Ladrão Arcano
1 Ladrão Arcano
Notas iniciais
Mikael, aparenta ter dezenove anos, magro com um pouco mais de um e oitenta, pele escura com olhos castanhos avermelhados, cabelos pretos com longos dreadlocks. Nasceu e viveu maior parte de sua vida no Egito. Atualmente é um guardião afastado e trabalha num bar em Ipanema. Naquele momento estava fechando o bar, dez da manhã ainda era muito cedo, mas o dia é especial. Walter, o dono do bar iria aproveitar o fim de semana para visitar sua família, aparentemente era aniversário de algum parente que morava na zona oeste, Mikael recusou o convite para ir junto pois já tinha um compromisso, um que devia estar ajudando a fechar o bar para que pudessem sair logo, mas ao invés disso estava brincando com suas novas habilidades.
— Sabe Laura, você podia sair um pouco do celular e me ajudar com as mesas. — Mikael empilhava as mesas. — E lembra quando eu disse que a magia devia ser segredo?
— Qualé Mika, olha isso! Meu celular ta flutuando!
— Você já está usando esse truque a duas semanas, como ainda não enjoou? Você sempre enjoa de tudo
— Tá de brincadeira né? Nunca vou cansar de tirar selfies com a mente Mikael, nunca!
Laura Bittencourt, vinte anos, com o peso ideal e um pouco mais de um e setenta de altura, cabelos lisos que chegavam até a metade das costas, castanho escuros como os seus olhos, estudante de teatro. Viveu sua vida inteira no Rio e começou a morar sozinha com dezoito, acabou conhecendo Mikael quando foi ao bar com suas amigas, já são amigos a um ano. Duas semanas atrás ela passou por um evento de despertar enquanto tentava pegar um autógrafo de sua atriz favorita que estava visitando o Rio de Janeiro, no momento em que ela tirou uma selfie aconteceu. Foi difícil de explicar no começo, mas agora ela parecia aceitar tudo muito bem, ela aprendia a manipular o éter com uma facilidade incrível, Mikael estava ensinando auto-defesa por causa de alguns acontecimentos recentes.
— Ele apareceu de novo essa noite... — O clima da conversa mudou, Mikael parou de arrumar as mesas e começou a prestar atenção em Laura. O celular que estava flutuando caiu nas mãos dela. — Eu consegui ver em cima dos prédios, pendurado, pulando atrás de mim. Eu corri o máximo que pude até acordar, tentei usar a magia que você me ensinou, mas ele era muito rápido e...
— Nós já estamos perto de descobrir o motivo disso estar acontecendo. Vamos até o estacionamento hoje de novo, tentar fazer sua ressonância com a Esfinge.
— Já te falei que o nome dela é Bela, Esfinge é um nome terrível
— Mas ela é uma Esfinge!
A Discussão não durou muito, Mikael teve que terminar de fechar o bar sem a ajuda de Laura. Saindo do bar, os dois seguiram no carro da jovem, um Logan usado pelo qual ela era apaixonada. Demorou meia hora, os dois chegaram num estacionamento abandonado, Mikael soube daquele lugar assim que chegou no Rio de Janeiro, um incidente mágico aconteceu ali o que fez o véu apagar completamente o lugar da mente dos humanos. Somente poucos magistas e encantados sabiam do estacionamento e ainda assim era pouco frequentado, os encantados evitavam lugares onde o véu era tão forte com medo de não conseguirem mais sair, os magistas simplesmente ignoraram a existência após as investigações serem concluídas, nunca descobriram o que exatamente aconteceu ali. Agora era um local de treino, onde Laura desenvolvia suas habilidades e Mikael lhe ensinava sobre o mundo da magia do qual agora ela fazia parte.
O Lugar era feito basicamente de cimento e madeira, quando eles chegaram estava bem acabado, mas Mikael logo deu um jeito de arrumar tudo, no dia seguinte já era o lugar perfeito para treinar, tinha até mesmo energia elétrica, Laura preferiu não perguntar quem estava pagando aquela conta de luz, provavelmente receberia uma resposta mágica complexa.
— Bela? Cadê você? A mamãe chegou! Eu trouxe uns petiscos. — A voz de Laura ecoou pelo lugar, ela caminhava pelo chão de cimento enquanto olhava em volta. Mikael vinha logo atrás com as mãos nos bolsos da calça, ele olhou fixamente para um lugar e apontou.
— Parece que ela andou praticando... — Um arranhão na parede, com certeza era maior que o carro de Laura. — Ou só encontrou um rato muito azarado
Atrás de Laura se formou uma grande sombra, uma sombra felina tão grande que batia no teto. Os dois se viraram para ver uma pequena gata com os pelos que pareciam o céu noturno, ela movia e parecia mostrar novos pontos do universo. Constelações e nebulosas formavam o seu corpo, em sua cabeça o que parecia ser uma pequena juba de gás, ela deixava pegadas brilhantes pelo caminho onde passava. Laura se abaixou a pegando no colo, um abraço apertado seguido de uma tosse por conta do gás que aspirou.
— Olha você aí, desculpa não ter vindo ontem colocar comida pra você.
— Ela realmente não precisa comer.
— Mas ela gosta, ta legal?
— Tudo bem, tudo bem. Precisamos das duas de bom humor pra isso dar certo, agora vão se preparar enquanto eu vou verificar o lugar.
Era uma rotina, sempre que visitavam o estacionamento Mikael tinha que ver se o lugar não havia recebido visitas recentemente. Devido a habilidade mágica de Laura ele optou por não contar ainda sobre seu despertar para a Ordem, era algo incomum e estava atraindo algo perigoso até ela. A ajuda de mais guardiões podia ser necessária, mas ele conhecia a associação, não queria que acontecesse com ela o que aconteceu com ele anos atrás. Enquanto isso Laura começava seus aquecimentos, concentrando seu Éter interno, meditando. Seu controle evoluiu muito rápido ao ponto onde já podia usar sua habilidade se concentrando, Bela estava deitada próxima a sua dona enquanto a energia mágica fluía. Mikael já estava voltando para o primeiro andar quando sentiu uma oscilação no Éter, ele sacou sua Khopesh olhando diretamente o local, seus olhos brilharam num vermelho carmesim com a concentração mágica que havia neles, um truque comum usado para enxergar coisas ocultas. Até que de uma distorção saiu Laura, vestindo uma regata branca, calça legging azul e com os cabelos soltos, ela caminhou até Mikael com um sorriso no rosto.
— Que foi? Não vai usar essa espada em mim que eu sei... Por que seus olhos estão vermelhos?
— Eu tenho que me acostumar com isso — Mikael suspirou e guardou seu catalizador na bainha em suas costas. Ela tinha a lamina feita de um metal vermelho e alguns adornos egípcios extremamente antigos. — Devia estar meditando
— E eu estou, já consigo controlar muito melhor agora.
— A dois dias você apareceu em cima de um prédio e caiu.
— Foi só um pequeno deslize, a Bela me atrapalhou com toda aquela fofura. — Laura cruzou os braços e desapareceu em outra distorção. Mikael fez uma careta enquanto negava com a cabeça.
Multilocação, era assim que se chamava a habilidade de Laura. A habilidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, um poder psíquico muito raro, ela era literalmente capaz de existir mais de uma vez ao mesmo tempo enquanto mantivesse a concentração. Uma habilidade tão rara não passaria despercebida, ela conseguia receber informações de duas situações diferentes, fazer duas coisas distintas com cada corpo como se fossem mentes individuais. Desde que ela despertou, sua habilidade anda ativando sozinha durante varias horas do dia, no começo ela pensou que estava ficando louca mas Mikael a ajudou a entender. Todas as noites, sem falta, assim que ela adormece acaba acordando em um segundo corpo e esse segundo corpo está sendo caçado por uma criatura que está causando um certo caos por onde passa. Sempre que ela acorda a criatura desaparece, era isso que Mikael estava investigando agora, como poderia salvar sua amiga?
Já no primeiro andar ele encontra Laura, ela estava concentrando sua energia na conexão com Bela, usava a mesma roupa da outra porém estava de cabelo preso. A pequena gata era um encantado amiga de Mikael, ela aceitou fazer um contrato com Laura para que pudesse a proteger da criatura enquanto ele não estivesse por perto.
— Tudo bem, vamos tentar de novo.
— Vamos lá Bela, a gente consegue. — A gata se levantou e foi até a outra parede onde ficou sentada. Laura fechou seus olhos, passou um momento até que a distorção aconteceu e a segunda Laura apareceu atrás da primeira
— Agora você precisa realizar a invocação com o segundo corpo
— Eu sei, eu sei. Deixa eu me concentrar...
O Eter fluiu de maneira tão intensa era quase visível, trazer uma criatura com um contrato era um feitiço simples de invocação, mas usar isso através de um outro corpo era um passo um pouco maior. Laura era uma encantadora, no momento de seu despertar ela conseguiu encantar o próprio celular que acabou se tornando seu catalizador por acidente, a forma mais simples que ela encontrou para usar suas magias foi mirando a câmera do aparelho para que pudesse focar. Felizmente o corpo secundário também trazia qualquer item que estivesse com ela desde que não fosse mágico, então a outra só tinha que reencantar seu celular para usar de catalizador. As duas sacaram os aparelhos juntas, uma mirando onde estava Bela e a outra ligou a câmera na parede mais a frente, ainda não era muito refinada a forma como ela fazia aquilo, mas serviria a curto prazo, com um clique ela tirou uma foto da gata que foi transportada em um túnel feito de Éter. Ela atravessou completamente a sala e apareceu do outro lado dando um longo bocejo.
— É isso! Foi bem melhor do que da última vez, ela nem perdeu a cabeça olha só. — Mikael estava animado, Bela lambia sua pata enquanto as duas comemoravam com um cumprimento maluco que ela provavelmente praticou bastante. — E o que foi isso aí?
— Eu maratonei Alicization e não descansei até aprender como faz, é muito mais fácil quando não preciso ensinar a outra pessoa como... como fazer...
— Laura!
Ela cambaleou para frente, a distorção ocorreu mais uma vez quando a segunda Laura desapareceu. A verdadeira cambaleou para frente se apoiando em Mikael que correu para ajudar, ela viu de relance os olhos dele brilhando em vermelho mais uma vez.
— Você precisa me ensinar como faz isso. — Ela estava suando frio, aos poucos suas pernas perderam a força e cederam, se sentou no chão com a ajuda do rapaz. Bela se aproximou deitando em seu colo.
— Agora eu tenho certeza, quando usa magias pela duplicata aumenta pelo menos um ciclo de dificuldade. Provavelmente o desgaste físico deve ser enorme, uma iniciante como você não está pronta para algo de segundo ciclo.
— Na próxima vez podemos tentar algo menos complicado né? Você não é um bom mestre de magia. — Ela fechou os olhos curvando a cabeça com um sorriso.
— É eu tô ligado, você não duraria um dia no treinamento de guardião com esse pensamento, a maioria te faz treinar até desmaiar.
— Eu nunca disse que queria ser uma guardiã
— Agradeça por eu ser o seu mestre então, com a sua habilidade acabaria sendo programada pra se tornar uma "agente" da associação. — Ele oferece uma garrafa de água, sua expressão ao falar da associação demonstrava muita insatisfação.
— Qual o seu problema com essa associação afinal? Você fala deles como se fossem os piores, eles não cuidam pra que ninguém descubra sobre a magia e tals? — Ela aceitou a garrafa, estava cansada, os olhos caídos e quase fechando. Não parecia estar preocupada, provavelmente não era a primeira vez que chegava naquele ponto.
— Tenho uma história com a associação. Da pra dizer que ela se esqueceu de mim por muito tempo e eu tive que fazer algo grande para que eles se lembrassem.
— Entendi, longa história, me conta depois do soninho. A mimir. — Ela deitou no chão do estacionamento apagando quase que imediatamente.
Mikael se levantou, fez um sinal para Bela que confirmou com a cabeça. Estava na hora do almoço e ele iria comprar comida enquanto sua amiga esfinge tomava conta de Laura, apesar de parecer uma gata inofensiva ele sabia que poucas criaturas no Rio de Janeira ousariam se meter com Bela. Justamente por isso a mantinha no estacionamento, além de proteger o lugar também a mantinha escondida, uma criatura como ela poderia trazer efeitos terríveis para o ecossistema local, o que com certeza a faria ser caçada.
Duas da tarde e eles finalmente terminaram de comer, quando Laura dormia pelo dia a criatura não aparecia para lhe caçar então era uma boa oportunidade de descanso, os dois decidiram passar o resto da tarde investigando o que era a criatura. Visitaram os locais onde Laura costumava ser caçada, janelas quebradas onde ele se pendurava, postes caídos, marcas de garras em paredes, bancos de praças revirados, nada que apontasse diretamente o que era a criatura.
— Eu vou patrulhar hoje a noite
— Mas você não pode agir como guardião não é? Ficar escondido foi uma ordem direta daquela tal dançarina das lâminas não foi? Não quero aquele cara mal encarado brigando com você
— Não da mais pra esperar, olha aquilo.
Os dois estavam agora no lugar da noite passada, Laura teve calafrios ao notar que a destruição era muito maior do que o normal. Árvores estavam caídas pelo chão, carros revirados, mas o que preocupava Mikael não era somente a destruição causado e sim os guardiões que estavam investigando, um mais velho loiro de olhos azuis com roupas finas e o outro mais jovem de cabelo raspado tentando imitar tudo que o mais velho fazia, se ele não impedir a criatura o quanto antes os guardiões chegariam até Laura.
— Vai pra casa, eu vou tentar rastrear ele
— Nem sabe o que ele é, você me disse que não podia tentar rastrear sem se preparar primeiro
— Pode deixar, eu me garanto numa briga. Não da pra perder mais tempo.
— Aquela coisa tem pelo menos três metros! Nem vem, eu vou junto com você
— Eu preciso que você durma pra ele aparecer, então você não pode vir junto. — Mikael raramente falava como um guardião, e foi a primeira vez que ele falou assim com Laura, ela percebeu aquela mudança.
— Olha, se alguma coisa acontecer com você eu… não sei o que eu faço
— Não vai, não se preocupe. — Ele sorriu, seu tom calmo passou segurança para ela. Estava realmente confiante.
Laura dirigiu de volta para seu apartamento enquanto Mikael voltou andando para o estacionamento abandonado. Quando ela chegou já estava anoitecendo, sabia que depois de dormir não demoraria muito para a criatura aparecer de novo... Mas dessa vez ela não queria correr, queria tentar lutar, se ela segurasse a criatura tempo o suficiente para que ele pudesse a rastrear já seria o bastante, só essa ideia já a fazia tremer de medo. Tentar se lembrar da criatura era tão frustrante quanto tentar lembrar de um sonho, ela decidiu tomar um banho, sempre pensava melhor no chuveiro.
Mikael estava no estacionamento, segurava sua Khopesh com força, se iria mesmo tentar enfrentar aquela criatura precisava desenferrujar suas habilidades, tanto tempo atrás de um balcão pode ter um efeito ruim dentro de um combate de vida ou morte. Bela estava o ajudando, o rapaz desviava raios de energia com seu catalizador, a cada ataque aparado a lâmina começava a brilhar em um vermelho discreto, seus golpes demonstravam o treinamento complicado que teve, cada vez mais firmes e precisos, mais rápidos e potentes. Seu treinamento de guardião começou quando tinha apenas oito anos, um ano depois de seu despertar, aos quinze anos já era considerado um guardião e protetor da colônia de encantados no Saara. Protegeu seu povo, seus amigos, até sua presença chamar atenção indesejada sendo forçado a deixar o lugar onde foi criado. Foi alocado no Rio de Janeiro para se esconder, a presença de uma maga incrível garantia sua segurança. Gael que era seu mentor e seu melhor amigo garantiu que a Ordem da Garra era o lugar mais seguro para ele estar. Confiando em seu amigo ele concordou em ficar algum tempo parado enquanto Gael e Zipporah, sua esposa, buscavam pelo mundo a fonte do mal que caçava Mikael, ele prometeu não atuar como Guardião enquanto estivesse no Brasil, hoje ele quebraria sua promessa, mas tinha certeza que eles entenderiam.
Laura estava sentada em sua cama olhando para o relógio na cômoda, já eram quase dez horas da noite. Não estava com um pingo de sono, mas sabia o que fazer, no momento em que encostou sua cabeça no travesseiro o celular tocou, ela revirou os olhos bufando e atendeu sem nem ao menos ver quem era.
— Mas que saco! Quem é?
— Filha? — Ela quase engasgou com o susto.
— Mãe! Desculpa, eu não sabia que era a senhora! Por que está ligando tão tarde? Sabe que acordo cedo amanhã e...
— Só queria saber se você estava bem, sua avó começou a falar um monte aqui então achei melhor ligar logo.
— Ah, mãe... espera... a vovó! É verdade!
Maria Bittencourt, uma mãe extremamente carinhosa e preocupada, morava na zona norte do Rio de Janeiro e quase soluçou de chorar quando a filha disse que ia sair de casa. Também nasceu no Rio, mas seus pais eram Maranhenses. A avó de Laura, Dona Francisca, sempre demonstrou conhecer bastante sobre o folclore e fazer coisas que considerava mágicas, como não tinha pensado nela antes? Ela sempre sabia quando ia chover e onde achar as roupas que nunca encontrava.
— Então tem mesmo alguma coisa de errado não é? Eu já to indo, só tenho que pegar a...
— Não mãe! Não tem nada... me deixa falar com a vovó por favor, você não precisa mesmo vir pra cá as dez da noite.
— Acho bom não estar mentindo pra mim Laura.
— Mãe, por favor é importante. — O tom de Laura faz Maria ceder
— Tudo bem, vou passar para ela.
Laura ouviu de fundo sua mãe gritando a Dona Francisca, deu uma risada se sentindo nostálgica, geralmente só reencontrava com a família em datas especiais, talvez a partir de hoje ligasse mais vezes, só para ver como eles estão.
— Laura?
— Vovó! Olha eu preciso que você
— Graças a deus! Ele não te alcançou
— ...pera aí, como é? Você sabe sobre o...
— Escuta bem minha filha, essa coisa atrás de você é um Capelobo
— Um... aquele bicho horroroso com cabeça de tamanduá? Espera, como você sabe o que ele é? Como você
— Laura cala a boca e escuta menina!
— ...
— Presta atenção, você precisa...
Parte da parede caiu com os cortes de Mikael, ele podia ver a praça que havia em frente, usando magia ele conseguiu consertar tudo em poucos segundos. Sentia que estava finalmente pronto. Ele olhou o relógio e já eram quase dez horas, cumprimentou Bela fazendo carinho em sua cabeça com um sorriso gentil em seu rosto.
— Não precisa se preocupar, eu dou conta da criatura de três metros, sanguinária, que virou cinco carros na noite passada... mas fica atenta que eu posso trazer ele até aqui se precisar. — Bela concordou. — Agora eu faço a minha parte. Espero que a Laura esteja fazendo a dela.
Sacando sua Khopesh ele desenhou no ar com o Éter os hieróglifos necessários para o seu feitiço. Seus olhos brilharam naquele mesmo tom vermelho, na noite eles se destacavam bem mais, o hieróglifo desapareceu em uma nuvem de areia que cobriu o corpo do rapaz, em pouco tempo estava trajando sua roupa de guardião mesclada com a roupa de bartender. Ajeitou a gravata e correu em direção a rua, sua velocidade ultrapassava tranquilamente entre os carros na rua, os motoristas viam apenas uma moto em alta velocidade, em pouco tempo ele estava no local do ultimo ataque. Seus olhos viram o rastro de Éter mais recente, o seguiu até o ponto onde ficava mais intenso, a partir dali podia ser atacado a qualquer momento pela criatura. Cobriu seu corpo criando uma barreira, todos os seus sentidos estavam atentos aos arredores, seguiu até uma rua completamente vazia o que era bastante incomum mesmo naquele horário, o véu estava agindo naquele local de forma que impedia as pessoas de entrar ali, o silencio era absoluto e havia somente a luz de alguns postes. Caminhou lentamente com a guarda alta, seus olhos vasculhavam cada canto e nada passava despercebido, até que por fim aconteceu. Mikael ouviu aqueles sons assustadores, ficando cada vez mais altos, ele não podia dizer com precisão de onde estavam vindo, olhou em todas direções, o som estava cada vez mais próximo, o guardião mudava sua guarda esperando um ataque a qualquer momento até que por fim olhou para baixo, sua sombra estava muito maior do que o normal e diminuía gradativamente, Mikael rolou para o lado e a criatura caiu criando uma pequena cratera com o impacto. Com um salto ele estava a metros da criatura, o poste que estava mais perto quase caiu, mas ainda era possível ver claramente, um ser de três metros com a cabeça e o focinho de um tamanduá-bandeira, corpo humanoide coberto de pelos e da poeira que acabou levantando, seu urro era quase ensurdecedor estourando algumas janelas no prédio mais próximo. Mikael não se abalou, firmou a postura segurando a Khopesh acima de sua cabeça com a mão esquerda enquanto a direita desenhou um novo hieróglifo no ar, que se desfez em luz moldando-se em um mangual egípcio, ele apontou a arma de luz para a criatura e fechou a cara o desafiando.
— Vem!
A criatura urrou, na metade de seu avanço começou a correr em quatro patas, quando estava a uns dois metro de distancia ela saltou, a resposta de Mikael foi saltar também balançando seu mangual e atingindo a criatura na lateral do rosto. O impacto foi grande, mas não a desestabilizou completamente e uma de suas garras atingiu o peito do guardião que foi lançado em uma árvore que se partiu, Mikael teve que rolar para que ela não caísse em cima dele, outro urro veio e então mais uma sequencia de ataques da criatura, por sorte a barreira ainda estava aguentando. Mikael era um transmutador, feitiços de proteção não eram o seu forte, não seguraria os ataques por muito mais tempo. Felizmente a criatura atacava sem técnica, seus ataques eram repetitivos então ele logo pegou o padrão, seus olhos vermelhos acompanhavam cada movimento até o ponto onde a criatura não era capaz de o acertar, o Capelobo deu dois passos para trás confuso enquanto o guardião pareceu esboçar um sorriso sarcástico, ele toma impulso para desferir um golpe com sua Khopesh e um carro acerta a criatura a jogando longe. Um Logan Branco, claramente usado e agora com o para-choque destruído. Mikael estava surpreso, principalmente pelo fato de que nem a criatura e nem ele perceberam o carro vindo.
— Mas... o que?
— E ai Mika... como ta a batalha? Sua gravata cortada diz muita coisa e... Uau, que pancada! — Laura estava como se espera de uma pessoa que acaba de bater o carro em uma árvore , ofegante e com o Airbag do carro mal a deixando falar. Mikael depois da luta estava cheio de arranhões, mas o que chamou a atenção dela foi o fato de seu uniforme rasgado revelar o que anos de treinamento fazem com o corpo de um guardião. — Porque nunca te vi na praia mesmo morando em Ipanema? Tu é um baita dum gos-...— ela foi interrompida pelo urro da criatura que havia desaparecido enquanto eles conversavam.
— Você não devia estar dormindo? — Mikael a ajudou a sair do carro, ele notou que havia alguém encolhido no banco de trás. — E como uma coisa tão grande consegue sumir assim?
— Devia, mas eu tinha que te contar o que eu descobri! Eu tentei ligar, mas você não atendeu! — Nesse momento Bela brincava com o celular de Mikael no estacionamento abandonado.
— Espera, como foi que você me achou?
— Há! Depois de tanto tempo vendo você fazer eu acabei pegando o jeito. — Laura sorriu e de seus olhos saíram uma pequena aura de Éter. Ela dominou aquela técnica apenas observando ele? Não, não era possível. Havia algo a mais.
— Andou praticando sozinha? Acho que to até um pouco orgulhoso... — Eles estavam de costas um para o outro, Mikael por algum motivo sentia a confiança emanando dela, isso lhe passou segurança para que lutassem juntos. — na verdade você parece até outra pessoa
— Minha vó me contou umas coisinhas, vamos acabar com essa coisa
— Tem um plano? Quer dizer, isso aí atrás não é a-… — Mikael não teve a oportunidade de completar, Laura apenas assumiu que ele entendeu e seguiu falando.
— Só precisamos acertar ele no umbigo, é assim que se mata um Capelobo
— Capelobo? Eles não tem cabeça de cachorro?
— Existem vários tipos, esse daí, é um velho conhecido da minha avó. Ela meio que fez um trato a algum tempo com algum tipo de entidade indígena... pra que ela pudesse ter filhos ninguém em sua descendência deveria despertar. Se acontecesse seria caçado pela criatura. Parece que o meu despertar quebrou algum tipo de selo que minha vó tinha colocado, isso quebrou o contrato também.
— Olha, é muita informação de uma vez. E o pior é que faz sentido.
Os sons continuavam, os dois podiam ver vultos saltando entre as paredes, derrubando os postes estrategicamente para que não pudessem enxergar. Laura estava com a câmera de seu celular tentando enquadrar a criatura, sem sucesso. Mikael concentrava o Éter em seu catalizador, fazia movimentos que disparavam cortes de luz na direção do inimigo que não parava de saltar, deixava marcas de corte e queimado nas paredes a cada erro. A criatura pousou bem ao lado deles, seu foco já tinha saído do guardião, as garras foram em direção a garota que não teve reflexos para se defender.
Ela rolou pelo chão, quando parou, olhou e viu que Mikael recebeu o golpe em seu lugar. O guardião estava agora apoiado nos joelhos, segurando o abdômen que derramava sangue no chão, aquela visão realmente a assustou. O capelobo passou sua língua fina pelas garras ensanguentadas enquanto ela mal conseguia segurar o telefone direito, se lembrou do perigo que estava correndo ali, por um momento havia se esquecido que os dois estavam sofrendo um risco real de morte. Ela deu um grito de frustração e jogou seu celular no chão o quebrando, isso chamou a atenção do capelobo que respondeu com outro de seus urros sinistros e avançou para cima dela, então tudo ficou claro.
Uma luz intensa veio de trás da criatura, tão intensa que queimou os pelos em suas costas e fez Laura virar o rosto pela claridade incomoda, essa luz logo passou e revelou Mikael que segurava um pequeno sol em suas mão, devia ter o tamanho de uma bola de futebol. Ele com muita dificuldade se mantinha de pé, arremessou a esfera contra a criatura que agora teve seu peito atingido, ela gritou e avançou contra o guardião mostrando seu lado mais selvagem. O rapaz apenas sorriu e caiu no chão mais uma vez, atrás dele estava um carro, o Logan branco, e em sua janela estava uma Laura de cabelos soltos apontando a câmera de seu celular para o capelobo, ela apertou o botão e então um flash cheio de magia, de dentro dele saiu Bela caindo bem na frente de Mikael, a criatura imediatamente parou de avançar.
— Quem é a gatinha da mamãe? — Laura tinha um sorriso confiante e até um pouco debochado, ainda estava assustada, mas suas habilidades como atriz sempre estiveram presentes naquela batalha. O capelobo olhou para trás e viu a outra Laura dando um tchauzinho com a mão. Essa tinha o cabelo preso, os dois armaram um jogo mental com a criatura, apesar de não ter funcionado tão bem quanto ela tinha planejado. — Mika! — Ela correu para o ajudar, deixando-o sentado próximo ao carro
— Caramba... se isso não tivesse dado certo eu poderia ter…
— Nem pense em terminar essa frase, mas aí, por que ele parou desse jeito?
— Bela é uma Esfinge lembra? Ele sabe que não da conta, se ele mover um músculo acabou... não está cansada depois de usar a invocação?
— Eu descobri que o que estava me cansando não era a invocação, era o catalizador, tudo o que eu fiz foi trocar de celular com a outra eu.
Bela se aproximou com passos calmos, a criatura não se mexeu, seus olhos se moveram em direção ao guardião. Mas não havia nada que Mikael pudesse fazer, Bela já havia decidido, ele machucou seu amigo e sua "mamãe" simplesmente não havia um cenário onde ele sairia dali vivo. Foi em um simples salto, o gato atravessou o umbigo da criatura como um cometa de energia, a criatura se desfez num gás que se uniu a juba da gata. Laura só confirmou com a cabeça e fez um joinha para Bela.
— Mamãe ta orgulhosa Belinha! E talvez um pouco assustada também, mas eu ainda te amo.
— Pode concertar isso aqui pra gente?
— Concertar? O que você quer dizer com... isso... — Laura viu a gata se desfazendo numa nebulosa e voltando com o tamanho do prédio mais próximo, seu corpo atravessava tudo o que era sólido. Ela simplesmente atingiu o local da batalha com a pata e tudo estava inteiro novamente, resolvido como em um estalar de dedos. A “Laura extra” desapareceu assim que a verdadeira perdeu sua concentração.
— Bem vinda ao mundo da magia... me leva até o estacionamento, eu consigo me regenerar, mas preciso fazer uma ligação.
— Claro, vamos pra casa. — Bela entrou no carro depois de voltar a sua forma de gata.
No dia seguinte, Laura caminhava enquanto escutava música em seu celular, avistou de longe Mikael acenando e acelerou o passo, ao lado dele estava uma mulher alta vestindo roupas leves, um óculos escuro e um chapéu que protegia seu rosto do sol, era um dia quente e estavam de frente para a praia, bem na entrada do Castelo de Mercúrio, um dos hotéis mais famosos de Ipanema. Mikael estava com parte do corpo enfaixado, mas ele não parecia se importar com o calor.
— Como você consegue?
— Eu vim do Saara e sou um guardião, não subestime minha resistência.
— Não devia estar no bar?
— O seu Walter me deu o dia de folga depois que viu que sofri um infeliz acidente... Você não parece estar ligando tanto.
— Você é um guardião, você aguenta... — Ela se aproximou de Mikael e sussurrou.
— Quem é bonitona do seu lado?
— Ela pode te ouvir. — Sussurrou de volta
— De fato eu posso, você disse que ela era minha maior fã e nem ao menos me reconheceu? Estou pensando seriamente sobre o nosso acordo garoto.
— Foi mal Emma, ela é um pouquinho avoada as vezes.
— Emma... espera, então quer dizer que ela é!? — A mulher tirou os óculos revelando seus olhos verdes quase inconfundíveis.
— Emma Rosstree, é um prazer Laura, acredito que você esteja com algo que é meu.
Laura mal conseguiu completar a próxima frase, os três entraram no hotel depois dos surtos de fã da garota. Não queriam chamar muita atenção afinal. Estavam sentados numa mesa quando Mikael começou a explicar.
— Laura, essa é Emma Rosstree, guardiã e membro da Ordem das Vozes em Los Angeles e ela é uma multilocadora
— Quê!? Igual a mim?
— Não, só ela é uma multilocadora. Laura, duas semanas atrás quando você veio aqui no hotel pegar um autografo com ela e vocês tiraram aquela foto... Aquele foi seu gatilho para despertar, numa situação comum isso nunca despertaria alguém, mas você é um pouquinho mais especial que um magista comum.
— Como uma foto pode me fazer despertar?
— Você não despertou com a foto, você despertou roubando a minha habilidade. — Emma finalmente falou.
— Você é uma ladra arcana! Não é legal? — Mikael completa
— Eu sou uma o que!!?
— Uma ladra arcana, você pode roubar habilidades mágicas é por isso você aprende tudo tão rápido. Você não estava aprendendo, estava copiando minhas habilidades.
— Gostaria que tivesse só copiado a minha também, mas resolveu pegar logo tudo não foi? — Emma pareceu meio irritada, isso fez Laura se encolher na cadeira.
— Me desculpa...? Eu não faço ideia de como fiz isso, e muito menos sei como devolver.
— Eu até pensei em pegar ele de volta a força, mas seu amigo me convenceu que você não era uma ameaça.
— Eu convenci ela a te treinar Laura
— ...O que?
— A Emma pode te proteger da associação muito melhor do que eu, ela também tem alguns probleminhas por ser parte da família real.
— Família real? — Ainda havia muito que Laura não sabia sobre o mundo magico.
— Não explicou pra ela? — Emma pergunta o jovem que logo desconversa
— Tenho certeza que vocês vão se dar muito bem, além de que, ela pode te ajudar com sua carreira de atriz também.
Era a oportunidade perfeita. Laura mal podia acreditar no que estava acontecendo, quando uma chance assim aparece ela não pode deixar escapar.
— Sim! Sim mil vezes!
— Ótimo, saímos amanhã de manhã, avise a sua família.
Emma se levantou sem dizer mais nada, Laura estava se segurando pra não sair pulando pelo lugar, foi só o tempo da Emma sair do Hotel para que ela saltasse sobre a mesa abraçando Mikael. Os dois caíram no chão e o rapaz fez uma careta de dor.
— Obrigada! Obrigada! Você é o melhor bartender do Brasil! E o melhor amigo do mundo! — Ela deu um beijo no rosto de Mikael que apesar da dor conseguiu ainda abrir um sorriso, os dois levantaram do chão. — Mas como foi que você... sabe... tanta coisa em tão pouco tempo.
— Quando você apareceu com os olhos cheios de Éter foi muito fácil de entender, além de que na manhã seguinte a Emma estava lá no estacionamento imobilizando a Bela.
— Caramba, ela é forte assim?
— Ela é assustadora.
— Bem... quer dizer que hoje é nosso ultimo dia juntos? Foi tão de repente...
— Até parece, pode me visitar quando dominar a multilocação. Quando você quiser
— É verdade, tenho que descobrir como devolver isso pra ela
— Sei que vai conseguir, aproveita o dia para se despedir da sua família. Parece que a Emma já ajeitou tudo quanto a sua transferência na escola de teatro
— Obrigada de novo Mika, não sei o que eu faria sem você. — Ela foi o cumprimentar com uma simples batida de mão, mas Mikael a conduziu no mesmo cumprimento maluco que ela tinha feito com a clone. — Espera, quando foi que você...
— Eu aprendo rápido.
Aeroporto do Galeão, Laura ficou espantada quando soube que existia uma divisão mágica inteira no aeroporto. Estava junto de Emma na primeira classe, toda aquela coisa chique ainda era estranho, elas conversavam sobre algumas coisas, como o fato de que Laura não falava inglês tão bem, felizmente eram coisas que a magia resolveria facilmente. Pouco tempo depois elas já estavam no ar, indo para os Estados Unidos.
— Eu vou sentir falta de casa.
— Você logo se acostuma, seria muito perigoso deixar uma ladra arcana no Rio de Janeiro. Muita coisa aconteceu por aqui recentemente.
— Muita coisa, sério? Nós mundanos realmente não sabemos de nada…
— Você não é mais mundana, agora é a minha aprendiz
— Verdade, obrigada de novo por me aceitar... — Laura ainda estava um pouco tímida, Bela decidiu ir junto com ela e estava adorando a primeira classe.
— Aquele seu amigo sabe ser bastante convincente, algumas vezes parecia um politico falando, quase bati nele por isso. — Laura riu
— Mika é um amor de pessoa, não faria mal a uma mosca. — Agora quem riu foi Emma
— Parece que tem muita coisa que você ainda não sabe sobre esse seu amigo.
Laura pareceu ficar um pouco confusa, quando pensou em abrir a boca para perguntar Bela pulou de seus braços indo até os bancos do outro lado do corredor, ela começou a arranhar a janela com suas patinhas enquanto olhava alguma coisa. Laura se levantou curiosa, quando chegou até a janela uma surpresa. Sentado na asa do avião estava um jovem vestindo roupas de linho, possuía duas grandes asas em suas costas e seus olhos vermelhos lembravam o por do sol, em seu olho direito uma maquiagem egípcia que representava o olho de Rá. Era Mikael, ele encarava para o horizonte abraçando seus joelhos, Laura sorriu vendo que ele veio se despedir e acenou, ele sorriu de volta para a garota e piscou um dos olhos, em seguida as asas do rapaz se abriram e o vento o levou até que sumisse de vista.
Bar do seu Walter, já fazem três dias desde que Laura foi para o exterior aprender a usar suas habilidades. Mikael trabalhava normalmente até que um homem entra no bar, um velho conhecido, pele escura e cabelos que lembravam serpentes, ele se sentou no balcão e disse num tom sério.
— Por que não me avisou que não estaria no bar?
— Falando assim até parece que alguém consegue entrar em contato com você, Okoyo
— Da próxima vez, eu vou te caçar.
— não precisaria fazer isso se me deixassem voltar a ativa. Aquele caso do Diomedes seria muito mais simples com a minha ajuda, você sabe.
— Isso não importa, você não pode usar suas habilidades até ter a permissão da mestra.
— Eu sei... quem é esse tal de Lauriel que andam falando tanto? Tô com uma sensação ruim...
— Você tem as suas ordens. — Okoyo pegou o celular e se levantou indo em direção a porta. — O Amon está seguro, ele não vai sumir de novo. Eu te garanto.
Mikael se apoiou meio triste no balcão, terminou de o limpar encarou o lugar onde Laura costumava se sentar com suas amigas. Assim que Okoyo saiu do bar, um rapaz com um chapéu de abas curtas entrou, ele estava com sua Kopis e parecia bastante estressado. Mikael abriu um meio sorriso pensando que talvez não precisem dele ainda, o Rio de Janeiro estava em boas mãos. O rapaz com o chapéu levantou a mão o chamando e Mikael se aproximou.
— E aí Aristeu. O de sempre hoje?
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