Lados e Escolhas

29 O Inferno Está Satisfeito


Notas iniciais
Com esse título animador de capítulo, desejo a vocês uma boa leitura. Quero agradecer de novo a lealdade e o apoio de minhas leitoras, especialmente da Bri, que acompanhou desde Lembrem-se de Cedrico Diggory. Nos vemos nas notas finais!

“No light, no light in your bright blue eyes
I never knew daylight could be so violent
A revelation in the light of day
You can't choose what stays and what fades away
And I'd do anything to make you stay
No light, no light (no light)
Tell me what you want me to say”

Logo quando fora apresentada ao mundo da magia, Grace se preocupara grandemente com as histórias bruxas. Afinal, fora uma grande leitora de histórias e contos quando criança. Fora à Terra do Nunca com Peter Pan, e caíra no buraco do coelho com Alice. Então, chegando ao mundo mágico, todas as outras crianças; Amy, Cho, Melinda, conheciam histórias que não eram a ela nada familiares.

Num instante, ela correu ao correio-coruja e pediu um exemplar do famoso Os Contos de Beedle, o Bardo.

Por algum motivo, a história da qual ela menos gostara era aquela da qual agora se lembrava melhor. O Coração Peludo do Mago fora uma história que fizera a Grace de onze anos contemplar todas as possibilidades de ser uma bruxa, mas com horror ao invés da admiração febril que ela havia cultivado até então. Arrancar o próprio coração e tê-lo aparte. Era uma metáfora, claro; Grace sabia bem que não era o coração que guardava os sentimentos de uma pessoa, mas ainda assim...

Foi nessa história que ela pensou ao contemplar o corpo de Draco. Não estava sozinho; do mesmo jeito que Tonks e Lupin tinham companhia, e Lana Burke também, Draco estava cercado por Dafne, Nott e Pansy Parkinson.

Dafne a viu primeiro, e haviam círculos vermelhos embaixo de seus belos olhos azuis.

Grace sentia um vazio e, no máximo uma fraqueza. Quando ela tentava se agarrar a um pensamento, ele fugia por entre seus dedos como areia. A realidade não parecia real de forma alguma; tudo era o pesadelo. Grace queria acordar.

Ela se arrastou até Draco; já estava de joelhos de qualquer forma. Sentia Fred atrás de si, mas não importava muito; nada importava muito, nem mesmo o corpo de Draco que, quando ela o tocou, o puxando para próximo dela, ou ela se puxando para ele, estava frio como jamais estivera. Não havia pulso, nem sangue bombeando, nada. Simplesmente nada.

O colar em seu pescoço, que tinha o costume de pulsar quando próximo ao garoto Malfoy, estava tão irrespondível quanto Draco. Grace levou a mão ao pescoço, procurando por ele, se certificando de que estava lá...

E seus dedos se enroscaram em outra corrente; mais grossa.

Antes que pudesse fechar seus dedos ao redor dela (a corrente, o mero pensamento do pingente ao fim, fez seu coração bater de novo, de volta à vida), Fred Weasley se agachou ao seu lado, colocando uma mão em seu ombro.

—Grace, você precisa vir. –A voz dele fazia tanta pressão nela quando sua palma quente, a puxando para cima.

A garota se virou para olhá-lo; os olhos de Fred eram esverdeados. Ele não estava sorrindo, mas Grace podia imaginá-lo desta forma. Ela conhecia o seu rosto bem assim. O havia visto com dor, com culpa, alegre e sério. Era esse o momento; ela daria as costas para o corpo frio de Draco e lembraria para sempre dele desta forma: frio. Esqueceria como ele fora quente em sua cama na Mansão Malfoy, como ele andara lado a lado com ela pelos corredores de Hogwarts, raramente estendendo a mão para tocá-la, porque quando ele a tocava, haviam faíscas.

Quando Fred a tocava, era apenas isto: a mão de um garoto sardento em sua pele dourada. Era amor, mas não era tudo que havia. Respirou fundo. Sua cabeça não pensava, seu coração pensava. Seus desejos eram claros como nunca antes. Como ela os ignorara por tanto tempo?

Ela olhou para o lugar onde os Weasleys se reuniam; todos vivos, abraçando uns aos outros. Gina estava lado a lado com Hermione e Olívia. Aliviados; um grupo daquele tamanho, a guerra sangrenta como fora, e ali estavam todos eles. Não era o lugar de Grace. Grace não estava aliviada, pelo contrário, sentia uma pressão no coração, que só seria aliviada quando ela pudesse lembrar...

Qual fora o último lugar onde ela vira Draco?

Grace deixou que Fred a levantasse, mesmo que ele fizesse isso sob os olhares de julgamento de Dafne e Parkinson. A dupla deu as costas para os sonserinos, mas Grace fez isso apenas porque sabia que, dando certo o que precisava dar, eles sequer lembrariam daquela cena infeliz.

O casal andou junto apenas até metade do caminho em direção à família Weasley. Grace meneou com o ombro, soltando-se do aperto de Fred. Ele a olhou; estava mais sério do que ela esperava.

—Na mansão Malfoy. –Começou Fred. –No fim de abril Draco voltou para casa, para as férias de páscoa. Sei disso porque Harry disse que ele ajudou na fuga de vocês. –Agora ele a estava encarando intensamente. –Ele a deixou nos porões, à mercê de Bellatrix, ou ele ficou ao seu lado?

Grace demorou a entender a pergunta, como se houvesse sido feita em outra língua; que ela conhecia apenas superficialmente. Formar a resposta foi igualmente difícil; ela e Fred já não tinham uma linguagem própria. Mas Fred sabia a resposta, porque, Gui certamente devia ter comentado, quando ela chegou ao chalé das conchas estava bem cuidada, limpa, as feridas quase cicatrizadas.

Suas cicatrizes eram um mapa do que passara pela Mansão Malfoy, e, discretamente, no canto, deviam conter a assinatura de Draco por toda parte.

—Draco foi me buscar assim que soube que eu estava lá. –Grace respondeu, finalmente.

Fred já sabia a resposta, mas pareceu como se tivesse levado um tapa ainda assim.

—As coisas eram mais fáceis quando ele era um covarde. –Disse Fred.

A lufana queria defender o garoto, mas seria mentira; as coisas haviam sido mesmo mais fáceis antes. Draco era um covarde, Fred era corajoso, e todas as linhas e nuances eram claros. Agora a água estava turva de sangue, sujeira e o que havia de pior.

—Esse não é o momento. –Grace conseguiu dizer, embora fosse um bom momento, na verdade. A morte de Draco suprimira todos os sentimentos dentro dela, e sentia que conversava com Fred com a cabeça mais limpa do que estivera em algum tempo. –Draco está morto.

O ruivo virou a cabeça em silêncio, como se não pudesse olhar para Grace. Não era assim que ela imaginara que as coisas terminariam. Tudo havia ficado tão feio quanto o derramamento de sangue fora das portas do Grande Salão.

Fred estava olhando para Marlon Beauvale; o medibruxo estava limpando feridas e fechando cortes abertos. Parecia exausto; do lado de fora do salão estavam os corpos dos comensais mortos. Grace ficou agradecida que eles trouxeram Draco para dentro, ao invés de deixa-lo com os outros.

—Preciso estar com minha família. –Fred disse isso sem entonação; uma guerra perdida. –Nós vamos estar esperando por você. Quando estiver pronta.

Se Grace pudesse sentir alguma coisa, sentiria gratidão e esperança. As coisas ficariam bem entre eles, quando ela pudesse resolver tudo que havia sido dito.

Finalmente sozinha, Grace andou para fora do salão. Estivera com Draco algumas horas antes; duas ou três, nas escadarias de mármore. Era lá que ela teria que esperar por ele, mas conhecia os cuidados a serem tomados; não podia ser vista. Além disso, não sabia em que ponto Draco fora morto, nem sabia quais eram os lugares seguros para escondê-lo do destino.

Sangue seco se grudava ao chão como sujeita, manchava as paredes de escarlate e acobreado.

Do lado de fora do grande salão, Neville Longbottom e Oliver Wood vinham, carregando com eles corpos dos que caíram em batalha. Grace se desviou dos olhos abertos de Colin Creevey. Talvez ela pudesse até salvar mais do que Draco... mas não. Nem todos podiam ser salvos, e ela tinha um objetivo em mente.

Dumbledore tinha que saber; ela usaria o vira-tempo para salvar os seus, não o mundo. Era isso que os lufanos e sonserinos tinham em comum.

Ela segurou o vira-tempo entre os dedos indicador e polegar. Então o girou; uma, duas, três vezes.

Dessa vez, Grace estava preparada para o que veria. E era isto: o mar de sangue e corpos de antes. Ela não parou para observar seus rostos, e a ocorreu um pensamento: ela não podia ser atingida, ou estariam ambos perdidos.

Combatentes se espalhavam em grupos pela extensão do saguão do castelo novamente; figuras encapuzadas e pessoas com uma variedade de roupas; um brilho de veludo, um chapéu com um urubu empalhado. Feitiços coloriam o ar como fogos de artifícios; explodindo contra paredes, contra colunas. Na pior das hipóteses, contra os corpos de seus colegas, que eram lançados a longas distâncias.

Não era nada como o clube de duelos.

Os três irmãos Greengrass estavam lutando lado a lado contra um grupo de cinco encapuzados. Grace parou; sabia que eles ficariam bem, mas então lembrou-se dos olhos vermelhos de Dafne ao pé do corpo de Draco e começou a se mover na direção deles. Edmund Greengrass se virou para trás e seu rosto era puro choque, então Grace se virou também, a tempo de ver um corpo de cabelos louros cair pelas escadarias, rolando em roupas azuis. Edmund deixou as irmãs e correu para Claire Bellefleur. Grace não foi com ele; já havia visto o corpo da bruxa estendido uma vez, e era o suficiente.

Assim que pôs o primeiro pé na escadaria de mármore, viu seu caminho bloqueado por um comensal cuja capa havia sido arrancada na batalha, revelando seu rosto com um corte profundo que o atravessava do queixo à têmpora, passando pela boca e nariz, deformando-os. Grace o reconheceu mesmo assim.

—Nós dois outra vez! –Cassius Warrington gritou por cima do barulho de feitiços, explosões e gritos.

Grace espremeu os lábios; ela levara a pior da última vez que estivera cara-a-cara com o outro bruxo.

—Peter Bulstrode e Lana Burke estão mortos. –Grace disse, sem abaixar a sua própria varinha. Ele não a sequestraria de novo; era vida ou morte dessa vez. Não gritou; não precisava. Ele a entendeu. A expressão no rosto do outro bruxo não era de surpresa, era apenas resignação. Grace não tinha terminado ainda. –Eles eram seus amigos.

Era difícil dizer se isso significava alguma coisa para o bruxo.

Os dois se encararam mais um segundo. Grace estava prestes a tirar sua varinha e mirar um feitiço no ex-colega quando ele saiu de seu caminho. Ela não se sentiu segura o suficiente para continuar andando, então virou a cabeça para ver aonde ele ia; Cassius Warrington lançou um feitiço em Gibbon que o fez voar para longe de Julie Sayre.

Grace continuou a correr; não tinha tempo para perder. Ela não olhou para o sangue no chão enquanto patinhava por ele, não olhou quando um elfo foi jogado na direção dela, quase levando um pedaço de seu braço com ele. Ela não parou quando viu Fleur Delacour parar um gigante apenas com o poder de sua voz, nem quando Viktor Krum bateu o cajado mágico contra o chão, transformando todos os comensais em um raio de 30 metros em pedra, então em pó.

Mas então Grace parou, quando viu uma figura magra e ruiva, os cabelos de fogo voando atrás de si, se destacar da multidão de corpos em luta, correndo na direção de um garoto louro, que a recebeu nos braços com um abraço deslocado no cenário de destruição.

A lufana observou com uma sensação doentia no estômago enquanto Draco abraçava Olívia Weasley, os braços pálidos ao redor dela com força, o rosto enfiado nos cabelos vermelhos. Olívia o abraçava de volta. Durou apenas um segundo, mas a imagem ficou bem gravada à fogo na retina de Grace. Draco a afastou quando uma parede explodiu às costas dos dois, colocando seu braço protetivamente por cima da cabeça da menina. Os dois se afastaram da confusão em direção a um corredor adjacente.

Grace os seguiu, tão confusa que, sem nem dar atenção a isso, estuporou o comensal que duelava com Liana Holmes e Katie Bell.

Ela adentrou um corredor vazio logo atrás deles, todos os archotes estavam apagados, a única luz que havia era dos feitiços lançados do lado de fora, e os dois se viraram, as varinhas em riste, para ver por quem eram seguidos.

Draco baixou a varinha primeiro. Havia uma expressão no rosto dele; como se ele não pudesse crer em seus olhos. Grace sentiu todos os sentimentos que abafara nas últimas horas voltando para si em rompantes; medo, dor, perda, luto. Faziam quase dois anos agora desde que eles se aproximaram em Hogwarts. Haviam sido tempos diferentes então. Draco estar do outro lado era menos literal, menos violento. Suas pernas fraquejaram, mas não importava, porque Draco já estava ao seu lado a amparando.

Grace não precisou dizer nada, afinal, esta era a língua deles: a linguagem das palavras não ditas.

Draco apenas sabia.

—Draco. –Olívia os interrompeu com uma voz impaciente. Grace já estava quase se firmando sobre os dois pés mais uma vez. –Nott.

O garoto louro ficou sério de novo; a expressão diferente daquela com a qual ele olhara para Grace. Já Olívia olhava para os dois com a mesma curiosidade que Grace estava sentindo quando os viu juntos, e a lufana foi forçada a se lembrar de que Olívia era prima de Fred.

Não importou em nada quando Draco segurou sua mão.

—Fique comigo. –Disse a ela. –Estamos tentando descer o saguão para as masmorras; Nott, Blaise e Dafne estavam montando resistência lá com Cordélia.

—Dafne está no saguão com os irmãos. –O atualizou. –Draco, não podemos ir pelas escadarias.

Ele e Olívia pararam o caminho que estavam fazendo.

—Por que não? –Então ele fez uma pausa, a olhando. –Onde está Weasley? Ele sabe que você está comigo?

A resposta verdadeira seria: “ele está comigo em algum outro lugar do castelo”, mas ela não podia dizer isso, como não podia deixar que eles cruzassem o caminho da Grace do passado.

—Confie em mim. –Grace insistiu. –Não podemos ir pelas escadarias principais. Há uma passagem secreta...

—Fred e George estão cuidando das passagens secretas.

Pelo que Grace sabia, e ela de fato estava atualizada naquele assunto, Fred e George estavam lutando nos andares superiores a essa hora, mas não demoraria muito para que começassem a descer, e ela e Draco tinham de estar longe do caminho àquela altura. Além disso, em no máximo duas horas, Grace deveria encontrar a si mesma no lugar onde voltara no tempo. Quantos encontros, quantas horas marcadas...

—Vamos fazer o que Grace diz. –Decidiu Draco, observando o seu rosto com cuidado. –Onde é a tal passagem secreta?

A Grace do presente estava virando o corredor, já desaparecendo, quando a Grace do futuro voltou ao lugar onde começara. Ela acabara de deixar Draco entrar o grande salão para se juntar a Dafne, Theodore e Pansy, e ficara para trás, sabendo que tinha de estar aonde estivera duas horas antes. Exaustão corroía seus ossos quando ela voltou para dentro do grande salão; lá estavam os Weasley, intactos. Ela foi na direção deles.

Podia sentir os olhos de Draco a acompanhando conforme se aproximava de um Fred com quem ela não discutira ainda. Ele abriu um sorriso quando ela se aproximou, mas era muito discreto. Não era tempo ainda de comemorar; a guerra estava longe de ser ganha, se eles pudessem ganha-la.

—Achou Harry? –Sussurrou para o ruivo, tentando esconder que seus olhos vagueavam para o outro lado do salão, onde se reunia um pequeno antro de sonserinos, incluindo, ela notou com alegria, James Vaisey.

—Rony e Hermione disseram que está tudo bem.

Ao redor do grande salão, não havia comemoração. Marlon fechava os olhos daqueles que não podia salvar, e Neville e Oliver pareciam não parar de chegar com novos mortos. Quando eles chegaram carregando os dois o peso corpulento de Cassius Warrington, três pessoas se levantaram.

—Os comensais podem ficar do lado de fora, Wood. –A professora Mcgonagall olhou com desgosto, a voz alquebrada de tantas perdas consecutivas.

Cordélia Bloxam pareceu prestes a intervir, mas Grace foi mais rápida.

—Foi ele quem acertou Gibbon quando este lutava com Julie Sayre. –Grace anunciou. Julie estava morta; ela vira o corpo de sua colega lufana, mas Cassius era vítima também.

—Sayre está morta. –Flitwick apontou.

Grace pensou em Cassius, que não entendia o que a morte de outras pessoas tinha a ver com ele, até que os dele começaram a morrer também. Será que fora tarde demais?

—Não por Gibbon. –Insistiu, mesmo quando Fred segurou-a pelo braço e sussurrou baixo para que deixasse para lá.

Draco Malfoy também se levantou, bem ao lado de Cordélia, dois palmos mais alto do que a outra bruxa. Algumas pessoas desviaram o olhar, como se não pudessem suportar a visão dos sonserinos ali dentro, entre eles, quando sabiam que seus pais estavam do lado de fora dos muros, ansiosos para entrar.

—Foi Cassius Warrington quem sequestrou Grace para a Mansão Malfoy em abril. –Anunciou. Será que as outras pessoas ouviam o modo como a voz dele mudava ao pronunciar o nome dela? Como se fosse dizer outra coisa, como amor, ou flor, então mudasse de última hora. –Acho que ela tem o direito de decidir se ele fica aqui dentro ou lá fora.

As pessoas olharam para ela agora, mesmo que sussurrassem baixinho “covarde” e “comensal”, na direção de Draco. Fred soltara o seu braço, mas ficara tenso como uma corda ao seu lado. Grace sentia que podia respirar.

—Ele fica.

Draco se sentou de volta sem olhar para ela uma segunda vez – talvez não confiasse em si mesmo para fazer isso –, mas Cordélia a lançou um aceno agradecido.

Então a voz reverberou pelo castelo novamente:

“Harry Potter está morto. Foi abatido em plena fuga, tentando se salvar enquanto vocês ofereciam as vidas por ele. Trazemos aqui o seu cadáver como prova de que o seu herói deixou de existir. ”

—Mentira! –Gritou Rony para as paredes, o rosto ficando perigosamente vermelha.

Hermione parecia estatelada em seu lugar.

“A batalha está ganha. Vocês perderam metade dos seus combatentes. Os meus Comensais da Morte são mais numerosos que vocês, e O-Menino-Que Sobreviveu está liquidado. A guerra deve cessar. Quem continuar a resistir, homem, mulher ou criança, será exterminado, bem como todos os membros de sua família. Saiam do castelo agora, ajoelhem-se diante de mim e serão poupados. Seus pais e filhos, seus irmãos e irmãs viverão e serão perdoados, e vocês se unirão a mim no novo mundo que construiremos juntos. ”

Lucy mal podia sentir suas pernas.

Conforme os bruxos começaram a andar, apressados, temerosos, para fora do grande salão, em direção à entrada do castelo, sua irmã, Viktor e Greta foram ficando para trás, trocando olhares que não a incluíam, e Lucy não se importava com isso. Antes ela havia pensado que ela estivera na Armada, e eles não. Ela era a combatente ali. Mas agora ela sabia que a Armada havia sido brincadeira de criança, nada como a raiva fervente que queimava em seu peito.

Em dado momento, haviam apenas os quatro ali dentro; todos foram para fora ver o que estava acontecendo. Sua irmã estava perigosamente pálida, mas parecia firme sobre seus pés. A própria Lucy se sentia lívida; a raiva em seu peito era fria, um comichão na ponta dos dedos que a fazia segurar sua varinha com força. Mesmo quando todos os comensais haviam ido embora, ainda assim ela não guardou a varinha branca, com um dragão entalhado no cabo.

O comichão acabou saindo pela sua língua.

—Eles estão voltando para o castelo. –Sentia que estava quase pulando em seus pés. –Temos que lutar.

Os olhos verdes de sua irmã eram como quase nenhum outro. Verdadeiramente verdes; duas grandes esmeraldas. A bandeira da Sonserina. A copa das árvores da Floresta Proibida. Os olhos de seu pai.

Seriam sempre as duas agora, ela soube quando a irmã a encarou diretamente.

—Talvez seja o caso de fugir. –Cordélia disse com todo o cuidado; e notou logo a expressão reticente de Lucy, porque continuou, antes que ela pudesse responder. –Lutamos, Lucy, e perdemos. Eu realmente achei...

Mas o que Cordélia achou Lucy não chegou a descobrir. A irmã parou a frase e a respiração de uma única vez, olhando para a porta do saguão com os olhos verdes brilhantes. Lucy a viu tomando impulso para se lançar à frente, mas então outra figura passou antes pelas duas: Greta correu para os braços da figura, em vestes negras e cabelos lisos.

Severus Snape recebeu o abraço de Greta de forma séria, parecendo desconfortável. Cordélia se pôs a andar, mas não o abraçou quando o grupo alcançou o diretor.

Lucy tinha agora sentimentos ambíguos em relação à Severus Snape. Durante todo aquele ano, ela estivera cercada de seus colegas, que o odiavam quase tanto quanto odiavam o próprio Lorde das Trevas. Também havia Cordélia, completamente disposta a ignorar tudo que ele fizera. Lucy jamais admitiria para Natália, Orla ou Laura que ela não compartilhava dos sentimentos da Armada sobre o professor.

—É verdade? –Cordélia perguntou assim que o grupo alcançou o professor. –Potter está morto? Onde você esteve?

—Estive com Potter na sala do diretor. –Snape respondeu sem titubear. –E, sim, receio que Potter esteja de fato morto.

Era o que Cordélia precisava ouvir. Ela se virou para a irmã mais nova como se a fosse pegar pelo pulso se necessário. Lucy sabia para onde iriam; ouvira Cordélia e Viktor falando em ir para a Bulgária nas férias de natal.

Foi justamente Viktor que se colocou entre as duas irmãs; de costas para Lucy, a protegendo da ânsia protetora da mais velha.

—Potter era apenas um garoto. –Disse ele. –Podemos fazer isso.

—Potter era um símbolo. –Cordélia o corrigiu com seu ar incorrigível de quem sabia das coisas. –Todos vão se dispersar com a morte dele.

Os dois bruxos se encararam; Viktor era mais alto, mas Cordélia não era o tipo de pessoa a quem se podia ignorar; e estava acostumada a ganhar, a ter a razão. Havia uma única pessoa viva a quem ela ainda ouviria, e foi justamente Severus quem os interrompeu.

—Diggory teria ficado para lutar.

Mesmo Lucy podia ver que era um golpe baixo. Não havia nenhuma outra palavra no mundo que faria sua irmã parar para pensar sobre o assunto; mas o nome de Cedrico era sagrado, e, para Cordélia, não poderia ser dito em vão.

—Foi você quem me disse para manter as opções em aberto. –Ela rosnou para o padrinho.

Mas Lucy podia ver que eles estavam indo se juntar aos outros para lutar.

Grace podia sentir o feitiço de silenciamento como um gosto ruim em sua boca, mas não era o único. Tudo era amargo, desde o corpo de Harry pendendo bambo nos braços do pobre e acorrentado Hagrid, até a impressão de que eles haviam lutado tanto, perdido tanto, para perder mais.

Bellatrix deu uma gargalhada prazerosa, levando arrepios aos seus braços. Grace queria que Neville saísse do caminho da bruxa.

— É Neville Longbottom, milorde! O garoto que andou dando tanto trabalho aos Carrow! O filho dos aurores, lembra?

— Ah, sim, lembro. –Disse Voldemort, baixando os olhos para Neville, que fazia força para se pôr de pé, sem arma nem proteção, parado na terra de ninguém entre os sobreviventes e os Comensais da Morte. – Mas você tem sangue puro, não tem, meu bravo rapaz? –Perguntou Voldemort a Neville, que o encarava, as mãos vazias fechadas em punhos.

— E se tiver? –Respondeu Neville em voz alta.

— Você demonstra vivacidade e coragem, e descende de linhagem nobre... você dará um valioso Comensal da Morte. Precisamos de gente como você, Neville Longbottom.

— Me juntarei a você quando o inferno congelar. Armada de Dumbledore! –Gritou ele e, da multidão, ouviram-se vivas em resposta, que os Feitiços Silenciadores de Voldemort pareceram incapazes de conter. Uma sensação quente corroeu o peito de Grace quando ela levantou a voz para gritar com os outros, acima de todo o frio.

– Muito bem. –Disse Voldemort com suavidade, que apenas fazia sua voz soar mais perigosa. –Se essa é a sua escolha, Longbottom, revertemos ao plano original. A culpa será toda sua.

Com um gesto da varinha do bruxo, que fez Grace e os combatentes ao seu redor se encolherem, com medo de que o feitiço fosse direcionado a eles, Voldemort convocou um trapo de pano marrom vindo do castelo. Grace reconheceu o Chapéu Seletor.

— Não haverá mais Seleção na Escola de Hogwarts. –Disse Voldemort. –Não haverá mais Casas. O emblema, escudo e cores do meu nobre antepassado, Salazar Sonserina, será suficiente para todos, não é mesmo, Neville Longbottom?

Ele apontou a varinha para Neville, que ficou rígido e calado, então forçou o chapéu a entrar na cabeça do garoto, fazendo-o escorregar abaixo dos seus olhos. A multidão que assistia à porta do castelo se movimentou e, sincronizados, os Comensais da Morte ergueram as varinhas, acuando os combatentes de Hogwarts.

— Neville agora vai demonstrar o que acontece com quem é suficientemente tolo para continuar a se opor a mim. –Anunciou Voldemort e, com um aceno da varinha, fez o Chapéu Seletor pegar fogo. Gritos cortaram o amanhecer, e Neville ardeu em chamas, pregado ao chão, incapaz de se mexer.

Então, muitas coisas aconteceram no mesmo instante.

Ouviu-se um clamor nas distantes divisas da escola, dando a impressão de que centenas de pessoas escalavam os muros fora do campo de visão de todos e corriam em direção ao castelo, proferindo retumbantes brados de guerra. Nessa hora, Grope apareceu contornando a quina do castelo e berrou “HAGGER!”. Seu grito foi respondido por urros dos gigantes de Voldemort: eles avançaram para Grope como elefantes estremecendo a terra. Depois vieram os cascos, a vibração de arcos distendendo e flechas começaram repentinamente a chover entre os Comensais da Morte, que romperam fileiras, gritando, surpresos.

Com um único movimento rápido e fluido, Neville se libertou do Feitiço do Corpo Preso que o imobilizava; o chapéu em chamas caiu de sua cabeça e, do fundo dele, o garoto puxou um objeto prateado com um punho cravejado de rubis. O ruído da espada de prata cortando o ar não pôde ser ouvido acima do vozerio da multidão que se aproximava, ou o estrépito dos gigantes se enfrentando, ou a cavalgada dos centauros, contudo, pareceu atrair todos os olhares. Com um único golpe, Neville decepou a cabeça de Nagini, que girou no alto, reluzindo à luz que vinha do saguão de entrada, e a boca de Voldemort se abriu em um berro de fúria, que ninguém pôde ouvir, e o corpo da cobra bateu com um baque surdo aos seus pés...

Reinou o caos. A investida dos centauros dispersava os Comensais da Morte, todos fugiam das pisadas dos gigantes, e, cada vez mais próximos, estrondeavam os reforços que ninguém sabia de onde tinham vindo; Grace viu grandes criaturas aladas, os testrálios e Bicuço, o hipogrifo, rodeando as cabeças dos gigantes de Voldemort, gadunhando seus olhos, enquanto Grope os esmurrava; e agora os bruxos, defensores de Hogwarts, bem como os Comensais de Voldemort, estavam sendo empurrados para dentro do castelo. Grace lançava feitiços contra cada Comensal da Morte à vista, lado a lado com Amy, e eles paravam para lutar de volta.

Grace havia pensado que a morte de Harry desanimaria os combatentes; ao contrário disso, todos lutavam com mais afinco agora, talvez conscientes de que esse era o último esforço a ser feito, a última chance.

—Arterium! –Grace gritou para o comensal com quem duelava. O feitiço passou por debaixo do braço estendido com a varinha em sua direção, acertando o bruxo no peito, e ele caiu para trás, cuspindo sangue de suas veias estouradas.

Voldemort, do centro do salão, gritava feitiços e ordens para os seus comensais, enquanto mais e mais combatentes iam para cima dos comensais; Anna Abbott, Simas Finnigan, Dino Thomas, Luna Lovegood, Olívia e Gina Weasley. O sorriso de Grace se abriu quando, do outro lado do salão, Draco Malfoy enfeitiçou um comensal de forma que ele foi lançado contra o teto, e de volta no chão, morto.

Pareciam ter reassumido a liderança dos familiares e amigos de cada estudante de Hogwarts que ficara para lutar, acompanhados dos lojistas e habitantes de Hogsmeade. Os centauros Agouro, Ronan e Magoriano invadiram o saguão em um forte tropel, no momento em que a porta que levava à cozinha era arrancada das dobradiças. Uma enxurrada de elfos domésticos de Hogwarts adentrou o saguão, gritando e brandindo seus trinchantes e cutelos, e à frente deles, com o medalhão de Régulo Black pendurado ao peito, vinha Monstro, sua voz de rã audível, apesar da zoeira:

— À luta! À luta! À luta pelo meu senhor, defensor dos elfos domésticos! À luta contra o Lorde das Trevas, em nome do corajoso Régulo! À luta!

Eles cortavam e furavam os tornozelos e canelas dos Comensais da Morte, seus pequenos rostos brilhando de malícia.

Grace viu Yaxley ser nocauteado por Jorge e Lino Jordan, viu Dolohov cair com um grito às mãos de Flitwick, viu Walden Macnair ser atirado do outro lado do salão por Hagrid, bater na parede de pedra e escorregar, inconsciente, para o chão. Viu Rony e Neville abaterem Lobo Greyback, Aberforth estuporar Rookwood, Arthur e Percy derrubarem Thicknesse, e Lúcio e Narcisa Malfoy correndo entre a multidão, sem sequer tentar lutar, chamando, aos berros, pelo filho.

Uma maldição da morte de Bellatrix Lestrange passou raspando pelo rosto de Gina. Grace estava apenas olhando, quando, do outro lado do salão, uma parede estourou em cima de vários combatentes, que cambalearam para longe. Grace olhou, e viu uma figura de cabelos ruivos entre os destroços.

Ela não soube dizer mais tarde como atravessou o salão tão rápido, ou como não foi atingida em sua correria, mas no que pareceram poucos segundos, ela estava ao lado de Fred; a boca e a roupa sujas de sangue escarlate.

—Não. –Ela falou baixinho, colocando a mão em cima do peito dele, então procurando seu pulso. –Fred, não.

—Grace... –Era Amy acima dela; a amiga havia corrido todo o salão para estar ao seu lado, como ela mesma correra por Fred.

Não havia nada, não importava o quanto ela procurasse; no pulso, no peito, na veia em seu pescoço. Havia apenas o silêncio.

—Fred, eu te amo. –Ela deixou seu rosto encostar no dele, o rosto de Fred em seu colo.

Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. As últimas palavras que dissera a Fred pareciam ecoar nos ouvidos de Grace enquanto ele ficava mole em seus braços. Amy de repente estava agachada ao lado dela, dizendo alguma coisa em seu ouvido, mas Grace não conseguia ouvi-la. O ruído de água correndo, como um maremoto que se aproximava, preencheu seus ouvidos. Ela assistiu enquanto Amy tentava afastar suas mãos das de Fred gentilmente, sem conseguir. Grace ficou surpresa. Ela não tinha percebido que estava segurando com tanta força

Grace pôs a mão no peito dele, onde o vermelho do sangue se destacou contra o vermelho mais escuro da camisa. Ela conseguia sentir o lugar onde o feitiço o atingira, queimando. Tinha visto o sangue de Fred entornar pelos dedos, tanto sangue que manchou de preto as pedras no chão e endureceu as pontas dos cabelos dele.

— Grace — sussurrou Amy. — Deixe-o ir. Ele está morto.

Mas Grace sabia disso. A morte nunca partia de mãos vazias.

“Would you leave me
If I told you what I've done?
And would you leave me
If I told you what I've become?”

Penumbra

Notas finais
Eu sei que o final não era o que vocês estavam esperando. Porém, vocês me conhecem: eu nunca fujo muito da história original, apenas um pouco. Além disso, eu vinha anunciado há algum tempo como as coisas iriam se virar. De qualquer forma, estamos no fim. Mais um capítulo, e Lados e Escolhas estará terminado de uma vez por todas, depois de todas as nossas aventuras. Obrigado por terem estado comigo, apoiando e encorajando, durante todo esse tempo. Antes, porém, do capítulo final, quero que saibam que tenho uma nova personagem: Olívia Weasley. A história dela se chama Penumbra, e está sendo postada lentamente. O link está logo abaixo do capítulo. Vejo vocês no capítulo da próxima semana! XOXO