Lados e Escolhas
25 O Preço de Uma Alma
Notas iniciais
“You were my conscience, so solid, now you're like water
We started drowning, not like we'd sink any further
But I let my heart go, it's somewhere down at the bottom
But I'll get a new one and come back for the hope that you've stolen”
A música simplesmente vinha até ele agora, como se não precisasse ser escrita, como se já existisse e ele apenas a transcrevesse, primeiro no piano, testando as notas, vendo se combinavam entre si, depois no papel, anotando-as. Era surpreendente que pudesse fazer isso agora, quando nunca pudera antes. Sua vida havia sido um compilado de conforto, então porque agora, quando tudo parecia destruído, ele podia finalmente compor?
As notas eram imagens; a neve no cabelo de Grace no último natal, e seus olhos castanhos se fechando um segundo antes de sua boca colidir contra a dele com intensidade o suficiente para destruí-lo.
O som da porta aberta atrás de si na sala de música o avisou de que não estava sozinho, e Draco deixou suas mãos caírem nas teclas do piano de uma vez, o som se espalhando pela sala como cacos de vidro pelo chão, e ele se virou, encontrando o pai, parado na porta, alto e imponente, encarando-o com olhos iguais aos seus.
Ele estava no mesmo lugar que Snape estivera uma semana antes. Draco não conseguia perdoar o padrinho, e nem sabia pelo quê. Snape não era o culpado de ele não ter conseguido matar Dumbledore. Na verdade, havia sido melhor assim, afinal, Grace ainda falava com ele porque fora Snape, e não Draco, a matar o diretor.
A revolta de Draco era ter sido carregado pelos jardins após, quando ele queria se esconder nos braços de Grace, pedir que ela cuidasse dele, porque ele havia acabado de presenciar algo horrível. Não gostava de Dumbledore, mas o diretor sempre parecera um arquétipo, o tipo de figura que não morre.
Não que Snape tivesse tentado se desculpar; não era de seu feitio. E de qualquer forma ele tinha outra afilhada com quem se dava melhor. Cordélia havia assumido o posto de diretora da Sonserina depois da morte de Emília Bulstrode em Hogwarts. Pelo que soubera ela que fora responsável pelo Veritasserum no suco matinal dos irmãos Carrow que gerara uma série de confusões e uma busca infrutífera pelo culpado –afinal, a professora Mcgonagall não deixaria seus alunos serem punidos, ainda mais por nenhum motivo.
Draco desviou o olhar rapidamente, imaginando se o pai estaria invadindo a mente dele, e usou oclumência como reflexo, do jeito ensinado por sua tia. Tinham sido os dois por tantos anos, Draco se espelhando no exemplo de Lucius. A uma certa altura conhecia o rosto do pai melhor do que o próprio. Lucius era a única pessoa da qual ele não conseguia esconder o que sentia. Ou a primeira pessoa, ao menos. Às vezes sentia como se Grace enxergasse através dele, como se ele fosse feito de vidro.
Seu pai se aproximou dele por trás; não era confortável. Seu pai acreditava em amor duro, e seus castigos e punições eram sempre medonhas e desagradáveis. Um arrepio corria por sua espinha quando ele pensava no que seu pai diria se soubesse de Grace; não era segredo. Parecia que toda a Sonserina sabia, no castelo.
—Escondido aqui de novo. –Seu pai notou, olhando não para ele, mas para um grande retrato de Abraxas Malfoy, naquele momento dormindo, que ficava em cima do grande piano de calda. –É de se pensar que está evitando os Comensais e o Lorde.
A voz de Lucius tremeu ao dizer o último nome. Ele não era mais o mesmo desde Azkaban; não prendia mais o cabelo com presilhas de prata e agora não tinha mais sua varinha. Ollivander, embora estivesse no porão deles, não tinha o material para confeccionar uma varinha nova para o seu pai.
—Estou tocando. –Draco disse com obviedade. –E não quero incomodar ninguém com isso. Achei que o Lorde estava viajando.
—Está, mas sua prima, Ariadne, está aqui. –Draco detestava Ariadne Rosier como detestava poucas pessoas no mundo. –E Warrington. Eles têm quase a sua idade.
Eles também eram pessoas com quem Draco não tinha, nem desejava ter, amizade. Era apenas o feriado de páscoa, mas ele desejava voltar a Hogwarts, desejava seus bons amigos, e o frio no estômago quando pensava que Grace poderia estar em qualquer lugar do castelo; exceto que agora ela estava formada e não poderia. Já eram quatro meses que não a via, e tinha medo que sua imagem desaparecesse da retina dele.
Ocorreu a Draco que ele não era o único se escondendo. Seu pai agora vivia como um intruso em sua própria casa, desde que Bellatrix praticamente se mudara. Como ele tinha uma varinha e um mau temperamento, Lucius logo aprendera a simplesmente não ficar em seu caminho; ela também não era uma tia muito boa para Draco, mas, embora não conhecesse amor, parecia conhecer sangue, então o tratava bem quando estava de bom humor.
Seu pai olhou pela grande janela de vitral transparente que ficava ao oeste da sala, virada para o jardim com gazebo. Seu olhar era de nostalgia, mas de raiva também. Draco sabia o que ele estava pensando: que sua propriedade e sua liberdade haviam sido saqueadas pelo partido das trevas e que ele as queria de volta. Mas eram pensamentos proibidos, pois seus pensamentos também haviam sido saqueados, e não estavam seguros nem dentro de sua cabeça loura.
O próprio Draco não pensava muito diferente. Haviam transformado a casa de sua infância, seu castelo particular, em um campo de concentração, um tipo de Azkaban 2.0, onde pessoas eram torturadas debaixo de seus narizes, debaixo do quarto onde ele dormia, e ele não tinha coragem de fazer nada sobre isso.
—Sua tia está lá embaixo, se divertindo com uma sangue-ruim. –Seu pai comentou. Draco sentiu um arrepio; sua tia só se divertia quando outra pessoa estava sofrendo. –É tão indigno; sujar-se dessa forma com o sangue sujo deles, mas ela sempre gostou de chafurdar na lama, a Bella. Nada como Narcisa.
Draco nem gostava de pensar em sua mãe naqueles momentos. Narcisa parecia fria, mas era delicada, e o estado da casa que ela cuidara com tanto amor por tantos anos a deixava doente. Draco não sabia dizer se ela queria se livrar do Partido das Trevas, ou simplesmente ganhar a antiga honra dos Malfoy de volta, de forma que eles pudessem ter sua vida de volta.
—Ao menos ela está se divertindo. –Draco disse sem sinceridade, apenas porque seu pai já era muito desconfiado do fato de que ele se recusava a descer ao porão e observar a carnificina, como se Draco fosse fraco; mas não achava que podia olhar.
—Está mesmo. –Lucius respondeu, indiferente. –A namoradinha sangue-ruim de Weasley ainda não abriu a boca, mas logo vai.
Um comichão coçou o peito de Draco como uma ferida antiga.
—Granger está aqui? –Perguntou imediatamente, sentindo nojo. Não, decididamente ele não iria lá embaixo. Como poderia olhar nos olhos de uma garota que fora, mesmo à contragosto, sua colega de classe por anos a fio e saber que ela o considerava culpado. Que suas ideias e seus preconceitos os haviam levado até ali. Ela cuspiria nele, e com razão.
—Não a imunda da Granger. –Disse seu pai. –Outra. A que ousa trabalhar no Gringotts como se fosse uma bruxa de verdade; coisa dos duendes, deixarem a escória lidar com o nosso dinheiro.
Draco achava que poderia vomitar; e achava que seu pai percebia isso e estava testando-o.
—É mesmo? –Baixou os olhos para o piano e tocou em algumas teclas. –Tia Bella arrancou algo dela?
—Não sei, só teve tempo de fazer isso hoje. –Lucius o encarava. –Ela não parece que vai durar; é tão pequena.
—Bem. –Draco se levantou, mantendo a expressão neutra. –É o que eu vou descobrir.
Havia uma goteira no teto. Grace não conseguia ver o buraco de onde saia a água nas longas horas que ficava jogada no chão sem conseguir mexer os braços ou pernas, apenas ouvindo a própria respiração para não notar os outros gritos que se erguiam pelas masmorras. A água caia do teto para o que agora já era uma poça no chão. Quando ela chegara, não havia poça, mas, gota a gota, a poça estava lentamente atingindo proporções de inundação.
Grace teria pensado em usar a água para se lavar, se a água não fosse tão suja quanto ela mesma. A gota caía no chão, que já estava sujo de poeira, sangue, cabelo e, em alguns casos, enxertos de pele. Além disso, vez por outra, um comensal chegava com sua varinha e performava Aquamentis em cada um dos prisioneiros, alegando que os sangues-ruins eram ainda piores fedendo.
Não importava quanto tempo passava, a cada vez que a porta se abria, com barulho de madeira rasgando madeira, Grace sentia um arrepio, se perguntando se daquela vez seria ela, porque sabia que em algum momento seria. Vira o olhar no rosto de Bellatrix quando pousara os olhos nela; talvez a reconhecendo do Banco, certamente furiosa que uma nascida-trouxa, ou sangue ruim como ela gostava, houvesse escapado de Azkaban, ainda mais por namorar um Weasley.
Ela aprendera a não pensar em Fred. No começo porque tinha medo de que sua mente fosse invadida e não pensar nele era o melhor que podia fazer para protege-lo; protege-lo por fazer parte do Observatório Potter, por ter pedido a uma nascida-trouxa para que casasse com ele. Agora, porém, era outra coisa. Talvez tivesse sido desde do começo; Grace se ressentia de ele não ter estado em casa quando ela chegou, de não a ter ido buscar na casa de Tonks como Viktor sempre fazia com Cordélia.
Além disso, o tempo seguia passando e ela continuava ali. Não sabia o que Fred poderia de fato fazer, mas sabia que a Ordem tinha ainda pessoas do lado de cá dispostas a enviar informação, como a própria Cordélia, que tinha acesso aos Comensais através do padrinho. Mas ninguém tentara alcança-la, e Grace não acreditava ser porque não sabiam bem como. Às vezes, só de rancor, esperava que a matassem logo, e então Fred lidaria com o fato de que não fizera o suficiente para salvá-la.
Outras vezes apenas se sentia grata que fosse ela, e não ele.
O barulho de madeira contra madeira da porta mastigando os seus ouvidos se lançou novamente no ar, e Grace sentiu seu coração disparando. Ela não virou a cabeça, porém, havia aprendido a não fazer isso. Apenas esperou até que o som de metal contra o chão duto a informasse que era apenas a hora da refeição; mingau mole e sem açúcar. Grace relaxou contra o chão e não olhou no rosto do Comensal que deixou sua comida ao seu lado; ele também não a deu atenção; tinha seus olhos numa mulher alta do outro lado da sala, de quadris largos, mas ossudos pela falta de nutrientes. Grace sabia o que estava por vir, e não olhou quando a mulher foi puxada violentamente, ao som de um choro baixo, para fora das masmorras; não para ser libertada, mas para outro tipo de violência.
Ela não saberia dizer quanto tempo se passou desde que os dois haviam saído, mas algum tempo depois a porta se abriu, e Grace pensou que ao menos ela havia voltado; às vezes elas não voltavam. Iam e ficavam por lá. Às vezes voltavam com caras de outras bruxas, até que a Poção Polissuco cedesse de seus organismos. Porém, quando voltou, não foi seu captor que a trouxe pelo braço grosseiramente e a deixou cair de volta no chão sujo de onde fora tirada.
Grace notou primeiro as botas edwardianas de salto, então a barra do vestido preto, com uma renda rica e elaborada quase cobrindo o bico triangular das botas.
A adrenalina foi jogada em seu sistema com tanta força, que Grace conseguiu se levantar o tronco em uma posição sentada; arrastando-se até que suas costas encostassem a parede fria atrás de si, raspando sua nuca por causa do cabelo curto. Bellatrix seria mais alta que ela mesmo que Grace estivesse de pé, mas sentada ela se sente ainda mais vulnerável. A bruxa sorri, e Grace espera que ela se aproxime, a varinha em riste, como em vários de seus pesadelos.
Não é o que acontece. Ao invés disso, a bruxa se afasta, para a sombra do canto onde a outra garota está. Grace assiste seus movimentos com alarme; seja o que for que acontecerá, ela não se permite sentir alívio pela distância. Bellatrix volta à outra garota, e a puxa para cima pelos cabelos. Grace assiste, horrorizada, enquanto ela luta por um segundo, mas cede eventualmente.
Tudo que Bellatrix faz é leva-la até Grace, perto o suficiente para que ela sinta um cheiro residual de sexo, e as manchas de mordidas ao longo de seu pescoço e clavículas magras.
—Então? –Bellatrix pergunta como se elas estivessem conversando. A voz da bruxa ecoa ao longo da masmorra. –O que vai ser?
Grace não responde, em parte por confusão, em parte porque o medo faz com que seu peito trema demais para articular as palavras. Ela tenta usar os dedos para se agarrar ao chão irregular de pedra abaixo de si, mas apenas magoa a pele já sensível.
Bellatrix sorri mais largamente, um sorriso jocoso e débil.
—Você não entende o que quero dizer? –Pergunta com voz de criança. –Ora, é simples, leoazinha. –Grace treme ao apelido. Ele a faz pensar em Fred, da casa dos leões, mas isso é proibido. Ela não pensará em Fred. –Essa é uma trouxa. Ela achou que podia colocar o filho sangue-sujo dela para estudar com sangues-puros, se misturar a eles. Só uma de vocês vai passar mais essa noite; e você pode decidir quem.
Mesmo depois da explicação, Grace ainda está olhando para o rosto da outra com confusão. A mulher tem um dos olhos quase fechados, inchado por algum hematoma recente. Talvez ela esteja tentando olhar para Grace, mas é difícil dizer, pois o outro olho está fechado. Grace nunca realmente se esqueceria daquele rosto; fragilizado, vulnerável, desistido.
Certo e errado se confundiam. Seu pai tinha muitas frases para várias situações dúbias em que Grace se colocava. Se ela discutia com um colega, seu pai diria que “perdoar é divino” naquele tom de voz de sabedoria, que a faria ter certeza de que ele só poderia estar certo. Não era estranho para ela dar seu lugar para outra pessoa se sentar, ou ouvir o drama de seus amigos, e achara que isso fazia dela uma pessoa boa.
Mas não havia aceitado o vira-tempo de Dumbledore. Aceitara ficar em casa, segura, enquanto a Ordem se arriscava verdadeiramente. Não havia parecido covardia na época, mas agora soava assim.
Ela não se lembrava de ter feito a escolha em voz alta, mas algo em seu rosto, quando ela desviou o olhar em sua mulher, fez Bellatrix rir em voz alta, como se houvesse ganhado.
Grace achou que Bellatrix ergueria a varinha e mataria com uma maldição da morte. Grace nunca havia visto ninguém morrer diante de seus olhos, mas pensara várias vezes nisso desde do começo da guerra; o raio verde, o corpo de repente duro e frio.
Não foi assim. Bellatrix se aproximou da mulher e, usando a varinha como se fosse uma faca, a enfiou no pescoço da outra. Sangue espirrou diretamente em Grace, na parte da frente dos panos encardidos que a haviam dado quando chegara ali, como se ela fosse um elfo. O sangue manchou toda a frente de suas roupas enquanto Bellatrix enfiava a varinha de novo e de novo. Não houveram gritos, apenas um som gorgolejado, afogado, vindo da garganta.
Grace não desviou o olhar da cena, embora quisesse. Era respeito, seja lá o que aquilo valesse agora.
Draco conhecia as masmorras como poucas pessoas. Nos tempos antigos, seu pai escondia vários objetos das trevas ali; alguns foram vendidos para a Borgin & Burkes, outros guardados em outros lugares para abrir espaço. Era um dos lugares preferidos de sua infância; sempre tivera cheiro de guardado e de mofo.
Agora o lugar parecia um labirinto. Ninguém o impediu de entrar; não em sua própria casa, mas ninguém o preparara para o cheiro de podridão, ou, pior, para as pessoas. Draco tinha de olhar para elas, enquanto procurava por Grace. Sua tia estava lá em cima, o que queria dizer que terminara com ela. Ele andou, andou, andou, então se deparou com a cena da maioria de seus pesadelos.
Ela o encarou, pálida, com os lábios trêmulos. Perguntas morreram na garganta dele — o que ela estava fazendo ali? Como tinha chegado à Mansão? Foi tomado por um espasmo de pavor, pior do que qualquer medo que já tinha sentido. Alguma coisa estava errada com ela, com Grace. Draco deu um passo à frente, exatamente quando ela tirou as mãos do peito e as estendeu para ele. Estavam grudentas de sangue. Sangue cobria a frente da camiseta branca como um avental escarlate.
Ele a pegou com um braço enquanto ela cedia para a frente. Quase derrubou a varinha quando o peso da menina caiu sobre ele. Podia sentir as batidas do coração, o toque suave dos cabelos no queixo, tão familiar, mas o cheiro era diferente. O cheiro que ele associava a Grace, uma mistura de sabão floral e algodão limpo, não estava mais lá; só havia cheiro de sangue e metal.
Mais tarde, Draco se lembraria pouco do resgate em si. Lembrou-se apenas da sensação de querer se agarrar a ela, enquanto precisava fingir que não. De passar com o rosto erguido por alguns guardas comensais, segurando ela com força como se fosse poder, mas era desespero.
Ele podia sentir a respiração da menina, seus batimentos cardíacos. Uma vez sozinhos, Grace o estava segurando pela frente da camisa, embora ele duvidasse que ela percebesse, o rosto em seu ombro, e ele estava desesperadamente com medo que não fosse o suficiente, que ele não poderia protege-la completamente. Ele imaginou as memórias do que quer que sua tia houvesse feito nela, ameaçando esmaga-la, esmagar a ambos. Ele se apertou mais contra ela, como se isso pudesse ajudar de alguma forma.
Eles passaram pela porta de seu quarto e todos os sons desapareceram; exceto pela respiração pesada de ambos. Então a voz de Grace, sem fôlego.
—Draco, acho que você deixou cair sua varinha em algum lugar.
Ele afastou-se e olhou para ela. Ela encontrou seu olhar com firmeza. No escuro, seus olhos castanhos poderiam ter sido pretos. Seu cabelo louro estava escuro com sujeira e pó. Ele podia ver o pulso em sua garganta; disse a primeira coisa que veio a sua cabeça:
—Eu não me importo. Contanto que não esteja ferida.
Era uma frase boba, ele achou depois. Como ela poderia não estar ferida?
—Não sinto dor. –Ela estendeu a mão, os dedos roçando levemente pelo seu cabelo e seu corpo, como faíscas contra sua pele, algo em seus olhos parecia débil, alquebrado. –Tem sujeira no seu cabelo.
Havia preocupação em seus olhos também. Preocupação com ele. Lembrou-se da primeira vez que a beijara, em Hogwarts. Como ele tinha finalmente conseguido entender como a boca de alguém contra a sua podia desfazê-lo.
—Você não devia me tocar. –Ele avisou.
A mão dela parou onde estava, pairando sobre seu peito.
—Por que não?
—Você sabe o porquê. Você viu lá embaixo.
Ele ouviu ela prendendo o fôlego. Ela ainda estava olhando para ele, e se ele tivesse esperado ver horror em seus olhos, uma espécie de repulsa, ele não viu nada do tipo. Apenas alguma curiosidade, como se ela estivesse analisando o mapa de um país desconhecido.
Quase distraidamente, ele deixou que os dedos de Grace arrastassem de baixo de sua bochecha para os lábios, delineando o formato da boca com a ponta do indicador, como se estivesse traçando um curso. Havia admiração em seus olhos. Ele sentiu o coração sob seu corpo, sempre traidor, respondendo ao toque dela.
Ele a afastou.
—Você está ferida.
Ela desviou o olhar.
—Não é meu sangue.
—Poderia ser. –Draco rosna, mais para si. Ele se sente febril, tremendo. Ela pisca com a subta mudança em seu tom.
Ela se distancia dele e tropeça, cegamente, e ele não consegue se conter e vai até ela. Ela é delicada, e está tremendo em seus braços e ambos estão suando frio, e ele não consegue parar. A boca dela está parcialmente aberta, e ele traz seus próprios lábios juntamente com os dela, provando sangue doce e Grace. Ele a pegou em seus braços, e o alívio foi incrível – ele não tinha percebido o quanto queria tocá-la até que estava tocando. Até que ele a estava abraçando, e sua força, calor e suavidade estavam todos pressionados contra ele, e seu rosto era tão lindo que doía, e seus lábios se separaram de surpresa e sem outro pensamento ele os beijou.
Eu te amo. Ele não pode dizer isso, então ele diz com a pressão de seus lábios, seu corpo e suas mãos. Eu te amo, eu te amo. Suas mãos estão em volta da cintura dela, a levantando, e ele esquecera: ela não é frágil; ela é forte –seja lá o que ocorrera, ela ainda era forte. Os dedos dela estão sendo pressionados contra seus ombros, sua boca firmemente contra a dele, e seu coração está pulsando como se estivesse tentando se libertar do corpo dela enquanto a tinha como um alto falante quebrado.
Ele podia sentir com as mãos a forma do corpo dela ao inspirar, unidas na parte inferior das costas dela. Ela arquejou, mas não recuou ou se afastou – ele pensou que teria morrido se ela tivesse – ela se apoiou nele, seus lábios carnudos se abrindo sob os dele. Ela o estava beijando de volta. Ele tinha gosto de mel, cheirava a metal e fumaça. A mão dele deslizou por sua bochecha quente e na queda suave de seu cabelo.
O tempo parou.
Pare. Sua mente está dizendo. Pare, pare, pare. Ele força suas mãos para longe dela, e as coloca na parede, em ambos os lados da cabeça dela. Só que isso faz com que seus corpos fiquem mais próximos, e isso é um erro. Ele pode ver a pulsação de sua garganta, e ele não consegue desvencilhar o olhar de sua boca roseada por causa do beijo, enquanto ela respira rápido.
—Eu matei alguém. –Ela diz, e sua voz, ou a consciência do que ela disse, era como um sino no silêncio, ressoando até onde os ouvidos alcançavam. –Bellatrix me fez matar alguém. –O sangue na parte da frente de suas roupas parecia mais vermelho agora. Ela não o olhava, tinha os olhos nas próprias mãos, como se eles fossem instrumentos, não mais parte dela.
Era essa a dureza em seu olhar que ele vira mais cedo. Draco não podia se importar menos com quem ela matara, mas o fato de que algo se quebrara dentro dela quebrava algo dentro dele. Ele pensara, antes, que, se ela fizesse algo horrível, ele seria mais digno dela. Ambos teriam manchas para compartilhar, mas agora percebia que não era isso que queria.
Draco sempre achara que era isso que ele queria — que Grace soubesse. Mas agora ele não tinha certeza. Grace não era qualquer um, e, subitamente, Draco não sabia ao certo se realmente queria que ela fosse.
Foi então que ele aprendeu que inocência perdida não podia ser recuperada. Existem manchas que não podem ser lavadas, independente do quanto eles esfregassem o sangue da pele um do outro. Nem mesmo depois de anos de arrependimento. Nem mesmo depois de uma vida inteira de arrependimento.
Eles tentaram lavar as manchas. Draco a levou para o seu banheiro; um enorme aposento, do tamanho do quarto de Grace, em casa, com piso de porcelana, uma grande banheira de água quente colorida afundada no chão, lembrando a banheira dos monitores, e Hogwarts. Draco a colocou lá dentro, não entrou com ela, mas esfregou espuma em seu couro cabeludo até que ela cheirasse como ele; um cheiro almiscarado e limpo. Ele não tinha tempo de recuperar suas roupas, então a ofereceu um roupão de seda preto; ela mal podia imaginá-lo na roupa.
—É melhor você me levar de volta. –Grace disse, bancando a corajosa, embora seus olhos estivessem sombrios com a ideia de descer de novo. –Ou Bellatrix pode desconfiar.
—Ela já sabe. –Disse Draco com certeza. Vira o olhar da tia quando ele passara por ela no corredor; e mais, o olhar do pai apenas alguns minutos antes na sala de música. Parecia outra vida; uma vida onde Grace não estava ali, mesmo na situação que estava, com ele. –Ela viu como eu olho para você. E você olha para mim também.
— Eu não olho para você — sussurrou Grace.
— O quê?
— Eu disse: eu não olho para você. — Ela soltou as mãos que estavam presas no colo. Havia marcas vermelhas onde os dedos se apertaram. — Pelo menos tento não olhar.
Os olhos dele cerraram, apenas uma linha prateada aparecendo entre os cílios. — Por que não?
— Por que você acha? — As palavras eram quase inaudíveis, mal se qualificavam como um sussurro.
— Então por quê? — A voz dele tremeu. — Por que tudo isso com o Weasley, por que ficar me evitando, sem me deixar chegar perto de você no fim do último ano...
— Porque é impossível — disse ela, e a última palavra soou como um ganido, apesar dos esforços para se controlar. — Você sabe tão bem quanto eu!
— Porque você é nascida-trouxa— disse Draco. Ela fez que sim com a cabeça, em silêncio. — Possivelmente — Draco continuou. — E por causa disso você decidiu que o seu velho amigo laranja é uma boa distração?
— Não é assim — disse ela. — Eu amo Fred.
— Como você ama Ollivander. — Disse Draco.
— Não. — A voz dela era tão fria e afiada quanto uma geleira. — Não me diga como eu me sinto
— Você não entende — disse ele. Sua voz tremia. — Nunca me senti assim em relação a ninguém. Não achei que pudesse. Pensei que, do jeito que eu cresci, o meu pai... pensei que essa parte do meu coração estivesse quebrada. — Tinha uma expressão no olhar enquanto falava como se estivesse surpreso em se ouvir dizendo aquelas palavras, dizendo seu coração. — Para sempre. Mas você...
—Não quero que você se machuque. –Grace disse com urgência.
—Já estou machucado. –Ele respondeu. —E você também.
Grace não pensou em Fred; havia se habituado a não pensar agora, e ao lado de Draco esquecia-se mesmo de como o rosto dele era. Ela havia o amado, sim, e, em Hogwarts, havia tido dúvidas. Mas o tempo longe de Draco havia feito algo com seus sentimentos; eles se dilataram, tentando alcança-lo. Era tudo sobre o que ela podia pensar agora; mesmo que se sentisse suja. Draco não ligava que ela estivesse manchada agora. Fred não teria suportado.
Draco pensou em Lucius, com uma alegria doentia. Ele estava com Grace debaixo do teto onde Lucius o havia ensinado dia após dia que o lugar de gente como ela era debaixo de seus pés. Agora, ela dormia em seu peito, no centro de sua grande cama de casal, com lençóis de seda e dosséis verde-escuro.
—Onde está seu colar? –Draco perguntou baixinho em seu ouvido.
—Foi levado com o resto das minhas roupas. –Ela respondeu.
Draco não sabia quanto tempo tinham; Bellatrix poderia ignorar por algum tempo como ele se sentiria, mas não ia durar. E agora que ele sabia, e que achava que ela sabia, não estava disposto a abrir mão de Grace.
Tudo que havia era isso: ela parecia machucada e assustada, e não havia nada que Draco não faria para tirar aquele olhar de seu rosto.
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