criando a ventania juntamente com a nevasca, não que a parte da neve tenha sido proposital.

Os ladrões deram dois passos para trás sabendo que o arqueiro não estava mais posicionado para o ataque. Eles eram inteligentes, sabiam que os esforços não adiantaria contra um feérico experiente que havia recebido o mesmo tipo de treinamento e ainda contava com o poder do ar.

— Eu poderia deixá-los viver. — Lorcan disse na intensão de brincar com as vítimas. — Isso não interferiria em nada na minha vida, mas são pragas nesse mundo. Vocês compreendem? E sabem o que se faz com pragas?

O mais novo dos ladrões olhou para baixo, ele havia adentrado na comunidade recentemente, não sabia quase nada e não havia feito nenhum mal, os seus motivos eram puros, queria um mundo melhor, mas isso não impediu o feérico de olha-lo como um bicho que precisava ser esmagado.

— Faça rápido seu desertor desgraçado. — O mais velho cuspiu no rosto de Aedion Lorca. — Mas saiba que um dia você vai se junta a nojenta que chamou de esposa.

— Eu espero que sim. — Ele respondeu sorrindo enquanto enfiava a adaga no coração do mais velho.

O próximo a morrer foi o espadachim, o mais digno da morte pensou o loiro com os caninos a mostra, ele não recuou, não chorou, apenas sorriu e estendeu a mão no ar mostrando o cinco dedos para o feérico.

— Família, fé, justiça, paz e sabedoria. — Ele disse uma palavra para cada dedo, sabendo que o desertor a sua frente compreenderia o que aquilo significava, não se tratava de um rito dos ladrões e sim uma forma de despedida para os seguidores do senhor dos anjos. — Eu sempre fui justo, mas não adentrarei no paraíso.

O feérico o olhou pela primeira vez em muitos anos como uma velho conhecido ao invés de um monstro que precisava ser aniquilado. Se lembrou dos treinamentos juntos, da forma como conversavam durante as noites sobre os planos mirabolantes contra o império, o espadachim era um híbrido, filho de uma humana com um elfo.

— Você é um bom servo, irá para o paraíso. — Aedion respondeu.

— Assisti a morte de muitas pessoas, não as matei propriamente dito, mas fui conivente. — Ele olhou para o macho a sua frente tentando parecer o mais calmo possível diante da circunstância enquanto confessava para se livrar do peso. —Acho que não mereço o paraíso.

Aedion deu dois passos para o lado um pouco enjoado com a situação, o ladrão mais novo ainda olhava para o espadachim ao seu lado com esperança de uma reviravolta nos fatos.

— Eu lamento, você foi um bom colega, um ótimo parceiro e eu não sou ninguém para julgar quem vai para o paraíso, mas como disse, você assistiu muitas mortes que poderia ter evitado e uma delas foi a da minha esposa.

O ladrão meneou com a cabeça. A neve caia sobre eles, mas o vento havia parado de incomodar, todo o barulho era da respiração arfante do mais novo temendo pela própria vida enquanto esperava piedade do feérico.

— Eu não lamento Aedion Lorca Galleghar, ela precisava morrer. — Foram as últimas palavras do espadachim antes de ser transpassado por uma adaga longa, ele morreu olhando para o antigo parceiro, o desertor dos ladrões de coroa.

Após todo o decorrer da situação, o feérico não móvel um musculo, ele estava com o corpo rígido, o coração acelerado e um vazio avassalador. O último ladrão começou a chorar enquanto se arrastava pela neve evitando o sangue que escorria do espadachim.

O feérico fechou a boca escondendo os caninos, as orelha levemente pontuda se destacavam nos cabelos dourados. Uma lagrima escorreu pelo rosto lembrando-se do tempo em que tinha uma família, do tempo em que Asteryn o acompanhava na solitária fuga pelos reinos.

Seu olhar se cruzou com o do jovem ladrão que provavelmente estava naquela missão como aprendizado. Ele se preparou para mata-lo e acabar logo com aquele incomodo, mas era apenas um garoto vestindo um manto preto, o feérico não identificou maldade, apenas medo. Ele poderia converter o ladrão, poderia fazer dele um discípulo.

— Quando vai me matar? — O ladrão gaguejou.

O feérico rosnou retirando uma corrente da mochila que carregava os pertences. Ele prendeu os braços do garoto e começou a puxá-lo pelo campo coberto de neve que se estendia por quilômetros de distância. O jovem ladrão não se opões.

{...}

Depois de uma longa caminhada fria e tortuosa ambos chegaram a uma pequena vila no território de Dynce, as casas eram de madeiras, as ruas exibiam uma crosta de sal, nos portais haviam runas de proteção contra monstros e bruxaria e toda a decoração era de folhas verdes e desenhos vermelhos.

— Esse local é sinistro. — Sussurrou o ladrão esquecendo que era um prisioneiro do feérico, ele havia vestido um casaco de pele e retirado a capa preta para não chamar atenção desnecessária, a corrente já atraia muitos olhares.

— Os humanos fazem isso por precação. — Lorca respondeu com um péssimo humor, ele ainda não havia decidido se matava o garoto ou se tornava dele um discípulo. — Os desenhos de tinta são prisões para anjos.

O ladrão novinho abafou uma risada enquanto chacoalhava a corrente gerando leves barulhos de ferro se chocando. Uma mulher com um empelotado de roupa sobre o corpo os encarou assustada, ela logo acelerou os passos tentando manter distância do feérico.

— Eles acreditam em anjos? — O garoto espiculou com a voz mais alta do que deveria, por sorte ninguém os escutou.

— Prisioneiros não falam, não perguntam! — O loiro disse entre os dentes fazendo com que o jovem ladrão se arrepiasse de pavor. —A não ser que queiram morrer.

— Mas... — O garoto pretendia questionar mais um rosnado o fez mudar de ideia.

Eles caminharam pela rua principal até encontrarem em uma esquina uma pequena estalagem com luzes acesas e portas abertas. Aedion estava ciente de que não poderia ficar por lá mais do que um dia, o boato do assassinato logo se esparramaria e os ladrões viriam atrás, mas ele precisava descansar e se alimentar.

Ao adentrarem na recepção a sensação de alivio foi reconfortante, os lábios já estavam sem cor e os olhos ardiam, mas aquele calor vindo da lareira inundando o cômodo o fez estremecer, tudo que desejava era um bom banho quente e uma ótima noite de sono e aquela estalagem poderia oferecer-lhe isso.

— Bonli dilia senhorilis, noqueli possoi ajudalis? — Perguntou a moça de cabelos escuros e pele acinzentada que usava uma suave maquiagem sobre a pele a deixando angelicalmente bonita. Ela se comunicava na língua do leste, do reino menor de Angelli. Aedion sentiu vontade de sorrir, achava ridículo a forma deles de pronunciar, era com certeza o idioma mais idiota pensava ele.

— Não somos estrangeiros. — Respondeu por fim transparecendo um pouco do desejo de sorrir. Era comum esperar a cortesia dos sulistas que sempre se atentavam nos detalhes para atender os fregueses. A maioria dos cidadãos sabiam falar outros idiomas, eram ensinados desde pequenos a se comunicarem com os mais diversos povos.

A garota ficou constrangida ao perceber que avaliara mal o freguês, ela pensou que Aedion era comerciante de escravos, a maioria deles vinham do litoral leste em sentido a floresta mágica para raptar os seres e os escravizarem. A aparência do feérico colaborava com esse julgamento devido ao cabelo longo estilo marujo, a pele acobreada, as vestes sujas e a variedade de armas além da pouca bagagem e do prisioneiro.

— Noli ligali paralielei, mili sabeli falarili Angelianoli. — O ladrão respondeu todo pomposa para atendente que se sentiu alegríssima por ter conseguido alcançar o objetivo mesmo que vindo do prisioneiro.

O feérico a acompanhou mais atrás, irado com a ideia do garoto estar se comunicando, ele ainda não conseguia entender porque não havia o matado, essa ideia de reabilitar um ladrão não parecia ser boa, e ele não podia amolecer o coração.

O quarto que havia pagado tinha uma lareira, uma cama de casal, grossas mantas de couro e cobertas de lã além de alguns casacos de algodão. O piso era forrado por um carpete macio de pelo de urso. O local era maravilhoso e cheirava a floresta devido aos frasquinhos com aroma colocados na janela e na estante.

Aedion verificou cada canto do quarto a procura de um feitiço, tudo que encontrou foi prisões de anjos o que o deixou aliviado. Depois de se certificar que nada aconteceria retirou a aljava das costa e desprendeu o arco do ombro, na mochila de retalhos tinha alguns objetos uteis.

— Escolha um canto do quarto. — Ele ordenou par ao ladrão que o olhava curioso para saber o que se repercutiria. O mesmo obedeceu apontando por um dos cantos onde o feérico o amarrou no pé da cama e na grade da janela impossibilitando qualquer movimento.

O ladrão iniciante resmungou irritado por estar limitado em um espaço reduzido sem poder movimenta nenhum membro, ele havia colaborado por todo o percurso, não havia tentado fulgir e concordará com tudo na intensão de alcançar a benevolência do feérico, e tudo o que recebeu foi correntes e uma ordem de silencio.

O tempo se estendeu dessa maneira, o garoto permaneceu preso tendo apenas uma coberta para se esquentar, o macho banhou, se alimentou e depois dormiu. Ele estava exausto, fazia dias que não fechava os olhos, ele tinha passado um tempo atrás de pó de fada para vender para um mago de Parlak quando percebeu a presença dos ladrões, ele abortou a missão e começou a fulgir até encontrar um ponto estratégico para a luta.

O silencio dominou o cômodo, o prisioneiro também dormiu, estava quente, aconchegante e seguro. O feérico se encolheu na cama como uma criança, hora ou outra resmungava palavras desconexas enquanto dormia, o céu estava escuro e não tinha estrelas.

Mas na mente do macho era diferente, ele não estava naquele reino frio, não tinha um prisioneiro que pretendia fazer de discípulo, tudo se resumia em amor e fuga. Era um dia ensolarado e o calor dominava a floresta mágica, a pele bronzeada estava molhada e grudenta, os dedos ásperos e grossos roçavam os lábios carnudos da bela esposa feérica que sorria enquanto era acariciada.

Ele podia sentir o cheiro das rosas plantadas em um canteiro a poucos metros dali, no centro da aldeia, era uma pequena sociedade humana de caçadores que viviam na orla da floresta, o casal havia se juntado a eles a pouco mais de duas semanas.

— Eu sei que não podemos ficar por causa dos ladrões. — Asteryn disse em um lamento. — Mas se pudesse era aqui que gostaria de viver com você Aedion Lorca Galleghar, teríamos filhos, os ensinaríamos a caçar e viveríamos em harmonia com a natureza.

O feérico negou com a cabeça de forma sonhadora. Ele usava uma roupa fina que mostrava com clareza os músculos definidos e tinha uma aparência descontraída, gentil, apaziguadora.

— Eu queria cria-los na montanha, no reino Elementar, onde o vento sussurra canções em nossos ouvidos. — O feérico disse para amada pensando em dois garotinhos ligeiros correndo atrás de uma pássaro com os dentes de fora e o cabelo loiro bagunçado recaindo sobre o rosto.

O feérico foi despertado dos pensamentos quando sentiu uma mordida no pescoço, ele olhou atordoado para o corpo musculoso sobre si, era uma criatura das sombras, um vampiro, Aedion estavam em choque, sentia o sangue saindo pelo pescoço direto para o corpo da criatura.

Tudo pareceu demorar, mas foi questões de segundos, ele acertou a mão pesada no rosto da criatura e em seguida o mordeu também, o vampiro se contorceu, não estava preparado para a reação, o feérico aproveitou a falha da criatura e a arremessou na parede acertando uma adaga nas entranhas.

O vampiro abriu a boca pronto para morder, mas não era forte como Aedion pensava que fosse, ele parecia não estar usando todo o potencial, ou talvez ainda não soubesse. O feérico ficou decepcionado por estar enfrentando um oponente idiota ao ponto de atacar e não conseguir se defender.

Para finalizar logo com o problema Aedion o decapitou , era a maneira mais rápida de se matar um vampiro. Mas quando o fez a criatura se dissolveu em uma gosma brilhante se transformando em um corpo sem cor, com a cabeça sem rosto jogada longe do pescoço.

O feérico ficou abismado, ao olhar para o canto não havia prisioneiro, o ladrão não era jovem como ele pensava, nem inexperiente, ele se tratava de um metamorfo treinado para enganar, talvez esse tivesse sido o plano desde o princípio, mas para a sorte do feérico a criatura escolheu uma forma que não dominava com desenvoltura.

Depois de se recompor, Aedion limpou a bagunça do quarto e saiu o mais rápido possível para não correr o risco de ser encontrado novamente, ele decidiu seguir para o oeste, rumo ao reino elementar. Estava cansado daquelas terras frias, queria retornar a comunidade do ar, onde era seu lar. Desejava aperfeiçoar o treinamento com o poder para poder enfrentar os ladrões com mais facilidade, afinal, ele não pararia até ver todos exterminados.

{...}

Azalya e Ariel

A bruxa vermelha seguia as estrelas para não erra o caminho. Seus pés afundavam na neve fofa, tornando a caminhada ainda mais complicada, mas para o seu agrado Ariel não estava muito melhor, pelo visto morrer não ajudava a lidar com a neve.

— Eu pensei que os vampiros só pensavam em ficar brincando de pega-pega com os soldados do norte! — A ruiva comentou para Ariel na intenção de provocá-los. — Falando sério, porque vocês não expulsaram logo aqueles humanos fracotes de lá, está ficando chato!

Ariel estava começando a se arrepender de ter obrigado aquela criatura chata a ajudá-lo, mas infelizmente a função de Azalya era indispensável para o plano. Tudo que ele queria era estar ao lado da amada Fanny, no entanto encontrava-se isolado em um lugar frio com uma bruxa insuportável realizando uma missão que parecia impossível.

— Se expulsássemos os humanos teríamos que nos alimentar das bruxas! — Ele sorriu para ela quando a bruxa fingiu horror. — Agora concentre-se em localizar um vilarejo para passarmos a noite.

— Agora falando sério Ariel porque estamos aqui? — Ela perguntou. — Eu sei que eu estou aqui porque você sabe o meu segredo e está me ameaçando e como eu ainda não sei um modo de te matar estou colaborando, mas e você, porque está aqui?

— Preciso encontrar algo, antes que as pessoas erradas encontrem e precisamos da ajuda de um feérico que para a nossa sorte também está aqui no sul. — Ele fez uma pausa. — E isso é tudo que precisa saber!

Notas finais
Bem não deixem de comentar, e até o próximo!