Notas iniciais
Aqui está. Fim. Terminamos. Levou tempo, mas acho que, juntos, fizemos um bom trabalho até aqui. Obrigado àqueles que ficaram e acompanharam. Vocês foram essenciais.

“I may never ever find an answer
I may never ever find the cure
I may never risk another lover
Oh, believe me”

O corredor do Departamento de Execução das Leis da Magia se estendia escuro e bruxuleante, com archotes de ambos os lados da parede. Havia uma escrivaninha, e sentada na cadeira atrás desta, uma mulher loura com óculos cor-de-rosa em seus quarenta anos. Atrás dela, o corredor continuava a se estender, cheio de portas de madeira escura e luz do fogo.

—Identificação. –Pediu a senhora Maison, embora Grace estivesse ali quase todos os dias na última semana.

—Grace Moore. –Grace estendeu sua varinha. –Estou aqui para o julgamento de Severus Snape com a Comissão de Crimes de Guerra.

A sra. Mason devolveu sua varinha de pelo de unicórnio.

—A última porta à direita.

Grace sabia.

A Comissão de Crimes de Guerra fora criada poucos meses após a Batalha de Hogwarts, confronto final entre as forças do Partido das Trevas e os aliados da Ordem da Fênix e Armada de Dumbledore, com permissão do Ministro da Magia, Kingsley. Cada um dos sobreviventes do Partido das Trevas que se entregou ficou submetido ao julgamento; mas eram tantos que, mesmo agora, dois anos após o fim da guerra, os julgamentos ainda estavam acontecendo. Alguns casos eram mais difíceis do que outros. Além disso, muitos comensais fugiram e ainda estavam sendo caçados.

A comissão era formada principalmente de nascidos-trouxas e mestiços; mas alguns sangues-puros afetados pela guerra foram permitidos entre o júri. Grace era responsável pelo Fundo de Apoio aos Estudos de Nascidos-Trouxas; o fundo fora criado para dar-se utilidade a várias heranças confiscadas dos comensais, como Ariadne Rosier, que fora presa e tivera o seu cofre no Gringotts fechado.

A última sala à direita era a sala de reuniões, e nela tinha uma porta que dava acesso interno à sala de julgamento. Grace empurrou a porta para se abrir completamente, e entrou.

Sentiu que todos os olhos estavam nela, embora talvez isso nem fosse verdade.

Hermione Granger, principal responsável pela comissão, ao lado de Penélope Clearwater e Susan Pevensie, se aproximou de Grace; seus olhos castanhos eram bastante cuidadosos.

—Ei, Grace. –Ela sorriu um pouco sem graça, e a outra garota soube que vinham más notícias. –Eu conversei com Susan e Penélope. Elas acham que você não deve participar do julgamento das três horas.

Haviam apenas dois julgamentos naquele dia; o primeiro era a continuação do longo julgamento de Severus Snape. Pelo menos dez testemunhas já haviam sido ouvidas, memórias foram revisitadas, provas foram apresentadas, e não havia ainda consenso sobre o caso. Potter, Bloxam e Lestrange insistiam que ele fosse absolvido. Longbottom e os Weasleys insistiam que ele fosse condenado a pelo menos alguns anos na nova Azbakan.

Depois do julgamento de Snape, que com sorte terminaria naquele dia, haveria, finalmente, depois de muita discussão sobre culpa e perdão, o julgamento dos Malfoy.

—Por que não? –Grace perguntou a Hermione, embora soubesse a resposta.

—Acham que está muito perto do caso. –Ela tinha a reposta na ponta da língua. –Achamos, todas nós. –Se corrigiu. –Você tem um papel muito importante para que ele possa ser corrompido.

Grace piscou. Ela não fora chamada como testemunha junto com Luna e o sr. Olivaras, já porque era considerada parcial. Agora, não poderia se quer fazer parte da bancada que decidiria o futuro deles.

Ela vinha torcendo para que fossem encontrar clemência, mas mesmo seu pai, que sempre a ensinara, com ar etéreo, que “perdoar é divino”, tinha dificuldades que olhar nos olhos de Draco depois do que Grace o contara sobre a Mansão Malfoy.

Do outro lado da larga sala, adornada principalmente por imagens de vários juristas bruxos famosos e uma linga e oval mesa de madeira de lei, Edward Bailey fez uma careta em sua direção. Então todos sabiam sobre isso.

Grace suspirou.

—Eu realmente gostaria de participar, Hermione.

A voz da outra garota não era dura, apenas firme.

—É por isso que não pode. –O seu tom era final.

A sala de julgamento não era uma das salas principais que ficavam nos níveis mais baixos do prédio do Ministério da Magia. Eram salas menores, circulares, iluminadas por centenas de velas flutuando abaixo do teto, sem declines opressores, onde os réus eram colocados abaixo daqueles que o julgavam. Grace gostava bem mais daquela sala.

Severus Snape estava no centro dela. Talvez por influência de Greta Lestrange, sentada no banco reservado àqueles que estavam ali apenas para assistir, ele usava vestes azul-marinho ao invés do preto no qual Grace sempre o vira. No banco das testemunhas, Cordélia Bloxam e Harry Potter sentavam-se lado a lado, as mãos no colo como irmãos bem-comportados.

Eles não eram os únicos rostos conhecidos; parecia que grande parte da comunidade mágica tinha aparecido para o julgamento da figura mais controversa da guerra; o assassino de Dumbledore, o herói de Potter. Eles estavam usando a maior das salas de julgamento para aquilo; Grace ficou satisfeita em estar escondida num canto com o resto da comissão do Fundo de Apoio aos Estudos de Nascidos-Trouxas, o FAENT.

Edward Bailey se inclinou para falar em seu ouvido.

—George Weasley está aqui. –Anunciou.

Os olhos de Grace começaram a procurar pelo ruivo sem que nem percebesse; mesmo sabendo que olhar para ele era um vislumbre do passado, e um passado cheio de culpa. Ela se sentiu perigosamente enjoada, e levou uma mão à barriga, aparando-a.

George não havia levado bem o fato de que Grace tivera a coragem de aparecer ao lado de Draco alguns meses após a guerra. Não é que ele esperasse que ela ficasse de luto para sempre, apenas gostaria que o luto dela não houvesse achado fim nos braços de um ex-comensal da morte. Os outros Weasleys não haviam comentado nada, mas Guilherme parecera decididamente mais frio em suas interações no Gringott’s e Gina parou de manda-la tickets para os seus jogos com os Harpias de Holyhead.

Mas Grace não poderia se refrear; estar com Draco, livremente, sem medo, havia sido tudo com o que eles não haviam ousado sonhar durante Hogwarts. Era uma possibilidade que ela não achara real até a ter na palma de suas mãos.

Na sala de julgamento, os olhos de George encontraram brevemente os seus, então se desviaram para longe, como se ela fosse uma coisa obscena.

No centro da sala, Snape falava com a voz clara e arrastada que sempre tivera quando professor deles em Hogwarts.

—Cumpri ordens. –Respondeu a alguma pergunta feita por Kingsley, ou Hermione.

—De quem? –Kingsley insistiu. –De Dumbledore, ou de Voldemort?

Snape parecia, se alguma coisa, impaciente.

—O professor Dumbledore deixou as coisas bem claras. –Explicou ele. –Como eu já disse. Ele acreditava possuir a Varinha das Varinhas, e não poderia deixar que ela caísse nas mãos de Voldemort. Então eu o matei, sob ordens dele mesmo, para que virasse o verdadeiro senhor da varinha.

—Mas não foi você? –Hermione questionou.

—Não. Draco Malfoy desarmou Dumbledore naquela noite na Torre de Astronomia. –A voz dele beirava o deboche. –Como ele já explicou mais de uma vez.

A sala inteira parecia estar prendendo a respiração.

—Quanto aos abusos em Hogwarts...

—Já discutimos isso também. –Snape interrompeu Kingsley. –Existia um limite a ser seguido se eu quisesse manter meu disfarce. Voldemort teria colocado Ariadne Rosier para ser professora de poções. Eu intervi, e coloquei minha afilhada; que durante todo o ano providenciou poções de cura para os membros da Armada de Dumbledore...

—Uma aluna morreu sob custódia de vocês. –Hermione foi quem o interrompeu agora. As coisas estavam ficando acaloradas. –Emília Bulstrode.

—Cordélia fez o possível para salvá-la, assim como Madame Pomfrey e Minerva. –A voz de Snape era subjugada. –Eu não estava no castelo.

—Jamais deveria ter permitido que os Carrow fossem professores.

—Então Voldemort os teria feito de diretores, me colocando de lado, e as coisas teriam sido ainda piores. Mais mortes, mais tortura, mais violência. –O réu suspirou. –Deem a sentença de uma vez. Estamos repassando discussões que já foram feitas. Fizemos, todos, o melhor que podíamos com os recursos que tínhamos. Eram poucos recursos. O Lorde das Trevas tirou tudo de nós; e trabalhamos com o nada com o qual fomos deixados. Eu, vocês. Potter. Será que ele não poderia ter evitado a Batalha de Hogwarts? Continuado a procurar as horcruxes escondido? Eu não poderia ter evitado a morte de amigos? Não sei.

Grace não tinha mais nada a fazer depois do fim do julgamento –Snape não tinha dinheiro para ser recolhido para o Fundo, e a sentença fora positiva de qualquer forma. O ex-comensal não poderia voltar a lecionar em Hogwarts, mas ela não achava que ele tinha essa ambição de qualquer forma. Ela seguiu Edward para o lado de fora do Ministério, saindo em uma Londres viva e barulhenta, em nada preocupada com guerras e justiça.

—Isso é bom, sabia? –Edward se virou na direção dela. –Snape ter sido absolvido. Cria um precedente para Draco.

—Fácil para você. –Ela respondeu, o nó em sua garganta ainda apertado. –James foi absolvido.

Edward continuou andando até que os dois estivessem à beira da rua, olhando para os carros, esperando uma oportunidade de atravessar até o outro lado.

—Para onde você vai? –Ele colocou a mão para sinalizar a um carro que vinha distante e os dois atravessaram a via a passos apressados. –Para casa?

—Eu nem sei mais o que é isso. –Grace suspirou, pensando se voltaria ao apartamento, ou se iria à casa dos pais.

O apartamento, claro, não era aquele que ela alugara logo quando saíra de Hogwarts, mas outro; um pouco mais longe do beco diagonal, mas ainda assim perto o suficiente para que ela andasse quando com energia, e pegasse um ônibus nos dias mais atribulados.

—Vou chamar Draco para almoçar fora antes da audiência. –Decidiu-se, já se despedindo de Edward e rumando para um beco mais vazio, onde ela poderia aparatar em paz.

Draco sabia que Grace jamais voltaria à Mansão Malfoy, então ele estava ficando em uma propriedade menor em Derbyshire. Era apenas uma casa de dois andares, ao invés de uma mansão, mas era grande o suficiente para que ele não se sentisse sufocado. Em parte, parecia um pouco com uma catedral, com torres que se erguiam para o alto, sem nenhuma funcionalidade além da estética.

A porta da frente não tinha chaves; ela simplesmente se abria para aqueles com permissão. Os que não tinham permissão tocavam na aldrava em formato de cabeça de dragão.

O colar em seu pescoço pulsou, dirigindo-a ao fim da casa, até o lado de fora, onde tinha uma estuda de vidro, com hera subindo as paredes. O espaço fora era grande, maior do que o de dentro, com acres de terra se estendendo, bem verdes, através da vegetação até um lago marrom.

A estufa estava do jeito que ela se lembrava, embora o céu acima do telhado de vidro estivesse safira agora. O limpo e ensaboado cheiro das flores limpava a cabeça dela. Respirando profundamente, ela se empurrou através dos estreitos galhos e folhas. Ela encontrou Draco sentado na bancada em mármore, no meio da vegetação. Sua cabeça estava inclinada, e ele parecia estar virando um objeto em suas mãos, à toa. Ele olhou para cima enquanto ela mergulhava debaixo de um galho, e rapidamente fechou sua mão ao redor do objeto.

—Grace. –Ele pareceu surpreso. –O que você está fazendo aqui?

—Eu vim te ver. –Ela disse. –Eu queria saber como você estava. O que é isto?

Ao invés de responder, ele abriu a mão para que ela vislumbrasse o vira-tempo. Ele ainda devia funcionar, mas ela jamais havia tentado. Já causara estrago o suficiente com ele.

—Ah. Certo. –Ela não se preocupava que Draco fosse tentar usá-lo. De nada adiantaria a ele voltar cinco horas no tempo. –Onde estão os seus pais?

Draco deixou o vira-tempo cair inerte e inofensivo na bancada. O cabelo louro estava mais pálido do que o normal, como se ele viesse andando longe do sol.

—Em Wiltshire. –O tom dele parecia cheio de descaso. –Devem estar beijando a mansão em despedida.

—Nada garante que eles vão perder a Mansão. –Grace se apoiou na bancada para se sentar ao lado de Draco. –Talvez eles só paguem uma multa.

O sorriso de Draco era enviesado.

—Não. Não a casa onde o Lorde das Trevas fez o seu Quartel General. Muita morte e dor, esses lugares se enchem de magia antiga, você não entende, você é....

—Nascida-Trouxa. –Grace completou quando ele mordeu a língua. –Você estava dizendo isso.

—Estava. –Ele admitiu. –Às vezes é difícil até para mim saber o que você realmente é.

—Eu sou Grace. –Ela disse suavemente.

Draco estreitou os olhos quando a encarou, como se estivesse tentando encarar diretamente o próprio sol.

—Eu sei. –Ele suspirou, olhando para longe mais uma vez. –O que acontece agora?

Grace alcançou a mão dele, que era branca enquanto a sua era dourada. Ele ainda estava sentado muito longe, mas ela cobriu a distância, de forma que eles estavam quadril com quadril. Então ela colocou a mão dele em cima de sua barriga lisa. Os olhos estreitos de Draco se arregalaram perigosamente.

—Não.

—Sim. –Ela insisitiu. –Já está aqui.

Draco pareceu como se tivesse levado um tapa.

—Precisamos ir ao hospital.

—Você tem julgamento.

Mas ele já estava pulando da bancada, carregando-a consigo em direção à porta.

—Draco! –Grace chamou. –Pare. O que há? Não é preciso ir ao hospital ainda, o pré-natal pode ser feito em algum tempo, são apenas algumas semanas.

—Malfoys não têm filhos mestiços. –Draco explicou. Grace se soltou dele, começando a se afastar, sentindo-se enjoada. –É um feitiço antigo, Grace. Uma maldição. Se não nos apressarmos, o bebê vai morrer.

—Não vamos ao hospital. –Grace anunciou. –Vamos procurar suas primas.

Draco a encarou, congelado, considerando a opção.

—Mas eu vou sozinha. –Continuou Grace. –Edward estará no julgamento, e ele sabe do bebê. Isso melhora as coisas. Eu procura Cordélia e Greta. Se alguém pode resolver, são elas.

Ele estava concordando lentamente com a cabeça.

—Você é brilhante. –Disse.

Grace não respondeu. Ela apenas desejou. Eles haviam passado por muito juntos. Ela se perguntou se, em alguns anos, haveria uma criança com os cabelos de Draco e seus olhos passeando por aquela estufa. Um mestiço carregando o nome Malfoy. Grace queria rir.

“Oh my heart, I want you to be strong
I need you to be all I believe in
Oh my heart, I want you to be strong
I need you to be all I believe in”

Notas finais
Pessoal, novamente, muitos agradecimentos por terem estado até aqui comigo. Espero que o final tenha sido satisfatório para todos. Foram dois anos após o fim da guerra, então dei um pulo, como acontece, inclusive, no apílogo de Lembrem-se de Cedrico Diggory. Para aqueles que não estão prontos para se despedirem, Penumbra já está no meu perfil! Espero vocês por lá! XOXO
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!