Notas iniciais
Acho que devo explicações, sim? Mas é simples: estou reescrevendo boa parte da história, como poderão notar. Algumas coisas mudaram drasticamente, outras nem tanto. Como eu havia postado somente cinco capítulos na última versão, vocês não notarão tanta mudança. O plot central continua o mesmo, se é que ainda se lembram. Mas inseri novos personagens e conceitos que acho que acrescentarão muito na história. Anteriormente eu havia dado informações que não necessariamente vocês precisavam saber àquela altura – é um grave problema meu, por odiar encheção de linguiça, mas às vezes, e com certa moderação, é necessário. Conto com a compreensão de quem ainda se dispuser a ler isso. O prólogo continua o mesmo. Até.


K’iera adentrou as imediações do Priorado apressada, como uma sombra, seu manto esvoaçando ao redor dos calcanhares.

O priorado Drewzi era uma construção assustadoramente maciça, severa. Fora construído em pedra cinzenta, mas que se tornaram completamente negras com o tempo. Suas paredes a todo momento pareciam suar, exalando uma umidade estranha, sufocante. Seus corredores claustrofóbicos sempre deram calafrios em K’iera, mesmo quando viviam cheios de movimento, conversas, risadas. Mas isso fora no tempo em que a Crisálida existia; famosa, procurada.

A Crisálida estava morta.

Agora, um ou outro mendigo partilhava aquelas câmaras e corredores com órfãos, doentes e esfomeados. O lugar tornou-se, inevitavelmente, mais soturno e fétido. O vento batia em suas paredes e sussurra coisas ininteligíveis, aparentemente despertando formas indistintas que ali moravam, e que não gostavam nada dela.

Havia pouco movimento àquela hora, naquela parte esquecida da cidade. Também fazia frio, e uma bruma cavernosa encobria pés e sujeira, que se alastrava por toda parte. Há quem diga que tudo ali já fora dominado por praticantes de artes ocultas, antes de, por um decreto imperial, tal abominação ser proibida. Há quem diga que já foi um lugar religioso, de peregrinação — a prova disso era aquele edifício intimidador, com suas três torres cônicas apontando para o céu como lanças emergindo do inferno em desafio.

Um matagal vasto e lodoso se estendia até o colossal portão de entrada — que provavelmente não era usado há anos. Estava completamente emperrado e enferrujado, e não havia vivalma que conseguisse movê-lo o mínimo possível. Quem quisesse se aventurar abrigando-se sob o teto daquele lugar abandonado por deus, precisaria procurar outros caminhos. Haviam outros caminhos. Alguns mais fáceis, outros nem tanto. Alguns que só três pessoas tinham acesso.

K’iera era uma dessas pessoas.

A morena contornou a sebe que se elevava muito acima de sua cabeça, totalmente abandonada; com hera e ervas daninhas crescendo em volta. Seguiu em frente pelo lamacento passadiço lateral, que levava a uma portinhola dando acesso às escadarias que culminavam em cômodos, câmaras e no terraço da torre central; a maior delas.

K’iera sacou uma chave do bolso do manto e abriu o cadeado, em seguida puxou a corrente — que era duas vezes mais larga que seu braço. Entrou e voltou a fechar a passagem. A morena suspirou e jogou o capuz sobre as costas, revelando suas curtas mechas negras e o rosto alvo e retilíneo. Começou a subir a escada em breu total, tateando as paredes. Logo chegou a uma porta, dessa vez de madeira. Abriu e ela rangeu em uníssono com os guinchos de protesto dos ratos que acabaram de ter seu espaço invadido.

Outro lance de escadas, menor, mais iluminado; em poucos degraus ela estaria em seu poleiro. Seguiu à esquerda por uma entrada sem porta e deu de cara com uma área toscamente iluminada. No centro estava Denic, lendo alguma coisa com inabalável interesse.

Aquela câmara servia como o covil dos três: cercado de caixas empilhadas, moveis inutilizados, calcário descolado do teto e paredes, lonas, sacos, grossas correntes, instrumentos de unção e uma ou outra tigela com comida apodrecendo. Por anos aquele foi seu lar, e ela já contava as horas para nunca mais pisar ali.

— Onde ele está? — ela perguntou, aproximando-se de Denic.

O ladino moveu a cabeça minimamente, como se um mosquito o perturbasse. Lia o livreto que mais parecia um diário com um interesse que não era de seu feitio.

— Sabia que uma ramificação da Primeira Ordem Drewzi tinha como subordinados uma facção chamada Simulacro? Eles eram encarregados de se infiltrar nas cortes em busca de toda e qualquer informação que pudesse limitar suas ações religiosas, já que tais instituições eram privadas do conselho parlamentar — Denic finalmente ergueu a cabeça, encarando-a. O lado direito de seu rosto meio oculto pela iluminação precária da lamparina. — Também eram assassinos.

K’iera revirou os olhos.

Keiv... — tornou a perguntar, impaciente.

Denic, displicente, limitou-se a apontar sobre o ombro, em direção a outro lance de escadas. Este levava ao terraço da torre central.

K’iera girou nos calcanhares e seguiu em frente. Após alguns degraus, havia enfim chegado à parte decampada do terraço, que dava para os fundos do edifício. Keiv por vezes gostava de ir lá. Tamanha altura provia uma visão vasta da região norte da cidade, mas K’iera sempre interpretou como se ele buscasse com os olhos as montanhas eternamente congeladas de sua terra natal, que se encontrava a um oceano de distância.

A morena percorreu o quadrilátero a céu aberto, sem qualquer sinal de Keiv, contudo; até que a voz dele a tranquilizou.

— Aqui.

Keiv se encontrava exatamente no pico da torre, apoiando-se no para-raios que se desfazia em ferrugem. Estava a pelo menos trinta metros acima de K’iera.

— Descerá ou espera que eu suba aí? — não havia como ela subir, é claro.

Keiv saltou imediatamente. Uma sombra negra despencando pesadamente em direção a ela, tentando intimidá-la; K’iera, porém, não deu um passo sequer.

Contrariando todas as leis que regem aquele mundo, ele caiu defronte para ela como uma pena, sem emitir qualquer som. Silencioso como o mais capaz dos ladrões. Tão próximo que ela seria capaz de mergulhar e se afogar naquele mar de chamas eternas que eram os olhos dele; como fizera tantas outras vezes no passado.

Keiv era alto, a morena, nem tanto. Ela sempre o olharia de baixo, de qualquer forma.

Ele trajava um manto negro com capuz semelhante ao dela. As mãos igualmente enluvadas de preto.

— Éltri não o receberá — K’iera puxou um pequeno papel amarelado de dentro do manto, o qual levava uma gravura exata da marca que Keiv possuía na testa. O entregou. — Alegou que está além de suas capacidades.

Keiv não parecia surpreso.

— Disse que o pagaríamos? Disse que estaríamos à sua disposição para o que precisa...

— Tudo isso — a morena varreu com os olhos cinzentos o lugar onde se encontravam, estava evidentemente cansada daquilo tudo. — Consultou vários livros e pergaminhos empoeirados. Me pareceu sincero... e intimidado.

Keiv amassou o papel e o largou sobre uma poça d’água. Em silêncio, afastou-se da parceira e foi em direção à borda do terraço.

K’iera deixou a cabeça pender, exibindo um sorriso inesperado em seguida.

Dali, ficou observando ele. O desejou desde a primeira vez em que Haliax o apresentou à Crisálida. Exótico, sombrio, calado. Keiv demorou para se enturmar, sempre afastado. Fazia suas missões com a competência e rapidez de um prodígio. Aos poucos, foi ganhando a admiração de muitos, enquanto a inveja crescia através de outros.

K’iera foi uma das últimas a trocar palavras com ele. Era seu jeito. Após as palavras, vieram as carícias selvagens que ela tanto ansiava e, ali, K’iera também descobriu que era igualmente desejada.

A morena estava longe de ser uma beldade, mas possuía um charme convencido que o arrebatou inexplicavelmente. Isso, porém, ficou no passado. Haliax havia levado aquele Keiv consigo quando os traiu. O Keivan diante de seus olhos era apenas um fragmento, um estilhaço agora preso num passado que ela não conhecia, mas sabia que o atormentava até os ossos.

A morena foi em direção a ele, parando a seu lado. Keiv encarava impassível o negrume que se estendia sobre a cidade. Daria tudo para saber o que se passava na cabeça dele naquele momento. Ele nunca foi de se abrir. Com ninguém.

— É verdade que Éltri não pode fazer muito por você — disse ela, indiferente, quebrando aquele silêncio insípido. — Mas talvez há quem possa...

Keiv franziu o cenho, virando o rosto em direção a ela lentamente. K’iera não o olhava, tinha sua total atenção voltada para o horizonte. A brisa gélida chicoteava seu rosto e balançava os curtos cabelos negros.

— Estou ouvindo...

— Que bom — ironizou ela, ainda distante. — A tal se chama Zéphira. É uma necromante. Banida de uma tal Ordem Neocturnal por brincar com os mortos. Vive enfurnada na floresta além dos limites de Erins'tväll. Seu covil aparentemente encontra-se perto da nascente do rio Skunny. Ao que tudo indica não é nada fácil de se lidar.

— Parece-me promissora. De onde veio essa informação?

— De meu pai.

Keiv não riu.

— Estou há mais tempo nesta cidade do que você, turista. Conheço mais vielas, tenho mais contatos. O fato de confiar em você não me dá o direito de trair a confiança de terceiros — após algum tempo ela voltou a encará-lo, séria. — Disponho da honra dos ladrões, e você?

Keiv dessa vez esboçou um leve riso de canto.

— Sempre foi amante do perigo, arqueira.

— Nem sempre — sorriu. — Se lembra da primeira coisa que eu te disse quando entrou para a Crisálida?

— Deveria? — brincou. — “Algo me diz que seremos muito próximos, orelhudo.” Sempre me perguntei que espécie de cantada era essa. Não causou uma boa primeira impressão.

— Repita isso até se convencer.

Keiv voltou a sorrir seu sorriso forçado, dirigindo-se ao parapeito lateral. K’iera sabia que ele tinha qualquer coisa a tratar com a Doutrina, ou algo parecido, e só estava à espera da informação que o permitiria caçar Haliax até os confins do inferno.

Isso significava não dormir por um bom tempo.

— E você, lembra da minha resposta? — quis saber ele, andando de costas para a iminente queda livre.

— “Não teria tanta certeza, moça...”

— Pois é...

— Nunca esteve tão errado, Drakciano.

Fitando-a nos olhos, Keiv despencou de costas daquela altura nauseante. De prontidão a morena correu até à borda do terraço, olhando para baixo.

Keiv havia sumido.

Notas finais
Pretendo postar capítulos curtos e dinâmicos, mesmo. Isso consequentemente estenderá a história, mas é para o bem. :)