Lados e Escolhas
20 O Casamento
Notas iniciais
“All I want is nothing more
To hear you knocking at my door
'Cause if I could see your face once more
I could die a happy man I'm sure”
Cinco dias antes do casamento, Grace ainda não tinha o vestido. Era dia vinte e sete, o que significava que seu namorado estava prestes a arriscar sua vida num plano de Olhos-Tonto Moody ao qual ela não tivera acesso –e Grace estava no Beco Diagonal, procurando um vestido. Que a chamassem de desalmada, se quisessem –ela concordaria. Mas havia sido o próprio Fred a estimular que ela fosse e se ocupasse.
No fim da tarde, ela foi ao Beco Horizontal pela entrada do bar Fonte da Sorte; a entrada mais perto de casa. Na esquina do barbeiro, ela pegou o caminho para o Beco Diagonal, e parou junto à Madame Malkin’s; vestes para todas as ocasiões. Pelo que ela sabia, todas as meninas já tinham roupas; Hermione e Gina, no caso. Ela havia acompanhado a longa discussão entre Fleur e a Sra. Weasley sobre a cor da roupa das daminhas.
Na verdade, ela havia ajudado em mais do que isso. Passara grande parte de seu tempo livre n’A Toca, ajudando Fleur com a escolha de flores e tecidos, ajudando a Sra. Weasley na cozinha e simplesmente ficando por perto de Fred no fim da noite antes de ir para casa –quando ela ia para casa. Frequentemente o ruivo a convencia a voltar para o apartamento dele no Beco Diagonal.
Quando o sino de Madame Malkin tocou ao Grace empurrar a porta para dentro, um rosto redondo apareceu de trás de um tapume.
—Um minuto, sim, querida? –E sumiu novamente.
Grace se moveu pelos rolos de tecido macios, procurando um lugar onde esperar. Antes que se alojasse, o sino da porta tocou uma segunda vez. Sendo os tempos o que eram, Grace levou a mão à varinha, ligeiramente alarmada, enquanto virava o corpo na direção da porta.
Houve um pulso em seu peito. Por um segundo, Grace pensou ter sido seu coração, mas então percebeu que fora o colar.
Draco estava parado no batente da porta, delineado pelo portal. A olhava como se houvesse sido acordado de um sonho com um tapa; incredulidade, lenta compreensão. Como se ela fosse um fantasma; os olhos cinzentos grudados nela com tanta intensidade que era desorientador. Ela se perguntou, brevemente, como ele, procurado pelos aurores, podia estar ali tão tranquilamente, então notou que ele havia baixado uma pesada capa para falar com ela.
—Eu achei que fosse você. –Ele disse, como se desejasse ter estado errado.
Houve uma pausa; ele olhando para ela, esperando a rejeição, e ela o olhando incrédula. Então algo dentro de Grace se rompeu, e ela se jogou nos braços de Draco, que, de surpresa, quase a deixou cair, um segundo antes de a segurar com a mesma força com a qual ela o segurava. O coração dela bateu contra o dele quando ela deixou a cabeça cair em seu ombro, e os braços dela a seguraram com força, de um jeito que quase machucava.
—Você está bem. –Ela constatou com um suspiro.
Era como se algo dentro dela houvesse se encaixado; algo que ela deixara com ele naquele dia, na Sala Precisa. Todo o tempo, as semanas, que haviam se passado entre aquilo e agora pareciam um sonho; essa era a realidade. O corpo de Draco pressionando o dela. Tão rápido quanto veio, acabou.
Ele puxou o rosto dela para sua linha de visão, os olhos cinzentos escrutinando os detalhes, a procura de mudanças, de sinais de que ela estava algo além de bem, no estado em que ele a deixara dois meses antes. Não era o caso; Grace não se sentia nada como há dois meses atrás, quando ela pensara ter tempo.
—Eu não devia ter seguido você. –Ele disse, mas não fez nenhum movimento para se afastar, e Grace se sentiu grata por isso. Ela quis que o tempo parasse, que eles ficassem presos para sempre naquele momento. Não importava o que havia acontecido antes, ou o que poderia acontecer depois, desde que ela mantivesse Draco ali. –Mas eu tinha que vê-la.
Ele fixou o olhar na parte de baixo do rosto dela, e Grace sabia que ele estava vendo sua nova cicatriz. Ela abriu um sorriso e virou a cabeça de lado, num ângulo que escondia o machucado. Na manhã seguinte à batalha na Torre de Astronomia, ela acordara pensando que talvez houvesse sido um sonho, mas os machucados desbotados e a ausência silenciosa em seu peito contavam outra história.
—Estou feliz que veio. –Grace respondeu. –Eu estive pensando em você.
—Não devia.
—Pensei mesmo assim. –Ela insistiu teimosamente.
Os dois se encararam. Castanho no cinza, e quente no frio, mas Grace não estava no humor para embates. Ela se sentia feliz, verdadeiramente feliz. Como se isso pudesse sair dela em ondas e afetar as pessoas ao redor. Queria contar a Draco sobre tudo que ele perdera; sobre seu emprego no Gringotts, sobre o novo empregado de Amy, sobre seu apartamento. Queria saber de Draco também, mas achava que essa seria uma história um pouco mais sombria. Não importava. Ela ouviria mesmo assim.
Não houve tempo para isso, entretanto. O som de vozes se aproximando por de trás do tapume fez com que o olhar que eles mantinham entrelaçados se quebrasse, e Draco se afastou tão rápido que foi como se houvesse desaparatado para fora da loja, apenas o som do sino indicando que ele havia estado ali. Grace ainda o seguiu para fora, mas a capa se perdeu no meio da rua do lado de fora uma vez que ele saiu, a levantando sobre sua cabeça.
Do lado de dentro, um quintanista passou por ela, a observando com curiosidade de quem se perguntava o que ela poderia possivelmente estar vendo naquela rua quase vazia. Grace não o olhou de volta; o espaço atrás de seus olhos pinicava levemente.
—Vamos, querida? –Madame Malkin apareceu de seu lado, um braço estendido, parecendo apressada.
Grace se deixou carregar de volta para dentro da loja.
O fato de que não teve tempo de conversar com Fred nos dias seguintes foi um enorme alívio. A perda da orelha de George estava se passando da forma como as coisas se passavam com os gêmeos; virou uma série de piadinhas jogadas na loja para os clientes mais assustados, a ponto de arrancar sorrisos. Grace também passou muito tempo n’A Toca, ajudando o Sr. Weasley a identificar partes de uma motocicleta enviada a ele por Ted Tonks, o pai de Ninfadora e fazendo feitiços domésticos com a Sr. Weasley.
A morte de Olho-Tonto, o auror, também pesava sombriamente na casa.
O fato de o corpo não ter podido ser recuperado para um funeral parecia enfurecer uma boa porta da Ordem, que agora entrava e saia da casa dos Weasley com frequência, o que Grace considerou mais um bom motivo para que ninguém soubesse do encontro que ela tivera com Draco. Ela não contara a Fred, dizendo a si mesma que era melhor, ambos para Draco e Fred, que ela não dissesse.
Além disso, toda a casa vinha dando espaço para Harry, exceto pela senhora Weasley que, ao contrário, o enchia de tarefas relativas ao casamento, como limpar o galinheiro, ainda que ninguém o fosse utilizar, e lavar panos e lençóis para a tenda e os convidados que por lá dormiriam. Nas vésperas do casamento, Grace deu de cara com Hermione, os cabelos crespos um pouco empapados de suor, entrando em casa com as mãos cheias de hortaliças do jardim. A própria Grace estava chegando do Gringotts, onde passara o dia a organizar documentos do Sr. Bloxam em ordem alfabética e cujo nariz coçava por causa de toda a poeira.
Grace não pôde deixar de notar que algumas das hortaliças não eram hortaliças, mas ervas mágicas. Ela deu espaço para que Hermione entrasse primeiro.
—Sabe. –Comentou. –Cordélia Bloxam provavelmente poderia conseguir alguma poção que você precisasse.
Deixando essa informação no ar, a garota entrou na casa, dando logo de cara com um George cheirando a algo ligeiramente empoeirado e podre. Grace deu um passo para trás longe do garoto e levou à mão ao nariz.
—O que aconteceu com você?
O ruivo olhou para trás por um segundo, parecendo nervoso, e se colocou num ponto cego do hall, de one não podia ser visto da cozinha, onde uma ocupada senhora Weasley colocava caçarolas no forno.
—Estava ajudando Rony a vestir o vampiro no sótão. –Ele disse, rapidamente, ignorando a expressão curiosa da cunhada. –Fred pegou o banheiro antes de mim, então vou me lavar lá fora. Mamãe não pode nem sonhar que ajudamos... enfim. Ele está lá em cima.
Grace, então, se sentindo apenas um pouco culpada, passou nas pontas dos pés pela senhora Weasley e subiu as escadas. No andar do banheiro, encontrou a porta destrancada e as luzes acesas; um vapor quente soprou um seu rosto quando entrou no cômodo com uma pia de mármore e chão de madeira com feitiços de impermeabilidade contra água.
—Quem está aí? –Alguém perguntou dentro do boxe ocupado e opaco pelo vapor do chuveiro ligado, a água quente correndo forte. Grace não respondeu, um frio em seu estômago, e se aproximou, seus passos audíveis no piso, para mais perto. –George? Rony?
Uma vez de frente para a porta, Grace pousou a mão no vidro e hesitou por um momento.
Podia ver a silhueta dele através do vidro, apenas o suficiente para saber que havia alguém ali. Seu estômago deu voltas de ansiedade, como se fosse mais do que apenas seu namorado lá dentro. O escolha, disse a si mesma.
Resoluta, empurrou a porta.
—Grace? Meu Merlin! Estou nu, eu... –Atrapalhando-se, Fred buscou uma toalha jogada sobre a divisória e enrolou em torno da cintura, ignorando a água que seguia fluindo, deixando o tecido encharcado.
Grace ficou parada ali, dando uma boa olhada nele. A pele nua do seu peito reluzia com a água, que brilhava nos sulcos dos músculos ali localizados.
—Ouvi dizer que você estava vestindo um pijama em um vampiro, isso é verdade?
—Estou tomando banho! –Ele disse enfaticamente.
Grace sorriu.
—Eu sei disso.
Ele corou, desconcertado com a falta de reação dela. Recuperando sua dignidade, ele andou para fora da água, para mais próximo dela. Grace aproveitou a oportunidade para colar os lábios aos dele. Fred congelou, mas isso não a deteve. Moveu a boca sobre a dele suavemente, sentindo a onda de prazer se esticar pelo seu corpo como a água quente do chuveiro que escorria dele para ela, que pingava dos cabelos ruivos dele em seus cabelos claros.
Ele a apertou com mais urgência, dessa vez levando seu corpo para dentro d’água com ele. O beijo se tornou escorregadio e a roupa molhada de Grace foi ficando cada vez mais pesada sobre o seu corpo.
—Nós podemos ser pegos. –Ela apontou, de repente se sentindo autoconsciente, os ouvidos apurados para a abertura da porta que ela deixara aberta.
—Eu sou Fred Weasley. –Ele a lançou um sorriso maroto.
—Eu sou Grace Moore. Aonde você quer chegar?
—É o que esperam de mim. –Ele apontou, e voltou a beijá-la com paixão na extensão do pescoço, e Grace relaxou em seus braços, suas pernas amolecendo agradavelmente, o coração batendo com força de excitação e medo.
Grace desceu a escada meia hora depois, esbarrando com Gina nos degraus estreitos. A casa nunca estivera tão arrumada. Os caldeirões enferrujados e as botas velhas que, em geral, coalhavam a escada para a porta dos fundos tinham desaparecido e sido substituídos por dois grandes vasos com arbustos tremulantes a cada lado da porta; embora não houvesse brisa, as folhas balançavam preguiçosamente, produzindo um belo efeito ondulante. As galinhas tinham sido trancadas no galinheiro, o quintal varrido e o jardim anexo fora despojado das folhas velhas, podado e, de um modo geral, cuidado, embora Harry, que o preferia sem trato, achasse que o jardim parecia abandonado sem o seu contingente normal de gnomos saltitantes.
Gina a olhou de cima abaixo, notando primeiro a calça legging florida que ela havia pego no guarda-roupa de Fleur enquanto suas próprias roupas secavam, então a camisa do Cannons laranja de Fred.
—Esse foi um longo banho. –A garota sorriu. –Kingsley e Remus estão aqui para lançar alguns feitiços na casa. Mamãe quer Fred lá embaixo.
—Eu vou busca-lo. –Grace se ofereceu com as bochechas queimando, já fazendo seu caminho de volta escada acima com passos rápidos.
Com os Delacour também tendo chegado à Toca apenas algumas horas antes, a casa estava oficialmente cheia demais. Ainda estavam esperando Carlinhos chegar da Romênia, evento que parecia animar os gêmeos. Fred a encontrou nas escadas, os cabelos ainda molhados e um sorriso satisfeito em sua direção.
—Sua mão o quer lá embaixo. Kingsley e Remus estão aqui.
Ele parou e a deu um demorado beijo na testa.
—Vai dormir aqui essa noite?
Grace sorriu, encabulada.
—Acho melhor não. Já está cheio demais por aqui, não há necessidade. Na verdade, pensei que você talvez devesse dormir lá em casa com George para desocupar um pouco.
—Não sei, acho que mamãe vai precisar de ajuda por aqui. E é o aniversário de Harry mais tarde. Você vai perder o novo visual do Carlinhos; mamãe o obrigou a cortar o cabelo.
—Sei. –Grace concordou com a cabeça, a mente já em outro lugar. –Certo... escute, melhor eu ir. Vim realmente apenas ficar um pouco com você, mas está tudo movimentado e não sei se vou ajudar. Vejo você no casamento.
Fred a lançou um olhar decepcionado por um segundo que quase a fez ficar mais.
—Até lá, então. –Ele disse, e tinha algo entre as mãos, rodando. Grace viu uma corrente de ouro de relance, mas então ele já havia descido as escadas.
Apenas em casa, quando Grace tirou suas roupas emprestadas, se deu conta de que, no calor do momento, deixara cair seu colar no banheiro. Não o Vira-Tempo, bem guardado em sua bolsinha de contas, andando sempre com ela, mas o outro, que era, de certa forma, ainda mais precioso.
Às três horas da tarde do dia seguinte, Grace aparatou n’A Toca, dando de cara com Fred, George, Rony e o disfarçado Harry em ternos arrumados e cabelos penteados para a cerimônia. Os quatro seguravam mapas das cadeiras para levar os convidados aos seus devidos lugares. Uma legião de garçons vestidos de branco estavam num canto junto ao pessoal da banda, em ternos dourados, todos fumando cachimbos sob uma nuvem de fumaça azulada.
Atrás dos garotos se erguiam filas e mais filas de cadeiras douradas dispostas nas laterais de um longo tapete roxo. Os postes que sustentavam a tenda estavam decorados com guirlandas de peônias brancas e douradas e ao lado do altar havia pendurado um enorme buquê de balões dourados. Fora da tenda, abelhas e borboletas passeavam preguiçosamente sob o sol e acima da grama aparada pela primeira vez desde que Grace visitara a casa dos Weasley.
Fred a cumprimentou arregalando os olhos levemente ao vê-la no vestido vermelho de decote ombro-a-obro que ela escolhera na semana anterior.
—Meu Merlin, Grace! –Ele deu um passo para perto dela. –Você está bonita como uma tapeçaria da Grifinória!
A lufana fez uma careta, olhando o namorado em dúvida.
—Espero que você não me pendure em algum lugar. –Grace brincou.
—Ele talvez queira passar a noite pendurado em você. –George sugeriu, risonho.
— Quando eu me casar – disse Fred, repuxando a gola de suas vestes e lançando um olhar para Grace. –, não vou me preocupar com nenhuma dessas bobagens. Vocês todos podem vestir o que quiserem, e lançarei um Feitiço do Corpo Preso na mamãe até terminar a cerimônia.
— Ela não esteve tão ruim assim hoje de manhã – comentou George. – Chorou um pouco porque Percy não veio, mas quem queria a presença dele? Ah, caramba, se preparem... aí vêm eles, olhem.
Vultos muito coloridos vinham surgindo do ar, um a um, na distante divisa do quintal. Em minutos formou-se uma procissão, que começou a serpear pelo jardim em direção à tenda. Flores exóticas e pássaros enfeitiçados esvoaçavam nos chapéus das bruxas, e pedras preciosas cintilavam nas gravatas de muitos bruxos; o murmúrio das conversas animadas foi crescendo cada vez mais, abafando o zumbido das abelhas à medida que a multidão se aproximava da tenda.
— Excelente, acho que estou avistando algumas primas veelas – disse George, espichando o pescoço para ver melhor. – Elas vão precisar de ajuda para entender os nossos costumes ingleses, podem deixar que eu cuido delas.
— Calma aí, seu mal-amado – disse Fred, deslizando para junto do irmão para segurá-lo onde estava. –Ali não é a Angelina?
Porém, com a aproximação de duas garotas “petites” francesas que deslizavam sobre seus pés, Fred piscou para Grace e as estendeu um mapa das cadeiras.
—Por aqui, permettez-moi de assister vous. – Ofereceu-se ele a duas belas francesinhas, que aceitaram entre risadinhas, que ele as conduzisse à tenda. A George, couberam as bruxas de meia-idade, Rony se encarregou de um velho colega do sr. Weasley no Ministério, Perkins, e, para Harry, sobrou um casal um tanto surdo.
Grace ficou observando os meninos imergirem dentro da tenda por um segundo e, quando se virou, deu de cara com uma Ninfadora Tonks que aparecera loura para a ocasião, acompanhada de um Remus Lupin de aparência bastante infeliz.
—Oh, olá, Tonks. Professor. –Grace os cumprimentou, procurando atrás de si por alguma indicação do lugar deles, sem achar nenhuma.
—E aí, Grace? –Tonks sorriu, mas Lupin deu apena sum esgar que mal se passava por um sorriso. –Ah, ei, Harry!
Notando que o casal havia mudado sua atenção, Grace deslizou para dentro da tenda atrás de seu próprio lugar. Desejou que Cho ou Melinda houvessem sido convidadas, mas sabias que não encontraria seus amigos de ensino médio ali. Ao invés disso, visualizou, no jardim, uma garota de vestes violentamente amarelas e com um grande girassol no cabelo para completar o visual. Tendo feito parte da Armada de Dumbledore com ela, Grace se aproximou de Luna.
—Esse é um belo vestido. –Grace disse quando se aproximou dela.
Luna levantou a cabeça, a reconhecendo.
—Ah, obrigada. Meu pai diz que dá sorte usar cores solares em um casamento. –Ela comentou distraída, olhando uma ferida em seu dedo. –Bem, você também está muito elegante. Um pouco grifinória também, eu diria.
—E você, lufana. –Grace observou.
Luna sorriu como se apenas agora a relação de cores a houvesse ocorrido.
—Acho que não estamos mais em Hogwarts. –Ela disse tristemente. –Ah, ali está o Harry. Vou falar com ele.
Para sua surpresa, Grace avistou Melinda e seus pais sentando-se em seus lugares indicados por Rony na tenda. Grace nem hesitou, puxou o vestido para que não tropeçasse nele e, com passos largos, se aproximou da família bruxa. Melinda a avistou e se levantou de um pulo, abrindo os braços para que as duas meninas se encontrassem em um abraço.
—Onde você tem andado? –Melinda perguntou. –Passei em Amy na semana passada, e ela disse que você estava morando perto do beco diagonal, mas não foi visitar o apotecário.
—Você tem passado seu tempo lá? –Grace perguntou, um pouco envergonhada porque de fato havia visto pouco da amiga. –Eu estou morando perto do beco Horizontal, na verdade, mas bem...
Grace olhou ao redor, procurando por Fred, mas ele, George, Rony e os amigos, estavam na entrada da tenda, rindo, enquanto recebiam convites de Viktor Krum, Cordélia Bloxam e alguns desconhecidos com ares franceses. Grace reconheceu Susana Pevensie, que havia sido da Lufa-Lufa uns dois anos antes dela.
—Aquele é Viktor Krum? –Perguntou Melinda, olhando na mesma direção que ela. –Uau. Pena que ele deixou o quadribol e não aparece mais no jornal, porque eu gostaria de ficar preparada para o quão bonito ele ficou.
—Parece que sim. –Grace disse, sem se preocupar muito. –Acho que a noiva está vindo.
No momento seguinte, Gui e Carlinhos se postaram à frente da tenda, os dois de vestes a rigor com grandes rosas brancas nas botoeiras; George deu um assovio de aprovação, que foi acompanhado por nova erupção de risinhos das primas veelas. Então a multidão fez silêncio e o volume da música foi aumentando, aparentemente vinda dos balões dourados. Grace correu para tomar seu lugar ao lado de Fred.
Um suspiro coletivo se ergueu dos bruxos e bruxas reunidos quando Monsieur Delacour e Fleur entraram pelo corredor, ela deslizando, ele balançando o corpo com um largo sorriso no rosto. A noiva usava um vestido branco simples e parecia desprender uma forte aura prateada.
Embora, por comparação, sua radiância normalmente empanasse a de qualquer pessoa, hoje embelezava todos sobre quem incidia. Gina e Gabrielle, ambas usando trajes dourados, pareciam ainda mais bonitas do que de costume, e quando Fleur chegou aonde estava Gui, ele pareceu jamais ter enfrentado Lobo Greyback.
— Senhoras e senhores – anunciou uma voz ligeiramente cantada, e, com um leve choque, Grace reconheceu o mesmo bruxo franzino com cabelos em tufos que presidira o funeral de Dumbledore, agora diante de Gui e Fleur. – Estamos aqui reunidos para celebrar a união de dois fiéis...
Na primeira fila, a sra. Weasley e Madame Delacour choravam baixinho em lencinhos de renda. Sons de trombeta ao fundo da tenda anunciaram que Hagrid puxara do bolso um dos seus lenços tamanho-toalha.
— ... então eu os declaro unidos para toda a vida.
O bruxo de cabelos em tufos ergueu a varinha sobre as cabeças de Gui e Fleur e uma chuva de estrelas caiu sobre os noivos, envolvendo em espirais os seus corpos agora entrelaçados. Enquanto Fred e Jorge puxavam uma salva de palmas, os balões dourados no alto estouraram: flutuaram no ar aves do paraíso e minúsculos sinos de prata que somaram seus cantos e tinidos à zoada geral.
— Senhoras e senhores! – falou o bruxo de cabelos em tufos. – Por favor, queiram se levantar!
Todos obedeceram, ele acenou a varinha. As cadeiras em que as pessoas tinham estado sentadas se ergueram graciosamente no ar, ao mesmo tempo que as paredes da tenda desapareciam, deixando agora os convidados apenas sob o toldo sustentado pelos postes dourados, com uma vista gloriosa do pomar ensolarado e do campo ao redor. Em seguida, uma poça de ouro líquido se espalhou do centro para a periferia da tenda formando uma pista de dança reluzente; as cadeiras suspensas se agruparam em torno das mesinhas, cobertas com toalhas brancas, o conjunto flutuou suavemente de volta ao jardim, e a banda de paletós dourados marchou em direção a um pódio.
—Temos que pegar uma mesa. –Sugeriu Fred, puxando-a pela mão ao mesmo tempo que tirava de uma bandeja carregada por um garçom dois copos de água de Gilly, entregando um a Grace.
Os garçons agora dançavam entre as mesas servindo petiscos, doces e bebidas. Tortinhas e sanduíches de dedos foram distribuídos na mesa, e o casal se juntou a George, que trazia à tiracolo Angelina, havendo dispensado, com uma expressão tristonha, duas jovens veelas, que agora procuravam uma mesa junto de Krum.
Assim que a música começou, alguns casais foram para a pista de dança, inclusive, Grace notou, Rony e Hermione, num belo vestido lilás e saltos combinando. Luna dançava sozinha, se balançando em seu vestido fluído. Lino Jordan dançava com Gina, o que George observava atentamente.
A noite foi chegando e as mariposas começaram a mergulhar sob o toldo, agora iluminado por lanternas douradas suspensas no ar, e a festa foi se tornando mais descontraída. Jorge tinha desaparecido na escuridão, havia muito tempo, com Angelina; Carlinhos, Hagrid e um bruxo atarracado com um chapéu de abas reviradas entoavam, a um canto, “Odo, o herói”.
Fleur havia se sentado com um grupo de amigos, metade deles parecendo franceses e outros que Grace reconhecia de Hogwarts, como Cordélia Bloxam e Edmundo Greengrass. Ela mesma havia acabado de acompanhar Melinda e os pais para fora da tenda, prometendo que passaria no Apotecário em breve, e agora procurava Fred entre as poucas cabeças restantes.
Harry, disfarçado de Weasley, sentava-se num canto com dois velhos, e Hermione se aproximava dele. Gina e Luna conversavam num canto e Grace estava pensando em se aproximar da dupla, quando as luzes gradualmente foram se apagando na tenda, ofuscadas por uma luz mais brilhante.
Naquele momento, algo volumoso e prateado atravessou o toldo sobre a pista de dança. Gracioso e reluzente, o lince aterrissou com leveza entre os espantados convidados. Cabeças se viraram, e as pessoas que estavam mais próximas congelaram absurdamente em meio a passos de dança. Então a boca do Patrono se abriu desmesuradamente e ele anunciou na voz alta, grave e lenta de Kingsley Shacklebolt:
— O Ministério caiu. Scrimgeour está morto. Eles estão vindo.
Grace teve apenas um segundo para se localizar no caos que se instaurou. Puxou sua varinha de pelo de unicórnio de dentro das vestes. Muita gente começava apenas a entender que algo estranho acontecera; as cabeças se mantinham voltadas para o lince prateado enquanto ele sumia no ar. O silêncio se propagou em ondas frias desde o ponto em que o Patrono aterrissara. Então alguém gritou.
Alguns convidados pulavam de suas cadeiras. Fleur e Gui já estavam de varinhas empunhadas; outros começaram a aparatar. Os feitiços que protegiam a Toca haviam sido anulados, e os convidados se dispersavam rapidamente. À medida que avançavam pela pista de dança, Grace viu vultos de capa e máscara surgirem na multidão; viu também Lupin e Tonks de varinhas erguidas, e ouviu ambos gritarem: “Protego!”, um grito que ecoou por todos os lados...
Um raio de luz passou por cima de sua cabeça enquanto ela tentava encontrar os conhecidos. Visualizou os cabelos vermelhos e os louros longos de Luna ao longe e começou a correr naquela direção. Fred estava também ao lado da irmã caçula, e George havia aparecido de volta à festa, Angelina ao lado dele, ambos atacando e defendendo.
Então houve uma sugestão de cabelos louros prateados e Grace se interrompeu em seu caminho. Ao seu lado, Cordélia e Viktor Krum deram as mãos e desaparataram para longe, um segundo antes de um feitiço vermelho passar pelo ponto onde eles estavam. Grace se virou, mas o Comensal de cabelos louros já havia desaparecido da confusão brilhosa de feitiços.
Outros membros da ordem começaram a aparecer também; ela viu Kingsley aparatando ao lado de Arthur e Molly, que duelava ao lado de Fleur, e Héstia Jones e Dédalo Diggle haviam aparecido subitamente, embora Grace não os tivesse visto no casamento. Conforme o número de aurores foi aumentando, os comensais começaram a desaparatar para longe.
Grace não entendeu quando o diálogo começou, mas os feitiços aos poucos cessaram, e um homem de terno que se apresentou como Pius Thicknesse apresentou um mandado para revirar a casa, à procura de Harry Potter, que devia depor sobre a morte de Albus Dumbledore como suspeito.
Fred, que já havia tomado lugar ao lado de Grace, segurando sua mão, se inclinou.
—Vamos embora enquanto ninguém está prestando atenção. –Sugeriu. Alguns membros da ordem haviam ficado na casa, para ajudar os Weasley, mas Dédalo voltara para a sua residência com Héstia e outro membro da Ordem, pois aparentemente alguém havia posto fogo à sua casa. Remus e Tonks voltaram para a casa dos Tonks, pois alguém vira dois comensais rompendo as barreiras lá também.
Grace assentiu com a cabeça, e os dois se esgueiraram, lançando olhares para Gina, a única que, palidamente, prestava atenção neles, e desaparataram.
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