Ladrões de Almas

1 A Nova Vizinhança


A cidade já não era a mesma. As ruas ficavam vazias sempre que tínhamos mais uma notícia. Haviam pessoas morrendo, independente das idades, ninguém sabia explicar o motivo. A polícia não encontrava sinais de arrombamentos na residência das vítimas, médicos e legistas não conseguiam explicar. Não haviam vírus, bactérias ou doenças em comum que servissem de causa.
— A morte está brincando conosco. — Sussurrei enquanto caminhava apressada pela rua em que morava. — Ou alguém.

Avistei minha casa à alguns metros. As luzes estavam acesas e o carro próximo a garagem. Tudo parecia normal e eu orei em silêncio para que estivesse. Derrapei no calçamento quase congelado, derrubando os dois livros de culinária que peguei há pouco na biblioteca para minha mãe.
— Droga! — Gritei.

Levantei tão rápidamente como quando caí. Empilhei novamente os livros e voltei a andar com dificuldade, havia machucado meu tornozelo. Senti o vento soprar mais frio.
— Ei! — Gritou uma voz masculina autoritária que vinha da rua direita da encruzilhada em que eu estava passando. — Está sozinha a essa hora?

Lembrei de quando estava indo para a escola, semana passada, tivera a sensação de estar sendo seguida. Gemi com a lembrança. O que parecia ser um homem forte e alto, saía aos poucos do bréu que estava a rua, iluminada por apenas um ou dois postes de luz. Senti meu coração começar a bater aceleradamente e nessa mesma frequência minhas pernas responderam, ainda que mancando, consegui correr até a minha casa, que era na direção oposta. Atravessei o gramado, tropeçando na mangueira jogada no meio da passarela, então girei a maçaneta da porta, estava trancada.
— Mãe! — Bati furiosamente os livros contra a porta, olhando para trás, tentando localizar o estranho. — Abre! Rápido!

A porta se abriu com um rompante, então caí para dentro. Arrastando-me no chão pelo tapete e fechando a porta com um chute. Melissa, minha mãe, ao ver-me naquele estado, pulou para trás.
— O que houve, Annie? — Perguntou-me assustada.
— Um cara... — Tentei explicar, ainda ofegante de toda a correria. — Apareceu do nada na rua e gritou e...
— Ah, deve ter sido o Frederick. — Ela suspirou com a mão no peito, aliviada. — A família dele se mudou hoje para a casa dos Stewart, então eles vieram pegar a chave e eu falei sobre você...
— O que? — Levantei, tentando me recompor. — Porque eles vieram pegar a chave aqui? E exatamente como ele entra nessa história?
— Seu pai era amigo do Sr. Stewart, então eles confiaram a chave à mim depois que se mudaram para a Califórnia semana passada. Eles conseguiram vender a casa para essa nova família e eles vieram aqui para buscá-la. — Ela deu de ombros enquanto folheava um dos livros que eu havia trazido. — O garoto viu sua foto na geladeira enquanto eu servia um chocolate quente e perguntou se você era minha filha. Ele é bem bonitão... — Ela riu e piscou para mim.
— Tá, mas e daí? — Pendurei meu casaco atrás da porta.
— E daí que comentei que estava preocupada por você estar atrasada, com essa onda de assassinatos... Não quero nem pensar em te ver sozinha andando por aí de novo. — Ela fechou o livro e me olhou. — Então ele falou que, como estariam guardando os móveis, ficaria de olho na rua caso algo estranho acontecesse.
— Algo estranho foi ele me assustar. — Franzi o cenho. — Mas a casa dos Stewart é aqui em frente... O que ele estava fazendo tão distante da nova casa?
— Eu não sei. — Ela deu de ombros, fazendo a mecha de seus cabelos castanhos deslizar pelo ombro. — Não esta com fome, querida?
— Comi algo antes de vir. — Subi as escadas vagarosamente, sentindo o latejar no tornozelo.

A escada de madeira ainda estava em bom estado, graças a reforma que meu pai fizera uma semana antes de falecer, há um ano. Houvera um ataque no escritório em que ele trabalhava junto a dois colegas. Todos morreram. O motivo pelo qual ninguém explicava. Os pertences deles ainda estavam lá, tudo do jeito que eles haviam deixado. Tanto mamãe quanto as esposas dos outros dois homens que trabalhavam lá, não tiveram coragem se quer visitar novamente o escritório.

O corredor do segundo andar abrigava quatro portas: O meu quarto, o quarto de Melissa, o banheiro e uma biblioteca improvisada para meu pai. Lá ele podia trabalhar em casa, lendo e pesquisando casos jurídicos. Ele era um excelente advogado e minha mãe uma médica maravilhosa.
Andei pelo corredor até chegar ao meu quarto. Um cubículo confortável. Uma cama, um closet e um banheiro, tudo tão apertado. A TV ficava entre as duas janelas que davam para a casa dos Stewart e a rua. A cama, na mesma direção que a TV. A escrivaninha ficava na parede oposta a cama, sendo próxima a porta para o closet, que servia de passagem para o meu banheiro. O vento uivava pelas janelas abertas, arrebatando as cortinas. A noite estava bastante fria. Fechei-as rapidamente, pelo vidro embaçado pude observar um carro luxuoso preto estacionar na casa em frente. Não reconheci as pessoas, deveriam ser os novos moradores a quem Melissa se referira. Um homem e uma mulher desceram. Ambos muito bonitos. Pareciam ricos demais para morar numa rua de classe média alta. Eles pareciam, de fato, estar acostumados ao luxo. A mulher, uma ruiva elegante, vestida com uma saia justa branca e uma blusa azul seda, foi acompanhada por um homem de cabelos quase grisalhos, mesmo assim aparentava ser um homem jovem. Corri até o interruptor e apaguei a luz, voltei a me agachar próximo a janela. O que parecia ser um homem jovem, caminhava em direção a casa, seu corpo me fez lembrar do homem alto que me assustara há pouco.
— Frederick! — Falou a mulher elegante, direcionando os braços para o rapaz que atravessava o jardim. — Onde esteve?

Ele se aproximou, abraçando-a e virou o rosto para seu ouvido, sussurrando alguma coisa. A mulher direcionou o olhar para minha casa, fitando a porta, e depois para minha janela. Seu olhar era penetrante, parecia de fato estar me vendo, pois tive a impressão de que olhava em meus olhos. Caí no chão assustada, afastando-me da janela. Será que ela havia me visto?

Notas finais
Espero que tenham gostado!