Ladrão de Corações
1 Capítulo 1 - Prólogo - As janelas da vida
Notas iniciais

Sebastian Evans, o segundo de quatro filhos do Marquês de Ashworth, era conhecido por seu temperamento alegre, seus olhos expressivos, seu sorriso espontâneo, sua voz melodiosa e finalmente, por sua beleza estonteante que deixava todas as mulheres caídas aos seus pés.
Era fato notório que o ladrão de corações merecia esse titulo. Não havia em toda a região um só homem, de que status fosse, que lhe fizesse a frente quando o negócio eram mulheres.
Naquela madrugada, o jovem de apenas vinte e quatro anos saltava da janela de uma casa no meio da madrugada, quando ouviu o som de latidos muito próximos. Como não percebera que os animais estariam soltos no momento em que ele saísse? Se perguntou enquanto corria descalço, com as botas em punho sobre uma faixa de pedras que levava ao portão principal da residência.
Seu cavalo estava do lado de fora. A sua espera, escondido entre as ramagens do outro lado da rua. Isso, se ele conseguisse chegar até lá. Os pés começavam a doer muito, provavelmente já se cortara nessa empreitada.
Por quê? Ele se perguntava. Não ouvia sua mãe, arrumava uma noiva e parava com essa vida de boêmio. Bem, a resposta era simples, ele gostava de toda aquela emoção. Gostava de ter, a cada noite, uma mulher diferente. Gostava do frio na barriga quando estava prestes a ser apanhado.
Lá estava o portão, fechado, mas, a trepadeira que recobria o muro seria sua salvação. Duas, três, quatro passadas longas, e ele alcançou a ramagem verde. Suas mãos acostumadas seguraram firme o tronco fino. O corpo forte e longo imediatamente se elevou do chão. Para longe dos dentes dos cães furiosos. Em poucos minutos estava a caminho de casa. Para finalmente ter uma noite de sono. Porque a noite de sexo, já acabara.
Ele se virou na cadeira, olhando a rua. Aquela aventura que lhe custara alguns pontos sob o pé direito, ainda estava gravada em sua memória. Agora, aos trinta e um anos. Ele começava a acreditar que precisava ouvir sua mãe e casar.
Não havia peso sobre seus ombros largos no que se relacionava a rebentos. Seu irmão mais velho é quem tinha toda a responsabilidade. Artur estava casado há cinco anos. Já tivera dois filhos. O que queria dizer que ele, Sebastian, continuaria a vida de solteirão por quanto tempo desejasse.
Mas, aqueles olhares de sua mãe, o recriminando pela solteirice todas as vezes em que se encontravam, já estava cansando. Tanto quanto estava cansando pular de cama em cama, de corpo em corpo, de boca em boca. Definitivamente, o segundo filho do Marquês de Ashworth, precisava arrumar uma noiva.
E que época melhor para isso do que as apresentações? Haveria pilhas de debutantes naquele ano. Como em todos os outros aliás. Sua mãe já lhe falara em algumas. A filha de fulana. A neta de ciclana. A sobrinha de beltrana. Uma moça muito educada. Uma moça muito prendada. Uma moça de ótimo temperamento.
Nada disso lhe interessava. Ele queria a mais bonita. A mais vistosa. A mais charmosa. Aquela que só de olhar seu pênis saltasse dentro da calça. Uma que lhe satisfizesse tanto que ele jamais buscaria por outra.
Estava decidido então. Pensou ficando em pé. Satisfeito consigo mesmo pela decisão tão madura. Naquele ano, Sebastian Evans, mais conhecido como o ladrão de corações, se casaria e da fama restariam apenas as lembranças.
E que lembranças!
*************
Betina Larkin, filha do Barão de Larkin, circulou os longos e sedosos cabelos louros com a toca, os ombros foram protegidos pelo lenço delicado. As mãos recobertas por luvas de finas de renda. Estava totalmente pronta para o passeio no parque.
Uma última olhada no espelho lhe indicou que os olhos verdes brilhavam como esmeraldas. A face de pele perfeita estava muito lisa e rosada. Só agora lhe faltava sair em busca da irmã. Betina duvidava que a outra estivesse pronta. No mínimo estava agarrada em algum livro. Ou com seu cachorro e esquecera do passeio programado para aquela tarde.
Dito e feito. Hannah estava sentada na sala particular da mãe, lendo. Recostada na poltrona, ela devorava o livro rapidamente, sem se aperceber quando alguém entrava ou saia da peça. Os cabelos ruivos presos em uma trança pendiam para o lado, e as roupas não podiam ser mais em desacordo do que eram.
— Você ainda não está pronta? – Betina reclamou zangada. – Mamãe mandou nos chamar e você está aí, sentada nessa poltrona, com esse maldito livro!
Grandes olhos azuis, ou verdes, ou azuis? Não, verdes. Encararam a garota loira.
— Vocês podem ir sem mim.
Ah! Isso que não!
— “Você” sabe que nada pode ser feito sem a mimosa do papai. “Você” é a favorita dele, e é também a mais velha. Se “você” não for, eu não vou. Portanto, erga-se dessa cadeira e vá até seu quarto vestir algo adequado para um passeio no parque.
Hannah suspirou, fechou os olhos, bateu com o livro sobre a perna. Nada amenizou sua irritação. Precisava mesmo se erguer e fazer o que a irmã pedia. Tomou lentamente a direção do próprio quarto. A criada já separara seu vestido. Seus sapatos, sua toca.
Num último fio de esperança ela olhou pela janela. Nada. Nem sinal de uma possível chuva, a única coisa capaz de lhe salvar do tal passeio. Se jogou sobre a banqueta em frente ao penteador. Teria mesmo que ir a essa bendita atividade ao ar livre.
E para quê? Para segurar vela como sempre? Não importava que fosse a mais velha. O que era uma besteira. Cinco minutos não poderiam ser considerados. Afinal elas nasceram no mesmo dia. Então, literalmente tinham a mesma idade. Esses cinco minutos poderiam ser esquecidos. Todos viveriam melhor sem isso.
Nenhum homem olhava para ela se sua irmã “caçula” estivesse por perto. Betina irradiava beleza por todos os poros. Sua pele era lisa, branca e perfeita. Enquanto que a dela, tinha sardas. Os olhos da outra eram verdes esmeralda. Os dela, as vezes azuis, as vezes verdes. O cabelo da irmã era dourado como o sol. O dela? Vermelho... ou laranja? Que cor era aquilo?
Não importava. O que importava era o fato de que ela se conscientizara de que ficaria para titia. Ou acabaria casando com algum nobre sem dinheiro que estava apenas atrás de seu dote.
No fim das contas, elas saíram de casa um pouco antes do horário que Hannah considerava adequado. Ainda havia muita luz, as pessoas a veriam bem. A mãe e a irmã caminhavam um pouco a frente falando e gesticulando o tempo todo. Charlote sua mãe, apesar da idade, era uma linda mulher. Alta, magra, cabelos ainda loiros como os de Betina. E olhos de um azul inigualável.
Ah! Ela poderia ter ficado em casa. Ninguém notaria sua ausência. Todos os cavalheiros que passavam, cumprimentavam a dupla dianteira, e em momento algum desviavam seus olhos em direção a pessoa que vinha dois passos atrás.
******************
— Não posso acreditar! Você ouviu isso William? Seu filho vai se casar! Graças aos céus.
— Mãe, ainda preciso encontrar um noiva. – Sebastian retrucou se acomodando na cadeira ao lado do irmão caçula.
— Querido! Isto é a coisa mais fácil de se resolver! Há porções de moças em idade de casar pela cidade... – de repente a mulher de rosto oval arregalou os olhos como se tivesse tido a melhor das ideias. – posso promover um baile... assim, convidamos os jovens e as jovens solteiros, e pronto, tudo estará resolvido. Você encontrará seu par.
— Não estou tão certo disso. – algumas vezes ele quase não conseguia controlar o desejo de voltar à velha vida.
— Claro que conseguirá. Não é mesmo William?
O Marquês em silêncio absoluto olhava do filho para a esposa, da esposa para o filho.
— Deixe esse rapaz escolher com calma. – falou afinal.
— Mais calma William? Mais calma? Se não se apressar, Sebastian terá filhos aos quarenta anos.
— Que exagero mamãe! – Sebastian reclamou desta vez em tom de riso. Algumas vezes o desespero de sua mãe em casa-lo chegava a ser hilário.
— Você já tem mais de trinta. – ela informou que sabia exatamente há quanto tempo dera a luz a cada um de seus descendentes.
— Eu me casei aos trinta e três. – o Marquês falou de repente, atraindo o olhar atravessado da esposa.
— William! – ela falou alto.
— Ótimo! – Sebastian comentou antes de colocar um pedaço de queijo na boca. – Ainda tenho dois anos de solteirice.
— Sebastian! – foi o segundo nome citado, e logo todos os homens sentados à mesa começaram a rir.
Edward, o caçula, estava naquele momento com dezoito anos, o que o libertava da imposição da mãe por uma nora. Mas James, o terceiro, aos vinte e três, já era mais do que alvo da marquesa casamenteira.
— Nunca pensei que seria tão difícil casar meus filhos! – ela reclamou ficando em pé.
— Onde você vai mamãe? Nem terminou o café? – Edward perguntou escondendo o riso.
Sem oferecer resposta a mulher saiu rapidamente pela porta lateral.
— Ih Sebastian! Você está em maus lençóis. Tenho certeza de que ela vai preparar a lista de possíveis candidatas a nora. Mas...
Seu irmão era uma figura muito experiente para a pouca idade. Talvez fosse o fato de ser o caçula de quatro filhos homens. Sempre se aprende o que não se deve.
— Mas... – Sebastian incentivou encarando o irmão.
— Ouvi dizer que há uma jovem linda que está sendo muito assediada ultimamente.
— Quem?
— Não lembro o nome. Mas, certamente James já sabe. Mamãe deve tê-lo empurrado para ela.
Se James sabia, talvez seu irmão estivesse interessado na garota. E se James estivesse interessado. Ele deixaria para lá. Não era de seu feitio, entrar em contentas com os irmãos por causa de mulher.
******************
O maldito passeio parecia não ter fim. Voltas e mais voltas desnecessárias. Em que ela apenas olhava e via sua irmã conversar e flertar com rapazes de todas as idades. Bonitos ou feios. Altos ou baixos. Gordos ou magros. Alguns muito ricos, e outros apenas com um título para constar.
Enquanto isso, sentada no banco, sozinha, ela alimentava os patos que passeavam na beirada d’água. Tanto tempo perdido ali. Poderia estar em casa lendo seu livro. Certamente que se sentiria melhor.
De repente, a mãe se sentou ao seu lado.
— Soube que James Evans está na cidade. Você ouviu falar algumas coisa?
Hannah bateu no queixo como se pensasse.
— Não lembro... quem lhe disse isso?
James Evans fora o solteiro mais cobiçado da temporada anterior. E parecia que continuaria a ser na atual também.
— Ah! A esposa de Lord Dixon. – de repente a mulher apertou levemente as mãos sobre as pernas. – O irmão dele também está na cidade...
— Sir James tem irmãos?
Os olhos azuis da mãe a encararam insatisfeitos. Será que Hannah fazia aquilo para lhe perturbar?
— Três!
— Oh mamãe! Então é certo que nesta temporada Betina se casará.
— Não seja tola Hannah. Você sabe que para que sua irmã se case, você deverá no mínimo estar comprometida com alguém... e não vejo você sequer conversar com um homem.
— Eles que não querem conversar comigo mamãe.
Novamente aquele olhar insatisfeito Hannah pensou.
— Você poderia fazer uma forcinha pela sua irmã. Veja... quantos pretendentes ela tem...
Não precisava olhar. Já sabia muito bem.
— Se eu tivesse um, pode ter certeza de que Betina já poderia se considerar casada.
Ficando em pé a baronesa não retrucou. Conversar com sua primogênita era a tarefa mais árdua de sua vida. Hannah simplesmente não tinha jeito. E por causa da teimosia dela, Betina sofria.
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