Lado A Lado - O Amor E O Tempo
41 Capítulo 41 - Revelações
Notas iniciais
Capítulo 41 – Revelações
Diante da pergunta da sobrinha, a mulher fica totalmente ruborizada. Maria discretamente coloca a mão na frente da boca e sorri. Ela já trabalha na fazenda há muitos anos, e conhece as três irmãs desde a época em que elas eram mocinhas. Constância era a mais bonita. Os traços finos de seu rosto, os olhos claros davam um charme a mais a ela. Ela teve muitos pretendentes antes de se casar com o pai de Laura. Carlota era dentre as irmãs a mais séria e sisuda. Maria se lembra de que a única das filhas do Barão do Café, nos tempos áureos, a não ter colocado o pé na cozinha era ela: D. Carlota! Célia já era bem diferente. Por ter um jeitinho um tanto quanto atrapalhado na hora de se movimentar, a moça era muito censurada por suas duas irmãs. Por esse motivo, a tia de Laura gostava de dar uma voltinha pela tentadora cozinha da Maria. Seus pensamentos foram interrompidos por uma colher cheinha de compota de figo que foi ao chão, tamanha a ansiedade de Célia com a pergunta indiscreta da sobrinha.
Celinha: Ai Maria... Como sou estabanada! Olha que estrago!
A tia de Laura falou, ficando ainda mais ruborizada.
Maria: Não tem problema D. Celinha... Já vou dar um jeito nisso!
A senhora ia se ajoelhar, quando Laura foi mais rápida e gentilmente limpou parte da compota que sua tia derramou.
Laura: Pode deixar Maria. Cuide de seu café! Eu arrumo aqui.
Neste momento, Edgar, ouvindo o barulho vindo da cozinha, resolveu ver o que acontecia. O rapaz interpretou o que acorrera há bem pouco tempo. Ele olhou para a professora e deu um sorriso. Atenciosamente, o rapaz deu a sua mão para a moça se erguer do chão. Quando Laura já estava de pé, recebeu um beijo carinhoso de seu marido e um pedido de rapidez na volta da moça para a sala. Ele deixou as moças terminando seus afazeres e foi dar atenção ao amigo que o aguardava na sala. O café estava pronto, algumas guloseimas preparadas por Maria já estavam dispostas à mesa e todos se sentaram para fazer um lanche. Eles conversavam animadamente. Edgar e Laura perceberam a troca de olhares entre seus convidados e se olhavam sem dizer palavra. Quando já estavam no meio do café, os dois casais foram interrompidos pela presença de Matilde, antiga empregada da casa de Edgar e Laura, do tempo em que eram casados. Quando a moça abriu a porta para os dois, Celinha estava tão ansiosa que não sabia de onde conhecia a mulher. A tia de Laura se espantou.
Celinha: Matilde, é você? Que surpresa! Como vai? Está trabalhando aqui?
A moça sorriu e respondeu com simpatia.
Matilde: Como vai D. Celinha? Estou bem sim... Na verdade estou cuid...
Laura percebeu que a moça estava um pouco sem saber o que dizer e ajudou sua fiel escudeira.
Laura: Ela está cuidando da Melissa, tia.
A moça ficou tão surpresa com a resposta da sobrinha que acabou engasgando com o gole de café que sorvia.
Celinha: A Melissa? Filha do Edgar?
O advogado sorriu e olhando com uma expressão agradecida, olhou sua querida Laura e respondeu.
Edgar: Sim, D. Celinha! Sua sobrinha me fez uma surpresa trazendo minha filha para cá, não é meu amor?
O casal se olhou e Edgar acariciou as delicadas mãos da professora que repousavam na mesa. Este momento de cumplicidade entre os dois precisou ser interrompido pela empregada que esclareceu, enquanto se afastava da mesa.
Matilde: Com licença. Preciso preparar a mamadeira da menina.
A dona da casa a olhou e disse.
Laura: Obrigada Matilde. Quando estiver pronta me avise, por favor. Eu mesma darei a mamadeira.
A mulher foi em direção à cozinha e depois de alguns passos, desapareceu. Os quatro amigos concluíram seu café no mesmo momento em que Matilde retornava da cozinha, desta vez com a mamadeira em sua mão. Laura se levantou e, pedindo licença, tirou sua tia da mesa e ambas foram ao quarto onde a filha de Edgar descansava em seu berço. Os dois amigos resolveram ir para a sala de estar, onde Edgar ofereceu ao dono do jornal da capital um cálice do porto. Os dois brindaram e bebericavam o vinho enquanto conversavam. O jornalista começou.
Guerra: Ah Edgar! Como é bom ver você assim, sorridente!
Edgar sorriu e respondeu.
Edgar: É verdade meu amigo! Mas me diga, eu não tenho motivos de sobra para estar assim? Estou do lado da mulher que amo e da minha filha! Parece um sonho, Guerra... Do qual eu não quero acordar.
O rapaz tomou um gole do vinho do porto. O jornalista concordou com a cabeça.
Guerra: Claro, você tem toda razão meu amigo! Pretende voltar para o Rio quando?
O advogado acariciou a barba bem cortada.
Edgar: Pois é, Guerra! Preciso voltar na próxima segunda-feira. Não queria deixar a Laura aqui...
O amigo de Edgar estranhou a resposta.
Guerra: Como assim, Edgar? A Laura não vai voltar para casa com você?
Enquanto isso, no quarto onde estava Melissa, as duas também conversavam. Laura entrou e viu que a menina estava acordada, mas estava entretida com o lustre. Ela se aproximou e falou carinhosa com a menina, sendo observada atentamente por sua tia.
Laura: Oi Mel... já está acordada, mocinha? Vamos tomar seu leitinho?
Enquanto ela falava tirava a menina cuidadosamente do berço. A menina quando reconheceu quem a carregava no colo sorriu ainda com uma carinha um pouco sonolenta. Laura ofereceu um sofá para a tia sentar e sentou-se numa poltrona que facilitava a alimentação da menina. Melissa começou a sorver a mamadeira com força enquanto Laura acariciava seu delicado rostinho. A irmã de Constância se emocionou ao ver a cena. Ela limpou disfarçadamente uma lágrima que teimou em cair de seus olhos. Laura olhou para sua tia e falou.
Laura: Ela não é lindinha, tia?
A tia da professora olhou a menina e falou.
Celinha: É sim... Mas é tão miudinha... Magrinha...
Laura cortou o assunto e curiosa perguntou.
Laura: Mas me conte logo, tia? A senhora e o Guerra se acertaram? Estão namorando?
A senhorita colocou a mão no rosto, envergonhada, enquanto disse.
Celinha: Ai Laura... Acho que sim...
A professora abriu o maior sorriso. Sua atenção foi desviada quando a menina segurou o decote de seu vestido e se aconchegou em seu colo, continuando a mamar.
Laura: Que bom! Fico muito feliz pelos dois, tia!
Por mais que Celia estivesse animada com sua vida amorosa, ela estava muito curiosa em saber da vida de sua sobrinha. Por isso, mudou de assunto.
Celinha: Mas, me conte, Laurinha! Você e Edgar reataram o casamento? Estão juntos novamente? Quando o Guerra me contou, nem acreditei! A Constância já sabe?
A professora se assustou com a pergunta. Ela olhou seriamente para a tia.
Laura: Não tia! Por favor, não conte nada para a mamãe! A baronesa da Boa Vista não me deixaria em paz... Deus me livre, tia!
A tia da moça sorriu compreensiva.
Celinha: Pode deixar querida! Fique tranquila que não falarei nada com ela! Mas... e quando vocês voltarem ao Rio? Vão ficar escondidos de todos?
A professora suspirou.
Laura: Na verdade... Não vou voltar...
A tia ficou chocada com essa revelação.
Celinha: Não? Mas... Você não disse que você e Edgar reataram?
A professora colocou a menina para arrotar depois que a enteada bebeu todo o leite. Ela levantou-se e ficou andando pelo quarto, dando tapinhas nas costas de Melissa, para auxiliar na tarefa.
Laura: Sim, tia! Estamos juntos... Mas estou trabalhando aqui.... E não pretendo parar.
A tia ficou espantada.
Celinha: Laura, mas o seu marido não vai aceitar isso nunca, minha querida!
A moça sorriu e tentou explicar da melhor maneira que encontrou.
Laura: Tia... O Edgar é um homem diferente... Nunca conheci um homem como ele! Ele é compreensivo... Aceita o fato de eu querer lecionar... Aliás, não somente aceita, mas me apoia. Durante esses dias em que estamos aqui, tenho ido trabalhar e quando volto minha atenção é para ele.
A tia da professora está confusa com essas revelações. Realmente, o marido de sua sobrinha é muito diferente dos homens de sua época. Ela não sabe o que dizer.
Celinha: Nossa, minha querida! Ele é realmente diferente! Pode ser que estudar fora tenha trazido essas ideias tão novas e modernas. No meu tempo, se eu tivesse me casado, o lugar de uma mulher casada era em casa, cuidando do marido, dos filhos, experimentando novas receitas...
A moça sorri e percebe que a menina acabou por adormecer em seus braços. Ela recoloca a filha de Edgar no berço. Senta-se ao lado da tia e segura sua mão. Ela acredita que é uma boa hora de contar a novidade para a sua tão querida tia.
Laura: Falando em filhos tia...
Para surpresa de Laura, desta vez a sua tia compreende facilmente o que ela quer dizer. A tia da professora fala e acaricia o ventre de sua sobrinha.
Celinha: Laura?... Minha querida? É o que eu estou pensando? Você vai ser mãe?
As duas sorriem uma para a outra e se abraçam emocionadas. Quando o abraço termina a moça fala.
Laura: Sim tia! Estou grávida! Estou esperando um filho do Edgar!
Enquanto isso na sala, Edgar e Guerra continuam sua conversa. Edgar levanta-se do sofá e anda pela sala.
Edgar: Pois é, Guerra! Laura está dando aulas em uma escola aqui perto, e por enquanto, vamos ficar nos vendo somente nos finais de semana, quando eu venho para cá ou ela vai para o Rio. Concordei com isso Guerra, mas confesso que não sei se vou aguentar ficar tanto tempo longe da Laura.
O jornalista fica confuso e diz.
Guerra: É meu amigo! Os tempos da República trouxeram mudanças e pelo que estou vendo contagiou até você! Quer dizer que vocês reataram, mas cada um mora em uma cidade?
O advogado fica um pouco abatido. Ele esfrega as duas mãos enquanto fala.
Edgar: É isso mesmo, Guerra! Mas só de pensar em deixar a Laura aqui... Sozinha... Não sei se isso vai dar certo...
Nesse momento, tanto Laura quanto Celinha, aparecem na escada e começam a descer os degraus enquanto são observadas atentamente por seus pares. Edgar abre um sorriso e caminha em direção à sua amada. Ele está totalmente embevecido com a visão de Laura... Linda... Cabelos soltos caindo em seus ombros. O vestido cobrindo a silhueta ainda fina de sua mulher. O sorriso que o enfeitiçou desde a primeira vez que a viu. Como era linda, ele pensava. Guerra, por sua vez, estava dividido: Olhava Celinha ou observava o rosto de seu amigo? Edgar perdia o rumo quando o assunto era Laura. O jornalista nunca acompanhou, em toda sua vida, um amor assim. Quando os dois se divorciaram foi Guerra quem ajudou Edgar a continuar vivendo. Se fosse pelo advogado, ele não comia, nem dormia mais. O rapaz sofreu muito desde que Laura saiu de casa! E agora... Edgar estava radiante com a reconciliação e mostrava isso a quem quisesse ver.
Laura se aproxima do rapaz e recebe um selinho. Ela sorri e pergunta.
Laura: O que não vai dar certo?
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