Ladrões e Piratas
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Jay foi levado à cabine do capitão. Harry se sentou numa cadeira e começou a tentar desmanchar o nó que Harriet havia feito enquanto explicava o que vinha acontecendo.
— É complicado. Querendo ou não, as bruxas do mar são matronas dos piratas. – falou tristemente. — Sugerir que desobedeçam a Úrsula é praticamente impossível. Se a Uma se metesse, talvez eu conseguisse convencê-los a se revoltar, mas... Ela tem uma relação complicada com a mãe, então...
— Igual todo mundo aqui. – Jay observou, as mãos já formigando, ansioso para ser solto.
— Acho que sim. – Harry concordou, desistindo de desmanchar o nó de forma tradicional, pegou seu gancho para poder cortar as cordas. — Foi mal pelas minhas irmãs, elas só estão seguindo ordens.
— Achei que suas irmãs eram capitãs e não seguiam as ordens de ninguém.
— É, mas... É como eu disse. Piratas não desobedecem às bruxas do mar. Quando o fazem, elas viram nossos navios e enviam tempestades para nos perseguir. E não é como se tivéssemos outro lugar para morar além do navio. Claro, Auradon tá dando exílio e tal, mas... Fora do navio... A maioria de nós só... Não sabemos fazer nada.
— Entendi. – Jay suspirou, as mãos finalmente soltas. Começou a massagear os pulsos, contente.
Harry o observava, com os olhos azuis faiscando com uma mistura de apreensão e delírio.
— Realmente, sinto muito por elas, de verdade.
— É estranho te ver se desculpando. – murmurou, cruzando os braços.
— Estou tentando me adaptar ao estilo de Auradon. – Harry deu de ombros, passando o gancho pelos cabelos pretos, os olhos passando distraídos pela cabine do capitão. — Gad ionndrainn, Jay.
— É o que? – Jay uniu as sobrancelhas, confuso. Se não tivesse saído com Harry durante um tempo na Ilha dos Perdidos, não teria reconhecido aquilo como gaélico escocês, mas ainda assim, não fazia ideia do que ele tinha dito.
Filhos de um pirata viajado, Harry e as irmãs tinham fluência nas antigas línguas que antecediam a fundação de Auradon, da época que as atuais províncias eram reinos separados. Gaélico era a favorita de Harry.
— É melhor você ir. – Harry suspirou, se levantando. — Meu pai não deve demorar a chegar e ele não te deixaria sair.
Jay segurou a mão dele antes que passasse. — Harry... – por um instante pensou em falar tudo. Contar que tinha sentido falta dele, que ainda gostava demais dele e que Gil também gostava e que por mais louco que parecesse, achava que podiam se dar bem os três juntos.
Mas, antes que pudesse dizer isso, recordou que o combinado com Gil era outro e se conteve. Sabia que o loiro era sensível e estava acostumado a ser ignorado e não ter nenhum poder ou autoridade dentro de qualquer relação de qualquer tipo. Não queria que ele levasse aquilo como uma falta de respeito. Não queria que ele sentisse que o namoro deles era igual a todas as relações que teve na vida, que não tinha autoridade e não era respeitado. Então, por prudência, não disse nada e apenas sustentou o olhar ansioso de Harry.
Gancho puxou a mão, projetando o queixo de forma teimosa e cruzando os braços. — É melhor você ir. – repetiu. — Olha... Se der, pode não falar sobre isso com Ben e Mal? Não quero minha família encrencada
— Ah, sem problemas, eu entendo, mas... Podemos nos falar depois? Quando você voltar pra escola?
Harry apenas revirou os olhos e fez um aceno vago com a mão que usava para segurar o gancho. Jay suspirou, se dando por rendido e deixando o navio.
***
Gil caminhou até o bar do pai não muito animado.
Ele passou a vida inteira preso na Ilha dos Perdidos como todos os vilões. Mas, a verdade é que nunca nem mesmo conseguiu fingir se encaixar naquele lugar. Era filho do Gaston, então, todos esperavam que fosse uma massa burra de músculos e... Ele realmente era, mas... Não era tão bruto como o pai. Embora gostasse de esgrimir, não era um caçador. Não suportava a ideia nem de comer um animal morto! E pior... Ele era inocente. Era gentil demais com os vilões, esperançoso demais com o futuro, doce demais com os ajudantes do mal... Era bom demais.
E num lugar que idolatrava o mau e o horror, ser bom era ruim.
Ainda mais tendo dois irmãos realmente malvados. Gaston Junior e Gaston Terceiro eram gêmeos troncudos e exibidos, cópias perfeitas do pai, em personalidade e aparência. Gil nunca entendeu direito porque não herdou o nome do pai, sua mãe nunca explicou. Mas, suspeita que era porque Gaston nunca o achou digno do nome. Tirando os olhos azuis e os músculos, não se parecia com o pai em aparência. Talvez quando o viu ainda bebê, Gaston já soubesse que Gil seria uma vergonha como vilão e não queria honrar com seu nome uma criança que apenas o envergonharia.
Mesmo sempre tendo o desafeto do pai tão claro, Gil passou a vida tentando chamar atenção dele, conseguir conquistar ao menos um mínimo sinal de carinho. Júnior e Terceiro tinham as cabeças dos animais empalhados que caçavam expostas na cabeça. Gil nunca gostou da caça. Lembrava de quando o pai o levou para caçar pela primeira vez, ainda criança, numa das florestas da Ilha, de ver o cervo morrer e dos irmãos rindo... Nunca mais conseguiu comer carne depois daquilo. O que, obviamente, só fez com que o pai o olhasse com ainda mais desgosto. A vida toda parecia que esse era o único sentimento que conseguia causar em Gaston.
Gil se considerava com sorte por ter conseguido entrar pra tripulação da Uma. Sua capitã pirata era exigente, do tipo que queria apenas os mais fortes e assustadores. Nunca entenderia porque ela o aceitou como marujo. Seu pai pareceu quase feliz quando soube. “Ao menos, agora está agindo como um vilão.” A alegria do vilão sumiu quando descobriu que basicamente só pescava, socava indesejados e limpava peixes para Uma. Nem de longe o comportamento que esperava de um vilão da nova geração.
“Bom, surpresa pai, nesse lixo de Ilha, não dá para fazer muitas coisas vilanescas.”- argumentou, embora também não gostasse de nenhuma das tarefas que Uma lhe havia atribuído, mesmo que seu desgosto fosse por não gostar de brigar e nem de tirar vida de nada, nem mesmo de peixes.
Estremeceu ouvindo os típicos sons do bar. Os copos batiam com força nas mesas, garrafas eram arremessadas e gritos bêbados sem sentido ecoavam pelas paredes do ambiente decrépito e escuro.
Gil guardou sua espada no porta-espadas no canto e caminhou entre a multidão de vilões degenerados, com os olhos ainda brilhando de fúria com uma raiva que só quem passou vinte anos preso numa ilha de lixo e sem magia nem wi-fi era capaz de compreender. Acontece que o loiro passou apenas dezenove anos preso numa ilha sem magia então não entendia bem todo aquele ódio.
Especialmente considerando o fato que a barreira que os prendia ali tinha sido quebrada havia meses. Simplesmente não compreendia porque insistiam em continuar ali, vivendo no meio do lixo quando em Auradon havia maravilhas inimagináveis como água quente, borboletas... E chocolate! Mas, os ruins insistiam em viver num lugar sem chocolate! Não dava para entender!
Viu no canto do bar a mesa em que seus irmãos costumavam sentar, bebendo, fazendo quedas de braço e carregando moças bonitas nos ombros. Costumavam. Acabaram presos após serem pegos num complô contra Ben. Sabia que estavam num Reformatório Juvenil que Mal havia decidido criar, junto a outras crianças vilãs pegas aprontando do mesmo, como Ginny Gothel e Anthony Tremaine. Às vezes, cogitava aproveitar dos fins de semana para visitar os irmãos, mas, já exigia muito de si ir visitar o pai. De qualquer modo, eram Uma, Audrey e Aladdin que estavam cuidando do Reformatório, não sabia sobre o atual sultão de Agrabah, mas tinha certeza que os gêmeos estavam sofrendo nas mãos de Audrey e mais ainda de Uma. Sua capitã nunca gostou do jeito que os dois tratavam Gil.
Afastou esses pensamentos enquanto ia para detrás do balcão, onde suas tias, Claudette e Paulette serviam bebidas e se desviam de mãos bobas de bêbados inconvenientes.
— Bonjour!— Gil as cumprimentou com um beijo na bochecha. — Ça va?
— Ça va, querido. – Claudette sorriu, equilibrando uma bandeira cheia de copos numa mão e abraçando o sobrinho com o outro, ajeitando o vestido vermelho em seguida. — Seu pai está desmaiado lá atrás.
— Ele bebeu de mais de novo? – Gil suspirou, sentindo um peso nos ombros. Não estava surpreso, é claro. Em dezenove anos de vida, foram poucas às vezes que vira o pai sóbrio. A maioria tendo sido muitos anos antes, quando criança.
— Aham.
— Gil, querido... – Paulette chamou, olhando com nojo para o pirata velho e gordo que a prensava contra o balcão.
O loiro suspirou, tirando o homem com pé de madeira de cima de sua tia e o colocando pra fora do bar. Voltou pra dentro irritado. Aqueles bêbados eram como abutres cercando mulheres bonitas. Ele não se importava que o dinheiro deles servisse pra comprar comida, era detestável ver as Bimbettes naquela situação.
Suas tias eram gêmeas, lindas com cabelos loiros compridos e olhos de um encantador azul-esverdeado. Claudette de vermelho, Paulette de verde. Sua mãe costumava usar amarelo. As trigêmeas eram donas do bar, todas esposas de Gaston, escolheram vir com ele para a Ilha dos Perdidos. Gil nunca entendeu porque alguém escolheria ficar preso ali.
Por mais que amasse as tias de todo o coração, quase sempre que olhava para elas, Gil sentia um vazio absurdo. A falta que sentia da mãe lhe doía na alma, mesmo que a morte dela já fizesse oito anos. A terceira gêmea, Laurette, era tão doce quanto o filho e depois que ela morreu, Gil se sentiu, pela primeira vez, desprotegido na Ilha dos Perdidos. Sua última lembrança de Gaston sóbrio? O dia do funeral dela.
Afastou os pensamentos sobre a mãe, ciente de que sempre ficaria triste quando sua mente se voltasse para ela e seguiu seu caminho para os fundos do bar, onde seu pai estava desmaiado.
— Pai? – chamou hesitante, cutucando Gaston.
O velho caçador não era mais o mesmo de antes. Sua barriga de chope substituía os antigos músculos e o cabelo grisalho e desalinhado tomou o lugar do topete lustroso, uma barba por fazer com fios brancos e roupas sujas.
Gil tinha dificuldade de acreditar que aquele era o cara que enfrentou a Fera, que quase casou com a Rainha Bela e por quem todas as mulheres desmaiavam. Era difícil acreditar que Gaston já tinha sido grandioso, na verdade, ele achava que nem mesmo o pai se lembrava de um dia ter sido assustador. Não fosse o jeito agressivo do velho e as inúmeras cabeças de animais penduradas pela casa, Gil nunca teria levado as antigas histórias a sério.
Ele se lembrou da primeira vez que pisou em Auradon, quando viu a ponte mágica. Lembrou de ver Uma surgindo no mar em sua forma gigante, desaparecendo e então, surgindo como humana logo atrás deles. Foi a primeira vez que realmente viu magia, foi quando se tocou que todas as histórias eram reais. Incluindo aquela em que seu pai quase matou o Rei Fera. Era difícil imaginar isso vendo Gaston agora, mas... Era tudo verdade e por mais estranho que parecesse, lembrava de ter sentido orgulho em saber disso. Nunca admitiria isso ao Ben ou a qualquer outro jovem de Auradon, mas ainda sentia.
— Pai?
Gaston não acordou.
Gil suspirou puxando uma cadeira para se sentar ao lado dele. O pai estava com a cabeça caída na mesa, baba se acumulando no queixo, cercado por latas e garrafas de bebida.
— Eu tô começando a melhorar na escola. – falou, como se o velho o estivesse ouvindo. Era o mais perto que tinha de uma conversa com o pai desde a morte da mãe, então tomava cuidado de fazer disso uma tradição. Não havia um final de semana em que não vinha conversar com ele. — Eu e o Jay estamos bem, ele é... Bonzinho comigo. E estamos organizando uma viagem pelo mundo quando as minhas aulas de verão acabarem. Ele e o Carlos estão supervisionando os piratas em Auradon então, quase sempre encontrar tempo pra ir me ver. E... E a gente tá pensando em pedir o Harry em namoro, já que nós dois gostamos dele... Mas, ia ser diferente da sua relação com a tia Paulette e a tia Claudette. Sei que entre vocês é algo mais... Mas a gente quer mais do que só isso, sabe?
Gil parou um instante, pensando em como explicar seus sentimentos para o pai desmaiado, mas, sem ideias, apenas seguiu em frente no relato.
— Os ataques da Úrsula e da Malévola continuam, o povo tá assustado. Mas, conseguiram prender o príncipe Hans. Ben disse que esperam que ele saiba o que elas estão planejando, mas a Mal disse que é difícil. Você sabe, Úrsula e Malévola são vilãs que não dividem os planos com um vilãozinho de quinta categoria. A Uma tá ansiosa, ela não gosta do fato da mãe estar solta por aí afundando navios, sabe? Ela queria sair com o Lost Revenge, com a gente e mostrar aquelas coisas legais que ela tinha visto tipo... Os cocos e os peixes gigantes e tal... Mas, os navios tão proibidos de sair do porto até a Úrsula ser presa e ela tá estressada com isso.
Ele continuou falando, apertando as mãos, ansioso até não haver mais nada a dizer e quando acabou, se levantou e ajeitou um prato de comida. Deixou o prato na mesa para que o pai comesse quando finalmente acordasse, se despediu das tias e foi embora.
***
Harry não fez nenhum comentário quando Gil entrou no dormitório.
Ele continuou quieto conforme o loiro tirava o casaco e as botas.
Também não disse nada quando ele veio se deitar ao seu lado e encostou a testa em seu peito.
Ao invés disso, Harry apenas começou a fazer carinho nos cabelos longos e loiros do amigo com seu gancho.
— Eu odeio os fins de semana. – Gil murmurou por fim.
— Foi tão ruim assim?
— Foi igual. Achei que as coisas iriam mudar depois que a barreira foi quebrada, mas... Tá tudo igual!
Harry suspirou, ainda enrolando as mechas loiras no gancho de prata e pensou um pouco antes de falar:
— Pelo menos a gente não mudou.
Gil franziu os lábios, pensando sobre um instante.
— A gente mudou quando a Uma foi embora. – declarou por fim.
Harry mordeu a língua.
— Um pouco.
— Harry... – Gil hesitou um instante. — Je vous aime bien.
— Tha gràdh agam ort cuideachd. – Harry respondeu. Ele não sabia francês, mas, não precisava saber para entender o que Gil havia dito.
Eles tinham uma regra na Ilha: coisas importantes, coisas sobre sentimentos, o tipo de coisa que vilões não deveriam falar... Eles diziam em outra língua, assim, não seriam pegos. Sempre falavam assim quando queriam contar as verdades incontáveis.
—... E o Jay?
— A gente tem conversado. – Gil murmurou, sem jeito pensando no que iria dizer. — Tipo...
Quando estava para falar, percebeu que não se sentia a vontade com falar naquele instante. Não, não era o momento o problema. O problema era que ele não sentia que era certo ter aquela conversa sem o Jay presente porque, se o Harry concordasse, acabariam fazendo vários combinados sobre como aquela relação funcionaria e seria errado fazer esses combinados sem o Jay ali.
— Tipo... – retomou a fala, nervoso. — Pode almoçar com a gente amanhã? Tem uma coisa que queremos conversar com você.
Harry franziu os lábios, pensando a respeito.
Novamente, ele não disse nada.
Apenas deu um beijinho na testa de Gil e, isso bastou para que o loiro soubesse que estava de acordo.
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